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4 de setembro de 2014

This happening world (22)

Recuperando uma notícia já antiga: depois de ter demonstrado interesse no projecto, o SyFy Channel confirmou a produção da adaptação de Childhood's End, de Arthur C. Clarke, para uma mini-série televisiva de seis episódios, com estreia prevista para o próximo ano. A adaptação está entregue a Matthew Graham, o criador das séries Life on Mars e Ashes to Ashes, com o realizador Nick Hurran (Sherlock e Dr. Who) a estar a cargo do episódio piloto. É certo  que o facto de o projecto pertencer ao SyFy Channel obriga a uma certa dose de cepticismo - afinal, nos últimos anos o canal tem apostado nos seus filmes de série B(menos) do que na ficção científica de qualidade. Ainda assim, trata-se de Childhood's End - um clássico absoluto da ficção científica literária com mais de 60 anos, que ainda hoje se revela notável pelo seu alcance conceptual e pela sua trama emotiva. 

Can Automata's rise of the robots bring science fiction to life? A pergunta é de Ben Child no The Guardian, mas o título é enganador: a verdadeira pergunta é can Automata (...) finally deliver an intelligent robot movie? Diz quem já viu que Robot and Frank fez isso mesmo, e até ver não terei motivos para não acreditar; mas a verdade é que tudo em Automata me pareceu demasiado familiar para causar um entusiasmo genuíno. Enfim, é esperar para ver. 

E a propósito de robots (de cyborgs, se quisermos ser rigorosos): Margot Robbie (The Wolf of Wall Street) poderá ser a protagonista da adaptação live action de Ghost in the Shell, que está a ser produzida pela Dreamworks (com realização de Rupert Sanders, cujo currículo como realizador de longas-metragens inclui apenas... Snow White and the Huntsman). O que equivale a dizer: Margot Robbie irá interpretar o papel da icónica Major Motoko Kusanagi. Whitewashing à parte, a notícia tem relevo sobretudo por confirmar que o projecto live action de Ghost in the Shell não conheceu a mesma sorte que o de Akira, afortunadamente perdido no development hell de Hollywood - a readaptação vai mesmo avançar. Uma vez mais: considerando que o (excelente) filme de Mamoru Oshii, para além de ser uma obra-prima, permanece actual e pertinente, é difícil pensar em projecto mais desnecessário entre a mais recente fornada de remakes estreados e anunciados. 

Mas nem tudo são más notícias no que a remakes diz respeito: a Capcom encontra-se a adaptar para a geração actual de consolas (e para PC) a versão remasterizada do clássico Resident Evil, que à época foi desenvolvida apenas para a consola GameCube. Para quem, como eu, nunca teve a oportunidade de jogar o original na primeira Playstation e viu o remake (mais a prequela Resident Evil 0) ficar bloqueada pela exclusividade obtida pela Nintendo para a GameCube, isto só pode ser uma excelente notícia - mesmo que chegue com mais de uma década de atraso. 

Fontes: io9 / The GuardianPolygon

2 de setembro de 2014

Frederik Pohl (1919 - 2013)

Há um ano, com a morte de Frederik Pohl aos 93 anos de idade a ficção científica literária perdeu um dos seus mais relevantes vultos. Ao longo das sete décadas que a sua carreira atravessou no género, Pohl fez praticamente tudo aquilo que é possível fazer. Começou com uma relevante actividade de fã ainda durante a "Golden Age", tendo fundado o grupo nova-iorquino conhecido como "Futurians" (juntamente com Isaac Asimov, Damon Knight, Judith Merrill, Virginia Kidd, James Blish e Cyril M. Kornbluth, entre outros). Foi editor de revistas pulp, publicou crítica, foi agente literário - e, de caminho, ainda deixou como legado alguns clássicos da ficção científica. Em The Space Merchants, escrito a meias com Kornbluth, desenvolveu uma sátira publicitária em tons de distopia; em Gateway, dá início ao universo ficcional Heechee com um romance fascinante, vencedor dos principais galardões do género (Hugo, Nebula, Locus). A sua bibliografia inclui ainda obras como Man Plus e Jem, e as suas colaborações literárias não ficaram limitadas ao seu amigo Kornbluth: também escreveu romances a meias com Jack Williamson e Arthur C. Clarke. The Way the Future Blogs, o seu blogue pessoal, foi actualizado com regularidade até às vésperas da sua morte - e em 2010 valeu-lhe mesmo um prémio Hugo na categoria de "Best Fan Writer". 

Lucy: Transcendência acidental

Todos nós já sabemos que a velha ideia de que os seres humanos apenas utilizam dez por cento da sua capacidade cerebral não passa de um mito pseudo-científico - o que certamente não fará quaisquer favores à premissa de Lucy, o novo thriller de ficção científica do francês Luc Besson, que procura explorar a transcendência humana (é um dos temas em voga neste ano) e outras questões filosóficas sobre a Humanidade, a vida e o universo a partir daquela ideia. É certo: ouvi-la pela primeira vez revela-se um tanto ou quanto estranho, mesmo quando o discurso vem de Morgan Freeman. Mas Luc Besson, desconhecendo ou simplesmente não se importando com a debilidade do conceito central, pede ao espectador que faça o mesmo, e que o acompanhe numa viagem alucinante ao seu melhor estilo.

E a verdade é que quem o fizer - quem aceitar o filme e a sua premissa nos seus próprios termos - decerto encontrará pouco de que se queixar durante os 90 minutos que vão do início ao fim.

De forma muito sucinta (com pequenos spoilers), a trama acompanha Lucy (Scarlett Johansson), uma jovem norte-americana a viver em Taiwan que se vê envolvida no negócio de drogas de um gang sul-coerano a operar no território. O envolvimento dá-se por acidente - o seu namorado envolve-a contra a sua vontade ao fazê-a entregar uma pasta a um hotel, para um homem chamado Jang (Min-sik Choi), mas tudo corre pelo pior a partir do primeiro momento. 


Retida pela máfia sul-coreana, Lucy descobre que a pasta contém quatro pacotes de uma droga experimental designada como CPH4 - e vai acordar algum tempo depois com um desses pacotes alojado no abdómen, pronta para ser enviada para a Europa com três outros "correios". Mas quando um dos subalternos de Jang a agride, o pacote que transporta rompe-se e a droga começa a ser absorvida pelo seu corpo. E, nesse momento, tudo muda.


A absorção da CPH4 começa a desbloquear as capacidades do seu corpo e do seu cérebro, expandindo a sua percepção para níveis inimagináveis e dando-lhe total controlo sobre a sua memória, o seu metabolismo e sobre tudo o que a rodeia - com capacidades telepáticas e telecinéticas incluídas. Procurando descobrir o que se passa consigo, Lucy vai contactar o professor Norman (Morgan Freeman), cuja investigação na área cerebral poderá talvez ajudá-la a resolver a sua situação. E contacta ainda Pierre del Rio, um capitão da polícia francesa, para que ele o ajude a recuperar os outros três pacotes de CPH4, com o objectivo levar a sua evolução acelerada até às últimas consequências - mesmo com Jang no seu encalço.


Se Lucy se consegue elevar acima das debilidades evidentes da sua premissa, isso deve-se em grande parte ao desempenho seguro e credível de Scarlett Johansson. Numa época em que Zoe Saldana parece apostada em reinvindicar o título de rainha dos blockbusters de ficção científica, Johansson vai mostrando, através de uma sequência de desempenhos notáveis, por que motivo o seu rosto é é hoje em dia um dos mais visíveis e talentosos que o género tem no grande ecrã (é acompanhar a passagem da talentosa Natasha Romanoff do Marvel Cinematic Universe para a não-humana de Under the Skin, até à frágil Lucy, capaz de transcender a sua humanidade por acidente). A transição de faz da Lucy desorientada e assustada do primeiro acto para uma Lucy sobre-humana e cada vez mais distante é soberba, e Johansson transposta todo o filme com facilidade e charme mesmo nos momentos que mais esticam a suspensão da descrença.


E se a presença e o desempenho de Johansson dão credibilidade à trama, a realização segura e cinética de Besson dão a todo o filme uma energia muito própria, tanto pelo ritmo que imprime às inevitáveis sequências de acção como pelas opções pouco convencionais que emprega para contar a sua história e sublinhar alguns momentos. A trama do primeiro acto, por exemplo, surge encaixada de forma inusitada entre imagens de vida selvagem que parecem retiradas de documentários da National Geographic - todo o build-up com a cena das chitas a caçar é excepcional pela forma como destaca o carácter indefeso da Lucy original e como estabelece um paralelo invulgar entre a aula do professor Norman, na qual ele explica a evolução e o propósito da vida. A acção, quando surge, é explosiva - ao melhor estilo de Besson, de resto, com uma perseguição alucinada em Paris e várias sequências de combate violento que ora são levadas até ao final, ora são subvertidas pelos poderes de Lucy. 


