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1 de julho de 2014

Spirited Away: Idade da inocência

Não se pode dizer que em 2001 Hayao Miyazaki fosse um desconhecido no Ocidente - ainda que a maior parte da sua obra talvez não tivesse alcançado naquela altura a popularidade que merecia, o êxito de Mononoke-hime cinco anos tornou-o definitivamente num nome a acompanhar no que ao cinema de animação dizia respeito. Mas o sucesso internacional absoluto chegaria naquele Verão com a estreia de Spirited Away, filme que se tornaria num clássico instantâneo do cinema de animação (japonesa e não só) e num dos mais aclamados filmes da primeira década do novo milénio. O Óscar para Melhor Filme de Animação em 2003 (o filme só estreou nos Estados Unidos em 2002) confirmou o êxito internacional do filme que ainda hoje, com quase treze anos volvidos desde a sua estreia, permanece de pedra e cal no topo do box office japonês.

O sucesso, diga-se de passagem, é merecido: é possível que Spirited Away não seja o melhor filme de Miyazaki (pessoalmente, julgo que a ambiguidade e a densidade de Mononoke-hime tornam o filme de 1997 mais completo), será sem dúvida o exemplo perfeito da imaginação inesgotável do realizador/argumentista/animador, aqui recorrendo à vasta mitologia japonesa para dar forma a uma fábula moderna sobre a identidade, a maturidade e alguns paradoxos do Japão moderno (que não serão porventura exclusivos do Japão...).


Para todos os efeitos, Spirited Away (o título inglês é perfeito no trocadilho que faz entre o significado de to spirit away e os temas e as imagens do filme) é a história de Chihiro, uma jovem rapariga de dez anos que, quando o filme começa, se mostra tristíssima pela mudança de casa em curso, que a afastará da sua antiga escola e de toda a gente que conhecia. Durante a viagem de carro, o seu pai engana-se no caminho, e a família acaba por encontrar, numa mata onde se diz viverem espíritos antigos, a entrada de um parque de diversões abandonado, nunca concluído - um sinal dos tempos, após o fim do "milagre japonês" na economia, que conduziu ao declínio do país e ao desencantamento do seu povo.


No parque de diversões encontram vários restaurantes que parecem estar abandonados - mas que nem por isso deixam de ter imensa comida. Movidos pela gula, os pais de Chihiro decidem entregar-se a um almoço invulgar, deixando-a a explorar as imediações sozinha. Chihiro chega a a uma ponte que leva a um estranho edifício junto à costa - e lá encontra um misterioso rapaz chamado Haku, que a avisa para regressar antes que anoiteça. Um aviso que chega tarde: Chihiro encontra os seus pais transformados em porcos, e toda aquela zona aparentemente abandonada revela-se ser um mundo diferente daquele a que pertence - e ao qual não consegue regressar.


Presa no mundo dos espíritos, Chihiro segue as indicações de Haku e vai procurar um trabalho naquele estranho edifício, que descobre ser uma casa de banhos onde os espíritos podem relaxar e purificar-se. Chihiro começa por pedir trabalho a Kamaji, responsável pelas caldeiras de aquecimento de água com o seu pequeno exército de susuwatari (bolas andantes de fuligem); lá conhece também Lin, que trabalha nos banhos. E ambos acabam por encaminhá-la para a dona do estabelecimento: a bruxa Yubaba, responsável pela transformação dos seus pais, que lhe vai propor um contrato muito especial. 


O mundo dos espíritos que Miyazaki conjura é espantoso pela sua imensa diversidade de criaturas (passe a designação) fantásticas reminiscentes do folclore japonês e das mitologias orientais - do No-Face que segue Chihiro ao Stink Spirit que ela se vê obrigada a servir, sem esquecer todos os outros hóspedes da casa de banhos que se vislumbram, e que deixam antever todo um mundo encantado que se estende para lá do prado verdejante do parque de diversões e do mar infinito que se estende para lá do edifício. A animação, colorida e pormenorizada, é a todos os níveis soberba, conferindo a todo aquele universo um certo tom de encantamento que o torna mais verosímil. 


Chihiro, renomeada Sen pelo contrato com Yubaba, movimenta-se com cada vez mais habilidade por entre os espíritos e os humanos que os servem, com a sua inocência desarmante e a sua bondade natural. Mas aquele mundo não é o seu, e é justamente essa inocência que será posta à prova numa aventura para recuperar a sua identidade, perdida para Yubaba, os seus pais, e para regressar ao mundo a que pertence. Para tal, porém, terá de perceber quem é Haku - se os rumores nada abonatórios que correm na casa de banhos sobre ele são verdadeiros, ou se existe um Haku real que ninguém conhece.


Para todos os efeitos, Spirited Away é uma história sobre o deslocamento, sobre a estranheza, e sobre a nossa definição de nós mesmos perante a mudança - Chihiro, deslocada do seu mundo natural, acaba num mundo espiritual ao qual pertence ainda menos, e é na memória e no reconhecimento da sua identidade que está a chave para conseguir sair daquele lugar. É um filme sobre o crescimento e a maturidade - na prática, é essa a jornada pessoal de Chihiro, que se vê obrigada (em mais do que um sentido) a se adaptar a situações completamente novas para alcançar aquilo que deseja. Mas é também possível descortinar nas entrelinhas outras mensagens de Miyazaki - a problematização ecológica, tão cara à sua filmografia, surge aqui em dois momentos cruciais; e os temas da ganância, da corrupção e do declínio social surgem associados a vários momentos e a algumas personagens.


Não é difícil perceber por que motivo Spirited Away ainda hoje é o filme mais bem sucedido de sempre no Japão, e um dos seus filmes mais conhecidos para lá do arquipélago - para todos os efeitos, Miyazaki criou uma fábula moderna no rito de passagem da jovem Chihiro, num mundo secundário fascinante e ricamente povoado por toda a sorte de criaturas fantásticas; e, com a subtileza que lhe é reconhecida (já demonstrada em Mononoke-hime), embebeu a aventura na aparência simples de Chihiro/Sen temas e mensagens de uma maior complexidade e ambiguidade. É um clássico instantâneo - um dos melhores filmes de animação alguma vez realizados -, e um marco numa carreira recheada de clássicos como a de Miyazaki. 8.5/10

Sen to Chihiro no kamikakushi / Spirited Away (2001)
Realização e argumento de Hayao Miyazaki
Com Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Bunta Sugawara, Mari Natsuki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi, Yumi Tamai, Tatsuya Gashuin e Akio Nakamura
125 minutos

14 de junho de 2014

O som e a fúria (28)

A música de hoje interessa sobretudo pelo seu videoclip - ou não estivéssemos a falar de um trabalho de animação de Hayao Miyazaki, feito para o tema Mark On do duo japonês Chage and Aska em 1995, enquanto trabalhava naquela que viria a ser uma das suas mais icónicas obras, Mononoke-hime. Para todos os efeitos, o clip funciona como uma curta que acaba por ser facilmente enquadrada na obra de Miyazaki pelo estilo inconfundível da animação e, sobretudo, pelo tema. 


