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28 de agosto de 2014

This happening world (21)

Em meados de Agosto, surgiu na Wired uma discussão muito interessante em dois artigos antagónicos sobre uma das principais tendências da ficção científica contemporânea: a distopia. A discussão começou com o artigo de Michael Solana, que aponta: Obviously science fiction is not the cause of the current mess we’re in. But for their capacity to change the way people think and feel about technology, the stories we tell ourselves can save us—if we can just escape the cool veneer of our dystopian house of horrors. Dois dias mais tarde, Devon Maloney contrapôs: Dystopian fiction mimics what it actually feels like to be in the world, so if it ends up scaring people, well, that’s because the world is scary. A verdade, a haver uma verdade, andará decerto a meio caminho de ambas as teses; e se é certo que a distopia sempre fez parte da ficção científica (sendo mesmo um dos seus géneros mais conhecidos - e apreciados - fora das suas fronteiras tradicionais), nem por isso deixa de ser verdade que falta à ficção científica moderna o optimismo e a esperança das histórias de outros tempos. Star Trek, que Solana refere de passagem, é em si todo um programa: nos remakes modernos, até a célebre frase de abertura to boldly go where no man has gone before deu lugar ao enfadonho Into Darkness. 

No portal da Tor, Chris McCrudden expõe doze razões para ler (e adorar) a série Discworld de Terry Pratchett. São doze boas razões (a Granny Weatherwax será talvez a melhor personagem da fantasia contemporânea), ainda que me veja obrigado a discordar do ponto 3: The Colour of Magic até pode ser o mais genérico de todos os livros de Discworld, mas é também o ponto de partida de toda a série; como tal, qualquer leitor que queira realmente conhecer o extraordinário universo ficcional que Pratchett desenvolveu ao longo das últimas três décadas deverá começar aqui, na aventura original de Rincewind e Twoflower, e deixar-se levar. É verdade que praticamente* cada livro de Discworld pode servir de porta de entrada para a série, mas há algo de muito gratificante na leitura sequencial, acompanhando a maturação da prosa e do estilo de Pratchett, e desvendando algumas piadas que só fazem sentido se o leitor já estiver familiarizado com alguns elementos de livros anteriores, por mais laterais que possam ser. 

No io9, Annalee Newitz pergunta se alguma vez assistiremos a um fenómeno de cultura popular equivalente a Star Wars. Diria que já assistimos a um fenómeno aproximado, ainda que tenha partido do meio literário: Harry Potter. Num artigo não relacionado no Boing Boing, Caroline Siede deixa algumas pistas para explicar como a série de livros de J. K. Rowling ajudou a moldar uma geração inteira, tendo um impacto assinalável em miúdos e graúdos um pouco por todo o mundo. 

Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances é o título da próxima colectânea de ficção curta de Neil Gaiman, com publicação prevista para o início de Fevereiro próximo. De acordo com o próprio Gaiman (via tumblr), ainda está a trabalhar no último conto da colecção. 

Fontes: Wired / Tor / io9 / Boing Boing 

* Há excepções. Sugerir The Light Fantastic como primeiro livro a ler é disparatado, já que este é uma sequela directa de The Colour of Magic. Da mesma forma, Lords and Ladies surge na sequência directa de Witches Abroad, e não será talvez a melhor leitura para entrar em Discworld. 

4 de julho de 2014

Sandman Vol. 2: The Doll's House: O sonho e o pesadelo

É difícil falar de The Sandman a partir de qualquer uma das suas divisões - fascículos, novelas gráficas em trade paperback. A teia que Neil Gaiman tece adensa-se a cada vinheta, e cada pequena história só na aparência se mostra isolada ou de importância passageira, servindo de catalisador para a trama avançar por caminhos que se manifestam com frequência inesperados. Há alguns meses, dediquei este espaço ao primeiro volume da colecção, Preludes & Nocturnes, que junta os primeiros oito fascículos e estabelece uma certa continuidade narrativa nos universos de comics da DC (o próprio Sandman, de resto, é recuperado de forma especialmente imaginativa por Gaiman). Por uma questão de simplificação, e por as edições em trade paperback estarem a marcar o ritmo (lento) da leitura, avançarei hoje para o segundo volume, The Doll's House. 

O primeiro aspecto a notar nos oito contidos em The Doll's House é o afastamento notório e progressivo deste universo ficcional da restante continuidade da DC/Vertigo - depois da aparição de várias personagens clássicas como John Constantine, Martian Manhunter e Dr. Destiny, Sandman afasta-se dos cameos  para se centrar nas suas próprias personagens e na sua própria intriga. E aqui, no seu território, começa a lançar sementes que decerto darão frutos inesperados enquanto desenvolve a história de Rose Walker, neta de Unity Kinkaid, que padeceu na adolescência do misterioso sono que se abateu sobre algumas pessoas na sequência da captura e do subsequente encarceramento de Morpheus, para voltar a acordar na velhice. Rose está intimamente ligada ao Sonho, e na sua trama unem-se as fugas tortuosas de quatro criaturas do domínio de Morpheus, que o Senhor dos Sonhos se vê obrigado a perseguir e a capturar. Desire e Despair, duas Endless como o protagonista, são introduzidas logo no início da trama, numa tentativa de manipulação dos acontecimentos, e do seu irmão mais velho, para fins que só Desire conhecerá. 

