24 de agosto de 2014

Citação fantástica (149)

When you really know somebody you can’t hate them. Or maybe it’s just that you can’t really know them until you stop hating them.

Orson Scott Card, Speaker for the Dead (1986)

22 de agosto de 2014

City of Illusions: Memórias e ilusões

Antes de conquistar a fantasia e a ficção científica com dois clássicos absolutos - A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente -, Ursula K. Le Guin começou por desenvolver em três romances curtos um universo ficcional que, enquadrando-se na ficção científica (era o género mais popular na época), acabam por evocar uma certa atmosfera e algumas convenções da fantasia literária. City of Illusions, de 1967, fecha o ciclo iniciado um ano antes por Rocannon's World e por Planet of Exile, com os quais surgiu o "Hainish Cycle" que viria a enquadrar algumas das suas obras maiores - e fá-lo com um romance que, longe de ser um dos melhores da sua bibliografia, nem por isso deixa de ser um curioso Le Guin vintage, uma exploração inicial de uma autora à procura da sua voz literária e do seu próprio território temático.

E nesse território temático encontra-se a procura da verdade, tema que explorou a partir de várias perspectivas ao longo da sua obra. Aqui, fá-lo através de um enigma em forma de personagem: um homem anónimo e sem memória e com a mente esvaziada, perdido numa vasta floresta na Terra, encontrado por uma pequena comunidade isolada entre as árvores. Os seus olhos cor de âmbar, a lembrar os de um felino, marcam-no como estranho, atribuem-lhe uma origem desconhecida e possivelmente extra-terrestre; mas a desconfiança de alguns elementos da comunidade não é suficiente para demover o líder, que o aceita entre os seus, permite a sua educação e concede que lhe seja atribuído um nome: Falk. Durante os anos que se seguem, Falk aprende com a comunidade, e em especial com a jovem Parth, o que é ser humano - como falar, como caçar, como ser parte de todo e não um indivíduo isolado, reduzido a um estado primitivo e quase selvagem. Naquela comunidade perdida, mantida em segredo pelo receio do Inimigo, dos misteriosos Shing que mantém o mundo preso no marasmo civilizacional, Falk passa por uma rápida infância e torna-se num novo homem - mas atrás de si reside uma escuridão incomensurável, um passado desconhecido que o assombra a cada momento, e que o leva a perguntar se haverá um futuro diferente.

É esse passado e essa expectativa de futuro que leva Falk a deixar a comunidade, rumo ao desconhecido que existe para lá dos limites da floresta que, para o povo que o acolheu, é praticamente tudo o que conhecem. Como destino da sua demanda está Es Toch, a lendária - e temida - cidade dos Shing, onde Falk espera encontrar as suas respostas. Mas se o caminho para lá chegar será sinuoso - as demandas, afinal, nunca são fáceis, as respostas que irá obter poderão ser bem diferentes do que alguma vez imaginara.

A prosa da jovem Le Guin já aqui transporta a trama com facilidade, elevando-a de forma considerável em alguns momentos - as suas descrições de Es Toch são notáveis pela abstracção que evoca, e é fascinante vê-la a passar de um registo de quase fábula, como a estada de Falk na casa do eremita na floresta com os animais que falam, para as descrições tecnológicas de alguns momentos de pura ficção científica. Tal como nos romances anteriores, Le Guin revela-se hábil na combinação nem sempre provável da fantasia com a ficção científica, e utiliza-a para construir a Terra num futuro distante que há muito deixou o apocalipse da queda da Liga de Todos os Mundos para trás. O longo travelogue de Falk serve precisamente para apresentar todo esse mundo, bem mais vasto do que as fronteiras da floresta original - e ainda que por vezes careça do ritmo apropriado para se tornar numa parte mais estimulante, nem por isso deixa de ser eficaz neste propósito.

Dito isto, City of Illusions não deixa de ter os seus problemas - com os Shing e a sua caracterização a serem um dos principais, mas não o único. O ritmo narrativo, mais incerto do que nos romances anteriores, revela-se demasiado lento na primeira parte, após um início sólido e um final aberto bastante satisfatório. Ainda longe da forma perfeita de The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed, Le Guin não toma algumas opções mais arriscadas, e em vários momentos sente-se que toda a trama poderia beneficiar de mais alguma energia e, sobretudo, de mais alguma ousadia e ambiguidade. E, claro, de mais alguma complexidade nas personagens - mais mais do que aos Shing, falta desenvolvimento a Estrel, que tem um papel fundamental no romance, e ao próprio protagonista. Ainda assim, a forma como o mistério em volta de Falk é tecido funciona bastante bem (com uma excelente red herring a meio), e a duplicidade dos Shing dá um estímulo fundamental aos últimos capítulos.

Olhando agora para trás, faz todo o sentido que Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions estejam hoje em dia publicados num único volume - ainda que não constituam uma trilogia no sentido convencional do termo, há entre eles ligações mais do que suficientes (e sobretudo entre os dois últimos) para justificar a opção e dar uma certa noção de continuidade. Uma continuidade que sai reforçada pelo tom das três histórias, pela forma como Le Guin desenvolve ficção científica em território de fantasia (ou vice-versa), e por alguns temas que acabam por se cruzar e sobrepor, explorados a partir de pontos de vista distintos. Não são o melhor de Le Guin, de facto - mas são um início promissor, ainda que discreto na sua época, e ilustram na perfeição como conseguiu a autora avançar em simultâneo por duas vertentes tão distintas como a sua ficção científica mais complexa e as histórias de fantasia de Earthsea, estabelecendo-se como uma das maiores autoras em ambos os géneros. Para os fãs de Le Guin, serão decerto leitura obrigatória; para os apreciadores de ficção científica e de fantasia, ficam como leitura recomendada. 