Fonte: The Verge

8 de abril de 2014

The Congress: Escapismo digital

Poucos são os filmes que conseguiram combinar num todo coerente acção real e animação - e por animação refiro-me em concreto a animação convencional, irreal nas suas cores e formas impossíveis, e não à animação hiper-realista que hoje em dia atravessa alegremente todas as fronteiras do uncanny valley para dar forma aos mais variados, e tantas vezes desnecessários, efeitos especiais dos blockbusters contemporâneos. Who Framed Roger Rabbit?, de 1988, será talvez o clássico maior do género (e merecerá um artigo um dia destes); na memória mais recente, Richard Linklater mascarou em A Scanner Darkly a live action com rotoscopia para recriar a paranóia do romance de Philip K. Dick. E no ano passado, Ari Folman, o realizador israelita que em 2008 se viu sob as luzes da ribalta devido ao extraordinário Waltz With Bashir, levou o conceito ainda mais longe em The Congress, numa adaptação muito livre do romance The Futurological Congress do polaco Stanislaw Lem.

O que se revela mais fascinante em The Congress - mais ainda do que a espantosa e alucinada trip que o filme induz durante o segundo acto, é a forma como coloca questões que fazem hoje mais sentido do que nunca - numa época em que o digital parece tomar conta de tudo e em que o cinema surge vergado à artificialidade da imagem, a possibilidade que Folman aponta parece plausível. Quando os cenários são artificiais, criados a posteriori em computador para actores que representam sozinhos para o vazio das telas verdes, cada vez mais ligados às máquinas da motion capture, e quando ao lado os videojogos (uma indústria que, recorde-se, já ultrapassou a cinematográfica em termos de receitas) criam e recriam as suas personagens interactivas a cada instante, será assim tão irreal imaginarmos a digitalização dos actores que tão bem conhecemos, livres na rede para interpretarem todos os papéis e para servirem de avatares a todas as fantasias?


É esse pacto diabólico que serve de ponto de partida a The Congress, ao abrir com Robin Wright numa espantosa interpretação de si mesma - uma actriz popular na juventude, cujas escolhas erradas e as decisões desaconselhadas votaram a um lento esquecimento público na meia-idade, a quem os estúdios cinematográficos da Miramount (pun intended?) oferecem uma última oportunidade: abdicar da sua carreira de actriz em prol de uma Robin Wright digitalizada ao mais ínfimo pormenor, uma cópia exacta de si pronta para desempenhar qualquer papel em qualquer filme.


A braços com a misteriosa doença do filho mais novo, Aaron (Kodi Smit-McPhee), Robin Wright é, para todos os efeitos, uma mulher destroçada, longe dos seus anos de glória (as referências ao clássico The Princess Bride estão lá todas, dando verosimilhança a esta sua versão fictícia), cujas perspectivas de carreira parecem cada vez mais sombrias a cada ano que passa. Quando os estúdios lhe fazem a proposta, a primeira reacção é a negação veemente da artificialidade galopante, da despersonalização da nobre arte de representar, entregue a avatares digitais e a linhas de código; a seu tempo, porém, acaba por ceder ao pacto com o Diabo.


Não o faz, note-se, sem condições - e é aqui que surge um dos momentos mais curiosos do filme, numa espantosa ironia meta-referencial, quando se discute o que é a ficção científica enquanto género cinematográfico. Para Wright e o seu agente, Al (Harvey Keitel), é um género superficial e infantil no qual não quer de todo participar; para o representante dos estúdios, Jeff (Danny Huston), é um género especialmente lucrativo, e por isso fundamental para os projectos futuros da Miramount. É uma discussão breve, que poderia talvez ter sido levada um pouco mais longe - mas que se revela fascinante pela ironia da reflexão num filme de ficção científica que se baseia num livro de ficção científica.


Entra uma elipse de duas décadas - e, cumprindo a profecia, tudo aquilo que representa o pináculo da inovação tecnológica que no momento em que a Robin Wright actriz deixa de pertencer à própria para se tornar propriedade digital (intelectual?) dos estúdios da Miramount (o seu anonimato real contrasta com agressividade com a popularidade da sua versão digital enquanto action hero cinematográfica, completa com a referência à cena clássica de Dr. Strangelove) está obsoleto e ultrapassado: naquele futuro, a química é a mãe de todas as possibilidades e oportunidades, e abre caminho para uma nova revolução. Robin Wright, mais velha, viaja até ao Congresso Futurológico onde lhe será apresentado um novo contrato, e onde ficará a conhecer a revolução da Miramount, o estúdio de cinema tornado laboratório: a transformação de cada indivíduo num avatar animado, livre de ser quem e o que quiser ser, numa realidade irreal e psicadélica.


Mas se toda a gente se entrega à concretização química e animada das suas aspirações, o que resta do mundo real, físico? E o que resta da identidade individual de cada um perante a alucinação colectiva da gratificação instantânea de todos os desejos (menos, talvez, daqueles que verdadeiramente importam)? E qual será a diferença prática entre a ilusão/alucinação e a realidade, quando A odisseia de Robin Wright para se encontrar revela-se fascinante nas questões que suscita, hoje mais pertinentes do que nunca, sem respostas óbvias - confrontada com as consequências das suas decisões a cada turno, Wright vê-se obrigada a alguns passos extremos e a vários tiros no escuro.


