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30 de julho de 2014

Trailers da San Diego Comic-Con (1): Mad Max: Fury Road

A San Diego Comic-Con, que decorreu no fim-de-semana passado, tornou-se no lugar de eleição para os grandes estúdios de cinema afinarem as suas hype machines para os blockbusters da temporada - durante os poucos dias da convenção multiplicaram-se os anúncios, as novidades, os rumores, as não-notícias. E, claro, os inevitáveis teasers, trailers e teaser-trailers (uma inutilidade moderna, uma espécie de versão audiovisual de um tweet). Mad Max: Fury Road foi um dos filmes em destaque, para entusiasmo de muitos - um entusiasmo que, findos os quase três minutos do vídeo, não consigo compreender. Em 2012, Ridley Scott demonstrou que o regresso de um realizador de provas dadas a um dos seus sucessos não é de todo garantia de um novo filme à altura das expectativas (e, acima de tudo, do seu legado); à primeira vista, George Miller parece preparar-se para repetir a lição, com um Mad Max mais ao estilo de Michael Bay do que de outro realizador qualquer - muita pirotecnia, mas com mais aparência do que substância (o estilo naturalmente gritty dos originais era parte indelével do seu apelo). 

Mad Max: Fury Road tem estreia prevista para a Primavera de 2015. Abaixo, o primeiro trailer.


Fonte: IndieWire 

11 de fevereiro de 2014

Mad Max 2: The Road Warrior: Álamo sobre rodas

Entre 23 de Fevereiro e 6 de Março de 1836 travou-se, no contexto da revolução texana, aquela que ficou conhecida como Batalha do Álamo, que opôs pouco mais de uma centena de tropas da pequena guarnição da Missão de Álamo, próxima da cidade hoje conhecida como San Antonio, ao vasto exército mexicano do General Santa Anna. A história da batalha, na sua essência verídica, ganhou massa crítica e tornou-se numa lenda popular, inevitavelmente romantizada - a expressão "Álamo" evoca quase de imediato a ideia de uma resistência até ao último homem. O cinema contribuiu para o mito, com a batalha a ser contada e recontada em várias adaptações, com mais ou menos liberdades artísticas; a mais popular será talvez a de 1960, intitulada The Alamo, com John Wayne a realizar e a interpretar o protagonista Davy Crockett, personagem real que se tornou em matéria de lenda.

"Álamo sobre rodas" será talvez a forma mais resumida e rigorosa para descrever a essência de Mad Max 2, mais conhecido como The Road Warrior - a sequela directa ao filme de estreia de George Miller que introduziu um mundo pós-apocalíptico muito inspirado pela estética e pelas convenções narrativas dos westerns. Se o primeiro explorou a ideia do caos a chegar aos últimos redutos da civilização, este segundo aborda a ideia da resistência até às últimas consequências, transportando a acção directamente para o Outback australiano, aqui transformado em Oeste Selvagem pós-apocalíptico e pós-tecnológico. E fá-lo em jeito de lenda, muito ao gosto dos westerns, onde o renegado Max de Mel Gibson se tornou no mítico guerreiro do asfalto.


E o Álamo é o tremendo camião cisterna fortificado, símbolo da comodidade mais preciosa daquele futuro incerto, que Max aceita conduzir na fuga desesperada dos habitantes da refinaria-fortaleza do Outback australiano para o litoral ameno, onde almejam dar os primeiros passos para a reconstrução das suas vidas com um módico de civilização. Toda a longa sequência que se desenrola a partir do momento em que o camião, com Max ao volante e uma mão-cheia de companheiros armados para o defender, cruza os portões da refinaria é um autêntico tratado no que a perseguições diz respeito.


Repleta de energia e de dramatismo, a perseguição de Mad Max 2 é bem sucedida a vários níveis. A sua intensidade em crescendo é pautada por inúmeras peripécias e por pequenas vitórias e derrotas tanto para os defensores do camião como para o gang que o acossa; até à reviravolta final, surpreendente e ousava - e, em termos narrativos, irrepreensível pela sua lógica. Os stunts, esses, são ousados, arriscados e perigosos - e por isso memoráveis. O cinema contemporâneo tem mesmo muito que aprender com os clássicos.


A importância daquele camião é estabelecida logo nas cenas iniciais - e valerá por isso a pena regressarmos ao início do filme. Ao contrário de Mad Max, que coloca o espectador naquele mundo sem introdução contexto, Mad Max 2 arranca com um breve prólogo que, em jeito de registo oral e com um tom que aproxima a História do mito, explica em traços gerais o que levou à queda do mundo: como o tempo em que "o mundo era alimentado pelo combustível negro" e em que "brotavam cidades de tubos e aço pelos desertos" chegou ao fim devido à guerra, "por motivos esquecidos", entre superpotências ali reduzidas a "duas poderosas tribos guerreiras", detentoras de arsenais nucleares; e como o caos que se seguiu levou homens honestos, como Max, a metamorfosearem-se em párias violentos.