Título: Worlds of Exile and Illusion (Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions)
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Orb Books/Tor
Ano: 1996 (1966-1966-1967)
Formato: Paperback
Páginas: 370
Género: Ficção Científica

21 de agosto de 2014

Automata: Primeiro trailer

Será talvez difícil para alguém com um conhecimento razoável da ficção científica literária e cinematográfica ver o primeiro trailer de Automata, o filme do realizador espanhol Gabe Ibañez com António Banderas no papel principal, sem sentir que está perante um conjunto de ideias já muito exploradas pelo género num formato ou noutro - numa mistura das duas curtas Second Renaissance do universo ficcional de The Matrix com Blade Runner e Ghost in the Shell (e com mil-e-um outros filmes e livros que abordaram temáticas similares ou aproximadas), bem temperadas com as Leis da Robótica de Asimov e com uma estética devastada próxima de um District 9. Mas tal mistura, por derivativa que (aparentemente) seja, nem por isso deixa de ser curiosa; e é bem possível que Automata se possa revelar um filme independente bastante interessante, capaz de trazer de volta para a ribalta um dos temas mais antigos e populares da ficção científica.

Automata ainda não tem data de estreia prevista. Abaixo, o trailer.



Fonte: The Verge

20 de agosto de 2014

Greg Bear (1951 - )

Com várias dezenas de romances publicados desde o final dos anos 60, Greg Bear é um dos mais prolíficos autores da ficção científica contemporânea, com uma obra vasta, relevante e multifacetada no género. Destroyers é o título do seu primeiro conto publicado, em 1967, nas páginas da revista Famous Science Fiction; e doze anos mais tarde, em 1979, seria publicado o seu primeiro romance, Hegira, seguido logo por Psychalone no mesmo ano. Mas foi com os contos Hardfought e Blood Music que começou a dar que falar, ao conquistar em 1984 o Prémio Nébula para "Best Novella" com o primeiro, e os prémios Nébula e Hugo para "Best Novelette" com o segundo. Blood Music viria a ser expandido para um romance no ano seguinte, mantendo o título mas alargando a trama.

Na sua bibliografia incluem-se vários romances individuais, como Dinosaur Summer (1998), City at the End of Time (2008) e Hull Zero Three, entre outros (como o já referido Blood Music, talvez o seu título mais conhecido), assim como várias séries desenvolvidas ao longo da carreira. The Forge of God (1987) e Anvil of Stars (1992) formam uma pequena série de dois livros; um modelo seguido anos mais tarde com Darwin's Radio (1999) e Darwin's Children (2003). Mas também tem séries mais longas, como The Way (EonEternityLegacy e The Way of All Ghosts, de 1985, 1988, 1995 e 1999 respectivamente) ou Quantum Logic (Queen of Angels e Heads (1990), Moving MarsSlant (1997), Quantico (2005) e Mariposa, de 1990, 1993, 1997, 2005 e 2009). A série Songs of Earth and Power, composta por The Infinity Concerto (1984) e The Serpent Mage (1986) marcam a sua incursão na fantasia literária. Bear escreveu ainda para universos ficcionais de terceiros, como Foundation, Star Trek, Man-Kzin Wars e Halo.

A sua actividade no fandom merece também destaque: na juventude, contribuiu para a fundação da San Diego Comic Con, hoje o maior evento de pop culture em todo o mundo; e já desempenhou vários cargos na Science Fiction Association of America. Está casado desde 1983 com Astrid Anderson, filha de um autor de destaque da ficção científica e da fantasia: Poul Anderson. 

Gregory Dale "Greg" Bear nasceu a 20 de Agosto em San Diego, na Califórnia, e celebra hoje o seu 63º aniversário.

19 de agosto de 2014

Guardians of the Galaxy: Aventura vintage

Talvez seja seguro afirmar que a space opera está em franco ressurgimento na ficção científica contemporânea, regressando para o topo do género com o qual tantas vezes se confunde (ou é confundida, melhor dizendo). Na literatura, Ancillary Justice, de Ann Leckie, conquistou tanto a crítica como o público, tornado-se aos poucos numa força imparável nos prémios da ficção de género em 2014; ao mesmo tempo, séries como Expanse, de James S. A. Corey e Culture, de Iain M. Banks, gozam de uma popularidade invejável (com a primeira a ter até uma adaptação televisiva projectada, pelo SyFy Channel). Nos videojogos, e depois do sucesso avassalador de Mass Effect e do êxito de nicho de EVE Online, os próximos tempos parecem preparar-se para celebrar o regresso dos space sims, um género quase votado ao esquecimento nas últimas duas décadas, recuperado pelo crowdfunding em títulos tão arrojados como Star Citizen, Elite: Dangerous e No Man's Sky. E no cinema, as mais clássicas space operas estão de volta, com Star Trek em alta após dois filmes bem sucedidos nas bilheteiras e com o hype em redor do próximo episódio de Star Wars e dos planos da Disney para a franchise a roçarem já o insuportável. Colocadas as coisas neste contexto, parecerá talvez segura a aposta da Marvel em Guardians of the Galaxy, adaptando para o grande ecrã a recente reimaginação de 2008 de um título mais antigo; mas a verdade é que reduzir o sucesso do filme às circunstâncias do género e do fandom acaba por ser um tanto ou quanto redutor.


Isto porque, para todos os efeitos, a aposta foi de facto arriscada - em parte também pelo mesmo contexto. Se é certo que o Marvel Cinematic Universe não transporta em si a seriedade e a solenidade que têm sido características da produção cinematográfica mais recente da rival DC, nem por isso, contudo, deixa a longa-metragem de James Gunn de ser um objecto dissonante na continuidade de filmes da Marvel: o humor assume desde os primeiros momentos um lugar de destaque na construção da narrativa, dando a todo o filme um tom mais ligeiro e extraordinariamente refrescante nos dias que correm, marcados pelo cinzentismo da ambiguidade distópica.