É certo que, chegados ao final, será talvez impossível não reparar que Lucy tinha todos os elemementos necessários para ser um filme muito mais profundo, complexo e emotivo do que foi - mesmo mantendo a premissa frágil. O drama de alguém que consegue aceder às suas memórias mais profundas e que alcança a empatia absoluta é aludido em breves momentos (como no encontro de Lucy com a sua colega de casa, ou, naquela que será talvez a melhor cena do filme, quando telefona à mãe a partir do hospital), mas nunca levado às suas últimas consequências - e é bom de ver que seria um tema fascinante de explorar. A necessidade de contacto com alguém terreno e "normal", sublinhada por uma deixa fugaz de Lucy para del Rio, foi também uma possibilidade aludida, mas descartada em prol talvez de alguma acção mais directa e visceral (convenhamos: a cruzada de Jang acaba por ser mesmo o ponto mais fraco do filme, por mais bem montada que esta - e está - a acção). Há na odisseia pessoal de Lucy vários elementos que permitiriam a Besson construir um filme mais emotivo, mais trágico até, mas que nunca são devidamente aproveitados - surgem quase como memorados a indicar que a ideia está lá, mas que o ponto não é esse.


A pergunta acaba por se impor: qual é o ponto, afinal? A resposta surge logo no início, na palestra do professor Norman - e é essa visão do que é a vida que vai nortear alguém que está a transcender tudo o que entendemos por vida. Feitas as contas, a resolução acaba por sair talvez demasiado críptica, algo perdida entre o frenesim da acção e as alusões que Besson coloca ao longo da trama, ciente das convenções e das ideias do género em que situa o seu filme (2001 é revisitado aqui várias vezes, nem sempre de forma óbvia; e está longe de ser o único), e as várias pistas que deixa para possibilidades alternativas acabam por se revelar algo frustrantes por nunca serem concretizadas em pleno. Ao longo dos seus quase 90 minutos, porém, Lucy não deixa muito espaço para reflectir sobre tais possibilidades - entre o drama da protagonista, a acção enérgica e as imagens evocativas que Besson conjura, o filme revela-se intenso e divertido, e o encantamento (para quem, lá está, consegue aceitar as limitações da premissa) mantém-se sem esforço. 07/10

Lucy (2014)
Argumento e realização de Luc Besson
Com Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi e Amr Waked
89 minutos

1 de setembro de 2014

Aconteceu em Setembro:

(Artigo em actualização)

01 de Setembro:
  • 1875 - Nasceu Edgar Rice Burroughs, o autor que criou alguns dos mais célebres heróis de aventuras, como Tarzan, da série de histórias homónima, e John Carter de Marte, o protagonista da saga Barsoom, situada num Marte lendário. Pellucidar e Venus& são dois dos outros universos ficcionais deste autor prolífico e influente, inúmeras vezes homenageado na ficção científica. Burroughs faleceu a 19 de Março de 1950.
  • 1942 - Nasceu C. J. Cherryh (Carolyn Janice Cherry), autora norte-americana de ficção científica que se notabilizou pelos romances premiados Downbelow Station (1982) e Cyteen (1989). Na sua bibliografia encontram-se várias séries literárias de duração variável, como The Company Wars (iniciada em 1982 com Downbelow Station e continuada com Merchanter's Luck, Rimrunners, Heavy Time, Hellburner, Tripoint e Finity's End, este último de 1997), The Era of Rapprochement (que inclui Serpent's Reach, Forty Thousand in Gehenna, The Scapegoat, Cyteen e Regenesis, publicados entre 1980 e 2009) e os romances de The Chanur (The Pride of Chanur, Chanur's Venture, The Kif Strike Back, Chanur's Homecoming ;e Chanur's Legacy, publicados entre 1981 e 2007), entre muitas outras.

02 de Setembro:
  • 1973 - Faleceu John Ronald Reuel Tolkien, aos 81 anos de idade. Académico, escritor, ensaísta e tradutor britânico nascido na África do Sul, Tolkien tornou-se num dos mais relevantes filólogos do seu tempo, assim como um estudioso do inglês antigo e das sagas escandinavas. Mas foi como escritor que conquistou uma aclamação de escala mundial ao publicar primeiro The Hobbit, em 1937, e já nos anos 50 a trilogia The Lord of the Rings, que se tornaria no texto mais importante da fantasia épica literária. O mundo secundário da Terra Média foi alargado para uma escala ímpar em The Silmarillion, o magnum opus publicado a título póstumo pelo seu filho Christopher; na sua bilbiografia incluem-se ainda The Children of Húrin, também na Terra Média, e textos como The Legend of Sigurd and Gudrún, The Fall of Arthur e uma tradução do clássico Beowulf só este ano tornada pública. Tolkien nasceu a 03 de Janeiro de 1892. 
  • 2013 - Faleceu Frederik Pohl, autor, editor, crítico e fã de ficção científica, e uma das suas vozes mais relevantes na segunda metade do século XX. Na sua bibliografia merecem destaque a distopia The Space Merchants (1953), escrita com Cyril M. Kornbluth, e Gateway, o romance de 1977 que se tornou num clássico incontornável do género, tendo conquistado os prémios Hugo, Nébula e Locus. Como editor, notabilizou-se ao leme das revistas Galaxy e If, entre 1959 e 1969. Manteve ao longo de toda a sua vida uma actividade intensa e ininterrupta no fandom: em 2010 venceu mesmo o prémio Hugo na categoria de "Best Fan Writer" pelo seu blogue, The Way the Future Blogs. Frederik George Pohl, Jr. nasceu a 26 de Novembro de 1919. 
06 de Setembro:
  • 1950 - Faleceu Olaf Stapledon, filósofo britânico e autor de clássicos influentes da ficção científica literária como Last and First Man (1930), Star Maker (1937) e Sirius (1944), entre outros. Stapledon nasceu a 10 de Maio de 1866
  • 1972 - Nasceu China Miéville, autor britânico de fantasia e de horror frequentemente associado ao movimento New Weird. Na sua bibliografia incluem-se romances como Perdido Street Station (2000), Iron Council (2004), The City & the City (2009), Embassytown (2011) e Railsea (2012), entre outros.
10 de Setembro:
  • 1953 - Nasceu Pat Cadigan, autora norte-americana de ficção científica que, juntamente com Bruce Sterling e William Gibson (e outros), foi uma das pioneiras do movimento cyberpunk que nos anos 80 deu todo um novo fôlego ao género tanto em termos temáticos e filosóficos como em termos estéticos. Participou na antologia Mirrorshades (1986) com o conto Rock On; e da sua bilbiografia fazem parte títulos como Mindplayers (1987), Synners (1991) Fools (1992) e Tea From an Empty Cup (1998), entre outras peças de ficção curta. 
12 de Setembro:
  • 1921 - Nasceu Stanislaw Lem, filósofo, satirista e autor polaco de ficção científica. O tema da impossibilidade de comunicação entre civilizações humanas e alienígenas surge destacado na sua obra, em romances como The Man From Mars (o seu primeiro livro publicado, em 1946), Eden (1959), Fiasco  (1986) e, claro, Solaris, o clássico de 1961 que já conheceu três adaptações cinematográficas, das quais a mais conhecida (e aclamada) será a de Tarkovksi em 1972. Na sua bilbiografia merece ainda destaque The Futurological Congress, de 1971. Stanislaw Lem faleceu a 27 de Março de 2006.  
  • 1997 - Faleceu Judith Merril (Judith Josephine Grossman), autora e editora norte-americana de ficção científica que se notabilizou pela sua ficção curta, pelo romance Shadow on the Hearth (1950) e pelo seu trabalho como antologista, no qual merece destaque a organização da série de antologias The Year's Best Science Fiction and Fantasy entre 1956 e 1966. Judith Merril nasceu a 21 de Janeiro de 1923.
(continua)

31 de agosto de 2014

Citação fantástica (150)

What people want, mainly, is to be told by some plausible authority that what they are already doing is right. I don't know know of a quicker way to become unpopular than to disagree.