O fim da civilização ditou também o fim do combustível refinado, comodidade mais preciosa naquele futuro - é ela quem mantém em movimento os clãs nómadas, e é ela que permite a Max manter-se à frente da borrasca. A importância da gasolina é bem ilustrada nas primeiras cenas - finda a perseguição inicial, Max precipita-se para recuperar o combustível do veículo inimigo destruído, quando a ameaça do gang que o perseguia não está ainda completamente debelada. Mas também na motivação dos gangs quando cercam a refinaria. Como o "Gyro Captain" de Bruce Spence lembra, estão ali apenas pela gasolina.


Não se sabe ao certo quanto tempo passou entre a consumação da vingança de Max no primeiro filme e a perseguição que abre o segundo; a continuidade, essa, é estabelecida de forma magistral pela atenção ao detalhe de George Miller: é visível em Max, mais desgastado, com mazelas físicas visíveis (o ferimento que sofreu no joelho é o mais evidente), e com o carro a exibir muito uso; e é visível na própria estética dos gangs nómadas de motoqueiros e criminosos, com o estilo punk original a complementar-se (a degenerar?) com indumentárias fetichistas.


De certa forma, Mad Max 2 vive do antagonismo para com o filme original no que ao protagonista diz respeito. Se Mad Max teve como tema principal a destruição da vida de Max, The Road Warrior mostra a sua reaproximação ao que naquele mundo passa por civilização, o seu esforço desesperado por, perante a perda do pouco que lhe restava, tentar preservar esse ideal - e, no processo, a sua transformação em lenda. Max pode ser apenas uma sombra do homem que foi, mas nem por isso perdeu a sua humanidade.


À semelhança do seu antecessor, Mad Max 2 não é um filme com grandes ambições narrativas, como bem demonstra o seu minimalismo narrativo - que, tal como no primeiro filme, está longe de constituir um problema e revela-se mesmo numa das suas maiores virtudes. A caracterização daquele mundo pós-apocalíptico é feita essencialmente por indicadores visuais, bem colocados por George Miller; e a sua atenção ao detalhe é exemplar, notando-se na inteligência com que coloca em cena todos os elementos que vão ser relevantes mais à frente, e na mestria que exibe na orquestração das sequências de acção, que são a grande força do filme.


Tenso, frenético e extremamente bem montado, Mad Max 2 é um filme de acção exemplar e uma continuação digna do seu antecessor. Qual dos dois se revela o melhor será uma matéria de preferência individual; em termos práticos, bom seria se todas as franchises cinematográficas tivessem sequelas deste calibre. 8.0/10

Mad Max 2: The Road Warrior (1981)
Realizado por George Miller
Argumento de George Miller, Terry Hayes e Brian Hannant
Com Mel Gibson, Bruce Spence, Vernon Wells, Kjell Nilson, Emil Minty, Michael Preston, William Zappa e Moira Claux
95 minutos

4 de fevereiro de 2014

Mad Max: Western automobilizado

Será talvez difícil para um leitor de ficção científica com os seus clássicos em dia olhar para Mad Max, o filme de estreia do realizador australiano George Miller, e não encontrar na vasta desolação australiana que serviu para recriar um dos mais fascinantes pós-apocalipses já vistos no cinema uma certa ideia de um clássico da ficção científica literária: A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. Não que George Miller tenha introduzido monges tecnocráticos, ou mesmo explorado num registo satírico a ideia da História enquanto ciclo inescapável - mas há naqueles cenários uma melancolia muito característica, mesmo quando a acção nos leva para lugares mais próximos do que passa por civilização naquele mundo; uma ideia de que seria possível conduzir por aquelas estadas sem manutenção durante dias sem encontrar vivalma. Uma desolação espiritual, digamos assim, à falta de melhor designação, em perfeita harmonia com os cenários  do Outback australiano para criar, a partir de elementos facilmente identificáveis no western, uma iconografia muito própria. E, aqui, a referência ao western é tudo menos acidental. 

A distopia pós-apocalíptica que Mad Max apresenta sem enquadramento, como um facto consumado, transporta desde cedo o espectador para a memória colectiva dos pioneiros norte-americanos, perdidos na vastidão árida de um continente inteiro. A primeira imagem do filme é icónica: o arco da entrada dos "Halls of Justice" arruinado e enferrujado, numa indicação clara de que  ali, a Justiça terá sido uma das primeiras vítimas da queda da civilização. E o "ali" é a estrada, mostrada logo de seguida. A frase "a few years from now" é o único elemento temporal que o filme introduz, e o único elemento explicativo a que o espectador tem direito.


