Talvez valha a pena introduzir o filme de hoje com uma pequena história pessoal. Quando Hellboy II: The Golden Army estreou no Verão de 2008, foi com imensa relutância que acabei por ir vê-lo ao cinema. Por vários motivos: não conhecia o universo de fantasia noir desenvolvido por Mike Mignola na Dark Horse desde os anos 90, nutria uma profunda desconfiança por quase todas as adaptações cinematográficas de comic books, e não só não tinha visto o primeiro filme como também ainda desconhecia por completo o trabalho de Guillermo Del Toro. Um amigo mais insistente, porém, acabou por me convencer a dar-lhe uma oportunidade, e ainda bem que o fiz: em duas horas fiquei a conhecer Del Toro, descobri o universo de Hellboy, aproximei-me do universo dos comics - que hoje conheço bem melhor, ainda que esteja muito longe de ser um expert - e o preconceito para com os filmes adaptados deste meio começou a dissipar-se. E, claro, vi no grande ecrã um filme notável, sem dúvida merecedor de um lugar de destaque entre a melhor fantasia cinematográfica do novo milénio.
Agora que já estou mais familiarizado com o universo de Mignola e que já vi o filme original de Del Toro, é-me um tanto ou quanto difícil evitar comparações entre ambos. E se em Hellboy o realizador mexicano se preocupou acima de tudo com uma recriação bastante fiel da história das origens do protagonista tal como Mignola e Byrne a conceberam nos comics, já The Golden Army parece ser mais do que uma adaptação cinematográfica de uma personagem de banda desenhada - um Hellboy no qual o realizador, tendo deixado para trás a introdução do universo e a apresentação das personagens, pudesse dar largas à sua (tremenda) imaginação.
Olhando hoje para trás, é bom de ver que entre Hellboy e The Golden Army aconteceu... El Laberinto del Fauno, a obra-prima em tom de conto de fadas retorcido que confirmou Guillermo Del Toro como um cineasta a seguir com atenção. Livre dos espartilhos lovecraftianos do comic, o realizador e argumentista deu largas à imaginação para preencher todo um mundo sobrenatural povoado por trolls com membros mecânicos, fadas-dos-dentes carnívoras (e estranhamente adoráveis quando não estão a triturar ossos), semideuses de uma Natureza esquecida, um Anjo da Morte notável e toda uma sociedade fantástica a viver nas sombras da Humanidade naquele prodigioso troll market.
Claro que uma história não é feita apenas de criaturas fantásticas - e Del Toro soube criar uma mitologia interessante para enquadrar a narrativa, falando de um conflito primordial, relegado ao estatuto de lenda, entre os seres humanos e as criaturas do mundo natural, entre as quais se destacavam os elfos, liderados pelo Rei Balor. Uma guerra ancestral levou à criação pelos goblins, a pedido do rei, do Exército Dourado - setenta vezes sete guerreiros mecânicos, incansáveis e incapazes se sentir remorso ou compaixão, cuja capacidade destrutiva levou Balor e a Humanidade a estabelecer uma trégua entre o mundo natural e o mundo humano. Toda esta backstory é contada por Broom a Hellboy quando este ainda era uma criança, e é mostrada através de um prólogo animado tão simples como eficaz.
No presente, os Elfos são uma raça decadente, o seu mundo natural original destruído pelo avanço da Humanidade. O príncipe Nuada (Luke Goss) regressa do exílio para declarar guerra aos humanos e recuperar o mundo da sua raça - e para isso procura obter as três peças da coroa real que permitem ao seu dono acordar e controlar o Exército Dourado - contando com a oposição de Balor (Roy Dotrice), o seu pai, e Nuada (Anna Walton), a sua irmã.
Eventualmente, o seu caminho vai cruzar-se com os agentes do B.P.R.D., cujo carácter incógnito desagrada a um Hellboy (Ron Pearlman) desejoso de mostrar ao mundo o trabalho que desenvolve com os seus colegas - minando sistematicamente o trabalho de Tom Manning (Jeffrey Tambor). Um problema que assume proporções tais que obriga à vinda de um novo líder para a equipa: o etéreo médium ectoplásmico Johann Krauss.
É certo que alguns momentos na narrativa parecem um tanto ou quanto forçados (a transição entre Nova Iorque e a Irlanda, sobretudo), mas os raros momentos de falta de articulação narrativa são compensados pelo sentido de humor e pelo excepcional equilíbrio alcançado entre um certo tom mais ligeiro e o ambiente de dark fairy tale presente e praticamente todas as cenas. É aqui que se nota o cunho muito pessoal de Guillermo Del Toro: os efeitos especiais são utilizados com mestria para recriar o mundo de Hellboy, com as suas lendas e as suas criaturas, suportando passagens de acção de grande impacto e vários momentos memoráveis com a sua estética inconfundível.
Se naquela hoje longínqua sessão de cinema no Verão de 2008 Hellboy II: The Golden Army me pareceu um filme muito interessante, hoje, cinco anos volvidos, o interesse é redobrado - e ainda que os motivos sejam diferentes, todos os elementos que me fizeram gostar tanto do filme quando o vi continuam frescos e apelativos. Ritmado, imaginativo e visualmente impressionante, o segundo filme de Hellboy é uma pequena maravilha. Pode não ter a carga emocional e imaginativa de El Laberinto del Fauno ou a solenidade épica de The Lord of the Rings, mas em momento algum - e apesar das influências evidentes - ambiciona ser um ou outro, traçando o seu próprio caminho com um tom muito próprio e um worldbuilding inspirado. Seria sem dúvida interessante ver um terceiro filme realizado por Del Toro para encerrar o arco narrativo mais amplo que Hellboy e The Golden Army constroem; até lá, há neste segundo filme motivos mais do que suficientes para justificar novos visionamentos*. 8.3/10
Hellboy II: The Golden Army (2008)
Realizado por Guillermo Del Toro
Argumento de Guillermo Del Toro e Mike Mignola, com base nos comics de Mike Mignola
Com Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Jeffrey Tambor, John Alexander, Seth MacFarlane, Luke Goss e Anna Walton
120 minutos
* Ora aqui está uma palavra que abomino - mas de madrugada revelou-se impossível arranjar melhor.