John Brunner, The Jagged Orbit (1969)

29 de agosto de 2014

Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor: Policial cyberpunk

Em larga medida, a força de Ghost in the Shell de Shirow Masamune no contexto do cyberpunk reside na forma como o autor japonês optou por pegar nos temas mais clássicos do subgénero enquanto subverteu todas as suas convenções, afastando-se da perspectiva marginal que serve de ponto de vista a muitas das suas obras (Neuromancer, de William Gibson, vem à mente) para dar o protagonismo a uma equipa de forças públicas de segurança, e rejeitando as tramas de tom e estética neo-noir para explorar as possibilidades luminosas de um futuro hiper-tecnológico no qual as fronteiras entre natural e artificial e o humano e a máquina se começam a esbater de forma progressiva e irreversível. A graphic novel original, um autêntico tour de force filosófico, deu origem a um universo ficcional em várias continuidades distintas (quando não contraditórias) e em tons divergentes, mas sempre com uma fascinante problematização económica, política e social dos avanços tecnológicos. E na sua sequência surgiu, para além da segunda graphic novel - intitulada Ghost in the Shell 2.0 - Man-Machine Interface - um conjunto de histórias dispersas, em jeito de contos policiais, num formato próximo do "caso da semana" de muitas séries televisivas de investigação policial; e essas histórias foram compiladas em 2003 (no Japão; em 2007 nos Estados Unidos, pela Dark Horse Comics) num único volume intitulado Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor.

Mais do que uma história (ou um conjunto de histórias) na continuidade do seu universo ficcional, Human-Error Processor funciona como uma mini-sequela à graphic novel original,  numa espécie de ponte narrativa entre os acontecimentos da história original e da sua sequela directa, Ghost in the Shell 2.0: Man-Machine Interface que mostra como continuou a equipa liderada por Aramaki após o desaparecimento da Major Motoko Kusanagi, a sua líder no terreno, após o estranho caso do "Puppeteer". Com um novo elemento (Azuma), a Secção 9 continua activa e a investigar casos de ciberterrorismo - e são alguns desses casos que os leitores podem encontrar nestas páginas, num formato episódico e num tom geral que alude a alguns episódios isolados das duas temporadas da série televisiva Stand Alone Complex

Em si, os casos revelam-se interessantes tanto pela investigação como pela forma como cada um acrescenta algo mais ao espantoso e complexo universo ficcional de Shirow Masamune - um futuro profundamente tecnológico com uma componente económica e geopolítica explorada ao mais intrincado pormenor nos jogos de interesses e nas conspirações que envolvem todos os acontecimentos que a Secção 9 vai investigar. Mas onde o autor se eleva é na forma como mostra o alcance, o impacto e as possibilidades da tecnologia que apresenta - da zombificação electrónica de Fat Cat à sofisticação de combate de Drive Slave, numa história que inclui uma breve aparição de Motoko que abre caminho para o seu protagonismo em Ghost in the Shell 2.0. A complementar a trama que vai tecendo na sua arte frenética e detalhada e na sua escrita enérgica, Shirow Masamune dá como bónus ao leitor toda uma série de comentários e de anotações nas margens das páginas e nos espaços entre vinhetas, aludindo a pormenores das armas e das tecnologias, explicando os motivos de alguns pormenores e lançando alguma luz sobre as suas decisões narrativas e artísticas - tornado este Human-Error Processor numa espécie de versão anotada que lhe permite entrar numa espécie de diálogo com o leitor, criando toda uma nova experiência de leitura.

É possível que Human-Error Processor não funcione bem como ponto de entrada no universo de Ghost in the Shell - toda a sua narrativa surge muito enquadrada no grande caso do "Puppeteer" que marcou a graphic novel original, e a caracterização várias personagens (dos semi-protagonistas Batou e Togusa aos elementos mais secundários da Secção 9 como Ishikawa e Borma) é feita na continuidade das histórias já contadas, partindo do princípio de que o leitor já se encontra familiarizado com elas. Mas para quem já tiver explorado o universo ficcional de Ghost in the Shell em algum dos seus vários formatos - banda desenhada, televisão ou cinema -, Human-Error Processor revela-se numa leitura complementar de grande interesse pela abordagem policial que faz a temas clássicos de cyberpunk e pelo humor que Shirow Masamune imprime em cada página, entre a imagem e o texto. Que o formato de leitura invertido (da direita para a esquerda) não sirva de desculpa aos leitores ocidentais, por estranho que possa ser no início: o esforço adicional será recompensado. Ghost in the Shell, afinal, não é um dos mais ilustres representantes do cyberpunk por acaso. 

Título: Ghost in the Shell: Human-Error Processor
Autor: Shirow Masamune
Tradução: Frederik L. Schoot
Editora: Dark Horse Comics
Ano: 2007 (2003 na edição japonesa original)
Formato: Paperback
Páginas: 176
Género: Ficção Científica / Cyberpunk

28 de agosto de 2014

This happening world (21)

Em meados de Agosto, surgiu na Wired uma discussão muito interessante em dois artigos antagónicos sobre uma das principais tendências da ficção científica contemporânea: a distopia. A discussão começou com o artigo de Michael Solana, que aponta: Obviously science fiction is not the cause of the current mess we’re in. But for their capacity to change the way people think and feel about technology, the stories we tell ourselves can save us—if we can just escape the cool veneer of our dystopian house of horrors. Dois dias mais tarde, Devon Maloney contrapôsDystopian fiction mimics what it actually feels like to be in the world, so if it ends up scaring people, well, that’s because the world is scary. A verdade, a haver uma verdade, andará decerto a meio caminho de ambas as teses; e se é certo que a distopia sempre fez parte da ficção científica (sendo mesmo um dos seus géneros mais conhecidos - e apreciados - fora das suas fronteiras tradicionais), nem por isso deixa de ser verdade que falta à ficção científica moderna o optimismo e a esperança das histórias de outros tempos. Star Trek, que Solana refere de passagem, é em si todo um programa: nos remakes modernos, até a célebre frase de abertura to boldly go where no man has gone before deu lugar ao enfadonho Into Darkness

No portal da Tor, Chris McCrudden expõe doze razões para ler (e adorar) a série Discworld de Terry Pratchett. São doze boas razões (a Granny Weatherwax será talvez a melhor personagem da fantasia contemporânea), ainda que me veja obrigado a discordar do ponto 3: The Colour of Magic até pode ser o mais genérico de todos os livros de Discworld, mas é também o ponto de partida de toda a série; como tal, qualquer leitor que queira realmente conhecer o extraordinário universo ficcional que Pratchett desenvolveu ao longo das últimas três décadas deverá começar aqui, na aventura original de Rincewind e Twoflower, e deixar-se levar. É verdade que praticamente* cada livro de Discworld pode servir de porta de entrada para a série, mas há algo de muito gratificante na leitura sequencial, acompanhando a maturação da prosa e do estilo de Pratchett, e desvendando algumas piadas que só fazem sentido se o leitor já estiver familiarizado com alguns elementos de livros anteriores, por mais laterais que possam ser. 

No io9Annalee Newitz pergunta se alguma vez assistiremos a um fenómeno de cultura popular equivalente a Star Wars. Diria que já assistimos a um fenómeno aproximado, ainda que tenha partido do meio literário: Harry Potter. Num artigo não relacionado no Boing BoingCaroline Siede deixa algumas pistas para explicar como a série de livros de J. K. Rowling ajudou a moldar uma geração inteira, tendo um impacto assinalável em miúdos e graúdos um pouco por todo o mundo. 

Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances é o título da próxima colectânea de ficção curta de Neil Gaiman, com publicação prevista para o início de Fevereiro próximo. De acordo com o próprio Gaiman (via tumblr), ainda está a trabalhar no último conto da colecção. 

Fontes: WiredTor / io9 / Boing Boing 

* Há excepções. Sugerir The Light Fantastic como primeiro livro a ler é disparatado, já que este é uma sequela directa de The Colour of Magic. Da mesma forma, Lords and Ladies surge na sequência directa de Witches Abroad, e não será talvez a melhor leitura para entrar em Discworld

24 de agosto de 2014

Orson Scott Card (1951 - )

Orson Scott Card comemora hoje o seu 63º aniversário. Ender's Game, de 1985, será sem dúvida o seu romance mais conhecido - a história do jovem Andrew "Ender" Wiggin e da sua educação violenta para se tornar num estratega capaz de derrotar os invasores extra-terrestres tornou-se num fenómeno duradouro e num dos textos mais populares da ficção científica literária. Com Ender e com a sua primeira sequela, Speaker for the Dead (1986), Card tornou-se no primeiro (e até agora único) autor a vencer os prémios Hugo e Nébula na categoria de "Melhor Romance" em dois anos consecutivos. No universo ficcional de Ender já foram publicados 15 romances, estando mais alguns previstos; na bibliografia de Card merece ainda destaque a série Tales of Alvin Maker, iniciada em 1987 com o romance The Seventh Son. Para assinalar a efeméride, fica aqui a referência para o pequeno texto biográfico publicado no ano passado

Citação fantástica (149)

When you really know somebody you can’t hate them. Or maybe it’s just that you can’t really know them until you stop hating them.

