20 de setembro de 2012

Dragon Age 3: Inquisition, ou o ponto sem retorno da BioWare

As reacções ao anúncio de Dragon Age 3: Inquisition não têm sido as melhores (1, 2, 3). Diria que, depois de Dragon Age 2 (que não joguei, mas por aquilo que leio online parece ser fraquito) e de Mass Effect 3 (que joguei e confirmo: é um bom jogo com um final terrível), a Electronic Arts e a Bioware chegaram a um ponto sem retorno: ou o próximo jogo - no caso, DA3:I - é fenomenal, ou submergem, com consequências tudo menos inesperadas (EA em restruturação, Bioware extinta). É esperar para ver; de qualquer forma, seria excelente que, para variar, a EA deixasse de lado as tretas do costume (DLC no dia de lançamento, uma infinidade de DLC pagos, multiplayer ligado ao single player) e se centrasse no que é de facto importante: produzir um RPG verdadeiramente bom, como aqueles que em tempo produziu e que a tornaram num estúdio reconhecido e respeitado. 

No entanto, nada na Bioware indica que isto venha a acontecer - sobretudo devido às recentes notícias  (123) que dão conta da saída dos fundadores Ray Muzyka e Greg Zeschuk, cinco anos após a aquisição pela EA. Com Muzyka e Zeschuk ao leme, a Bioware desenvolveu clássicos como Baldur’s Gate, Neverwinter Nights, Knights of the Old Republic, Mass Effect e Dragon Age: Origins. A sua saída marca sem dúvida o fim de uma era para o estúdio, e não perspectiva nada de bom para o seu futuro.


Euro Steam Con 2012 - Porto: Programação Completa

O Clockwork Portugal já anunciou a programação completa do EuroSteamCon 2012, a convenção internacional de steampunk que decorre em várias cidades europeias no final de Setembro - e, entre elas, o Porto. Aqui fica a programação completa:

Sábado, 29 de Setembro

15:00
Abertura do evento. Apresentação da Clockwork Portugal e da sua equipa. Descrição do Evento. Apresentação dos participantes da feira.
15:30
Debate: O que é o Steampunk? - com João Barreiros, Luís Filipe Silva e João Ventura 
16:30
VaporPunk: O Steampunk em Português - com Luís Filipe Silva
17:00
Tea Break 
17:30
Demonstração da Elfic Wear 
18:00
Lançamento do Almanaque Steampunk 2012 + Sessão de autógrafos 

Domingo, 30 de Setembro

15:00
Steampunk, Electropunk, Solarpunk e outros Punk - com João Barreiros 
16:00
Sugestões de Leitura Steampunk - com a Equipa Clockwork Portugal
16:30
Ilustração - com Luís Melo 
17:00
Tea Break + Sorteio do Cabaz Steampunk*
17:30
Lançamento do livro Downspiral do Anton Stark + Sessão de autógrafos 

Programação Paralela (a decorrer sempre)
Feira de Criadores
Elfic Wear
Koollook / Águas Furtadas
Musa de Inspiração 

Nanozine 
Revista Lusitânia 

Banca de Tea & Biscuits

*Inclui: trilogia Leviatã de Scott Westerfeld (cedido pela Editora Vogais), exemplar autografado de A Corte do Ar, de Stephen Hunt (cedido por Ricardo Lourenço), Downspiral, de Anton Stark (cedido pelo autor), um exemplar da Nanozine nº6 (cedido pelos próprios), The Iron Duke, de Meljean Brook, e um exemplar do Almanaque Steampunk (cedidos pela Clockwork Portugal) 


George R.R. Martin (1948 - )

Hoje, é obrigatório falar de George R. R. Martin sempre que o tema é a fantasia épica contemporânea - ou não fosse a série A Song of Ice and Fire uma das suas mais populares referências, sobretudo após a (excelente) adaptação televisiva da HBO. Martin publicou o primeiro volume da série, A Game of Thrones, em 1996, e desde então o universo de Westeros conta já com cinco livros, três contos publicados em antologias diversas (mais um que sairá em breve), uma série televisiva de sucesso que já vai para a terceira temporada, e uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo, capaz de esgotar sessões de autógrafos e de, segundo o autor, organizar as melhores festas da Worldcon. 

A carreira de George R. R. Martin, contudo, não se resume a Westeros. É o autor de livros como The Armageddon Rag, Dying of the Light, Fevre Dream, entre outros, para além de ser em simultâneo autor e editor da série Wild Cards. Tem inúmeros contos de fantasia, ficção científica e terror publicados. Editou já várias antologias, entre elas várias edições de New Voices in Science Fiction, The Songs of Dying Earth (de homenagem a Jack Vance) e Warriors, as duas últimas com Gardner Dozois. Como argumentista, escreveu vários episódios para a série de culto The Twilight Zone, assim como para Beauty and the Beast - para além, claro, de três episódios na série Game of Thrones

George R. R. Martin foi considerado uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista TIME em 2011, e já venceu vários prémios literários com a sua obra. Celebra hoje 64 anos. 