As cores garridas da animação de The Congress acabam por se revelar enganadoras - longe de ser uma odisseia alegre e algo psicadélica pelas avenidas da alucinação colectiva, o filme de Ari Folman é uma viagem dura pelos pesadelos da desumanização tecnológica contemporânea, pelas questões de identidade na era da primazia da imagem e de um hedonismo ilusório, e pelo escapismo virtual, ilimitado nas suas possibilidades e em contraste com a crueza da realidade (e é de génio o momento em que Folman traça de forma definitiva este contraste). Mas acaba por ser a interpretação magnífica e pungente de Robin Wright que eleva The Congress a mais do que um mero filme-análise ao zeitgeist deste novo milénio. 8.4/10

The Congress (2013)
Realização de Ari Folman
Argumento de Ari Folman a partir do romance The Futurological Congress de Stanislaw Lem
Com Robin Wright, Harvey Keitel, Paul Giamatti, Danny Huston, Jon Hamm, Kodi Smit-McPhee e Sami Gayle
122 minutos

25 de março de 2014

Perfect Blue: Entre a ilusão e a ficção

Há filmes que, com o passar dos anos, acabam por se tornar irremediavelmente datados, ficando os seus elementos presos no seu tempo concreto, sem possibilidade de fornecer comentários a anos vindouros. Outros há que, pela intemporalidade dos seus conceitos e das suas ideias, resistem à passagem dos anos e são vistos com o mesmo interesse por públicos de várias épocas. E outros há ainda, porventura mais raros, cuja resistência à passagem do tempo reside sobretudo nos seus elementos datados, sem que tal se deva necessariamente a razões nostálgicas (relevantes hoje, e mais do que nunca). Em 1998, o animador japonês Satoshi Kon estreou-se na realização com um destes raros filmes: Perfect Blue, adaptação para longa metragem anime do romance homónimo de Yoshikazu Takeuchi. Será talvez impossível evitar um sorriso quando a protagonista, Mima Kirigoe, começa a aprender a utilizar a Internet e a navegar através do browser Netscape (que ninguém utiliza há mais de uma década); mas há no diário duplicado de Mima uma presciência fascinante para com os adventos da blogosfera (que se daria poucos anos mais tarde) e das redes sociais, com a dissolução da privacidade e a possibilidade do stalking anónimo e recluso; e a sua reflexão perturbada sobre a natureza da celebridade, tão fugaz como ambivalente, acaba por ganhar nova força nestes tempos em que os quinze segundos de fama se aproximaram da literalidade através de uma enigmática qualidade viral.


Perfect Blue é a história de Mima Kirigoe, uma jovem cantora que integra o trio j-pop "Cham!" - cujo sucesso discreto vem acompanhado por um grupo de fãs dedicados. Mima, porém, ambiciona ser mais do que um ídolo pop, pelo que quando surge a oportunidade de se estrear na representação, com um pequeno papel numa thriller policial televisivo, não hesita: abandona a banda para se tornar numa actriz. Um gesto que desagrada a todos - à sua agente, à sua família e aos seus fãs.


A mudança de carreira cedo lhe começa a trazer alguns dissabores - uma mensagem anónima acusa-a de traição, e surge online um blog, aparentemente da sua autoria, que funciona como um diário detalhado e público da sua vida. Nas filmagens, as coisas nem por isso correm melhor: apesar da sua dedicação e da sua vontade de vingar num meio tão difícil, acaba por obter poucas deixas e receber pouca visibilidade. Algo que vai mudar de forma radical quando o argumentista escreve para ela uma cena que promete ser polémica.


Contra os avisos da sua agente de que tal cena arruinará a sua reputação, Mima aceita fazê-la - e verá a sua vida transformada a partir desse momento, quando ao trauma da cena se junta um misterioso e persistente stalker e uma série de homicídios de pessoas que estiveram de alguma forma relacionadas com aquele momento. Aos poucos, Mima vê a realidade a fragmentar-se à sua volta, com a ficção em que participa a misturar-se de forma imperceptível com a sua vida num turbilhão vertiginoso. E, no seu centro, perguntas sem resposta: quem é o stalker? Estará relacionado com os crimes que ocorrem à sua volta? E quem é a misteriosa doppelgänger que vê em toda a parte?


Satoshi Kon recria a paranóia de Mima através de uma montagem a todos os níveis exemplar - a segunda metade do filme é quase na totalidade uma sequência perfeita de set pieces a coalescer na realidade, numa sucessão construída para deixar o espectador na dúvida sobre os limites entre a realidade, ficção e ilusão (sobretudo quando a série televisiva em que Mima participa parece estar a imitar a sua vida - ou será ao contrário?). O ritmo vertiginoso que a narrativa toma ajuda à confusão, e permite a Satoshi Kon criar cenas animadas de qualidade superlativa, icónicas pela sua ambiguidade, quando não pela sua surrealidade.


Enquanto thriller, a comparação entre Perfect Blue e a obra de Alfred Hitchcock é mais ou menos recorrente - para alguém com mais referências na ficção científica do que no cinema do mestre do suspense, será talvez possível encontrar algumas aproximações a Philip K. Dick na fragmentação identitária e na forma como a partir de dada altura a realidade se parece contorcer em redor da protagonista (ainda que o final, retorcido à sua maneira, não seja típico dos registos de PKD). E é também fascinante encontrar aqui um Satoshi Kon em início de carreira, com vários motivos e inúmeras imagens que aperfeiçoaria ao longo dos anos, e que ganhariam uma vida nova e diferente na sua obra-prima de 2006, Paprika.


Independentemente das muitas semelhanças visuais e de algumas aproximações temáticas, Perfect Blue não entra no território da ficção científica como Paprika - é um thriller em estado quase puro, e Satoshi Kon explora com mestria a premissa do romance de Takeuchi com uma animação magnífica, que contribui de forma decisiva para adensar o mistério que está no centro da trama - e, com ele, para aumentar a cada transição o estado de paranóia que se instala a partir da segunda metade do filme. Tenso, violento e complexo tanto na sua estrutura como na abordagem que faz a vários temas ainda relevantes, Perfect Blue é um estudo de personagem fascinante que serviria de influência a vários filmes de culto (Requiem For a Dream e Black Swan, de Darren Aronofski, são os mais óbvios). Em si, é um filme impressionante; como obra de estreia de um realizador, é um feito extraordinário. 8.2/10

Perfect Blue (1997)
Realização de Satoshi Kon
Argumento de Sadayuki Murai a partir do romance homónimo de Yoshikazu Takeuchi
Com Junko Iwao, Rica Matsumoto, Shimpachi Tsuji, Masaaki Ôkura, Yôsuke Akimoto, Emi Shinohara, Hideyuki Hori e Yôsuke Akimoto
81 minutos

20 de março de 2014

This happening world (7)

No Tor.com, um artigo interessantíssimo de Grady Hendrix sobre aquele que terá talvez sido o maior filme de ficção científica nunca realizado, e cuja história - cujo mito - regressou recentemente à ribalta a propósito de um documentário de Frank Pavich. Falo da adaptação do clássico de Frank Herbert, Dune, pelo chileno Alejandro Jodorowsky. Hendrix traça um resumo fascinante sobre a atribulada odisseia que foi a pré-produção milionária deste filme, na qual participaram algumas personalidades que se viriam a revelar extremamente influentes na ficção científica dos anos que se seguiriam, como Dan O'Bannon, H. R. Giger e Moebius. Para o bem ou para o mal, o filme nunca passaria da fatídica pré-produção; e seria David Lynch quem acabaria por, em 1984, transportar a história - ou parte dela - de Frank Herbert para o grande ecrã. 