Orson Scott Card, Speaker for the Dead (1986)

22 de agosto de 2014

City of Illusions: Memórias e ilusões

Antes de conquistar a fantasia e a ficção científica com dois clássicos absolutos - A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente -, Ursula K. Le Guin começou por desenvolver em três romances curtos um universo ficcional que, enquadrando-se na ficção científica (era o género mais popular na época), acabam por evocar uma certa atmosfera e algumas convenções da fantasia literária. City of Illusions, de 1967, fecha o ciclo iniciado um ano antes por Rocannon's World e por Planet of Exile, com os quais surgiu o "Hainish Cycle" que viria a enquadrar algumas das suas obras maiores - e fá-lo com um romance que, longe de ser um dos melhores da sua bibliografia, nem por isso deixa de ser um curioso Le Guin vintage, uma exploração inicial de uma autora à procura da sua voz literária e do seu próprio território temático.

E nesse território temático encontra-se a procura da verdade, tema que explorou a partir de várias perspectivas ao longo da sua obra. Aqui, fá-lo através de um enigma em forma de personagem: um homem anónimo e sem memória e com a mente esvaziada, perdido numa vasta floresta na Terra, encontrado por uma pequena comunidade isolada entre as árvores. Os seus olhos cor de âmbar, a lembrar os de um felino, marcam-no como estranho, atribuem-lhe uma origem desconhecida e possivelmente extra-terrestre; mas a desconfiança de alguns elementos da comunidade não é suficiente para demover o líder, que o aceita entre os seus, permite a sua educação e concede que lhe seja atribuído um nome: Falk. Durante os anos que se seguem, Falk aprende com a comunidade, e em especial com a jovem Parth, o que é ser humano - como falar, como caçar, como ser parte de todo e não um indivíduo isolado, reduzido a um estado primitivo e quase selvagem. Naquela comunidade perdida, mantida em segredo pelo receio do Inimigo, dos misteriosos Shing que mantém o mundo preso no marasmo civilizacional, Falk passa por uma rápida infância e torna-se num novo homem - mas atrás de si reside uma escuridão incomensurável, um passado desconhecido que o assombra a cada momento, e que o leva a perguntar se haverá um futuro diferente.

É esse passado e essa expectativa de futuro que leva Falk a deixar a comunidade, rumo ao desconhecido que existe para lá dos limites da floresta que, para o povo que o acolheu, é praticamente tudo o que conhecem. Como destino da sua demanda está Es Toch, a lendária - e temida - cidade dos Shing, onde Falk espera encontrar as suas respostas. Mas se o caminho para lá chegar será sinuoso - as demandas, afinal, nunca são fáceis, as respostas que irá obter poderão ser bem diferentes do que alguma vez imaginara.

A prosa da jovem Le Guin já aqui transporta a trama com facilidade, elevando-a de forma considerável em alguns momentos - as suas descrições de Es Toch são notáveis pela abstracção que evoca, e é fascinante vê-la a passar de um registo de quase fábula, como a estada de Falk na casa do eremita na floresta com os animais que falam, para as descrições tecnológicas de alguns momentos de pura ficção científica. Tal como nos romances anteriores, Le Guin revela-se hábil na combinação nem sempre provável da fantasia com a ficção científica, e utiliza-a para construir a Terra num futuro distante que há muito deixou o apocalipse da queda da Liga de Todos os Mundos para trás. O longo travelogue de Falk serve precisamente para apresentar todo esse mundo, bem mais vasto do que as fronteiras da floresta original - e ainda que por vezes careça do ritmo apropriado para se tornar numa parte mais estimulante, nem por isso deixa de ser eficaz neste propósito.

Dito isto, City of Illusions não deixa de ter os seus problemas - com os Shing e a sua caracterização a serem um dos principais, mas não o único. O ritmo narrativo, mais incerto do que nos romances anteriores, revela-se demasiado lento na primeira parte, após um início sólido e um final aberto bastante satisfatório. Ainda longe da forma perfeita de The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed, Le Guin não toma algumas opções mais arriscadas, e em vários momentos sente-se que toda a trama poderia beneficiar de mais alguma energia e, sobretudo, de mais alguma ousadia e ambiguidade. E, claro, de mais alguma complexidade nas personagens - mais mais do que aos Shing, falta desenvolvimento a Estrel, que tem um papel fundamental no romance, e ao próprio protagonista. Ainda assim, a forma como o mistério em volta de Falk é tecido funciona bastante bem (com uma excelente red herring a meio), e a duplicidade dos Shing dá um estímulo fundamental aos últimos capítulos.

Olhando agora para trás, faz todo o sentido que Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions estejam hoje em dia publicados num único volume - ainda que não constituam uma trilogia no sentido convencional do termo, há entre eles ligações mais do que suficientes (e sobretudo entre os dois últimos) para justificar a opção e dar uma certa noção de continuidade. Uma continuidade que sai reforçada pelo tom das três histórias, pela forma como Le Guin desenvolve ficção científica em território de fantasia (ou vice-versa), e por alguns temas que acabam por se cruzar e sobrepor, explorados a partir de pontos de vista distintos. Não são o melhor de Le Guin, de facto - mas são um início promissor, ainda que discreto na sua época, e ilustram na perfeição como conseguiu a autora avançar em simultâneo por duas vertentes tão distintas como a sua ficção científica mais complexa e as histórias de fantasia de Earthsea, estabelecendo-se como uma das maiores autoras em ambos os géneros. Para os fãs de Le Guin, serão decerto leitura obrigatória; para os apreciadores de ficção científica e de fantasia, ficam como leitura recomendada. 

Título: Worlds of Exile and Illusion (Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions)
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Orb Books/Tor
Ano: 1996 (1966-1966-1967)
Formato: Paperback
Páginas: 370
Género: Ficção Científica

21 de agosto de 2014

Automata: Primeiro trailer

Será talvez difícil para alguém com um conhecimento razoável da ficção científica literária e cinematográfica ver o primeiro trailer de Automata, o filme do realizador espanhol Gabe Ibañez com António Banderas no papel principal, sem sentir que está perante um conjunto de ideias já muito exploradas pelo género num formato ou noutro - numa mistura das duas curtas Second Renaissance do universo ficcional de The Matrix com Blade Runner e Ghost in the Shell (e com mil-e-um outros filmes e livros que abordaram temáticas similares ou aproximadas), bem temperadas com as Leis da Robótica de Asimov e com uma estética devastada próxima de um District 9. Mas tal mistura, por derivativa que (aparentemente) seja, nem por isso deixa de ser curiosa; e é bem possível que Automata se possa revelar um filme independente bastante interessante, capaz de trazer de volta para a ribalta um dos temas mais antigos e populares da ficção científica.

Automata ainda não tem data de estreia prevista. Abaixo, o trailer.



Fonte: The Verge

20 de agosto de 2014

Greg Bear (1951 - )

Com várias dezenas de romances publicados desde o final dos anos 60, Greg Bear é um dos mais prolíficos autores da ficção científica contemporânea, com uma obra vasta, relevante e multifacetada no género. Destroyers é o título do seu primeiro conto publicado, em 1967, nas páginas da revista Famous Science Fiction; e doze anos mais tarde, em 1979, seria publicado o seu primeiro romance, Hegira, seguido logo por Psychalone no mesmo ano. Mas foi com os contos Hardfought e Blood Music que começou a dar que falar, ao conquistar em 1984 o Prémio Nébula para "Best Novella" com o primeiro, e os prémios Nébula e Hugo para "Best Novelette" com o segundo. Blood Music viria a ser expandido para um romance no ano seguinte, mantendo o título mas alargando a trama.