A forma como Gaiman desenvolve a história através de histórias, com detalhes na aparência laterais a assumirem grande importância mais à frente, assemelha-se quase a uma tapeçaria que o autor tece com mestria, dando forma a um padrão ininteligível cuja verdadeira imagem só se poderá adivinhar quando tudo estiver dito - a cada ponto evocando aquilo que ficou para trás e deixando indícios do que se seguirá. No prólogo, uma viagem até um passado proto-mitológico que conta a história da Rainha Nada e do seu romance trágico com o Senhor dos Sonhos, encontramos uma passagem intrigante, aludida por Desire mas intimamente ligada à passagem de Morpheus pelo Inferno em Preludes, e a antever aquele que será porventura o mais importante dos acontecimentos narrados no quarto volume, Season of Mists. Da fuga de Brute e Glob emerge, com discrição, a família Hall, cujo único descendente assumirá um papel determinante no desfecho de toda a série; e do interlúdio entre Morpheus e Hob Gadling, introduz de passagem William Shakespeare e Johanna Constantine, que não surgem aqui por acaso. Outro autor, com mais ambição do que talento, poderia aqui dar um passo maior do que a perna e dispersar a trama ao ponto de se revelar impossível atar as várias pontas soltas e restabelecer a coesão do arco narrativo principal, mas Gaiman não dá ponto sem nó: cada pormenor surge encaixado com precisão no momento certo, sem que em momento algum a trama se disperse sem propósito; e a cada nova passagem consegue surpreender pela imaginação das suas tramas (a convenção de serial killers é de antologia).

Em The Doll's House encontramos um Gaiman na plena posse das suas capacidades de contador de histórias através da simbiose entre a palavra escrita e a ilustração - e a sua prosa eficaz, evocativa e rica em referências literárias faz-se acompanhar pela arte sólida e consistente de vários ilustradores e coloristas, como Mike Dringenberg, Malcolm Jones III, Chris Bachalo, Steve Parkhouse, Michael Zully, Dave McKean, Sam Kieth e Robbie Busch. Há momentos de grande inspiração, como o sonho de Rose com o censo no Sonho, deliciosamente expandido pelas páginas; ou a Parte 3, intitulada Playing House, no domínio nos sonhos de Jed, com uma ilustração soberba no confronto de Morpheus com um oponente inesperado. Mas mesmo a imagem acaba por ser um pouco secundária; Sandman, para todos os efeitos, continua a ser uma narrativa de carácter profundamente literário, cujos alicerces residem sobretudo na força das palavras de Gaiman e na verosimilhança das suas extraordinárias personagens, numa das histórias mais fascinantes da fantasia moderna. 

* Conclui há dias a leitura de Season of Mists, o quarto volume da colecção (logo falarei dele outro dia, depois de Dream Country). Ainda há, como é bom de ver, um longo caminho a percorrer nesta leitura fascinante, pelo que fica o apelo para que se evitem spoilers em eventuais comentários.

2 de julho de 2014

American Gods: Adaptação televisiva vai avançar na Starz

Ao que parece, a adaptação televisiva de American Gods não deverá ficar em águas de bacalhau depois de a HBO ter abandonado o projecto - a Starz anunciou ontem ir avançar com a adaptação do romance premiado de Neil Gaiman, com Michael Green (produtor executivo de Heroes) a assumir a função de showrunner e com Bryan Fuller (criador de Pushing Daisies e Hannibal) e o próprio Neil Gaiman como produtores. Green e Fuller vão ainda escrever o argumento para o episódio piloto. 

Para já, tudo o que se sabe deste projecto é aquilo que a Starz divulgou no seu comunicado de imprensa (onde merecerá talvez destaque o voto de confiança de Gaiman) - não se sabe se o projecto terá várias temporadas e se estenderá também a uma sequela ainda por publicar, como era o plano da HBO, ou se os novos produtores tencionam fazer algo diferente. De qualquer forma,a ressurreição deste projecto é uma excelente notícia, e uma oportunidade única para adaptar um dos melhores romances de fantasia da última década para o pequeno ecrã. 

Fontes: io9 / Tor.com / ComingSoon

30 de junho de 2014

Wayward Manor: A incursão de Neil Gaiman nos videojogos

Há já alguns meses que se sabe que Neil Gaiman, um dos mais multifacetados e talentosos autores do fantástico contemporâneo, prepara uma incursão nos videojogos - depois de se consagrar na literatura, na banda desenhada, no cinema e na televisão. Wayward Manor é o título desse videojogo - um puzzle game cuja acção decorre numa mansão gótica nos anos 20, com o jogador a assumir o papel de um fantasma que assombra aquele espaço, e que tem como missão fazer com que os actuais habitantes da casa a abandonem. O jogo, desenvolvido pelos estúdios da The Odd Gentleman e da Moonshark, tem lançamento previsto para 15 de Julho no Steam e na Humble Store - e já foi disponibilizado um teaser muito curioso.


Fonte: io9

29 de junho de 2014

Citação fantástica (141)

He was no longer scared of what tomorrow might bring because yesterday has brought it.

Neil Gaiman, American Gods (2001)

2 de março de 2014

Citação fantástica (109)

I feel very sorry for the professionals whenever they find another confusing skull, something that belonged to the wrong sort of people, or whenever they find statues or artifacts that confuse them - for they'll talk about the odd, but they won't talk about the impossible, which is where I feel sorry for them, for as soon as something becomes impossible it slipslides out of belief entirely, whether it's true or not. 

Neil Gaiman, American Gods (2001)

14 de fevereiro de 2014

Homens e avatares, homens e monstros, homens e alienígenas: ficção curta de Aliette de Bodard, Neil Gaiman e Joe Haldeman

Immersion, de Aliette de Bodard
Clarkesworld #69 (Junho de 2012)