Christopher Tolkien continua a dar a conhecer alguns dos trabalhos que o seu pai deixou por publicar - e em Maio próximo será editado pela Harper & Collins a tradução de Tolkien de Beowulf, o poema anglo-saxónico clássico do século XI. Intitulada Beowulf: A Translation and a Commentary, esta edição inclui a tradução de Tolkien, que já conta 90 anos, várias palestras que Tolkien deu na Universidade de Oxford sobre o poema (que ele mesmo resgatou da semi-obscuridade) e o conto original Sellic Spell. 

Disney prepara sequela a The Incredibles. A esta altura do campeonato, a Disney apenas surpreende pela demora: com dois Óscares da Academia e um box office global de mais de 600 milhões de dólares, o filme escrito e realizado por Brad Bird em 2004 foi um sucesso tanto crítico como comercial. Aparentemente, o preço a pagar será... mais uma sequela a Cars. 

A quarta temporada de Game of Thrones tem mais um trailer. A estreia portuguesa, essa, está prevista para 8 de Abril.



Fontes: Tor.com / The Guardian / io9

8 de março de 2014

O som e a fúria (16)

Para hoje, uma cedência ao hype - e será difícil encontrar por estes dias uma música mais overhyped do que Let It Go, tema composto por Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez para a interpretação de Idina Menzel no mais recente êxito de animação da Disney, Frozen. Let It Go venceu o Óscar na categoria de "Best Original Song" - e se será possível questionar a justiça do prémio na comparação com as restantes nomeações (e com outros temas que não foram nomeados), já a qualidade superlativa do tema e da interpretação de Menzel não deixa espaço para grandes dúvidas. O hype, exagerado por natureza, não lhe retira o mérito; Let It Go não chegará talvez ao patamar de temas clássicos da Disney como Can You Feel the Love Tonight, que Elton John imortalizou para o filme The Lion King (talvez traga este tema aqui quando finalmente ver o filme), mas é uma excelente música.

Diz quem viu que Frozen, inspirado num conto de Hans Christian Andersen (que, por acaso, serviu de base a um dos meus romances de ficção científica preferidos), é também um belo filme. Um dia destes dar-lhe-ei destaque no artigo de cinema de Terça-feira. Por hoje, ficamo-nos com Let It Go. Bom fim-de-semana. 

7 de janeiro de 2014

The Animatrix: Jogo de espelhos

À distância de quase quinze anos, ninguém duvida de que The Matrix terá sido um dos filmes mais importantes e influentes dos anos 90 - e no que à ficção científica diz respeito, a película realizada pelos irmãos Wachowski, tornou-se num marco do género, num dos seus filmes incontornáveis e obrigatórios. Corria o ano de 2003 e a expectativa em torno das duas sequelas que dariam continuidade à narrativa cyberpunk polvilhada de influências literárias, filosóficas e religiosas iniciada em 1999 era mais do que muita; e a estreia de The Matrix Reloaded fez-se acompanhar por dois outros elementos que deram forma a uma das mais interessantes experiências transmedia realizadas até hoje - num tempo em que, note-se, tal termo era ainda pouco comum. Esses dois elementos foram o videojogo Enter the Matrix e a colectânea de curtas de animação japonesa The Animatrix. Um dia destes, com mais tempo, tenciono abordar essa experiência multi-plataforma (passe o neologismo da moda) com mais alguma profundidade; por hoje, fiquemo-nos pelas curtas. 

The Animatrix consistiu num ambicioso projecto narrativo dos irmãos Wachowski em redor do universo ficcional que tinham criado com o primeiro filme. Assumindo as suas muitas influências no cinema e na animação japonesa (Ghost in the Shell é a mais óbvia), a dupla propôs a vários estúdios e a vários realizadores de animação a criação de algumas curtas-metragens que, nos seus estilos próprios, explorassem vários aspectos da premissa básica de The Matrix, referidos ao longo dos três filmes de forma mais ou menos evidente, ou não referidos de todo. Algumas das curtas acabaram intimamente ligadas à narrativa principal de Neo, Trinity e Morpheus; outras assumiram caminhos diferentes, explorando à sua maneira conceitos derivados das propostas originais. No seu todo, o conjunto das nove curtas que compõem The Animatrix é notável pela qualidade da animação, pelas propostas temáticas arrojadas, pela forma extraordinária como partem de muitas das ideias fundamentais do primeiro filme para expandir os horizontes de todo aquele universo - e também, diga-se de passagem, pela sua enorme diversidade estética. Um nove em dez, se fosse avaliar o conjunto. Mas vejamos caso a caso. 

The Last Flight of the Osiris
Realização de Andy Jones / Argumento de Larry e Andy Wachowski / Com Kevin Michael Richardson, Pamela Adlon e Tom Kenny
Em termos estéticos, The Last Flight of the Osiris é o descendente directo do filme Final Fantasy: The Spirits Within, a longa metragem da Square Pictures que se tornou numa referência pela sua animação computorizada extremamente sofisticada para a época (ainda que em termos narrativos o filme tenha deixado algo a desejar). No universo de The Matrix, esta curta serve de prequela tanto para The Matrix Reloaded como para Enter the Matrix ao mostrar como a tripulação da nave Osiris tropeçou por acidente no início da invasão das Sentinelas a Zion - e o que a tripulação fez para que essa informação chegasse ao último reduto da Humanidade. Para o seu tempo, a animação de The Last Flight of the Osiris é no mínimo assombrosa, e a forma como serve de ponto de partida para tudo o que se segue é inteligente. E, convém não esquecer, mostra pela primeira vez a utilização de armas a bordo das naves de Zion - algo que o primeiro filme omitira por completo. 08/10