De certa forma, acaba por ser essa opção pela ligeireza e pela diversão que acaba por elevar este Guardians of the Galaxy de James Gunn e de o tornar num filme imperdível, notável a praticamente todos os níveis. No tom ouvem-se os ecos das aventuras cinematográficas de outros tempos, bem ritmadas e repletas de gags e de situações impossíveis resolvidas com alguma improvisação e com muito humor - como vimos, deliciados, em clássicos da aventura como Indiana Jones, ou em clássicos da ficção científica como The Fifth Element (que, creio, está mais próximo de Guardians do que o inevitável Star Wars). Heróis e vilões encontram-se muito bem separados, mesmo quando os primeiros têm origens que são tudo menos nobres (os rogues, afinal, também são um clássico do género).


Estes ecos vintage, de outros tempos, surgem reforçados pela surpreende veia nostálgica do filme, muito bem ancorada na personagem de Peter Quill/Star-Lord (Chris Pratt num desempenho memorável, em simultâneo protagonista e comic relief). Há na sua nave, a Milano, toda uma série de memorabilia extraída dos anos 80 para a civilização galáctica do futuro (em contar, claro, com as inúmeras referências pop que faz ao longo do filme, em diálogos tão inspirados como divertidos). Com o artefacto mais importante a ser o seu walkman com a cassete Awesome Mix vol. 1, que serve de pretexto à espantosa banda sonora pop-rock de raízes punk, glam e blues (entre outras), onde figuram nomes como David Bowie, Blue Suede, Jackson 5, Marvin Gaye e The Runaways. Longe de ser um aspecto meramente complementar do filme, a banda sonora é responsável em larga medida pelos tais ecos vintage e por conferir a toda a trama uma energia muito própria, única na ficção científica contemporânea.


E depois temos as personagens, claro - com Guardians of the Galaxy a apresentar aquele que será talvez o melhor elenco de todo o Marvel Cinematic Universe. No que diz respeito aos protagonistas reais, a surpresa vai para o Drax de Dave Bautista, o wrestler profissional aqui tornado num inesquecível colosso deadpan de vocabulário elaborado. A Gamora de Zoe Saldana revela-se competente q.b., com uma excelente química com o resto da equipa - ainda que fique a sensação de que o guião não a deixou ir mais longe. Mas quem rouba o espectáculo, mais até do que Chris Pratt, são as duas personagens geradas por computador: Rocket e Groot, a quem Bradley Cooper e Vin Diesel emprestaram as respectivas vozes para construírem uma dupla memorável.


No entanto, perante uma equipa de heróis tão consistente e perante um conjunto notável de personagens secundárias (onde figuram nomes como John C. Reilly, Glenn Close e Michael Rooker, este numa versão espacial do seu Merle de The Walking Dead), será talvez impossível não reparar como um dos calcanhares de Aquiles do filme acaba por ser os vilões. Não por culpa dos actores, entenda-se: há em Karen Gillan, Lee Pace e Josh Brolin talento mais do que suficiente para muitos vilões em muitos filmes, e isso nota-se em alguns momentos. No entanto, o Thanos de Brolin aparece quase só de passagem (ainda que seja uma aparição relevante), e a Nebula de Gillan surge muito desaproveitada. Resta o Ronan the Accuser de Lee Pace, com uma motivação pouco sustentada e sem aquele carisma exagerado que talvez lhe permitisse erguer-se acima dos clichés da sua personagem (como acontece com o magnífico Zorg de Gary Oldman em The Fifth Element). O seu momento de glória naquele inesperado confronto com Star-Lord, quase no final do filme, não é suficiente para resgatar a personagem.


Já a outra fraqueza de Guardians of the Galaxy acaba por se revelar bem mais problemática do que os seus vilões. Por mais "fora do baralho" que seja, Guardians integra o Marvel Cinematic Universe - e isso nota-se mais do que seria talvez desejável para um filme que se revela tão refrescante em tantos momentos. Com toda a sua ligeireza e todo o seu humor, o filme nunca consegue sair do espartilho do franchising, sublinhado pelos ganchos evidentes à sequela (na prática, o filme é uma origin story de duas horas) e reforçado pela integração numa continuidade mais vasta, que emerge nas aparições de Thanos e do Collector (já referidos nas cenas pós-créditos de The Avengers e Thor 2: The Dark World, respectivamente) e que se manifesta de forma definitiva no MacGuffin que serve de pretexto a toda a trama: a Infinity Stone.


Em última análise, Guardians of the Galaxy acaba por ser mais revolucionário no contexto do Marvel Cinematic Universe do que na ficção científica em geral - com todo o encantamento do seu worldbuilding e todo o charme do seu tom retro, acaba por não ser mais do que uma engrenagem na máquina cinematográfica do universo partilhado da Marvel. Uma engrenagem glorificada, é certo, mas ainda assim uma engrenagem, um pequeno ponto de algo mais vasto e não o ponto de partida para algo novo e irresistível, capaz de se tornar numa força cultural como Star Wars conseguiu nos anos 70; e também por isso nunca será comparável ao clássico de George Lucas. No fundo, e mais do que introduzir personagens e plot points, serve para demonstrar que neste momento a Marvel consegue vender no grande ecrã até as suas propriedades intelectuais mais secundárias.


Ainda assim, o balanço que se retira de Guardians of the Galaxy é extremamente positivo. Pode não estar aqui a revolução de que a space opera cinematográfica talvez necessite, com um equivalente à sofisticação conceptual dos universos literários de Hyperion, Culture ou ao novíssimo Imperial Radch, mas há muito para apreciar na sua nostalgia vintage, na ligeireza que recupera de outros tempos e que tanta falta faz nestes tempos de distopia e grimdark, e no carisma bem humorado dos seus heróis. Com uma componente visual exemplar, uma banda sonora duradoura (até porque testada pelo tempo) e uma mão-cheia de personagens memoráveis, Guardians of the Galaxy é sem dúvida o grande blockbuster deste Verão - e se é uma pena que lhe falte autonomia para vôos mais altos, nem por isso deixa de ser um exemplo perfeito do mais puro, despretensioso e nostálgico entretenimento. 8.2/10