Com várias nomeações recentes para os principais prémios literários de fantasia e ficção científica em categorias de ficção curta, a norte-americana de origem vietnamita e educação francesa Aliette de Bodard tem vindo a afirmar-se como uma das mais estimulantes novas vozes no género, com a sua ficção científica de pendor orientalista a soar algo dissonante - no melhor dos sentidos, note-se - para quem, como eu, estiver sobretudo familiarizado com a produção anglo-saxónica. Vencedor dos prémios Nébula e Locus na categoria "Best Short Story" (e nomeado para o Prémio Hugo), Immersion explora temas como a aculturação, globalização e o desejo de pertença intrínseco a cada um de nós - e fá-lo de forma excepcional, criando em poucas linhas um universo ficcional verosímil que sustenta todo o enredo e que enquadra na perfeição o dispositivo que está no centro da narrativa: o immerser, dispositivo que permite ao utilizador projectar para quem o rodeia não a sua imagem real mas uma imagem idealizada em termos estéticos e culturais. Com duas perspectivas distintas, Bodard coloca em confronto duas personagens que simbolizam dois modos radicalmente diversos de estar na vida: na terceira pessoa, o leitor acompanha Qoy, uma jovem rapariga com estudos que, na falta de melhores oportunidades, se vê a trabalhar no restaurate típico da sua família na estação espacial Longevity, independente dos "Galácticos"; e, numa segunda pessoa superlativa, vemos Agnes - ou melhor, vemos a pessoa que se identifica como Agnes perdida nas camadas densas de personalidade projectadas no seu avatar - a acompanhar o seu marido, "Galáctico" de nascimento, na marcação do banquete do seu aniversário de casamento no restaurante da família de Qoy, como que para dar a Agnes a possibilidade de recordar um mundo que já foi seu, e que o immerser lhe diz ser exótico. Através de ambas as personagens e da situação que se proporciona, Bodard tece uma meditação tão fascinante como pertinente sobre o que significa ser-se diferente, ser-se estranho, e sobre como a verdadeira dominação cultural é feita não pela força das armas mas pela força dos hábitos, dos preconceitos e de noções erradas de superioridade ou inferioridade cultural - enquanto explora de forma mais ou menos subtil o impacto que uma tecnologia pode ter na dissolução do indivíduo real em prol de uma imagem idealizada, mas inevitavelmente falsa. As nomeações e distinções fizeram-lhe justiça: Immersion é um conto notável, exemplar de uma nova ideia de ficção científica internacional que começa por fim a emergir, afastando-se dos cânones anglo-saxónicos predominantes ao longo de décadas; e também nessa dimensão a sua leitura se revela muito estimulante. 

The Monarch of the Glen, de Neil Gaiman
Legends II, ed. Robert Silverberg (2004)

Mais do que uma sequela curta àquele que terá sem dúvida sido um dos melhores livros de fantasia da última década, a novela The Monarch of the Glen funciona como um epílogo a American Gods - uma pequena história envolvendo Shadow durante a sua passagem pelas terras altas da Escócia, após todos os acontecimentos do romance principal. E o mais impressionante desta novela é o facto de Gaiman conseguir fazer um American Gods-lite, capturando quase na perfeição a estranheza e a dissonância da situação em que Shadow se encontra, quando lhe é oferecido um emprego apenas simples na aparência: servir de segurança numa festa misteriosa que terá lugar numa mansão remota junto do lago. O protagonista, uma vez mais, assume durante praticamente todo o texto um papel passivo, até ao momento em que a sua intervenção se torna inevitável (no caso, forçada) - mas Shadow já não é o homem que era no início do romance original, e o homem que os seus anfitriões imaginavam que ele fosse. Com a imaginação e a mestria habituais, Gaiman reúne uma galeria de criaturas fantásticas, onde monstros e homens se misturam e, mais do que isso, se confundem; e a sua prosa evocativa tece um enredo sobrenatural magnífico, uma passagem que serve em simultâneo de continuação directa e de reforço dos temas estabelecidos em American Gods. 
É certo: The Monarch of the Glen não terá decerto satisfeito os leitores que esperavam encontrar, numa história pós-American Gods, um Shadow mais activo e dotado de uma personalidade com mais momentum. Mas Shadow - aliás, Balder Moon, o seu verdadeiro nome e mais uma alusão ao panteão escandinavo - não é uma personagem que, por si, faça a história mover-se; ele é, sim, o ponto central da narrativa, para onde convergem todos os seus elementos constituintes. E é o seu olhar expectante e a sua curiosidade tranquila (nem todos os heróis literários têm de ser detectives - até aqui se nota a desconstrução de Gaiman) que torna as várias personagens mais verosímeis, independentemente das suas origens ficcionais ou mitológicas, e toda a situação mais bizarra. 

A Separate War, de Joe Haldeman
Far Horizons, ed. Robert Silverberg (1998)

Quem leu o excelente The Forever War decerto terá reparado numa ponta que Joe Haldeman deixa mais ou menos solta no final do livro - e, quando Robert Silverberg o desafiou a escrever uma novela naquele universo para a antologia Far Horizons, Haldeman decidiu contar o episódio e, de caminho, tentar resolver aquele que será talvez o ponto fraco do seu romance premiado. [A partir daqui, spoilers a The Forever War serão inevitáveis - fica o aviso]. A Separate War começa nos meses que antecederam a derradeira separação do protagonista William Mandella e Marygay Potter após saírem do hospital pelos ferimentos severos que sofreram no último combate, reforçando a lógica militar, burocrática e inflexível, que obriga naquele futuro distante dois dos últimos soldados do século XX ainda no activo a separarem-se - e explora o último confronto da Guerra Eterna pelo ponto de vista de Marygay.
Em termos práticos, A Separate War aprofunda um pouco o tema das consequências da dilatação temporal de um conflito daquela escala, mas acaba por centrar-se na evolução social que Haldeman traçou para a Humanidade na última parte do romance, com controlo populacional em vigor e a homossexualidade a tornar-se na norma das relações amorosas (e a heterossexualidade a ser vista como algo exótico e anacrónico). Ao ler The Forever War, a intenção de Haldeman torna-se evidente - não é tanto fazer qualquer comentário quanto ao tema da homossexualidade, tabu nos anos 70, mas sim demonstrar de forma radical a ideia de passagem de tempo e de mudanças sociais profundas na Terra. E nesse ponto, a ideia tem interesse; é uma pena que a passagem do tempo (e o politicamente correcto...) lhe tenha associado tanto ruído, e que A Separate War pareça tanto uma tentativa de o autor justificar algo, e não de contar uma história relevante (a "ponta solta" não ficou exactamente por resolver). Mas quando se afasta desse tema e se centra na logística da guerra, na relatividade de tempo e espaço do conflito, e no impacto que todos esses factores têm nos soldados - presentes, passados e futuros -, A Separate War acaba funcionar como um capítulo extra de The Forever War, extrapolando algumas das ideias apresentadas no romance para apresentar situações fascinantes pela sua complexidade; e, nesse sentido, revela-se uma história bastante interessante, e relevante no contexto global da trilogia composta por The Forever War, Forever Peace e Forever Free (acaba por servir, aliás, de ponto de partida para o segundo livro).