19 de setembro de 2012

The Hobbit: Novo trailer e mais destaque narrativo para Radagast the Brown

Foi hoje divulgado o novo trailer de The Hobbit: An Unexpected Journey - que me fez recuperar algum optimismo para com esta produção, após o anúncio de que o projecto de dois filmes passa afinal a ser uma trilogia. Mas melhor do que falar sobre o trailer é mostrá-lo:



Entretanto, foram também divulgadas algumas novidades quanto à narrativa desta trilogia. Radagast the Brown, um dos cinco Istari que foi para a Terra Média na Terceira Era para ajudar os Elfos e os Homens a combater Sauron, terá mais destaque na narrativa da trilogia The Hobbit. O papel será interpretado por Sylvester McCoy (Dr. Who). 

Recorde-se que Radagast não chega a aparecer em The Hobbit (o livro), sendo apenas mencionado por Gandalf e Beorn (é também mencionado em The Silmarillion). Desempenha um pequeno papel em The Lord of the Rings, ao inadvertidamente ajudar Saruman a trair Gandalf, e, também de forma não intencional, ao ajudar Gandalf a escapar de Saruman. Escolhido pela valar Yavanna para acompanhar os restante Istari na sua missão à Terra Média, Radagast possui uma forte ligação à natureza e uma afinidade espontânea com animais - sobretudo aves - e plantas. Será sem dúvida interessante ver que papel Peter Jackson lhe revela na sua versão alargada da viagem de Bilbo à Montanha Solitária.

Fonte: io9

Wreck-it Ralph, ou a nostalgia dos videojogos segundo a Disney


Não sei se o objectivo cativar os miúdos de hoje ou os miúdos que, há algumas décadas, se deliciavam com algumas das personagens dos jogos a que Wreck-it Ralph faz alusão. Sei que o conceito é bastante criativo, e imagino que a Disney deve ter empenhado a fortuna acumulada de todas as suas princesas para pagar os direitos de algumas personagens de jogos clássicos* (só à custa do Sonic deve ter recambiado a Cinderela para uma esquina de gosto duvidoso). De qualquer forma, nem que seja pela nostalgia, valerá certamente ver. Estreia por cá a 6 de Dezembro.

*Consta que não houve fundos para incluir Mário e Luigi. 

18 de setembro de 2012

A ficção científica e o cinema: The Terminator

Apesar de o seu momento de glória - em termos de prémios - ter ocorrido com Titanic em 1997, James Cameron é associado com frequência à ficção científica - sobretudo a uma ficção científica mais orientada para a acção. Com Aliens, em 1986, realizou uma excelente sequela a Alien de Ridley Scott; no entanto, começou o seu percurso na ficção científica dois anos antes, em 1984, com o original e hoje clássico The Terminator

Feito à medida de Arnold Schwarzeneggee, The Terminator aborda o tema das viagens no tempo com o enquadramento do presente da narrativa a situar-se não no seu passado, mas num 2029 pós-apocalíptico ainda por concretizar. Em 1997, a rede de inteligência artificial Skynet, utilizada para o controlo dos sistemas de defesa dos Estados Unidos, ganhou consciência e desencadeou um holocausto nuclear, colocando a Humanidade à beira da extinção. Sob a liderança de John Connor, os sobreviventes formaram um movimento de resistência e desencadearam uma guerra contra as máquinas da Skynet, até ao ponto em que conseguiram destruir as suas defesas. Em desespero, a Skynet decide enviar para 1984 o cyborg T-800 (Arnold Schwarzenegger), um Exterminador com um único objectivo: eliminar Sarah Connor (Linda Hamilton), mãe do líder da resistência, John Connor, antes mesmo de ele nascer - impedindo assim que ele lidere o movimento de resistência. Como resposta, a Resistência envia para o passado um soldado, Kyle Reese (Michael Biehn), determinado a impedir que o Exterminador cumpra a sua missão.

Um dos aspectos interessantes deste filme é notar a abordagem “circular” de James Cameron ao tema das viagens no tempo, em parte idêntica na sua essência às abordagens de Chris Marker em La Jetée, de Terry Gilliam em Twelve Monkeys (ou, na literatura, à abordagem de Robert A. Heinlein em Time Enough for Love). Afastando-se do conceito clássico de paradoxo, Cameron opta por uma narrativa na qual todos os acontecimentos presentes e futuros estão interligados, independentemente do seu momento cronológico. Assim, John Connor só nasce devido à viagem no tempo efectuada pelo Exterminador para matar a sua mãe, Sarah Connor; da mesma forma, o breakthrough da Cyberdyne Corporation para a Skynet dá-se devido à tecnologia do Exterminador destruído no processo. No entanto, e este é o ponto interessante, o plano da Skynet assenta todo ele na assumpção de que a noção de paradoxo é válida, partindo do princípio que a eliminação de Sarah Connor no passado assegura a neutralização de John Connor no futuro. Dito de outra forma: a noção de paradoxo é imperativa para a anulação da própria noção de paradoxo - ou seja, é a própria Skynet quem, de forma indirecta, “cria” John Connor ao tentar prevenir que ele se torne no líder capaz de a destruir. 