Guardians of the Galaxy (2014)
Realização de James Gunn
Argumento de Nicole Perlman e James Gunn
Com Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Karen Gillan, Michael Rooker, Josh Brolin, Glenn Close, John C. Reilly, Benicio Del Toro e Djomon Hounsou
121 minutos

(nota: texto editado para corrigir uma gralha e dois disparates gramaticais)

18 de agosto de 2014

Brian Aldiss (1925 - )

Brian Aldiss comemora hoje o seu 89º aniversário. Na sua bibliografia encontramos contos como o célebre Super-Toys Last All Summer Long, romances clássicos como Non-Stop, Greybeard e a trilogia Helliconia, e obras relevantes para o género como Billion Year Spree: The History of Science Fiction, mais tarde alargado para um novo volume intitulado Trillion Year Spree (com David Wingrove). No ano passado, por ocasião do aniversário do autor, publicou-se por aqui esta pequena biografia; fica como destaque para este ano também. 

Terry Pratchett: "(...) a good fantasy is just a mirror of our own world, but one whose reflection is subtly distorted" (entrevista)

Com quarenta romances publicados desde 1983 (mais alguns companion books) e milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, a série Discworld de Terry Pratchett é um caso raro de longevidade e de qualidade na fantasia literária, com as suas sátiras tão inteligentes como provocadoras, as suas personagens cativantes para leitores de todas as idades, e, claro, o seu humor inconfundível. Em entrevista ao diário norte-americano The New York Times, Pratchett fala sobre os seus gostos, sobre os seus heróis literários e sobre o impacto que a leitura de The Wind in the Willows teve durante a sua infância - e, de caminho, ainda dá a resposta perfeita à inevitável pergunta de Verão sobre que livros escolher para a proverbial ilha deserta. Alguns excertos:
New York Times: Who are your favorite fantasy novelists?
Terry Pratchett: O.K., I give in. J. R. R. Tolkien. I wrote a letter to him once and got a very nice reply. Just think how busy he would have been, and yet he took the time out to write to a fan. 
NYT: What makes for a good fantasy novel?
TP: The kind that isn’t fantastic. It’s just creating a new reality. Really, a good fantasy is just a mirror of our own world, but one whose reflection is subtly distorted.
(...)
NYT: Which novels have had the most impact on you as a writer? Is there a particular book that made you want to write?
TP: It has to be “The Wind in the Willows.” It fascinated me. He had toads living in great country houses and badgers and moles acting like British gentlemen. I read the pages so often they fell apart, and God bless him for leaving in the pieces called “Wayfarers All” and “The Piper at the Gates of Dawn.” I am sorry to say that certain publishers, who really should know better, have produced editions with those pieces cut from that wonderful book, stating they were simply too heavy for children. I scream at stuff like that. After all, “The Pilgrim’s Progress” was a book written for children. A good book, no matter its intended audience, should get people reading, and that’s what started me writing. And once I started, I never stopped.
A entrevista completa pode ser lida no The New York Times.

Fonte: SF Signal

17 de agosto de 2014

Ancillary Justice, de Ann Leckie, vence o Hugo Award 2014 na categoria de "Melhor Romance"

Ancillary Justice, de Ann Leckie, conquistou o Prémio Hugo na muito cobiçada categoria de "Best Novel" - um galardão que se vai juntar aos prémios Nébula, Arthur C. Clarke e British Science Fiction, o que torna o romance de estreia de Leckie num dos romances de ficção científica mais premiados no seu ano de publicação. É um prémio justo para um romance notável, inteligente e desafiante, que não merecia ser preterido para a longa saga de fantasia épica The Wheel of Time, submetida a concurso no seu todo devido ao lançamento do seu último volume, A Memory of Light, no ano passado.

No que diz respeito aos restantes prémios, Charles Stross, Mary Robinette Kowal e John Chu venceram nas categorias de ficção curta; Gravity, de Alfonso Cuarón, levou o foguetão para a categoria de "Best Dramatic Presentation, Long Form"; e na "Short Form", Game of Thrones destornou o já clássico vencedor da categoria, Dr. Who (numa Worldcon decorrida em Londres, o que pode tornar a coisa ainda mais especial), com o nono episódio da terceira temporada (o célebre e polémico "The Rains of Castamere").

A cerimónia de entrega dos Prémios Hugo decorreu hoje em Londres, na LonCon 3. Abaixo, a lista completa dos vencedores por categoria:

Best Novel:
  • Ancillary Justice, de Ann Leckie (Orbit)
  • Neptune’s Brood, de Charles Stross (Ace/Orbit)
  • Parasite, de Mira Grant (Orbit)
  • Warbound (Terceiro Volume das Grimnoir Chronicles), de Larry Correia (Baen Books)
  • The Wheel of Time, de Robert Jordan e Brandon Sanderson (Tor Books)
Best Novella:
  • Equoid, de Charles Stross (Tor.com, 09/2013)
  • The Butcher of Khardov, de Dan Wells (Privateer Press)
  • The Chaplain’s Legacy, de Brad Torgersen (Analog, 07-08/2013)
  • Six-Gun Snow White, de Catherynne M. Valente (Subterranean Press)
  • Wakulla Springs, de Andy Duncan e Ellen Klages (Tor.com, 10/2013)
Best Novelette:
  • The Lady Astronaut of Mars, de Mary Robinette Kowal (Tor.com, 09/2013)
  • Opera Vita Aeterna, de Vox Day (The Last Witchking, Marcher Lord Hinterlands)
  • The Exchange Officers, de Brad Torgersen (Analog, 01-02/2013)
  • The Truth of Fact, the Truth of Feeling, de Ted Chiang (Subterranean Press Magazine, Outono de 2013)
  • The Waiting Stars, de Aliette de Bodard (The Other Half of the Sky, Candlemark & Gleam)
Best Short Story:
  • The Water That Falls on You from Nowhere, de John Chu (Tor.com, 02/2013)
  • If You Were a Dinosaur, My Love, de Rachel Swirsky (Apex Magazine, 03/2013)
  • The Ink Readers of Doi Saket, de Thomas Olde Heuvelt (Tor.com, 04/2013)
  • Selkie Stories Are for Losers, de Sofia Samatar (Strange Horizons, 04/2013)
Best Related Work:
  • We Have Always Fought: Challenging the Women, Cattle and Slaves Narrative, de Kameron Hurley (A Dribble of Ink)
  • Queers Dig Time Lords: A Celebration of Doctor Who by the LGBTQ Fans Who Love It, edição de Sigrid Ellis e Michael Damien Thomas (Mad Norwegian Press)
  • Speculative Fiction 2012: The Best Online Reviews, Essays and Commentary, de Justin Landon e Jared Shurin (Jurassic London)
  • Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction, de Jeff VanderMeer, com Jeremy Zerfoss (Abrams Image)
  • Writing Excuses Season 8, de Brandon Sanderson, Dan Wells, Mary Robinette Kowal, Howard Tayler e Jordan Sanderson
Best Graphic Story:
  • Time, de Randall Munroe (XKCD)
  • Girl Genius Vol 13: Agatha Heterodyne & The Sleeping City, com escrita de Phil e Kaja Foglion, arte de Phil Foglio e cor de Cheyenne Wright (Airship Entertainment)
  • The Girl Who Loved Doctor Who, com escrita de Paul Cornell, e ilustração de Jimmy Broxton (Doctor Who Special 2013, IDW)
  • The Meathouse Man, adaptado da história de George R.R. Martin e com ilustração de Raya Golden (Jet City Comics)
  • Saga, Vol 2, com escrita de Brian K. Vaughn e ilustração de Fiona Staples (Image Comics)
Best Dramatic Presentation, Long Form:
  • Gravity, com realização de Alfonso Cuarón e argumento de Alfonso e Jonás Cuarón (Esperanto Filmoj; Heyday Films; Warner Bros.)
  • Frozen, com realização de Chris Buck e Jennifer Lee, e argumento de Jennifer Lee (Walt Disney Studios)
  • The Hunger Games: Catching Fire, com realização de Francis Lawrence e argumento de Simon Beaufoy e Michael Arndt (Color Force; Lionsgate)
  • Iron Man 3, com realização de Shane Black e aragumento de Drew Pearce e Shane Black (Marvel Studios; DMG Entertainment; Paramount Pictures)
  • Pacific Rim, com realização de Guillermo Del Toro e argumento de Travis Beacham e Guillermo Del Toro (Legendary Pictures, Warner Bros., Disney Double Dare You)
Best Dramatic Presentation, Short Form:
  • Game of Thrones: “The Rains of Castamere”, com argumento de David Benioff e D.B. Weiss e realização de David Nutter (HBO Entertainment)
  • An Adventure in Space and Time Written, de Mark Gatiss, com realização de Terry McDonough (BBC Television)
  • Doctor Who: “The Day of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Nick Hurran (BBC)
  • Doctor Who: “The Name of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Saul Metzstein (BBC)
  • The Five(ish) Doctors Reboot, com argumento e realização de Peter Davison (BBC Television)
  • Orphan Black: “Variations under Domestication”, com argumento de Will Pascoe e realização de John Fawcett (Temple Street Productions; Space/BBC America)
Best Editor - Short Form:
  • Ellen Datlow
  • John Joseph Adams
  • Neil Clarke
  • Jonathan Strahan
  • Sheila Williams
Best Editor - Long Form:
  • Ginjer Buchanan
  • Sheila Gilbert
  • Liz Gorinsky
  • Lee Harris
  • Toni Weisskopf
Best Professional Artist:
  • Julie Dillon
  • Galen Dara
  • Daniel Dos Santos
  • John Harris
  • John Picacio
  • Fiona Staples
Best Semiprozine:
  • Lightspeed Magazine, com edição de John Joseph Adams, Rich Horton e Stefan Rudnicki
  • Apex Magazine, com edição de Lynne M. Thomas, Jason Sizemore e Michael Damian Thomas
  • Beneath Ceaseless Skies, com edição de Scott H. Andrews
  • Interzone, com edição de Andy Cox
  • Strange Horizons, com edição de Niall Harrison, Brit Mandelo, An Owomoyela, Julia Rios, Sonya Taaffe, Abigail Nussbaum, Rebecca Cross, Anaea Lay e Shane Gavin
Best Fanzine:
  • A Dribble of Ink, com edição de Aidan Moher
  • The Book Smugglers, com edição de Ana Grilo e Thea James
  • Elitist Book Reviews, com edição de Steven Diamond
  • Journey Planet, com edição de James Bacon, Christopher J Garcia, Lynda E. Rucker, Pete Young, Colin Harris e Helen J. Montgomery
  • Pornokitsch, com edição de Anne C. Perry e Jared Shurin
Best Fancast:
  • SF Signal Podcast, de Patrick Hester
  • The Coode Street Podcast, de Jonathan Strahan e Gary K. Wolfe
  • Doctor Who: Verity!, de Deborah Stanish, Erika Ensign, Katrina Griffiths, L.M. Myles, Lynne M. Thomas e Tansy Rayner Roberts
  • Galactic Suburbia Podcast, de Alisa Krasnostein, Alexandra Pierce, Tansy Rayner Roberts (Apresentadores) e Andrew Finch (Produtor)
  • The Skiffy and Fanty Show, de Shaun Duke, Jen Zink, Julia Rios, Paul Weimer, David Annandale, Mike Underwood e Stina Leicht
  • Tea and Jeopardy, de Emma Newman
  • The Writer and the Critic, Kirstyn McDermott e Ian Mond
Best Fan Writer:
  • Kameron Hurley
  • Liz Bourke
  • Foz Meadows
  • Abigail Nussbaum
  • Mark Oshiro
Best Fan Artist:
  • Sarah Webb
  • Brad W. Foster
  • Mandie Manzano
  • Spring Schoenhuth
  • Steve Stiles
John W. Campbell Award for Best New Writer:
  • Sofia Samatar
  • Wesley Chu
  • Max Gladstone
  • Ramez Naam
  • Benjanun Sriduangkaew
Fonte: Hugo Awards

Citação fantástica (148)

To light a candle is to cast a shadow.