9 de fevereiro de 2014

Citação fantástica (106)

For love is no part of the dream-world. Love belongs to desire, and desire is always cruel.

Neil Gaiman, The Doll's House: Tales in the Sand, 1990

3 de janeiro de 2014

American Gods: Entre o mito e a crença

Comecemos pelo final e pelo óbvio: American Gods estará sem dúvida entre os melhores livros de fantasia deste milénio - isto, como é bom de ver, partindo do princípio de descrever este romance notável de Neil Gaiman a um livro de fantasia não se torna demasiado redutor. A fantasia está lá, de facto, e perpassa todo o texto das primeiras páginas ao epílogo; mas está também uma carga mitológica única e trabalhada de forma magistral; uma vasta road trip pela América conhecida e oculta; prestidigitação e con tricks q.b.; e um vasto mosaico de enredos secundários e de histórias curtas que, seguindo de forma mais ou menos lateral à história que a prosa excepcional de Gaiman vai contando, emprestam a todo aquele mundo uma maior textura, mais verosimilhança e uma tremenda riqueza conceptual.

Concluído o final, regressemos ao início - e no início, como é bom de ver, temos a premissa na qual a narrativa multifacetada de American Gods assenta. Recuperando alguns elementos conceptuais do seu magnum opus na banda desenhada, The Sandman (e talvez também algumas inspirações no universo ficcional de Terry Pratchett, com o qual colaborou no início da sua carreira em Good Omens), Gaiman pega na ideia de que a existência e o poder dos deuses dependem da crença - e dos sacrifícios, já agora - dos seus fiéis e combina-a com a construção multi-étnica americana, feita ao longo de milhares de anos através de vagas migratórias originárias em diversos pontos do planeta, mais ou menos distantes (e mais ou menos conhecidas, quando não mesmo material levantado directamente de lendas e mitos). Os povos que atravessaram terra e mar para chegar ao vasto continente americano teriam levado consigo as suas crenças - e, com elas, os seus deuses, recolocados numa terra estranha e algo hostil. Nessa América mitológica seria assim possível encontrar Odin e Loki, Anúbis e Tot, Crernobog e Bielobog, Ostara e Morrigan, Anansi e Johnny Appleseed, entre inúmeros outros - em tempos poderosos, alimentados pelas crenças dos seus povos, mas no mundo contemporâneo enfraquecidos pelo esquecimento e pela chegada dos deuses da vida moderna - das divindades da tecnologia, da comunicação, das drogas. Gaiman recorre ao expediente clássico do mundo secundário que coexiste com o nosso, e sobre o nosso - mas utiliza tal ideia com parcimónia, em um ou dois plot points fulcrais. Os deuses deslocados continuam a existir nas sombras, movimentando-se anónimos entre uma população mista que nem sequer os reconhece. 

Em termos práticos, o que Gaiman tece é uma análise à sociedade ocidental contemporânea, que terá como Meca cultural e espiritual - se podemos ainda falar em termos espirituais - na América. Mas em momento algum tal análise, ou, se preferirmos, crítica, se reveste do moralismo habitual neste tipo de premissas (e seria tão fácil diabolizar o consumismo, e ser aplaudido por isso). O autor deixa a história respirar, retira algumas conclusões, e deixa ao leitor a tarefa de retirar as suas - e, pelo caminho, cria uma mitologia fascinante para uma terra icónica e desprovida de deuses, explorando uma América simultaneamente tão familiar e tão desconhecida deste lado do Ocidente. 

Pelo meio, temos Shadow, o protagonista - um homem grande, pacato e silencioso, com um curioso talento para prestidigitação, que nas primeiras páginas do livro se encontra na recta final dos seus três anos na prisão - merecidos, diga-se de passagem. Homem de poucas ambições, Shadow quer apenas deixar a prisão para trás e regressar para junto de Laura, a sua mulher, que durante aqueles três longos anos esperou com (aparente) paciência pela libertação do seu companheiro. Um violento acidente de automóvel, porém, ceifa a vida de Laura, as possibilidades de novo emprego para Shadow, e precipita a sua saída da prisão - para o atirar para um homem enigmático, que se apresenta como Mr. Wednesday e que sabe mais sobre Shadow do que ele poderia pensar que alguém soubesse. Wednesday oferece a Shadow um emprego: ser seu guarda-costas e acompanhá-lo durante as suas demandas. Sem alternativas, o ex-recluso aceita a oferta - longe de imaginar que esta o levará numa longa aventura por uma América ao mesmo tempo familiar e estranha nas suas gentes, nos seus marcos e nos seus ícones. No decurso desta road trip, Shadow irá conviver com Wednesday e os seus contactos singulares, tanto amigos como inimigos (e por vezes, nem uma coisa nem outra), viverá em lugares tão díspares como a pacata cidade do Cairo, no estado do Illinois, ou a misteriosa vila de Lakeside, e visitará sítios tão diferentes como a Montanha Lookout, o centro imaginário da América no Kansas ou a House on the Rock. E será encaminhado para o centro da tempestade anunciada desde as primeiras páginas, para o meio de um conflito inevitável e de proporções míticas, que promete não deixar nada como dantes. Na verdade, um dos aspectos mais fascinantes em American Gods é acompanhar o crescimento pessoal e emocional de Shadow ao longo do seu envolvimento cada vez mais profundo com os assuntos dos deuses, descobrindo os seus segredos, os seus ritos e as suas agendas próprias.