The Second Renaissance Part 1 / The Second Renaissance Part 2
Realização e argumento de Mahiro Maeda / Com Julia Fletcher
As duas curtas que compõem The Second Renaissance exploram a premissa básica de The Matrix, que Morpheus expôs a Neo no filme original - o conflito entre a Humanidade e as Inteligências Artificiais que culminou numa guerra sem quartel e no (aparente) aprisionamento dos seres humanos na simulação interactiva conhecida apenas como "a Matriz". E Mahiro Maeda (que trabalhou em projectos tão distintos como Neon Genesis Evangelion como nas sequências animadas de Kill Bill) utiliza com mestria a sua extraordinária animação para recriar todo o conflito de forma magnífica, com inúmeras referências históricas, religiosas e iconográficas - o tom é levantado da Génese bíblica, e as imagens e o texto remetem para a segregação racial, o Terceiro Reich e o Holocausto, a bandeira de Iwo Jima, os acontecimentos da praça de Tiananmen, e muitos outros momentos históricos. A identificação desta história como parte dos arquivos de Zion não esclarece se a premissa básica de toda a série é de facto verdadeira ou não, mas nem por isso The Second Renaissance perde relevância: no seu estilo documental, é uma peça magnífica. 09/10

Kid's Story
Realização de Shinichirō Watanabe / Argumento de Larry e Andy Wachowski / Com Clayton Watson e Keanu Reeves
Quem tenha visto pela primeira vez The Matrix Reloaded sem ter visto estas curtas decerto terá estranhado uma personagem que surge quando a tripulação da Nebuchadnezzar chega a Zion - um miúdo que recebe Neo, Trinity e Morpheus como se os conhecesse. Kid's Story é a história desse miúdo: um adolescente chamado Michael Karl Popper (Clayton Watson) que vive alienado da realidade, como se percebesse nela a sua natureza de simulacro - mesmo sendo incapaz de a descrever de forma concreta. Mas Neo contacta-o e desafia-o a libertar-se por força da fé - o que leva a que Kid se torne no primeiro caso de alguém se se libertou da Matriz sem ajuda externa. Kid's Story é a primeira das duas curtas de The Animatrix realizadas por Shinichirō Watanabe, o aclamado criador de Cowboy Bebop; e a sua animação frenética serve na perfeição a narrativa e o ponto de vista adolescente e vagamente depressivo de Kid. 07/10

Program
Realização e argumento de Yoshiaki Kawajiri / Com Hedy Burress e Phil LaMarr
Yoshiaki Kawajiri, criador de filmes de animação aclamados como Ninja Scroll e Vampire Hunter D: Bloodlust, pega no conceito original de Cypher - o traidor de The Matrix que desejava recuar na sua escolha do comprimido vermelho e ser reinserido na Matriz - para dar forma a uma das melhores curtas da antologia. A animação, sombria e detalhada, é a todos os níveis excepcional, e serve na perfeição o dilema moral de Cis (Hedy Burress), bloqueada na sua simulação de treinos alusiva ao Japão feudal por Duo (Phil LaMarr), que pretende desafiá-la a trair Zion com ele em troca do esquecimento e da vida "normal" que só a simulação da Matriz lhes poderá devolver. O combate frenético que se desenrola entre os dois pauta a indecisão da protagonista - e abre caminho para um dos finais mais ambíguos das curtas apresentadas. 10/10

World Record
Realização de Takeshi Koike / Argumento de Yoshiaki Kawajiri / Com Victor Williams, John Wesley, Allison Smith e Tara Strong
Esta produção da Madhouse explora uma vez mais o tema da auto-substanciação abordado em Kid's Story, mas desta vez através da superação pessoal e da pura força de vontade. Dan Davis (Victor Williams) é um atleta de alta competição, detentor do recorde mundial dos 100 metros - cuja medalha lhe foi retirada devido a um escândalo de doping. Determinado a regressar à competição para bater o seu próprio recorde e provar a todos que as drogas nada tinham que ver com o seu anterior resultado, Davis ignora os conselhos do seu treinador para competir na prova dos 100 metros nos Jogos Olímpicos - e a sua superação individual fá-lo ultrapassar as barreiras da realidade simulada e ver a realidade para lá do simulacro da Matriz. Para além de explorar uma premissa interessante dentro da ideia básica de The Matrix, World Record revela-se um conto fascinante sobre a força de vontade e a capacidade infinita que os seres humanos têm para se superarem a si mesmos. 09/10

Beyond
Realização e argumento de Kōji Morimoto / Com Hedy Burress, Pamela Adlon, Matt McKenzie, Kath Soucie e Tara Strong
Beyond aborda a ideia de que os fenómenos paranormais são apenas falhas - glitches - no código da Matriz através de Yoko (Hedy Burress), uma adolescente que, enquanto procura a sua gata, encontra uma casa assombrada em plena malha urbana. Juntamente com um grupo de miúdos, Yoko depara-se com uma série de fenómenos desconcertantes naquele terreno - com objectos a levitar, garrafas quebradas que se voltam a unir como se nunca tivessem sido partidas, e zonas inteiras nas quais as leis da Física parecem não se aplicar. As crianças utilizam a casa assombrada para se divertirem a fazer acrobacias impossíveis, sem qualquer receio; mas a descoberta de Yoko leva a que os Agentes intervenham para evitar que a natureza do simulacro seja exposta. Com uma animação excepcional que empresta à premissa o onirismo de que esta necessita para se elevar, Beyond é sem dúvida um dos melhores trabalhos de The Animatrix. 10/10

A Detective Story
Realização e argumento de Shinichirō Watanabe / Com James Arnold Taylor e Carrie-Anne Moss
Nesta sua segunda curta, Shinichirō Watanabe junta-se ao animador Kazuto Nakazawa para contar uma história de detectives num bom e velho estilo noir, ao qual não falta a inevitável banda sonora de jazz (imagem de marca também em Cowboy Bebop, e aqui assegurada por uma excelente e muito apropriada faixa dos Supreme Beings of Leisure). Ash (James Arnold Taylor) é um detective privado com falta de trabalho, a quem é feita uma proposta anónima de preço irrecusável: localizar um hacker conhecido apenas pelo nickname "Trinity" (Carrie-Anne Moss). No decurso da investigação, Ash descobre que três outros detectives já trabalharam no mesmo caso, com resultados no mínimo estranhos -  e para chegar a Trinity, depara-se com um enigma retirado de Through the Looking Glass, de Lewis Carroll. Com um ritmo perfeito e uma conclusão ambígua, A Detective Story distingue-se pela animação superlativa, pela estética noir desenvolvida com rigor, e pela exploração que faz de Trinity antes dos acontecimentos do primeiro filme. 10/10

Matriculated
Realização e argumento de Peter Chung / Com Melinda Clarke
O realizador da série de animação Aeon Flux assina a mais surreal e arrojada curta de The Animatrix: Matriculated acompanha um grupo de rebeldes que, num laboratório montado na superfície do planeta, se encontra a investigar a possibilidade de converter inteligências artificiais para o lado da Humanidade sem recorrer a alterações na programação que em termos práticos consistissem numa forma de escravatura. Para tal, capturam máquinas e inserem-nas numa Matriz própria, onde tentam utilizar empatia para dar às inteligências artificiais capturadas o livre arbítrio necessário para se sobrepor à sua programação original. Uma máquina é submetida a esta experiência, e colocada numa matriz surrealista; mas os resultados vão bem mais longe do que o esperado. O arrojo conceptual da premissa de Matriculated ganha força com o carácter psicadélico da animação de Chung; e o seu final aberto deixa antever uma possibilidade fascinante em todo o universo de The Matrix. 09/10. 