Ursula K. Le Guin, A Wizard of Earthsea (1968)

16 de agosto de 2014

James Cameron (1954 - )

É bem possível que James Cameron fique para a história como o realizador que criou os maiores sucessos de bilheteira da história do cinema - os recordes milionários estabelecidos por Titanic em 1997 só foram batidos por Avatar em 2009. Mas a filmografia do realizador canadiano é mais do que os seus sucessos de bilheiteira, e o contributo que deu para a ficção científica cinematográfica dos últimos 30 anos é praticamente incomparável. Em 1984 fez estrear Terminator, sobre um andróide assassino (Arnold Schwarzenegger) enviado de um futuro pós-apocalíptico para o presente com o objectivo de eliminar Sarah Connor (Linda Hamilton), mãe daquele que será o líder da rebelião humana contra as inteligências artificiais da Skynet, que quase erradicaram a Humanidade; sete anos mais tarde deu continuidade à história em Terminator 2: Judgment Day, colocando o antigo vilão no papel de herói, e criando um novo terminator, o célebre T-1000 de Robert Patrick.

Cinco anos antes, em 1986, realizou uma incursão ao universo ficcional criado por Ridley Scott no final da década de 70 com Alien; compreendendo que repetir a atmosfera do original, optou pela via da ficção científica militar num filme de acção tenso como poucos. O resultado foi Aliens, um dos raros casos em que a sequela, nas mãos de outro realizador, se revela capaz de fazer justiça ao filme original. E entre Aliens e Terminator 2 houve ainda tempo para The Abyss, onde conseguiu explorar, num contexto de ficção científica, uma das suas grandes paixões: a exploração do fundo do mar (a título de exemplo, em 2012 desceu sozinho num submersível ao fundo da Fossa das Marianas).

Após mais de uma década afastado do grande ecrã (dedicou-se, entre outros projectos, à série televisiva Dark Angel), regressou em 2009 com Avatar, um êxito estrondoso que pulverizou recordes de bilheteira em todo o mundo e revolucionou as tecnologias de motion capture e que relançou toda a indústria do 3-D no cinema - ainda que, diga-se de passagem, poucos filmes estreados neste formato desde então conseguem ombrear com a experiência assombrosa de Avatar em IMAX 3D. Actualmente, Cameron encontra-se a trabalhar no regresso ao mundo de Pandora em três sequelas.

James Cameron nasceu a 16 de Agosto de 1954 em Kapuskasing, na província de Ontário, no Canadá, e celebra hoje o seu 60º aniversário.

Kapuskasing, Ontario,

Hugo Gernsback (1884 - 1967)

Amanhã à noite serão entregues na Worldcon 2014 em Londres os prémios Hugo, distinguindo a melhor ficção científica do ano passado - com o já icónico troféu em forma de foguetão a ser atribuído em honra de Hugo Gernsback, o inventor norte-americano de origem luxemburguesa que em 1926 fundou a Amazing Stories. E a importância deste projecto não pode ser menosprezada: na qualidade de primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica, lançou as bases do género literário enquanto tal ao dar origem a um mercado que floresceu nos anos que se seguiriam, e ao lançar alguns dos mais consagrados autores que a ficção científica já conheceu (como Isaac Asimov, Ursula K. Le Guin e Roger Zelazny, entre outros). E também - sobretudo, dirão alguns - por ser nas páginas daquela revista inovadora que o fandom teve o seu início, através da secção de cartas dos leitores que está na origem da noção de comunidade em redor da ficção científica.

A partir da fundação da Amazing Stories, Gernsback esteve quase sempre ligado à área editorial no género. Wonder Stories e Science-Fiction Plus são alguns dos títulos que fundou. Antes disso, desenvolveu uma actividade também relevante como inventor, sobretudo na área das transmissões de rádio (à época ainda a dar os primeiros passos). A sua primeira experiência editorial advém desses anos nas primeiras décadas do século XX.

Hugo Gernsback nasceu a 16 de Agosto de 1884 em Bonnevoie, no Luxemburgo (há 130 anos), e faleceu a 19 de Agosto de 1967 em Manhattan, nos Estados Unidos.  

15 de agosto de 2014

O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias: Regresso ao futuro pela ironia cósmica

Por estranho que possa parecer aos leitores mais novos (entre os quais me incluo), houve um tempo, e não tão distante quanto isso, em que se publicava por cá ficção científica em quantidade e também em qualidade (pelo menos na selecção de títulos). E essa publicação incluía autores também alguns autores portugueses, uns poucos que seguiram a trajectória habitual nos fandoms anglo-saxónicos de leitores ávidos para fãs entusiasmados para autores capazes de se afirmar pelos seus méritos estilísticos, pela originalidade das suas vozes e pela sua capacidade de dar um cunho pessoal a convenções e ideias importadas de um género que, antes deles, pouca tradição encontrava por cá. João Barreiros é um desses leitores/fãs/autores, formado no género durante os anos de ouro das colecções, tendo desenvolvido uma actividade ímpar como editor, antologista, tradutor e autor. Haverá decerto outras ocasiões para explorar as restantes facetas de Barreiros; hoje, o tema será a sua obra inicial enquanto autor, com a ficção curta compilada numa colectânea publicada na "colecção azul" da Caminho nos idos gloriosos de 1994: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias.