Existem várias versões de American Gods. A original arrecadou praticamente todos os prémios que um livro de género poderia conquistar na categoria de "Best Novel": o Hugo, o Nébula, o Bram Stoker, o Locus, e mais alguns. Aquela que li, comemorativa dos dez anos da publicação do livro, é a versão alargada designada apenas como a preferida do autor - inclui, de acordo com o próprio, cerca de 12000 palavras do que a original. Onde estão esses milhares de palavras, não saberei dizer - mas que esta versão longa proporciona uma leitura a todos os níveis fascinante, disso não há dúvida. Em American Gods não encontramos acção frenética, batalhas longas e descritas ao pormenor, e vastos lugares imaginados - encontra-se, sim uma narrativa notável na sua ambição, vasta e dispersa no seu alcance; e que na sua dispersão nunca perde de vista a premissa que a sustenta, e o enredo que a move - devagar e inexoravelmente, e com uma conclusão extraordinária. 


30 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (5): O melhor da banda desenhada

Costuma-se dizer, e bem, que o cyberpunk enquanto subgénero da ficção científica emergiu nos anos 80 com a publicação de obras como o romance Neuromancer, de William Gibson (1984), e a antologia Mirrorshades, com edição de Bruce Sterling (1986). Mas só em 1989 o subgénero conheceria aquele que julgo ser a sua obra maior: Ghost in the Shell, a aclamadíssima graphic novel do japonês Shirow Masamune que levou mais além alguns dos temas tradicionais do cyberpunk enquanto virava a sua estética tão própria e todas as suas convenções do avesso. Com uma narrativa situada num futuro próximo (final da década de 20 do século XXI) no qual a Internet se tornou ubíqua e os aumentos cibernéticos para o corpo triviais, Ghost in the Shell acompanha a Secção 9 de Segurança Pública, uma força especial dedicada a combater ameaças de ciberterrorismo. Formada por Dasuke Aramaki e chefiada no terreno pela Major Motoko Kusanagi - que tem um corpo sintético completo, sendo em termos práticos uma cyborg -, a Secção 9 começa a investigar, entre outros casos, um cibercriminoso conhecido como "Puppeteer", ou "Puppet Master", responsável pelo ataque a humanos com ciber-cérebros. Mas o "Puppeteer" está longe de ser o que parece, e a investigação vai levar Motoko e a sua equipa a confrontar-se com algo a todos os níveis inesperado. Descartando a estética sombria de inspiração neo-noir e o ponto de vista marginal que fez escola no cyberpunk, Ghost in the Shell elevou o género com a sua perspectiva original, com a solidez da sua arte e com a profundidade a que levou temas como os aumentos cibernéticos e a Inteligência Artificial. 

Quando a DC Comics sugeriu a Neil Gaiman, à época um jovem autor britânico em ascensão, a desenvolver um comic mensal para a gigante norte-americana da banda desenhada no qual recuperasse uma personagem da casa já esquecida, dificilmente alguém poderia prever que The Sandman se tornaria numa das mais aclamadas e influentes obras da história da banda desenhada, com uma qualidade literária que muitos poucos títulos conseguiram alcançar. The Sandman é a história de Morpheus, Senhor dos Sonhos, aprisionado durante décadas num feitiço conjurado no início do século XX para capturar a Morte e tornar assim a Humanidade imortal. Preludes & Nocturnes é a graphic novel que reúne os oito primeiro fascículos desta série, com a captura de Morpheus, a sua terrível vingança e a odisseia para recuperar os seus três artefactos de poder - ao longo da qual se cruza com outras personagens da DC, como John Constantine, Martian Manhunter ou o Dr. Destiny, e viaja desde o seu próprio domínio até às profundezas do Inferno, onde o triunvirato composto por Lucifer, Belzebuub e Azazel governa os malditos. Com uma premissa notável e uma escrita muito acima da média do formato, Gaiman provou no início dos anos 90 - se tal ainda fosse necessário - quão literária pode a banda desenhada ser, e quão ambiciosas e sofisticadas podem ser as suas narrativas e personagens. 

The Walking Dead Volume 8: Made to Suffer, de Robert Kirkman
A série de zombies que Robert Kirkman começou a escrever para a Image Comics no já longínquo ano de 2013 tornou-se num dos grandes êxitos da banda desenhada contemporânea, contando já com mais de 120 fascículos compilados em 19 álbuns em formato trade paperback - e mais alguns previstos, não tendo ainda a série um fim à vista. The Walking Dead segue Rick Grimes, outrora polícia, e o seu filho Carl na sequência de um apocalipse zombie que terá aparentemente contaminado toda a gente e que faz os mortos se erguerem como mortos-vivos famintos carnívoros. Made to Suffer é o volume que compila os fascículos do 43 ao 48, e que encerra de forma brutal e violenta o arco narrativo que envolveu a prisão onde o grupo de Rick se refugiou e tentou refazer uma vida com um módico de normalidade, e a vila de Woodbury, liderada pelo cruel e sanguinário Governador. Made to Suffer marca um ponto de viragem importante na série - com a perda de muitas personagens relevantes, algumas de forma um tanto ou quanto inesperada mas quase todas de formas excepcionalmente bárbaras, o que resta do grupo de Rick vê-se obrigado a tentar encontrar um novo sítio que lhe dê um mínimo de segurança. 

As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem, de Filipe Melo
Com este terceiro volume, Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa encerram as aventuras do investigador do oculto que é também um lobisomem de meia idade, do jovem entregador de pizzas, do demónio de seis mil anos encerrado no corpo de uma miúda de seis e da gárgula decapitada. E encerram muito bem, com uma aventura mais pessoal e intimista, mas nem por isso menos divertida do que as anteriores, durante a qual Dog Mendonça se vê confrontado por um velho inimigo e a cidade de Lisboa se vê invadida por aranhas gigantes (motivo principal do booktrailer que se tornou viral e que suscitou polémica). Com um texto sempre sólido e repleto de referências pop, situações hilariantes e uma arte impressionante dos dois colegas argentinos do português Filipe Melo, As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem mostram na perfeição por que motivo esta trilogia de banda desenhada se tornou num fenómeno nacional e internacional, com a Dark Horse Comics a publicar as aventuras destas impagáveis personagens em terras norte-americanas. 