E essa estrada, sem manutenção e com sinalética reveladora, tornou-se na arena de todos os confrontos entre a autoridade que resta e os fora-da-lei. Neste contexto pós-tecnológico, os cavalos de outrora deram lugar aos carros da Polícia e às motas dos gangs nómadas que vagueiam pelo Outback, sem lei nem ordem. E a relativa amoralidade que tempera o sentido de justiça da polícia - cujas fardas a aproximam da cultura motard, um elemento que não surge por acaso - vê-se desde logo em choque com o niilismo dos criminosos, entregues ao mais absoluto hedonismo destrutivo.


Mad Max abre com uma das mais intensas perseguições automóveis do cinema, coreografada por George Miller com a precisão tensa de um combate. Um bandido conhecido como "Nightrider" encontra-se em fuga a alta velocidade num interceptor da polícia, desafiando os agentes que o perseguem através do rádio - e, após deixar várias patrulhas para trás numa aparatosa sequência de colisões na vila, cabe ao jovem mas experiente Max (Mel Gibson) travá-lo, custe o que custar.


É no seguimento do desastre de "Nightrider" que surge o resto do seu bando nómada, que semeia o terror entre a população e entre as forças policiais, de resto incapazes de lhes fazer frente devido à erosão e corrupção da justiça - mesmo perante actos tão atrozes como violações colectivas a civis e ataques directos a agentes da autoridade. O primeiro impulso de Max, como homem de família que é, passa por se afastar de tudo aquilo. Mas quando a tragédia lhe bate à porta pela segunda vez, o seu elevado sentido de justiça cedo se transforma em desejo de vingança sangrenta.


O argumento de James McCausland e George Miller não prima, em si, pela originalidade - as reviravoltas são relativamente by the book, e a ideia de um homem honrado e justo transformado num anjo de vingança após a perda trágica de tudo o que lhe era querido já não era nova em 1979. Cientes desse facto, Miller e McCausland apresentam toda a trama de forma um tanto ou quanto previsível durante os primeiros dois terços do filme. Mas a previsibilidade da batida não a torna menos intensa, e é dessa intensidade que vive Mad Max. O espectador sabe que a tragédia vai acontecer, e até saberá mais ou menos nos moldes em que ela decorrerá - mas acompanhá-la quando tudo se precipita não deixa de ser um choque, amplificado pela forma inteligente e rigorosa como Miller escolhe o que mostrar e o que esconder.


A verdadeira surpresa, essa, surge já com Max transformado em Mad Max, no anjo da vingança: haverá retribuição, mas não haverá salvação - os danos são permanentes (e serão transportados para o segundo filme, o excelente Road Warrior). A justiça deu lugar à vingança, e essa implica olhar para o abismo - e aguentar o olhar que o abismo devolve. Para Max não há retorno ao estado original ou qualquer promessa de felicidade que lhe valha: abdicou do heroísmo pela retribuição. A sua transformação de polícia firme para homem de família e, por fim, para anjo de vingança, amoral e niilista, é magnífica - e Gibson transporta-a na perfeição.


Mas o verdadeiro charme de Mad Max reside na sua acção enérgica, tensa e sempre vagamente amoral - bem explorada a partir do argumento mais ou menos minimalista, e bem ritmada pela excelente banda sonora de Brian May, o célebre guitarrista e compositor dos Queen. Nos momentos em que o filme acelera a fundo, os seus trinta e cinco anos mal se notam - com os seus stunts da era analógica a conferirem um realismo absoluto e uma crueza original inigualáveis no cinema moderno, tão dependente da imagem computorizada.


Na era de todos os remakes, seria inevitável que Hollywood apontasse baterias para clássicos menos prováveis dos anos 70 e 80 - e, à luz da tendência actual para a distopia pós-apocalíptica (The Hunger Games) e de êxitos cinematográficos recentes (Fast and Furious), Mad Max torna-se ainda mais apetecível. E o novo filme, com Tom Hardy e Charlize Theron nos principais papéis, será também realizado por Miller, o que até é um bom indício. Mas pergunto-me se será possível recriar hoje a energia nervosa e a violência subtil que fizeram de Mad Max um clássico do seu tempo, e um filme tão cativante ainda nos dias que correm. Há toda uma pureza estética nos stunts e nos efeitos práticos de Mad Max, e até na sua recusa intransigente do gore explícito, que os efeitos especiais modernos simplesmente não conseguem reproduzir. As suas duas sequelas, Mad Max: The Road Warrior e Mad Max: Beyond Thunderdome, exploraram e desenvolveram com competência (e, no caso de The Road Warrior, com momentos de brilhantismo) a premissa original, expandindo o worldbuilding para mostrar outras facetas daquele pós-apocalipse. Mas foi em Mad Max, no original e irrepetível, que tudo começou. 8.2/10

Mad Max (1979)
Realizado por George Miller
Argumento de James McCausland e George Miller
Com Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Tim Burns, Vincent Gil, Steve Bisley, Roger Ward e Geoff Parry
88 minutos