Na sua bibliografia incluem-se vários romances individuais, como Dinosaur Summer (1998), City at the End of Time (2008) e Hull Zero Three, entre outros (como o já referido Blood Music, talvez o seu título mais conhecido), assim como várias séries desenvolvidas ao longo da carreira. The Forge of God (1987) e Anvil of Stars (1992) formam uma pequena série de dois livros; um modelo seguido anos mais tarde com Darwin's Radio (1999) e Darwin's Children (2003). Mas também tem séries mais longas, como The Way (EonEternityLegacy e The Way of All Ghosts, de 1985, 1988, 1995 e 1999 respectivamente) ou Quantum Logic (Queen of Angels e Heads (1990), Moving MarsSlant (1997), Quantico (2005) e Mariposa, de 1990, 1993, 1997, 2005 e 2009). A série Songs of Earth and Power, composta por The Infinity Concerto (1984) e The Serpent Mage (1986) marcam a sua incursão na fantasia literária. Bear escreveu ainda para universos ficcionais de terceiros, como Foundation, Star Trek, Man-Kzin Wars e Halo.

A sua actividade no fandom merece também destaque: na juventude, contribuiu para a fundação da San Diego Comic Con, hoje o maior evento de pop culture em todo o mundo; e já desempenhou vários cargos na Science Fiction Association of America. Está casado desde 1983 com Astrid Anderson, filha de um autor de destaque da ficção científica e da fantasia: Poul Anderson. 

Gregory Dale "Greg" Bear nasceu a 20 de Agosto em San Diego, na Califórnia, e celebra hoje o seu 63º aniversário.

19 de agosto de 2014

Guardians of the Galaxy: Aventura vintage

Talvez seja seguro afirmar que a space opera está em franco ressurgimento na ficção científica contemporânea, regressando para o topo do género com o qual tantas vezes se confunde (ou é confundida, melhor dizendo). Na literatura, Ancillary Justice, de Ann Leckie, conquistou tanto a crítica como o público, tornado-se aos poucos numa força imparável nos prémios da ficção de género em 2014; ao mesmo tempo, séries como Expanse, de James S. A. Corey e Culture, de Iain M. Banks, gozam de uma popularidade invejável (com a primeira a ter até uma adaptação televisiva projectada, pelo SyFy Channel). Nos videojogos, e depois do sucesso avassalador de Mass Effect e do êxito de nicho de EVE Online, os próximos tempos parecem preparar-se para celebrar o regresso dos space sims, um género quase votado ao esquecimento nas últimas duas décadas, recuperado pelo crowdfunding em títulos tão arrojados como Star Citizen, Elite: Dangerous e No Man's Sky. E no cinema, as mais clássicas space operas estão de volta, com Star Trek em alta após dois filmes bem sucedidos nas bilheteiras e com o hype em redor do próximo episódio de Star Wars e dos planos da Disney para a franchise a roçarem já o insuportável. Colocadas as coisas neste contexto, parecerá talvez segura a aposta da Marvel em Guardians of the Galaxy, adaptando para o grande ecrã a recente reimaginação de 2008 de um título mais antigo; mas a verdade é que reduzir o sucesso do filme às circunstâncias do género e do fandom acaba por ser um tanto ou quanto redutor.


Isto porque, para todos os efeitos, a aposta foi de facto arriscada - em parte também pelo mesmo contexto. Se é certo que o Marvel Cinematic Universe não transporta em si a seriedade e a solenidade que têm sido características da produção cinematográfica mais recente da rival DC, nem por isso, contudo, deixa a longa-metragem de James Gunn de ser um objecto dissonante na continuidade de filmes da Marvel: o humor assume desde os primeiros momentos um lugar de destaque na construção da narrativa, dando a todo o filme um tom mais ligeiro e extraordinariamente refrescante nos dias que correm, marcados pelo cinzentismo da ambiguidade distópica.


De certa forma, acaba por ser essa opção pela ligeireza e pela diversão que acaba por elevar este Guardians of the Galaxy de James Gunn e de o tornar num filme imperdível, notável a praticamente todos os níveis. No tom ouvem-se os ecos das aventuras cinematográficas de outros tempos, bem ritmadas e repletas de gags e de situações impossíveis resolvidas com alguma improvisação e com muito humor - como vimos, deliciados, em clássicos da aventura como Indiana Jones, ou em clássicos da ficção científica como The Fifth Element (que, creio, está mais próximo de Guardians do que o inevitável Star Wars). Heróis e vilões encontram-se muito bem separados, mesmo quando os primeiros têm origens que são tudo menos nobres (os rogues, afinal, também são um clássico do género).


Estes ecos vintage, de outros tempos, surgem reforçados pela surpreende veia nostálgica do filme, muito bem ancorada na personagem de Peter Quill/Star-Lord (Chris Pratt num desempenho memorável, em simultâneo protagonista e comic relief). Há na sua nave, a Milano, toda uma série de memorabilia extraída dos anos 80 para a civilização galáctica do futuro (em contar, claro, com as inúmeras referências pop que faz ao longo do filme, em diálogos tão inspirados como divertidos). Com o artefacto mais importante a ser o seu walkman com a cassete Awesome Mix vol. 1, que serve de pretexto à espantosa banda sonora pop-rock de raízes punk, glam e blues (entre outras), onde figuram nomes como David Bowie, Blue Suede, Jackson 5, Marvin Gaye e The Runaways. Longe de ser um aspecto meramente complementar do filme, a banda sonora é responsável em larga medida pelos tais ecos vintage e por conferir a toda a trama uma energia muito própria, única na ficção científica contemporânea.


E depois temos as personagens, claro - com Guardians of the Galaxy a apresentar aquele que será talvez o melhor elenco de todo o Marvel Cinematic Universe. No que diz respeito aos protagonistas reais, a surpresa vai para o Drax de Dave Bautista, o wrestler profissional aqui tornado num inesquecível colosso deadpan de vocabulário elaborado. A Gamora de Zoe Saldana revela-se competente q.b., com uma excelente química com o resto da equipa - ainda que fique a sensação de que o guião não a deixou ir mais longe. Mas quem rouba o espectáculo, mais até do que Chris Pratt, são as duas personagens geradas por computador: Rocket e Groot, a quem Bradley Cooper e Vin Diesel emprestaram as respectivas vozes para construírem uma dupla memorável.


No entanto, perante uma equipa de heróis tão consistente e perante um conjunto notável de personagens secundárias (onde figuram nomes como John C. Reilly, Glenn Close e Michael Rooker, este numa versão espacial do seu Merle de The Walking Dead), será talvez impossível não reparar como um dos calcanhares de Aquiles do filme acaba por ser os vilões. Não por culpa dos actores, entenda-se: há em Karen Gillan, Lee Pace e Josh Brolin talento mais do que suficiente para muitos vilões em muitos filmes, e isso nota-se em alguns momentos. No entanto, o Thanos de Brolin aparece quase só de passagem (ainda que seja uma aparição relevante), e a Nebula de Gillan surge muito desaproveitada. Resta o Ronan the Accuser de Lee Pace, com uma motivação pouco sustentada e sem aquele carisma exagerado que talvez lhe permitisse erguer-se acima dos clichés da sua personagem (como acontece com o magnífico Zorg de Gary Oldman em The Fifth Element). O seu momento de glória naquele inesperado confronto com Star-Lord, quase no final do filme, não é suficiente para resgatar a personagem.


Já a outra fraqueza de Guardians of the Galaxy acaba por se revelar bem mais problemática do que os seus vilões. Por mais "fora do baralho" que seja, Guardians integra o Marvel Cinematic Universe - e isso nota-se mais do que seria talvez desejável para um filme que se revela tão refrescante em tantos momentos. Com toda a sua ligeireza e todo o seu humor, o filme nunca consegue sair do espartilho do franchising, sublinhado pelos ganchos evidentes à sequela (na prática, o filme é uma origin story de duas horas) e reforçado pela integração numa continuidade mais vasta, que emerge nas aparições de Thanos e do Collector (já referidos nas cenas pós-créditos de The Avengers e Thor 2: The Dark World, respectivamente) e que se manifesta de forma definitiva no MacGuffin que serve de pretexto a toda a trama: a Infinity Stone.


Em última análise, Guardians of the Galaxy acaba por ser mais revolucionário no contexto do Marvel Cinematic Universe do que na ficção científica em geral - com todo o encantamento do seu worldbuilding e todo o charme do seu tom retro, acaba por não ser mais do que uma engrenagem na máquina cinematográfica do universo partilhado da Marvel. Uma engrenagem glorificada, é certo, mas ainda assim uma engrenagem, um pequeno ponto de algo mais vasto e não o ponto de partida para algo novo e irresistível, capaz de se tornar numa força cultural como Star Wars conseguiu nos anos 70; e também por isso nunca será comparável ao clássico de George Lucas. No fundo, e mais do que introduzir personagens e plot points, serve para demonstrar que neste momento a Marvel consegue vender no grande ecrã até as suas propriedades intelectuais mais secundárias.