29 de dezembro de 2013

Citação fantástica (99)

There’s never been a true war that wasn’t fought between two sets of people who were certain they were in the right. The really dangerous people believe they are doing whatever they are doing solely and only because it is without question the right thing to do. And that is what makes them dangerous.

Neil Gaiman, American Gods (2001)

10 de novembro de 2013

Citação fantástica (92)

All your questions can be answered, if that is what you want. But once you learn your answers, you can never unlearn them.

Neil Gaiman, American Gods (2001)

Neil Gaiman (1960 - )

Vivemos numa época em que é possível encontrar excelentes narrativas fantásticas nos mais variados formatos, da literatura à banda desenhada, do cinema à televisão; será talvez difícil, porém, encontrar no Fantástico contemporâneo um autor tão talentoso e multifacetado como Neil Gaiman. A sua carreira, vasta e diversificada, ramificou-se por todas aquelas áreas, sempre com um sucesso assinalável. Na literatura, notabilizou-se tanto com obras young adult, como Stardust (1999), Coraline (2002) ou The Graveyard Book (2008), como em ficção mais adulta, como Good Omens (1990), escrito em colaboração com Terry Pratchett, Neverwhere (1996), American Gods (2001) ou Anansi Boys (2006). A mais recente entrada na sua longa bibliografia literária, que inclui também livros infantis e antologias de contos, data deste ano: The Ocean at the End of the Lane.

Na banda desenhada o currículo de Gaiman é ainda mais vasto, tendo publicado comics tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, onde trabalhou com as principais editoras do formato. Para a extinta Eclipse desenvolveu Miracleman após o trabalho inicial de Alan Moore; a série, interrompida com a extinção da editora em 1993, será agora recuperada pelo autor com a Marvel Comics. Mas foi na DC Comics que se consagrou em definitivo ao criar uma das mais aclamadas bandas desenhadas das últimas décadas: The Sandman. A história de Morpheus, o Senhor dos Sonhos, e dos restante Endless tornou-se numa referência da banda desenhada contemporânea pelos seus elevadíssimos méritos narrativos - e, porque não dizê-lo, literários. 

No audiovisual, já viu algumas das suas obras serem adaptadas com sucesso para o cinema: foi o caso de Stardust (2007) ou Coraline (2009), com The Graveyard Book na calha para longa-metragem e American Gods para série televisiva. Escreveu guiões para várias séries televisivas, como Babylon 5 e Doctor Who - e com esta série venceu no ano passado o Prémio Hugo na categoria "Best Dramatic Presentation, Short Form". Já conquistou muitos outros galardões, dos prémios Hugo aos Nébula, do Locus ao Bram Stoker. Mas também fora dos círculos do Fantástico: The Graveyard Book foi até à data o único livro a vencer tanto a Newberry Medal como a Carnegie Medal.

Com o anúncio, no Verão que passou, da sua incursão no mundo dos videojogos com Wayward Manor, um jogo com um forte tema sobrenatural, Gaiman confirmou em definitivo o seu estatuto de homem dos sete ofícios no Fantástico contemporâneo. 

Natural de Portchester, no Hampshire (Reino Unido), Neil Gaiman reside actualmente nos Estados Unidos. Celebra hoje o seu 53º aniversário.

1 de julho de 2013

The Sandman: Overture: Nova capa já apresentada

No Verão passado, Neil Gaiman supreendeu os fãs e o mundo dos comics com uma notícia bombástica - juntamente com o ilustrador J. H. Williams, estava a trabalhar numa prequela a The Sandman para a linha "Vertigo" da DC Comics. Esta nova história no universo fantástico de Morpheus e dos Endless deverá arrancar algures em Outubro - e a capa do primeiro fascículo foi hoje revelada no The New York Times (via io9). 


Fontes: The New York Times / io9

17 de maio de 2013

The Sandman, Vol. 1: Preludes & Nocturnes, ou o sonho segundo Neil Gaiman

É um tanto ou quanto irónico pensar que o carismático Morpheus, Senhor do Sonhos, protagonista dos aclamados comics The Sandman, da DC Comics, poderia ter sido desenvolvido não na banda desenhada, com os outros "Endless", mas na série literária Wild Cards, de George R. R. Martin. Na Worldcon de 1987, o jovem Gaiman abordou Martin com a ideia de desenvolver para Wildcards uma personagem que vivia num mundo de sonhos. Na altura, Martin recusou a ideia; mas pouco tempo depois, Gaiman seria contactado por Karen Berger, responsável da DC Comics no Reino Unido, que lhe propôs desenvolver um comic mensal para a editora norte-americana. Berger já editara Black Orchid, de Gaiman, e sugeriu ao autor criar uma personagem nova a partir de uma personagem da DC quase esquecida: The Sandman. 

E assim, quase sem querer, nasceu um dos comics mais aclamados que este meio já conheceu. 

Há, de facto qualquer coisa de fascinante no conceito dos "Endless", os sete seres que personificam alguns dos aspectos mais poderosos do Universo (no inglês, Dream, Death, Destiny, Despair, Desire, Delirium, Destruction), e que entre si funcionam como uma família mais ou menos disfuncional. Mas esse conceito foi explorado ao longo dos sete anos de publicação do comic; nos primeiros oito issues, reunidos na edição paperback Preludes & Nocturnes (primeira edição de 1991), a narrativa centra-se em Morpheus, Senhor dos Sonhos, protagonista da série e dos sete "Endless" aquele que domina o aspecto do Sonho e do Pesadelo. Gaiman desenvolve a personagem com mestria ao longo destes oito issues, com uma situação inicial muito interessante que dá origem a uma longa e complexa cruzada que vai envolver outros universos e outras personagens da DC. Comecemos pelo primeiro:

De Dream a Little Dream of Me
#1 - Sleep of the Just: É difícil pensar numa melhor abertura para um comic - nem V for Vendetta ou Watchmen, de Alan Moore, conseguiram um primeiro issue tão marcante como este Sleep of the Just. Corre o ano de 1916, e o feiticeiro Roderick Burgess decide levar a cabo um encantamento antigo, capaz de evocar o aspecto da Morte e aprisioná-la, colocando um fim efectivo à morte. O encantamento, porém, não corre, como esperado, evocando o Sonho em vez da Morte - e, receando uma vingança, Burgess rouba a Morpheus os seus artefactos mágicos (um elmo, uma bolsa com areia e um rubi) e prende-o durante muitos anos - originando uma série de perturbações no mundo e dando a Morpheus muito tempo para preparar a sua retribuição. É uma história formidável, intrigante desde as primeiras vinhetas, com um final inesquecível - provavelmente, a melhor deste álbum.

#2 - Imperfect Hosts: Livre, Morpheus regressa ao seu domínio, ao Sonho - apenas para o encontrar em ruínas, fruto da sua ausência prolongada. O Senhor dos Sonhos encontra Caim e Abel, que lhe dão alguma ajuda - tal como as Kindly Ones que evoca, e que lhe fornecem algumas pistas sobre onde encontrar os seus artefactos roubados para, com eles, recuperar o seu poder e restaurar o seu domínio. Em paralelo, Gaiman começa a explorar a história de John Dee, o Doctor Destiny, que será relevante em issues subsequentes.

#3 - Dream a Little Dream of Me: O primeiro artefacto que Morpheus tenta recuperar é a sua bolsa com areia - e para tal segue as indicações das Kindly Ones e vai procurar John Constantine, o icónico anti-herói britânico e detective do oculto, que suspeita saber do paradeiro do objecto. Constantine é, para todos os efeitos, uma personagem carismática - e a história que partilha com Morpheus é formidável, regressando ao seu passado para reviver alguns horrores. Sem dúvida, uma das melhores histórias deste álbum.

De A Hope in Hell
#4 - A Hope in Hell: Tendo recuperado algum do seu poder, Morpheus decide seguir a segunda pista das Kindly Ones e dirige-se ao Inferno em busca do seu elmo. Lá encontra Etrigan e o Triunvirato que governa as profundezas: Lucifer, Beelzebub e Azazel. Acaba por ter de se envolver numa luta muito peculiar para recuperar o artefacto. 

#5 - Passengers: Em Passengers, Gaiman conta duas histórias. A primeira trata da busca de Sandman pelo terceiro artefacto, o rubi; para tal, o Senhor dos Sonhos procura Scott Free, o Miracle Man, que o encaminha para um dos membros da Justice League of America original: Martian Manhunter. Ao mesmo tempo, o Doctor Destiny evade-se do Arkham Asylum - e a demanda de um e a fuga de outro vão cruzar-se de uma forma que, não sendo inesperada, não deixa de ser surpreendente. 

#6 - 24 Hours: Em termos visuais, 24 Hours será talvez o mais impressionante pelas imagens que evoca. Com um tom de horror assumido, este issue centra-se no Doctor Destiny e nos pesadelos que ele tece com o rubi de Morpheus durante um período de 24 horas num pequeno café. 

#7 - Sound and Fury: Com um título de inspiração shakespereana, Sound and Fury é o confronto inevitável entre o Doctor Destiny e Morpheus - com os sonhos de grandeza do primeiro a contrastar com a determinação do segundo, e com o caos resultante da manipulação de todo o poder encerrado na jóia do Senhor dos Sonhos. Ainda que a resolução deste issue não seja o momento mais inspirado deste álbum, Sound and Fury é uma história fascinante. 

De The Sound of Her Wings
#8 - The Sound of Her Wings: Concluída que está a sua demanda, Morpheus (re)encontra por fim outro dos Endless - a sua irmã mais velha, a Morte. Em jeito de epílogo para o arco narrativo desenvolvido ao longo dos sete issues anteriores, The Sound of Her Wings revela um pouco da personalidade da Morte, que não corresponde de todo a qualquer ideia convencional sobre um avatar da Morte. Como conclusão, este issue é interessante por três motivos distintos: pela reflexão que faz sobre a história concluída no issue anterior; pela introdução da Morte, e pelas possibilidades que esta nova personagem encerra; e por aquilo que mostra sobre a personalidade tanto dela como do próprio Morpheus.

Tratanto-se Preludes & Nocturnes de uma graphic novel, seria estranho não destacar o aspecto artístico dos oito issues que o compõem (ainda que essa esteja longe de ser a minha especialidade). Se em termos gerais a arte de Sam Kieth, Mike Dringenberg e Malcolm Jones III não é extraordinária, na prática cumpre de forma muito competente (e em alguns momentos com distinção) a função de ilustrar a demanda de Morpheus, dando-lhe um certo toque surreal que lhe assenta como uma luva. 

Claro que o destaque de Preludes & Nocturnes é a sua narrativa - e aqui o crédito vai inteiramente para Neil Gaiman, que conseguiu recuperar uma personagem obscura da DC e torná-la numa das mais relevantes  personagens dos comics das últimas três décadas. A odisseia de Morpheus é a todos os níveis fascinante, e Gaiman, ainda a encontrar a sua voz, consegue dar à sua escrita uma coesão e uma simplicidade que dão densidade à narrativa e às personagens. Preludes & Nocturnes é o primeiro dos dez álbuns paperback de The Sandman, dedicados à história de Morpheus - e dificilmente a série poderia começar de forma mais auspiciosa.  

8 de janeiro de 2013

Stardust, ou o conto de fadas de Neil Gaiman

Neil Gaiman é um dos mais talentosos e multifacetados autores do Fantástico contemporâneo - não só pelos vários meios para onde habitualmente escreve (da literatura aos comics, do cinema à televisão), mas também pela diversidade da sua escrita e dos temas que aborda. Em Stardust, livro de 1998, recriou um singular conto de fadas que, em 2007, seria adaptado para o cinema por Matthew Vaughn. E é sobre o filme que irei falar hoje. 