5 de janeiro de 2014

Hayao Miyazaki (1941 - )

Falar de do cinema de animação japonesa contemporâneo é falar de um dos seus maiores mestres Hayao Miyazaki. Realizador, produtor, animador, ilustrador e argumentista, Miyazaki assinou alguns dos maiores sucessos da animação japonesa tanto no arquipélago como internacionalmente; e assinou não só alguns dos melhores filmes de animação jamais feitos, como também algumas das mais complexas e fascinantes histórias de fantasia que o cinema conheceu nas últimas três décadas. A sua longa carreira de 50 anos começou em 1963 na Toei Animation, onde trabalhou em várias produções deste estúdio; e em 1979, viu estrear o primeiro filme por si realizado, Lupin III: The Castle of Caligostro. Mas foi em 1984 que se tornou numa referência ao escrever o argumento e realizar Nausicaä of the Valley of the Wind, adaptando para animação a banda desenhada da sua autoria que à época era publicada na revista "Animage". 

O sucesso de Nausicaä serviu de base para que no ano seguinte Miyazaki fundasse, com Isao Takahata, a Studio Ghibli, que cedo se viria a tornar numa das maiores e mais aclamadas produtoras de animação japonesa. Castle in the Sky (1986), My Neighbour Totoro (1988), Kiki's Delivery Service (1989) e Porco Rosso (1991) foram alguns dos filmes que realizou entre a fundação da Studio Ghibli e o ano de 1997, data da estreia de um dos seus maiores sucessos: Princess Mononoke, uma fascinante aventura de fantasia de carácter histórico e com uma forte componente ecologista - tema aliás recorrente na filmografia de Miyazaki desde Nausicaä. Princess Mononoke conheceu um tremendo sucesso nacional e internacional, apenas ultrapassado quatro anos mais tarde pelo seu próximo filme, Spirited Away - o filme mais bem sucedido de sempre no mercado japonês, e vencedor do Óscar de Melhor Filme de Animação em 2002. Howl's Moving Castle (2004) e Ponyo (2008) foram dois dos mais relevantes filmes que realizou desde então; após a estreia do seu mais recente trabalho, The Wind Rises (2013), o realizador anunciou (uma vez mais) a sua reforma.

Hayao Miyazaki nasceu em Bunkyō, Tóquio, e celebra hoje o seu 73º aniversário.

19 de dezembro de 2013

How to Train Your Dragon 2: Primeiro trailer

Uma das surpresas de 2010 no cinema de animação foi How to Train Your Dragon, produção da Dreamworks que adaptou em formato de animação digital a série de livros infantis de Cressida Cowell - e que se tornou num dos melhores filmes do fantástico daquele ano. Pouco importa se a abordagem é mais ou menos juvenil - a animação é das melhores que por aí andam, e tem alguns dos mais imaginativos dragões que a fantasia contemporânea já viu. O sucesso do filme deu origem a uma série televisiva de animação também bastante interessante, Dragonriders of Berk; e estão duas sequelas na calha, para 2014 e 2016 respectivamente. A primeira, How to Train Your Dragon 2, teve hoje apresentado o seu primeiro trailer - e pese embora a revelação de um plot point muito importante no trailer (o grau de imbecilidade das distribuidoras quando montam os trailers está em ascensão vertiginosa), este segundo capítulo parece recuperar os vários elementos que fizeram do original um sucesso: animação formidável, uma boa personagem principal (Hiccup) com um excelente dragão sidekick (Toothless), e um equilíbrio excepcional entre a diversão e a carga dramática de alguns momentos.

How to Train Your Dragon 2 tem estreia prevista para Junho de 2014. Abaixo, o trailer.


Fonte: io9

1 de setembro de 2013

Hayao Miyazaki: Novo filme, The Wind Rises, será o seu último

A notícia foi avançada pelo Público: The Wind Rises, o próximo filme de Hayao Miyazaki, será também o seu último. Autor de êxitos de animação japonesa como Nausicäa of the Valley of the Wind, Howl's Moving Castle, Princess Mononoke ou Spirited Away - este último vencedor o Óscar da Academia para Melhor Filme de Animação -, Miyazaki tenciona reformar-se na sequência da estreia de The Wind Rises, um filme sobre Jiro Horikoshi, o engenheiro japonês que concebeu vários dos aviões de combate nipónicos da Segunda Guerra Mundial. O filme foi apresentado no Festival de Veneza, onde o seu sócio dos Estúdios Ghibli, Koji Hoshino, surpreendeu o público com este anúncio. Mais detalhes serão revelados pelo próprio Miyazaki em Tóquio. 

The Wind Rises não tem ainda estreia prevista para Portugal - mas já existe um trailer. 



Fonte: Público

13 de julho de 2013

How to Train Your Dragon 2: Primeiro teaser

How to Train Your Dragon terá sido o filme de animação não-japonesa que mais me surpreendeu nos últimos anos, com Vikings muito pouco convencionais e alguns dos mais curiosos e adoráveis dragões vistos em cinema. A sequela já está confirmada para 2014 - e o primeiro teaser acaba de ser revelado, mostrando um Hiccup mais velho, um Toothless tão engraçado como no filme original, e as acrobacias aéreas que se tornaram numa imagem de marca do filme. 