Que um livro como este Caçador de Brinquedos não seja hoje fácil de encontrar em qualquer estante de uma livraria que se preze, numa edição revista com capa nova e um pequeno selo a indicar uma quarta ou quinta edição (ou, neste ano de 2014, a assinalar o vigésimo aniversário da publicação original) diz praticamente tudo o que há a dizer sobre o estado estrago da ficção científica literária nacional, com os títulos originais de outros anos votados ao esquecimento e relegados às actividades quase arqueológicas dos alfarrabistas (e dos respectivos clientes), e com as novas edições traduzidas a surgirem de forma tão isolada como fugaz. Quem tiver a sorte de encontrar um exemplar sobrevivente às labaredas dos nossos pequenos Montags editoriais terá nas mãos não só um tesouro de uma era perdida, como também uma das mais importantes obras da ficção científica portuguesa.

Essa importância advém não tanto da questão da raridade mas sobretudo por mostrar alguns dos primeiros textos de ficção de João Barreiros, onde o autor começou a dar forma ao seu estilo inconfundível e aos temas e motivos que se tornaram mais ou menos recorrentes na sua obra. Como a desconstrução e a subversão da iconografia e do imaginário infantis, tão bem sintetizada no conto que dá título à colectânea: O Caçador de Brinquedos. É uma pequena fábula, tão divertida somo sombria, na qual os brinquedos de que todos os miúdos gostam são infectados com um estranho vírus cibernético que os torna homicidas - e daí à guerra declarada para com os humanos adultos vai um pequeno passo, com o jovem Jimmy retido numa infância física falsa em nome de uma vingança pessoal. Ou o ataque mais ou menos velado à literatura mainstream, eterno némesis do géneros literários na percepção de inúmeros leitores: Quatro milhões de Lolitas é também isso, e mais - uma história muito curiosa, capaz de dar a volta às expectativas dos leitores em vários momentos. Como também o são as duas Crónicas do Exílio Lunar, duas histórias que partilham um universo ficcional intrigante, no qual uma raça alienígena designada como "Aranhetas" surge no Sistema Solar e causa o caos à sua passagem - refreada apenas pelo seu apetite ao mesmo tempo orgásmico e mortal (literalmente) pela literatura humana. A imagem de uma criatura alienígena a liquefazer-se enquanto ouvem passagens de Shakespeare ou Beckett tem uma força muito própria, e não deixa quase de saber a uma pequena vendetta pessoal para com os "solilóquios existenciais" da literatura dita "erudita". 

Mas este Caçador de Brinquedos esconde mais algumas pérolas. Um dia com Júlia na Necrosfera será talvez o melhor texto da colectânea - uma narrativa sombria que parece explorar os conceitos que Philip K. Dick apresentou no excepcional Ubik para os levar noutra direcção, mais próxima do renegado Jory do que das personagens principais, Glen Runciter e Joe Chip. Saldos é um ataque violento, hilariante e trágico ao consumismo exacerbado através de um desgraçado - os protagonistas de Barreiros tendem a sê-lo - que se vê apanhado, indefeso, nas malhas compulsivas de um centro comercial; um ataque que tenta também em A gaia-concorrência, ainda que com menos eficácia. Balada para um Katástrofopoeta transforma a destruição de Lisboa num reality show visto do céu, com um resgate ousado pelo meio. E Kulturkomandos e Alice e a semente de Nyack-Nyack, as duas excelentes histórias que compõem as Crónicas do Exílio Lunar, concluem a colectânea numa nota alta, com a narrativa excepcional do primeiro e a premissa cativante do segundo a merecerem destaque.

É claro que nem tudo em O Caçador de Brinquedos funciona na perfeição. A gaia-concorrência e Balada para um Katástrofopoeta serão porventura os textos mais fracos, ainda que ambos contenham elementos conceptuais de grande interesse e sirvam como exemplos da ironia refinada e do humor negro que se tornariam habituais na ficção científica de João Barreiros. Algumas das referências infantis poderão ser já excessivamente obscuras para um público contemporâneo mais jovem (o urso Fozzy, por exemplo). E alguns dos contos - como os dois últimos - acabam por saber a pouco. Nem por isso, porém, deixam de ser contos notáveis pela construção de mundo que exibem, pelas situações que as suas personagens enfrentam, pelo absurdo irónico e muito auto-consciente que se pode ler em cada linha. Com o bónus de que quem já estiver familiarizado com a restante obra de João Barreiros - em particular com Terrarium, o magmum opus escrito a meias com Luís Filipe Silva - encontrará aqui a génese de muitos elementos e de várias ideias que se tornariam relevantes mais tarde, devidamente viradas do avesso e refinadas pela ironia mais negra. Mais do que uma colectânea notável, O Caçador de Brinquedos é um autêntico "elo perdido" da ficção científica nacional - que, pela qualidade das suas narrativas e pela raridade da sua edição, merece ser relembrado e partilhado com as novas gerações de leitores. 

Título: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias
Autor: João Barreiros
Editora: Caminho
Ano: 1994
Formato: Paperback
Páginas: 242
Género: Ficção Científica

Retro Hugos 1939: Os vencedores

Com a Worldcon 2014 à porta, aproxima-se um dos momentos mais aguardados do ano no que à literatura de ficção científica e fantasia diz respeito: a cerimónia de entrega dos Prémios Hugo, que desde 1953 distinguem anualmente na World Science Fiction Convention o que de melhor se fez no género no ano anterior. E uma vez que neste ano se assinala o 75º aniversário da Worldcon (a primeira edição do certame teve lugar em Nova Iorque no ano de 1939 - mais conhecido, infelizmente, pelo início da Segunda Guerra Mundial), em paralelo aos Hugos relativos aos trabalhos de 2013 serão ainda atribuídos os "Retro Hugos" que distinguem, como se estivéssemos naquele fatídico ano de 1939, as melhores contribuições de 1938 para o género. Os vencedores já são conhecidos nas respectivas categorias:

Best Novel:
  • The Sword in the Stone, de T. H. White (Collins)
  • Carson of Venus, de Edgar Rice Burroughs (Argosy, Fevereiro de 1938)
  • Galactic Patrol, de E. E. Smith (Astounding Stories, Fevereiro de 1938)
  • The Legion of Time, de Jack Williamson (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • Out of the Silent Planet, de C. S. Lewis (The Bodley Head)