Ainda assim, o balanço que se retira de Guardians of the Galaxy é extremamente positivo. Pode não estar aqui a revolução de que a space opera cinematográfica talvez necessite, com um equivalente à sofisticação conceptual dos universos literários de Hyperion, Culture ou ao novíssimo Imperial Radch, mas há muito para apreciar na sua nostalgia vintage, na ligeireza que recupera de outros tempos e que tanta falta faz nestes tempos de distopia e grimdark, e no carisma bem humorado dos seus heróis. Com uma componente visual exemplar, uma banda sonora duradoura (até porque testada pelo tempo) e uma mão-cheia de personagens memoráveis, Guardians of the Galaxy é sem dúvida o grande blockbuster deste Verão - e se é uma pena que lhe falte autonomia para vôos mais altos, nem por isso deixa de ser um exemplo perfeito do mais puro, despretensioso e nostálgico entretenimento. 8.2/10

Guardians of the Galaxy (2014)
Realização de James Gunn
Argumento de Nicole Perlman e James Gunn
Com Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Karen Gillan, Michael Rooker, Josh Brolin, Glenn Close, John C. Reilly, Benicio Del Toro e Djomon Hounsou
121 minutos

(nota: texto editado para corrigir uma gralha e dois disparates gramaticais)

18 de agosto de 2014

Brian Aldiss (1925 - )

Brian Aldiss comemora hoje o seu 89º aniversário. Na sua bibliografia encontramos contos como o célebre Super-Toys Last All Summer Long, romances clássicos como Non-Stop, Greybeard e a trilogia Helliconia, e obras relevantes para o género como Billion Year Spree: The History of Science Fiction, mais tarde alargado para um novo volume intitulado Trillion Year Spree (com David Wingrove). No ano passado, por ocasião do aniversário do autor, publicou-se por aqui esta pequena biografia; fica como destaque para este ano também. 

17 de agosto de 2014

Ancillary Justice, de Ann Leckie, vence o Hugo Award 2014 na categoria de "Melhor Romance"

Ancillary Justice, de Ann Leckie, conquistou o Prémio Hugo na muito cobiçada categoria de "Best Novel" - um galardão que se vai juntar aos prémios Nébula, Arthur C. Clarke e British Science Fiction, o que torna o romance de estreia de Leckie num dos romances de ficção científica mais premiados no seu ano de publicação. É um prémio justo para um romance notável, inteligente e desafiante, que não merecia ser preterido para a longa saga de fantasia épica The Wheel of Time, submetida a concurso no seu todo devido ao lançamento do seu último volume, A Memory of Light, no ano passado.

No que diz respeito aos restantes prémios, Charles Stross, Mary Robinette Kowal e John Chu venceram nas categorias de ficção curta; Gravity, de Alfonso Cuarón, levou o foguetão para a categoria de "Best Dramatic Presentation, Long Form"; e na "Short Form", Game of Thrones destornou o já clássico vencedor da categoria, Dr. Who (numa Worldcon decorrida em Londres, o que pode tornar a coisa ainda mais especial), com o nono episódio da terceira temporada (o célebre e polémico "The Rains of Castamere").

A cerimónia de entrega dos Prémios Hugo decorreu hoje em Londres, na LonCon 3. Abaixo, a lista completa dos vencedores por categoria:

Best Novel:
  • Ancillary Justice, de Ann Leckie (Orbit)
  • Neptune’s Brood, de Charles Stross (Ace/Orbit)
  • Parasite, de Mira Grant (Orbit)
  • Warbound (Terceiro Volume das Grimnoir Chronicles), de Larry Correia (Baen Books)
  • The Wheel of Time, de Robert Jordan e Brandon Sanderson (Tor Books)
Best Novella:
  • Equoid, de Charles Stross (Tor.com, 09/2013)
  • The Butcher of Khardov, de Dan Wells (Privateer Press)
  • The Chaplain’s Legacy, de Brad Torgersen (Analog, 07-08/2013)
  • Six-Gun Snow White, de Catherynne M. Valente (Subterranean Press)
  • Wakulla Springs, de Andy Duncan e Ellen Klages (Tor.com, 10/2013)
Best Novelette:
  • The Lady Astronaut of Mars, de Mary Robinette Kowal (Tor.com, 09/2013)
  • Opera Vita Aeterna, de Vox Day (The Last Witchking, Marcher Lord Hinterlands)
  • The Exchange Officers, de Brad Torgersen (Analog, 01-02/2013)
  • The Truth of Fact, the Truth of Feeling, de Ted Chiang (Subterranean Press Magazine, Outono de 2013)
  • The Waiting Stars, de Aliette de Bodard (The Other Half of the Sky, Candlemark & Gleam)
Best Short Story:
  • The Water That Falls on You from Nowhere, de John Chu (Tor.com, 02/2013)
  • If You Were a Dinosaur, My Love, de Rachel Swirsky (Apex Magazine, 03/2013)
  • The Ink Readers of Doi Saket, de Thomas Olde Heuvelt (Tor.com, 04/2013)
  • Selkie Stories Are for Losers, de Sofia Samatar (Strange Horizons, 04/2013)
Best Related Work:
  • We Have Always Fought: Challenging the Women, Cattle and Slaves Narrative, de Kameron Hurley (A Dribble of Ink)
  • Queers Dig Time Lords: A Celebration of Doctor Who by the LGBTQ Fans Who Love It, edição de Sigrid Ellis e Michael Damien Thomas (Mad Norwegian Press)
  • Speculative Fiction 2012: The Best Online Reviews, Essays and Commentary, de Justin Landon e Jared Shurin (Jurassic London)
  • Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction, de Jeff VanderMeer, com Jeremy Zerfoss (Abrams Image)
  • Writing Excuses Season 8, de Brandon Sanderson, Dan Wells, Mary Robinette Kowal, Howard Tayler e Jordan Sanderson
Best Graphic Story:
  • Time, de Randall Munroe (XKCD)
  • Girl Genius Vol 13: Agatha Heterodyne & The Sleeping City, com escrita de Phil e Kaja Foglion, arte de Phil Foglio e cor de Cheyenne Wright (Airship Entertainment)
  • The Girl Who Loved Doctor Who, com escrita de Paul Cornell, e ilustração de Jimmy Broxton (Doctor Who Special 2013, IDW)
  • The Meathouse Man, adaptado da história de George R.R. Martin e com ilustração de Raya Golden (Jet City Comics)
  • Saga, Vol 2, com escrita de Brian K. Vaughn e ilustração de Fiona Staples (Image Comics)
Best Dramatic Presentation, Long Form:
  • Gravity, com realização de Alfonso Cuarón e argumento de Alfonso e Jonás Cuarón (Esperanto Filmoj; Heyday Films; Warner Bros.)
  • Frozen, com realização de Chris Buck e Jennifer Lee, e argumento de Jennifer Lee (Walt Disney Studios)
  • The Hunger Games: Catching Fire, com realização de Francis Lawrence e argumento de Simon Beaufoy e Michael Arndt (Color Force; Lionsgate)
  • Iron Man 3, com realização de Shane Black e aragumento de Drew Pearce e Shane Black (Marvel Studios; DMG Entertainment; Paramount Pictures)
  • Pacific Rim, com realização de Guillermo Del Toro e argumento de Travis Beacham e Guillermo Del Toro (Legendary Pictures, Warner Bros., Disney Double Dare You)
Best Dramatic Presentation, Short Form:
  • Game of Thrones: “The Rains of Castamere”, com argumento de David Benioff e D.B. Weiss e realização de David Nutter (HBO Entertainment)
  • An Adventure in Space and Time Written, de Mark Gatiss, com realização de Terry McDonough (BBC Television)
  • Doctor Who: “The Day of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Nick Hurran (BBC)
  • Doctor Who: “The Name of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Saul Metzstein (BBC)
  • The Five(ish) Doctors Reboot, com argumento e realização de Peter Davison (BBC Television)
  • Orphan Black: “Variations under Domestication”, com argumento de Will Pascoe e realização de John Fawcett (Temple Street Productions; Space/BBC America)
Best Editor - Short Form:
  • Ellen Datlow
  • John Joseph Adams
  • Neil Clarke
  • Jonathan Strahan
  • Sheila Williams
Best Editor - Long Form:
  • Ginjer Buchanan
  • Sheila Gilbert
  • Liz Gorinsky
  • Lee Harris
  • Toni Weisskopf
Best Professional Artist:
  • Julie Dillon
  • Galen Dara
  • Daniel Dos Santos
  • John Harris
  • John Picacio
  • Fiona Staples
Best Semiprozine:
  • Lightspeed Magazine, com edição de John Joseph Adams, Rich Horton e Stefan Rudnicki
  • Apex Magazine, com edição de Lynne M. Thomas, Jason Sizemore e Michael Damian Thomas
  • Beneath Ceaseless Skies, com edição de Scott H. Andrews
  • Interzone, com edição de Andy Cox
  • Strange Horizons, com edição de Niall Harrison, Brit Mandelo, An Owomoyela, Julia Rios, Sonya Taaffe, Abigail Nussbaum, Rebecca Cross, Anaea Lay e Shane Gavin
Best Fanzine:
  • A Dribble of Ink, com edição de Aidan Moher
  • The Book Smugglers, com edição de Ana Grilo e Thea James
  • Elitist Book Reviews, com edição de Steven Diamond
  • Journey Planet, com edição de James Bacon, Christopher J Garcia, Lynda E. Rucker, Pete Young, Colin Harris e Helen J. Montgomery
  • Pornokitsch, com edição de Anne C. Perry e Jared Shurin
Best Fancast:
  • SF Signal Podcast, de Patrick Hester
  • The Coode Street Podcast, de Jonathan Strahan e Gary K. Wolfe
  • Doctor Who: Verity!, de Deborah Stanish, Erika Ensign, Katrina Griffiths, L.M. Myles, Lynne M. Thomas e Tansy Rayner Roberts
  • Galactic Suburbia Podcast, de Alisa Krasnostein, Alexandra Pierce, Tansy Rayner Roberts (Apresentadores) e Andrew Finch (Produtor)
  • The Skiffy and Fanty Show, de Shaun Duke, Jen Zink, Julia Rios, Paul Weimer, David Annandale, Mike Underwood e Stina Leicht
  • Tea and Jeopardy, de Emma Newman
  • The Writer and the Critic, Kirstyn McDermott e Ian Mond
Best Fan Writer:
  • Kameron Hurley
  • Liz Bourke
  • Foz Meadows
  • Abigail Nussbaum
  • Mark Oshiro
Best Fan Artist:
  • Sarah Webb
  • Brad W. Foster
  • Mandie Manzano
  • Spring Schoenhuth
  • Steve Stiles
John W. Campbell Award for Best New Writer:
  • Sofia Samatar
  • Wesley Chu
  • Max Gladstone
  • Ramez Naam
  • Benjanun Sriduangkaew
Fonte: Hugo Awards