Fonte: io9

14 de maio de 2013

Wreck-it Ralph: All his base is belong to us

É interessante ver Wreck-it Ralph, filme de animação da Disney estreado em 2012, e pensar em como de certa forma está para as gerações do presente como Toy Story, da Pixar, esteve para as gerações anteriores, para as quais os brinquedos tradicionais ainda foram muito importantes. Não que o tenham deixado de ser de todo; mas a verdade é que os videojogos têm vindo a conquistar um espaço cada vez maior no que ao entretenimento diz respeito para miúdos e graúdos, ganhando uma relevância cultural capaz de sustentar uma longa metragem direccionada tanto para as crianças de hoje em dia, que convivem com videojogos desde tenra idade, como para os seus pais, que foram crianças e jovens antes do advento das consolas, quando a arcade culture era ainda dominante no que ao entretenimento interactivo dizia respeito. De facto, a grande força de Wreck-it Ralph é a forma inteligente como constrói todo um universo ficcional baseado nos videojogos utilizando as suas referências, o seu visual e as suas especificidades para dar forma a uma narrativa sólida e, acima de tudo, apelativa para vários públicos distintos. 

Para os mais velhos, Wreck-it Ralph é um filme profundamente nostálgico - mesmo para alguém como eu, que nunca viveu a cultura de arcada (na aldeia onde cresci as máquinas eram escassas, e as moedas mais ainda) e que entrou mais a sério no mundo dos videojogos já durante a adolescência, com uma Playstation original, cinzenta e rectangular. As inúmeras referências a videojogos mais antigos, a reunião do grupo de apoio "Bad-Anon" com alguns vilões clássicos, os easter eggs escondidos na fascinante "Game Central Station" - todos estes elementos são introduzidos logo nos primeiros minutos, dando profundidade àquele universo e enquadrando na perfeição tanto as personagens principais, como toda a narrativa do filme. 


Para os mais novos - e também para os mais velhos, ou pelo menos para aqueles que se consigam desligar do fascinante subtexto do filme -, Wreck-it Ralph conta com mestria uma história muito simples. Ralph é o vilão do jogo Fix-it Felix, Jr., mas vive frustrado por estar 30 anos a desempenhar o mesmo papel sem obter qualquer reconhecimento pelo seu trabalho. O grupo de apoio a vilões não ajuda, pese embora as boas intenções dos seus intervenientes - e Ralph decide obter o reconhecimento merecido noutros jogos, como Hero's Duty (numa paródia clara aos shooters modernos) - mas é no colorido e açucarado Sugar Rush (reminescente de Mario Kart e de outros títulos do género) que vai viver uma inesperada aventura na companhia da improvável Vanellope.


O voice acting é soberbo: John C. Rilley dá vida de forma especialmente feliz a Ralph, e Sarah Silverman dá a Vanellope uma voz perfeita para a sua hiperactividade contagiante. O restante elenco inclui Alan Tudyk como King Candy, Jack McBrayer como Felix, Jane Lynch como Calhoun e Mindy Kaling como Taffyta. É uma pena que, no que à exibição do filme em Portugal diz respeito, não tenha havido (tanto quanto sei) a possibilidade de ver o filme na versão original. Nada contra as versões dobradas - mas não são para mim, e não estou disposto a pagar para ver um filme dobrado (sobretudo depois de algumas más experiências com dobragens - veja-se o caso de Shrek, por exemplo). De resto, escapa-me a lógica que determina que mesmo uma sessão de meia-noite tenha de ser dobrada.


Mas voltando ao filme propriamente dito: se a primeira parte de Wreck-it Ralph é uma vertigem de referências, gags e muitos detalhes interessantes, a segunda assume um tom um pouco mais sério (mas nunca demasiado sério), com alguns twists muito interessantes a serem introduzidos no enredo. Este, por mais simples que seja, nunca abandona o universo que lhe serve de base, e vários dos seus plot devices são inspirados também nos videojogos. As referências são uma constante - mas nesta parte mais discretas, quase camufladas no cenário à espera de um olhar atento.


Para todos os efeitos, Wreck-it Ralph é mesmo uma viagem nostálgica pela história dos videojogos, com um sem-número de referências recentes (Leeroy Jenkins), antigas (Aerith Lives!) e mais antigas (um Q*Bert sem-abrigo? Genial.); algumas serão mais ou menos evidentes mesmo para quem nunca dedicou atenção aos videojogos; outras são obscuras, e mesmo muitos gamers não as irão apanhar sem a ajuda de, pelo menos, algumas pausas e rewinds. Mas mais do que a nostalgia, Wreck-it Ralph mostra de forma exemplar como os videojogos são parte inalienável da cultura popular dos últimos 30 anos - e fá-lo com humor, com excelentes personagens, com um trabalho de voice acting soberbo e com uma narrativa relevante a sustentar todas as suas referências. Para uma geração que cresce e que convive de perto com este meio, Wreck-it Ralph tem o potencial de se vir a tornar num clássico. 8.4/10


Wreck-it Ralph (2012)
Realizado por Rich Moore
Argumento de Rich Moore, Phil Johnston, Jim Reardon e Jennifer Lee
Com John C. Rilley, Sarah Silverman, Alan Tudyk, Jack McBrayer, Jane Lynch e Mindy Kaling
108 minutos

30 de abril de 2013

A natureza e a civilização em Mononoke-hime

Algures, existe um território natural verdejante - se não for uma floresta, incluirá decerto uma floresta -, repleto de recursos, onde a Natureza é rainha, e onde vive uma bela jovem, feliz e livre junto das criaturas selvagens com as quais cresceu, em harmonia perfeita com o mundo natural que a envolve. Um mundo de pureza e virtude primordial, que contrasta de forma agressiva com a civilização tecnológica que os homens instalam nas imediações - começando aos poucos a destruir a floresta para explorar os seus recursos (e, quase sempre, enriquecer no processo). Segue-se uma guerra entre a natureza e a civilização, na qual a primeira, maléfica, triunfa sobre a segunda. Mas a bela jovem e um dos capitães do mundo civilizado apaixonam-se, e ele vai ver o mundo pelos olhos dela; e, apercebendo-se da maldade da civilização, revolta-se contra ela, recupera o mundo natural e fica com a jovem. Este resumo mal amanhado serve para a história do bom selvagem, contada ad nauseam no cinema, a partir de inúmeras perspectivas tão diferentes como semelhantes - sejam nativos norte-americanos, tribos africanas ou raças alienígenas num planeta distante. À partida, e numa perspectiva extremamente superficial, Mononoke-hime, filme de 1997 realizado Hayao Miyazaki, parece encaixar neste molde que já serviu para tantas histórias. Mas parece, apenas - pois em momento algum opta pelo conforto de uma moral instalada e de tropes narrativas convencionais.


