Depois de Ghost in the Shell, continuamos no cyberpunk de origem japonesa - desta vez com Akira, a aclamada banda desenhada de Katsuhiro Otomo que a partir dos anos 90 contribuiu de forma decisiva para a crescente popularidade no Ocidente tanto do manga como do anime através da sua adaptação cinematográfica de 1988. Publicado originalmente em 1982 - no ano da estreia de Blade Runner, uma coincidência interessante -, Otomo desenvolveu em Akira muitas das convenções cyberpunk que, dois anos mais tarde, William Gibson confirmaria quase como alicerces estilísticos do género em Neuromancer.
Uma análise tanto de Akira como de Ghost in the Shell (aqui referido) enquanto obras integradas no subgénero cyberpunk revela-se um exercício interessante. Masamune Shirow, já nos anos 90, afastou-se da tradicional estética sombria e soturna do subgénero e dos protagonistas underdog ou mesmo marginais e fez antes uma aproximação temática e narrativa, com a sua sociedade permanentemente ligada e aumentada pela tecnologia e pela cibernética, dando o protagonismo a uma força da autoridade (um dos mais interessantes detalhes da obra); Katsuhiro Otomo, por seu lado, afastou-se dos temas mais clássicos do cyberpunk - dos hackers, da cibernética - para se centrar numa Neo-Tóquio sombria, pós-apocalíptica, quase reminescente da Los Angeles semi-abandonada que Philip K. Dick descreveu em Do Androids Dream of Electric Sheep? e que Ridley Scott recriou com inexcedível mestria em Blade Runner; e numa cidade praticamente tomada por bandos de delinquentes, optou por dar o protagonismo a alguns deles.
Dada a dimensão de Akira no seu todo, é difícil avaliar a narrativa com base neste primeiro álbum, mas as suas escassas 126 páginas (!) já permitem ao leitor ter uma ideia muito clara do ambiente, daquele mundo futurista ainda devastado, do que está em causa no enredo, e dos protagonistas - com Kaneda a ser especialmente bem desenvolvido tanto pelas suas acções e comportamentos mais evidentes como também por alguns pormenores muito interessantes e bastante bem construídos - e Tetsuo a ser preparado para algo muito estranho, porventura relacionado com os enigmáticos Takashi e Masaru (um conceito fabuloso). Katsuhiro Otomo não só escreveu como também desenhou - e a arte de Akira revela-se, mais de 30 anos volvidos sobre a sua publicação original, bastante sólida e expressiva, com as ilustrações a mostrarem na perfeição o ambiente da Neo-Tóquio destruída e o interessante contraste entre noite e dia, entre o moderno e a ruína.
Uma última nota para a edição portuguesa da Meribérica/Liber. Akira foi traduzido na totalidade ao longo, como já referi, de 19 volumes (algo que é de louvar - várias foram as bandas desenhadas que ficaram indefinidamente interrompidas na nossa língua); se este primeiro álbum servir de indicação, então a colecção paperback revela-se bastante interessante e cuidada, com uma tradução a merecer destaque por algumas opções muito curiosas. O nome do tradutor, esse, permanece porém um mistério.
(Akira foi adaptado para o cinema num filme homónimo, com realização e argumento do próprio Katsuhiro Otomo. A crítica ao filme ficará para outro dia - quando o rever, após ter lido a banda desenhada completa)