16 de agosto de 2014

James Cameron (1954 - )

É bem possível que James Cameron fique para a história como o realizador que criou os maiores sucessos de bilheteira da história do cinema - os recordes milionários estabelecidos por Titanic em 1997 só foram batidos por Avatar em 2009. Mas a filmografia do realizador canadiano é mais do que os seus sucessos de bilheiteira, e o contributo que deu para a ficção científica cinematográfica dos últimos 30 anos é praticamente incomparável. Em 1984 fez estrear Terminator, sobre um andróide assassino (Arnold Schwarzenegger) enviado de um futuro pós-apocalíptico para o presente com o objectivo de eliminar Sarah Connor (Linda Hamilton), mãe daquele que será o líder da rebelião humana contra as inteligências artificiais da Skynet, que quase erradicaram a Humanidade; sete anos mais tarde deu continuidade à história em Terminator 2: Judgment Day, colocando o antigo vilão no papel de herói, e criando um novo terminator, o célebre T-1000 de Robert Patrick.

Cinco anos antes, em 1986, realizou uma incursão ao universo ficcional criado por Ridley Scott no final da década de 70 com Alien; compreendendo que repetir a atmosfera do original, optou pela via da ficção científica militar num filme de acção tenso como poucos. O resultado foi Aliens, um dos raros casos em que a sequela, nas mãos de outro realizador, se revela capaz de fazer justiça ao filme original. E entre Aliens e Terminator 2 houve ainda tempo para The Abyss, onde conseguiu explorar, num contexto de ficção científica, uma das suas grandes paixões: a exploração do fundo do mar (a título de exemplo, em 2012 desceu sozinho num submersível ao fundo da Fossa das Marianas).

Após mais de uma década afastado do grande ecrã (dedicou-se, entre outros projectos, à série televisiva Dark Angel), regressou em 2009 com Avatar, um êxito estrondoso que pulverizou recordes de bilheteira em todo o mundo e revolucionou as tecnologias de motion capture e que relançou toda a indústria do 3-D no cinema - ainda que, diga-se de passagem, poucos filmes estreados neste formato desde então conseguem ombrear com a experiência assombrosa de Avatar em IMAX 3D. Actualmente, Cameron encontra-se a trabalhar no regresso ao mundo de Pandora em três sequelas.

James Cameron nasceu a 16 de Agosto de 1954 em Kapuskasing, na província de Ontário, no Canadá, e celebra hoje o seu 60º aniversário.

Kapuskasing, Ontario,

Hugo Gernsback (1884 - 1967)

Amanhã à noite serão entregues na Worldcon 2014 em Londres os prémios Hugo, distinguindo a melhor ficção científica do ano passado - com o já icónico troféu em forma de foguetão a ser atribuído em honra de Hugo Gernsback, o inventor norte-americano de origem luxemburguesa que em 1926 fundou a Amazing Stories. E a importância deste projecto não pode ser menosprezada: na qualidade de primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica, lançou as bases do género literário enquanto tal ao dar origem a um mercado que floresceu nos anos que se seguiriam, e ao lançar alguns dos mais consagrados autores que a ficção científica já conheceu (como Isaac Asimov, Ursula K. Le Guin e Roger Zelazny, entre outros). E também - sobretudo, dirão alguns - por ser nas páginas daquela revista inovadora que o fandom teve o seu início, através da secção de cartas dos leitores que está na origem da noção de comunidade em redor da ficção científica.

A partir da fundação da Amazing Stories, Gernsback esteve quase sempre ligado à área editorial no género. Wonder Stories e Science-Fiction Plus são alguns dos títulos que fundou. Antes disso, desenvolveu uma actividade também relevante como inventor, sobretudo na área das transmissões de rádio (à época ainda a dar os primeiros passos). A sua primeira experiência editorial advém desses anos nas primeiras décadas do século XX.

Hugo Gernsback nasceu a 16 de Agosto de 1884 em Bonnevoie, no Luxemburgo (há 130 anos), e faleceu a 19 de Agosto de 1967 em Manhattan, nos Estados Unidos.  

15 de agosto de 2014

O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias: Regresso ao futuro pela ironia cósmica

Por estranho que possa parecer aos leitores mais novos (entre os quais me incluo), houve um tempo, e não tão distante quanto isso, em que se publicava por cá ficção científica em quantidade e também em qualidade (pelo menos na selecção de títulos). E essa publicação incluía autores também alguns autores portugueses, uns poucos que seguiram a trajectória habitual nos fandoms anglo-saxónicos de leitores ávidos para fãs entusiasmados para autores capazes de se afirmar pelos seus méritos estilísticos, pela originalidade das suas vozes e pela sua capacidade de dar um cunho pessoal a convenções e ideias importadas de um género que, antes deles, pouca tradição encontrava por cá. João Barreiros é um desses leitores/fãs/autores, formado no género durante os anos de ouro das colecções, tendo desenvolvido uma actividade ímpar como editor, antologista, tradutor e autor. Haverá decerto outras ocasiões para explorar as restantes facetas de Barreiros; hoje, o tema será a sua obra inicial enquanto autor, com a ficção curta compilada numa colectânea publicada na "colecção azul" da Caminho nos idos gloriosos de 1994: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias.

Que um livro como este Caçador de Brinquedos não seja hoje fácil de encontrar em qualquer estante de uma livraria que se preze, numa edição revista com capa nova e um pequeno selo a indicar uma quarta ou quinta edição (ou, neste ano de 2014, a assinalar o vigésimo aniversário da publicação original) diz praticamente tudo o que há a dizer sobre o estado estrago da ficção científica literária nacional, com os títulos originais de outros anos votados ao esquecimento e relegados às actividades quase arqueológicas dos alfarrabistas (e dos respectivos clientes), e com as novas edições traduzidas a surgirem de forma tão isolada como fugaz. Quem tiver a sorte de encontrar um exemplar sobrevivente às labaredas dos nossos pequenos Montags editoriais terá nas mãos não só um tesouro de uma era perdida, como também uma das mais importantes obras da ficção científica portuguesa.