Best Novella: 
  • “Who Goes There?”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Science-Fiction, Agosto de 1938)
  • Anthem, de Ayn Rand (Cassell)
  • “A Matter of Form”, de H. L. Gold (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Sleepers of Mars”, de John Wyndham (Tales of Wonder, Março de 1938)
  • “The Time Trap”, de Henry Kuttner (Marvel Science Stories, Novembro de 1938)

Best Novelette:
  • “Rule 18”, de Clifford D. Simak (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • “Dead Knowledge”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Stories, Janeiro de 1938)
  • “Hollywood on the Moon”, de Henry Kuttner (Thrilling Wonder Stories, Abril de 1938)
  • “Pigeons From Hell”, de Robert E. Howard (Weird Tales, Maio de 1938)
  • “Werewoman”, de C. L. Moore (Leaves #2, Inverno de 1938)

Best Short Story:
  • “How We Went to Mars”, de Arthur C. Clarke (Amateur Science Stories, Março de 1938)
  • “The Faithful”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)
  • “Helen O’Loy”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Hollerbochen’s Dilemma”, de Ray Bradbury (Imagination!, Janeiro de 1938)
  • “Hyperpilosity”, de L. Sprague de Camp (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)

Best Dramatic Presentation - Short Form:
  • The War of the Worlds, de H. G. Wells. Argumento de Howard Koch e Anne Froelick; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • Around the World in 80 Days, de Jules Verne. Argumento e realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • A Christmas Carol, de Charles Dickens. Argumento e realização de Orson Welles (The Campbell Playhouse, CBS)
  • Dracula, de Bram Stoker. Argumento de Orson Welles e John Houseman; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • R. U. R., de Karel Capek. Produzido por Jan Bussell (BBC)

Best Editor - Short Form:
  • John W. Campbell
  • Walter H. Gillings
  • Ray Palmer
  • Mort Weisinger
  • Farnsworth Wright

Best Professional Artist:
  • Virgil Finlay
  • Margaret Brundage
  • Frank R. Paul
  • Alex Schomburg
  • H. W. Wesso

Best Fanzine:
  • Imagination!, com edição de Forrest J Ackerman
  • Fantascience Digest, com edição de Robert A. Madle
  • Fantasy News, com edição de James V. Taurasi
  • Novae Terrae, com edição de Maurice Hanson
  • Tomorrow, com edição de Doug Mayer

Best Fan Writer:
  • Ray Bradbury
  • Forrest J Ackerman
  • Arthur Wilson “Bob” Tucker
  • Harry Warner Jr.
  • Donald A. Wollheim

Special Committee Award:
  • Jerry Siegel & Joe Shuster

Fonte: Tor

14 de agosto de 2014

This happening world (19)

(os artigos de hoje chegam com um atraso maior do que o habitual - mas continuam a ser excelentes leituras para quem ainda não passou os olhos por eles)

Por que motivo Dune, de Frank Herbert, não se tornou num fenómeno cultural como The Lord of the Rings ou Star Wars apesar de ser consistentemente considerado um dos melhores e mais importantes romances da ficção científica literária? Jon Michaud procura dar uma resposta a esta questão na The New Yorker com o artigo Dune Endures - e acaba por revisitar um dos maiores clássicos que o género já conheceu, porventura mais actual hoje do que à data da sua publicação nos longínquos anos 60 (também poderíamos arriscar, em jeito de resposta, que a adaptação cinematográfica de Dune por David Lynch tem os seus... problemas, e que isso não terá decerto ajudado à popularização do texto).

A biografia de Joss Whedon deu que falar em finais de Julho e inícios de Agosto - e tanto o io9 como a Tor deram algum destaque ao lançamento, publicando excertos sobre diferentes aspectos de Firefly. Charlie Jane Anders publicou no io9 o capítulo 17 da biografia, dedicado à concepção do universo ficcional do malogrado space western do criador de Buffy; e Amy Pascale (autora da biografia) destacou no portal da Tor o capítulo 19, sobre o cancelamento prematuro de Firefly pela Fox, com as reacções de Whedon, do elenco e da equipa que conseguiu fazer de uma série interrompida um fenómeno de culto assinalável. Ambas as passagens são leitura obrigatória para qualquer browncoat que se preze.

No Ars Technica, Lee Hutchinson explora as origens do termo xenomorph na franchise cinematográfica de Alien - levantando a questão (muito interessante, por sinal) sobre se a expressão se refere a qualquer forma de vida alienígena naquele universo ficcional ou se é aplicável apenas à criatura adaptável que a tripulação da Nostromo encontrou em LV-426. E, de caminho, Hutchinston aproveita ainda para analisar, no contexto de Aliens (1986), o blackout informativo da Weiland-Yutani a propósito da criatura quando envia a expedição de Colonial Marines- com Ripley - para a colónia incontactável de Hadley's Hope.

Goste-se ou não, a verdade é que poucos fenómenos literários se podem comparar ao de Harry Potter, a saga de fantasia literária que tornou J. K. Rowling milionária e que se tornou numa força imparável na cultura pop contemporânea. No Boing Boing, Caroline Siede explora os factores que fizeram da história do jovem feiticeiro e herói acidental uma leitura compulsiva para milhões de leitores em todo o mundo, ao ponto de se tornar na obra de referência para toda uma geração.

12 de agosto de 2014

Por motivos de força maior nesta Terça-feira não haverá o artigo habitual sobre um filme (as desventuras recentes no kafkiano Sistema Nacional de Saúde tiraram o tempo disponível para ver um filme e pare escrever sobre ele). Em princípio, para a semana escreverei sobre Guardians of the Galaxy; entretanto, deixo como leitura recomendada a crítica de Jorge Mourinha, no Ípsilon, ao Snowpiercer de Bong Joon-ho, que não tive oportunidade de ver no grande ecrã.