Sobre a qualidade do filme enquanto adaptação, não poderei dizer muito. Enquanto objecto cinemográfico, porém, Stardust é um filme muito interessante - um elenco forte e talentoso desenvolve uma narrativa simples, algo convencional e relativamente previsível, que porém nunca deixa de ser cativante. Sim: torna-se evidente logo no início que a aventura de Tristan (Charlie Cox) para lá da Wall vai mudar a sua vida, e quando percebemos quem é (ou o que é) Yvaine (Claire Danes), o desfecho da história já está mais ou menos claro. No entanto, e passe o cliché, nem todas as viagens valem pelo destino - muitas vezes é o caminho percorrido que as torna interessantes. Stardust é um desses casos, com as suas personagens e as peripécias em que se envolvem a manterem o filme interessante e divertido desde o primeiro minuto.  

A narrativa segue Tristan Thorn, um jovem da vila inglesa de Wall. Wall seria uma vila comum não fosse um pormenor muito curioso: fica perto de uma longa muralha que ninguém pode (ou deve) atravessar, visto separar o mundo "real" do reino mágico de Stormhold. Quando Tristan (cuja mãe é natural de Stormhold, facto que ele desconhece) vê uma estrela cair para lá da muralha, promete à rapariga por quem está apaixonado, Victoria (Sienna Miller), trazer-lhe a estrela em troca da sua mão em casamento. O que ele não sabe é que não é o único a querer alcançar a estrela: três velhas bruxas desejam encontrá-la para recuperarem a sua juventude perdida e os seus poderes, e os dois sanguinários herdeiros do rei desejam recuperar a jóia real que ela tem, para assim alcançarem o trono de Stormhold. Para espanto de Tristan, a estrela tem a forma de uma jovem lindíssima, chamada Yvaine - mas, inicialmente alheio à sua beleza, decide levá-la de volta para Wall. O que, convenhamos, é mais fácil de dizer do que fazer: pelo caminho, vão encontrar a líder das bruxas, Lamia (Michelle Pfeiffer), os herdeiros reais, o Capitão Shakespeare (Robert De Niro) e a sua nave voadora, e muitas outras personagens do reino de Stormhold. 

É nas personagens que reside a força de Stardust. Charlie Cox interpreta um Tristan convincente, mas o destaque vai para Claire Danes no papel da inocente Yvaine e para Michelle Pfeiffer no papel de Lamia, a verdadeira vilã da história - e também para o personagem de Robert De Niro, ainda que apareça por pouco tempo. Do ponto de vista visual, Stardust revela-se muito interessante - os detalhes da nave do Capitão Shakespeare e do castelo das bruxas estão excelentes, mas em geral os efeitos especiais utilizados estão um tanto ou quanto datados. O que não diminui de todo o filme: com excelentes personagens principais e secundárias e uma narrativa cujo ritmo exemplar compensa a previsibilidade das suas peripécias, Stardust é um filme de fantasia muito sólido, com uma ligeireza e uma boa disposição que, por si só, fazem valer a pena a viagem. 7.0/10



Stardust (2007)
Realizado por Matthew Vaughn
Com Charlie Cox, Claire Danes, Michelle Pfeiffer, Robert De Niro, Sienna Miller, Ricky Gervais, Kate Magowan e Ian McKellen
127 minutos

10 de novembro de 2012

Neil Gaiman (1960 - )

Há algumas semanas foi publicada uma notícia curiosa no io9: na Worldcon de 1987, George R. R. Martin foi abordado por "um miúdo britânico, franzino e vestido de preto" que lhe propôs para a série Wild Cards uma personagem que vivia num mundo de sonhos. Martin não aceitou a ideia, e esse miúdo - chamado Neil Gaiman - viria, poucos anos mais tarde, a desenvolvê-la na DC com uma série de banda desenhada que se tornaria numa das mais aclamadas do género: Sandman. 

Desde então, Neil Gaiman tornou-se num dos mais relevantes e multifacetados autores do Fantástico, tendo escrito literatura juvenil e adulta (ambas em ficção curta e longa), banda desenhada, televisão e cinema. Na literatura, escreveu Good Omens (1990) com Terry Pratchett, Stardust (1999), American Gods (2001), Coraline (2002) e The Graveyard Book (2008), entre muitos outros. Na sua bibliografia incluem-se ainda várias antologias de contos. Venceu vários prémios Hugo (incluindo o de Best Dramatic Presentation, Short Form deste ano com o episódio The Doctor's Wife da série Doctor Who), Nébula e Locus, tendo ainda alcançado a Newberry Medal e a Carnegie Medal com The Graveyard Book, na única ocasião em que ambos os prémios foram atribuídos ao mesmo livro. 

Escreveu ainda Neverwhere (1996), com base na série homónima da BBC, e participou como argumentista em várias séries televisivas, como Neverwhere, Babylon 5 e Doctor Who. Adaptou o guião do filme Mononoke-hime para a versão inglesa, e escreveu, com Roger Avary, o argumento do filme Beowulf (2007). Algumas das suas obras, como Stardust e Coraline foram já adaptadas para o cinema, e há planos para a adaptação de The Graveyard Book e American Gods.

Neil Gaiman nasceu em Portchester, Hampshire, no Reino Unido, e celebra hoje 52 anos. 

18 de julho de 2012

Comic-Con: Neil Gaiman anuncia prequela a Sandman

Se isto não é notícia que valha a pena interromper as férias, não sei o que será. Em Novembro de 2013, 25 anos passados sobre a publicação do primeiro volume de Sandman na linha Vertigo da DC Comics, será lançada a prequela da icónica banda desenhada de Neil Gaiman, com ilustração de J. H. Williams III (Batwoman, Promethea, entre outros). O anúncio foi feito na Comic-Con, através do vídeo que aqui reproduzo.



Fonte: io9