Essa importância advém não tanto da questão da raridade mas sobretudo por mostrar alguns dos primeiros textos de ficção de João Barreiros, onde o autor começou a dar forma ao seu estilo inconfundível e aos temas e motivos que se tornaram mais ou menos recorrentes na sua obra. Como a desconstrução e a subversão da iconografia e do imaginário infantis, tão bem sintetizada no conto que dá título à colectânea: O Caçador de Brinquedos. É uma pequena fábula, tão divertida somo sombria, na qual os brinquedos de que todos os miúdos gostam são infectados com um estranho vírus cibernético que os torna homicidas - e daí à guerra declarada para com os humanos adultos vai um pequeno passo, com o jovem Jimmy retido numa infância física falsa em nome de uma vingança pessoal. Ou o ataque mais ou menos velado à literatura mainstream, eterno némesis do géneros literários na percepção de inúmeros leitores: Quatro milhões de Lolitas é também isso, e mais - uma história muito curiosa, capaz de dar a volta às expectativas dos leitores em vários momentos. Como também o são as duas Crónicas do Exílio Lunar, duas histórias que partilham um universo ficcional intrigante, no qual uma raça alienígena designada como "Aranhetas" surge no Sistema Solar e causa o caos à sua passagem - refreada apenas pelo seu apetite ao mesmo tempo orgásmico e mortal (literalmente) pela literatura humana. A imagem de uma criatura alienígena a liquefazer-se enquanto ouvem passagens de Shakespeare ou Beckett tem uma força muito própria, e não deixa quase de saber a uma pequena vendetta pessoal para com os "solilóquios existenciais" da literatura dita "erudita". 

Mas este Caçador de Brinquedos esconde mais algumas pérolas. Um dia com Júlia na Necrosfera será talvez o melhor texto da colectânea - uma narrativa sombria que parece explorar os conceitos que Philip K. Dick apresentou no excepcional Ubik para os levar noutra direcção, mais próxima do renegado Jory do que das personagens principais, Glen Runciter e Joe Chip. Saldos é um ataque violento, hilariante e trágico ao consumismo exacerbado através de um desgraçado - os protagonistas de Barreiros tendem a sê-lo - que se vê apanhado, indefeso, nas malhas compulsivas de um centro comercial; um ataque que tenta também em A gaia-concorrência, ainda que com menos eficácia. Balada para um Katástrofopoeta transforma a destruição de Lisboa num reality show visto do céu, com um resgate ousado pelo meio. E Kulturkomandos e Alice e a semente de Nyack-Nyack, as duas excelentes histórias que compõem as Crónicas do Exílio Lunar, concluem a colectânea numa nota alta, com a narrativa excepcional do primeiro e a premissa cativante do segundo a merecerem destaque.

É claro que nem tudo em O Caçador de Brinquedos funciona na perfeição. A gaia-concorrência e Balada para um Katástrofopoeta serão porventura os textos mais fracos, ainda que ambos contenham elementos conceptuais de grande interesse e sirvam como exemplos da ironia refinada e do humor negro que se tornariam habituais na ficção científica de João Barreiros. Algumas das referências infantis poderão ser já excessivamente obscuras para um público contemporâneo mais jovem (o urso Fozzy, por exemplo). E alguns dos contos - como os dois últimos - acabam por saber a pouco. Nem por isso, porém, deixam de ser contos notáveis pela construção de mundo que exibem, pelas situações que as suas personagens enfrentam, pelo absurdo irónico e muito auto-consciente que se pode ler em cada linha. Com o bónus de que quem já estiver familiarizado com a restante obra de João Barreiros - em particular com Terrarium, o magmum opus escrito a meias com Luís Filipe Silva - encontrará aqui a génese de muitos elementos e de várias ideias que se tornariam relevantes mais tarde, devidamente viradas do avesso e refinadas pela ironia mais negra. Mais do que uma colectânea notável, O Caçador de Brinquedos é um autêntico "elo perdido" da ficção científica nacional - que, pela qualidade das suas narrativas e pela raridade da sua edição, merece ser relembrado e partilhado com as novas gerações de leitores. 

Título: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias
Autor: João Barreiros
Editora: Caminho
Ano: 1994
Formato: Paperback
Páginas: 242
Género: Ficção Científica

Retro Hugos 1939: Os vencedores

Com a Worldcon 2014 à porta, aproxima-se um dos momentos mais aguardados do ano no que à literatura de ficção científica e fantasia diz respeito: a cerimónia de entrega dos Prémios Hugo, que desde 1953 distinguem anualmente na World Science Fiction Convention o que de melhor se fez no género no ano anterior. E uma vez que neste ano se assinala o 75º aniversário da Worldcon (a primeira edição do certame teve lugar em Nova Iorque no ano de 1939 - mais conhecido, infelizmente, pelo início da Segunda Guerra Mundial), em paralelo aos Hugos relativos aos trabalhos de 2013 serão ainda atribuídos os "Retro Hugos" que distinguem, como se estivéssemos naquele fatídico ano de 1939, as melhores contribuições de 1938 para o género. Os vencedores já são conhecidos nas respectivas categorias:

Best Novel:
  • The Sword in the Stone, de T. H. White (Collins)
  • Carson of Venus, de Edgar Rice Burroughs (Argosy, Fevereiro de 1938)
  • Galactic Patrol, de E. E. Smith (Astounding Stories, Fevereiro de 1938)
  • The Legion of Time, de Jack Williamson (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • Out of the Silent Planet, de C. S. Lewis (The Bodley Head)

Best Novella: 
  • “Who Goes There?”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Science-Fiction, Agosto de 1938)
  • Anthem, de Ayn Rand (Cassell)
  • “A Matter of Form”, de H. L. Gold (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Sleepers of Mars”, de John Wyndham (Tales of Wonder, Março de 1938)
  • “The Time Trap”, de Henry Kuttner (Marvel Science Stories, Novembro de 1938)

Best Novelette:
  • “Rule 18”, de Clifford D. Simak (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • “Dead Knowledge”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Stories, Janeiro de 1938)
  • “Hollywood on the Moon”, de Henry Kuttner (Thrilling Wonder Stories, Abril de 1938)
  • “Pigeons From Hell”, de Robert E. Howard (Weird Tales, Maio de 1938)
  • “Werewoman”, de C. L. Moore (Leaves #2, Inverno de 1938)

Best Short Story:
  • “How We Went to Mars”, de Arthur C. Clarke (Amateur Science Stories, Março de 1938)
  • “The Faithful”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)
  • “Helen O’Loy”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Hollerbochen’s Dilemma”, de Ray Bradbury (Imagination!, Janeiro de 1938)
  • “Hyperpilosity”, de L. Sprague de Camp (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)

Best Dramatic Presentation - Short Form:
  • The War of the Worlds, de H. G. Wells. Argumento de Howard Koch e Anne Froelick; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • Around the World in 80 Days, de Jules Verne. Argumento e realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • A Christmas Carol, de Charles Dickens. Argumento e realização de Orson Welles (The Campbell Playhouse, CBS)
  • Dracula, de Bram Stoker. Argumento de Orson Welles e John Houseman; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • R. U. R., de Karel Capek. Produzido por Jan Bussell (BBC)

Best Editor - Short Form:
  • John W. Campbell
  • Walter H. Gillings
  • Ray Palmer
  • Mort Weisinger
  • Farnsworth Wright

Best Professional Artist:
  • Virgil Finlay
  • Margaret Brundage
  • Frank R. Paul
  • Alex Schomburg
  • H. W. Wesso

Best Fanzine:
  • Imagination!, com edição de Forrest J Ackerman
  • Fantascience Digest, com edição de Robert A. Madle
  • Fantasy News, com edição de James V. Taurasi
  • Novae Terrae, com edição de Maurice Hanson
  • Tomorrow, com edição de Doug Mayer

Best Fan Writer:
  • Ray Bradbury
  • Forrest J Ackerman
  • Arthur Wilson “Bob” Tucker
  • Harry Warner Jr.
  • Donald A. Wollheim

Special Committee Award:
  • Jerry Siegel & Joe Shuster

Fonte: Tor