De certa forma, Mononoke-hime (na versão inglesa, Princess Mononoke) é uma história sobre um tempo de mudança, num mundo onde em tempos os deuses da Natureza caminharam por entre as criaturas vivas, tendo desaparecido e alcançado o estatuto de lendas distantes. Mas uma criatura saída de um mito irrompe pelo território da aldeia do protagonista, o jovem príncipe Ashitaka. Destemido, Ashitaka enfrenta o tremendo demónio, o corrompido deus-javali Nago, que destrói tudo à sua passagem e que ameaça a sua aldeia. Mas apesar de derrotar a besta, vê-se afligido por uma maldição que, a prazo, consumirá a sua vida. Com o propósito de procurar uma forma de levantar a maldição, deixa a sua aldeia e parte para o Ocidente longínquo, em busca da floresta do Espírito da Floresta (referido como o Deus Veado), uma divindade natural que de dia assume a forma quimérica de um Qilin e de noite, a de um gigantesco Daidarabotchi (Nightwalker). Mas nessa terra distante vai encontrar um conflito emergente entre as forças da Natureza -com San, uma jovem rapariga criada pelos lobos da divindade Moro, a servir de avatar da vigança da floresta - e a aldeia de Lady Eboshi, que explora o ferro da região e se protege com recurso a armas de fogo e a explosivos (com a aldeia, por seu lado, a estar ameaçada pelos samurais de Lord Asano).


Onde Mononoke-hime se destaca dos outros filmes do seu género (para além dos elementos fantásticos - já lá iremos) é no tom de cinzento que atravessa toda a narrativa. O conflito entre Eboshi e San, simbolizando respectivamente a civilização tecnológica e a Natureza, é-nos sempre mostrado pelo ponto de vista de Ashitaka, que se envolve na disputa procurando encontrar uma solução de compromisso, sem querer tomar partido. Toda a história assume, desde os primeiros minutos, contornos trágicos que nunca se desvanecem: do deus-javali caído ao príncipe exilado,


Com todas as preocupações ecológicas de Mononoke-hime, não há no filme uma componente moralizadora a sobrepor-se na narrativa; ambos os lados são vistos tanto pelas suas qualidades como pelos seus defeitos - e, acima de tudo, pela incapacidade que um e outro revelam de tentar encontrar uma forma de coexistirem de forma a preservar as suas identidades.


E, claro, Mononoke-hime brilha pelos seus extraordinários elementos fantásticos, que Miyazaki utiliza com génio para dar mais força à narrativa. O mundo de Ashitaka, San e Eboshi é um mundo onde os seres humanos convivem lado a lado com o sobrenatural, com as forças primordiais da natureza - que se manifestam em lobos e javalis conscientes, em deuses extraordinários e muito pouco convencionais, em maldições e poderes prodigiosos, e em criaturas extraordinárias como os kodama. Todas estas criaturas e os cenários maravilhosos onde se movimentam são trabalhados numa animação de qualidade excepcional, riquíssima na cor e na expressividade, com grande atenção ao detalhe.


Mononoke-hime não é considerado um dos melhores filmes de animação japonesa por acaso - a sua animação excepcional será sempre merecedora de destaque, e a subversão inteligente que faz a uma narrativa para todos os efeitos convencional enriquece a sua mensagem e confere-lhe uma força narrativa ímpar. As suas personagens cativantes num mundo fantástico especialmente imaginativo e os contornos trágicos do enredo são as cerejas no topo de um bolo de grande qualidade, preparado por aquele que será talvez o mestre maior do seu ofício. Talvez Mononoke-hime não seja "a" grande obra de Miyazaki, mas é sem dúvida uma obra-prima. 8.9/10

Mononoke-hime (1997)
Realização e argumento de Hayao Miyazaki
Com Yōji Matsuda, Yuriko Ishida, Yūko Tanaka, Kaoru Kobayashi, Tsunehiko Kamijō, Akihiro Miwa e Hisaya Morishige
133 minutos

17 de dezembro de 2012

Ghost in the Shell: Stand Alone Complex vai ser adaptada para videojogo pelos Estúdios Nexon

Ainda não falei aqui de Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, que com duas temporadas e um filme televisivo será talvez uma das melhores séries televisivas que já tive oportunidade de ver. Conto rever em breve, e publicar aqui uma crítica a ambas as temporadas; para já, fica uma notícia do fim de semana: os estúdios sul-coreanos Nexon, especializados em videojogos free to play online, vão desenvolver um jogo com base nesta popular série de animação japonesa. Ainda não são conhecidos muitos detalhes sobre este projecto; sabe-se, para já, que o jogo seguirá a narrativa das duas temporadas e do filme. 

Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, como se sabe, é a adaptação televisiva do manga de Masamune Shirow, de onde também resultou um extraordinário filme de ficção científica (Ghost in the Shell, de 1995). 

Fonte: Polygon

16 de novembro de 2012

Hiccup e Toothless de regresso em Dragons: Riders of Berk

Lembram-se de How to Train Your Dragon, o excelente filme de animação da Dreamworks (porventura o melhor que os estúdios produziram desde o original Shrek) inspirado na série literária homónima da escritora britânica Cressida Cowell, que que em 2010 foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação (que Toy Story 3 acabou por ganhar)? Sempre imaginei que a Dreamworks fosse apostar numa sequela, mas para minha surpresa a produtora decidiu antes avançar para Dragons: Riders of Berk, uma série de televisão que dá continuidade à história de Hiccup, dos dragões e dos vikings da ilha de Berk. 

Não que as sequelas estejam descartadas: How to Train Your Dragon 2 está previsto para 2014, e há planos para um terceiro filme. Entretanto, e pelas imagens que já pude ver, quem gostou do filme original irá certamente divertir-se com a série televisiva. 

5 de novembro de 2012

Fórum Fantástico: Cláudio Jordão e Nélson Martins apresentam Conto do Vento

Mais uma novidade para o Fórum Fantástico 2012: Será exibida a curta-metragem de animação portuguesa Conto do Vento, de Cláudio Jordão e Nélson Martins, numa sessão que conta com a presença dos autores.

Não é exactamente uma estreia, pois Conto do Vento, a curta vencedora do MOTELx 2011 na categoria de "Melhor Curta de Terror Portuguesa", tem corrido mundo em festivais de cinema, do Uruguai à Coreia do Sul, e conquistado não só vários prémios como a crítica por onde tem passado. No entanto, a sua exibição no Fórum Fantástico é uma excelente notícia tanto para quem ainda não viu a curta, como para quem viu e quer vê-la novamente (falei dela aqui). E, claro, para quem quiser colocar questões aos autores.