Se do ponto de vista narrativo The Terminator se revela denso e estimulante, que se pode dizer da acção? Pouco mais do que isto: é excelente, e só será superada pela sua própria sequela em Terminator 2: Judgement Day. Pode-se questionar as qualidades de Arnold Scharzenegger enquanto actor, mas importa reconhecer que, no papel do Exterminador, está perfeito - lacónico, intimidante e brutal, capaz de destruir tudo aquilo que esteja entre si e o seu alvo. I'll be back, diz ele para a história do cinema, momentos antes de arrasar uma esquadra de polícia inteira. Memorável.

Hoje, The Terminator apenas parecerá datado nos penteados e no guarda-roupa - e quanto a esses, mais dia menos dia serão moda novamente. Sombrio, intenso e violento q.b., The Terminator marcou de forma indelével a acção na ficção científica, que a sua sequela viria a aperfeiçoar a um patamar que ainda hoje permanece entre o que de melhor se fez no género. 8.6/10

17 de setembro de 2012

The Walking Dead: Análise da primeira temporada (1)

Com a terceira temporada de The Walking Dead a começar daqui a um mês (17 de Outubro, na Fox), parece-me ser uma boa altura para fazer uma breve análise e retrospectiva às duas primeiras temporadas e a alguns episódios da série que se atreveu a levar zombies para o horário nobre televisivo. Comecemos hoje pela primeira temporada, estreada em Novembro de 2010 (aviso: Spoilers).

Quem, em 2010, já conhecia a banda desenhada The Walking Dead, de Robert Kirkman, não terá sido surpreendido pelo anúncio de que a AMC iria adaptar o conceito para um série televisiva - a história de Rick Grimes e do grupo de sobreviventes num mundo dominado por zombies é perfeito para uma produção televisiva de qualidade. À época, não conhecia a banda desenhada (que hoje colecciono), mas não consegui evitar a estranheza quando vi os anúncios na FOX (que transmite a série em Portugal): uma série de zombies? E em horário nobre? A própria AMC pareceu ter algumas reservas quanto ao projecto: a curta duração primeira temporada, com seis episódios apenas, parece ser prova disso. O que não é de estranhar: tudo o que se aproxime da ficção científica ou dos comics é normalmente empurrado para um nicho, e os números que esse nicho alcança nem sempre se revelam suficientes para manter a série a correr.

Felizmente, bastaram estes seis episódios para The Walking Dead se afirmar como uma das séries do momento, um supreendente sucesso de audiências que cativou tanto os fãs do género como telespectadores que, passe a expressão, dificilmente se aproximariam de zombies. O que não acontece por acaso. Na introdução do primeiro álbum da BD, Kirkman diz:
(...) So, if anything scares you... great, but this is not a horror book. And by that, I do not mean we think we're above the genre. Far from it, we're just setting out on a different path here. This book is more about watching Rick survive than it is about watching zombies pop around the corner and scare you. (...)
Apesar das diferenças, a série televisiva absorveu esta ideia de Robert Kirkman na perfeição, e diria que é a esse motivo que se deve o seu sucesso. The Walking Dead não pretende ser uma série de terror, mas de sobrevivência - e, como tal, o centro da narrativa é Rick, os esforços que ele faz para sobreviver, e a forma como ele e o grupo se vêem obrigados a sobreviver num mundo destruído onde nada voltará a ser como antes. Os zombies não são o elemento principal da história, mas o seu plot device - são eles quem desafia e ameaça permanentemente o grupo, e se as cenas clássicas de zombies (ataques, mortes, etc) são incontornavies, e mesmo bem-vindas, elas jamais serão o ponto. São um meio, nunca um fim. Sim, é excelente ver os ataques de zombies, e a caracterização está absolutamente formidável, merecedora de todos os prémios de que se lembrem. No entanto, a série não vive dos zombies, mas das suas personagens. Claro que, sendo o elenco vasto, nem todas as personagens secundárias ganham o destaque devido - e se algumas, como Daryl, Glenn, Dale e Andrea, têm espaço para brilhar, já outras, como Carol e sobretudo T-Dog, pouco brilham nesta primeira temporada.

O que é interessante notar é como em apenas seis episódios esta primeira temporada conseguiu pegar na narrativa de Kirkman e dar-lhe vida própria sem se limitar a segui-la vinheta a vinheta. Há vários momentos originais na série que é uma pena não estarem no livro, pois resultam muito bem no pequeno ecrã (Daryl, a cena do tanque no primeiro episódio, a despedida de Andrea e de Amy no início do quinto episódio, a passagem do CDC no último episódio); já o clímax do primeiro álbum passou para o final da segunda temporada - opção que julgo acertada. Estas - e outras - introduções conseguem em simultâneo dar mais densidade à série para quem não conhece a banda desenhada, e acrescentar algumas novidades para quem está já familiarizado com as personagens. 

É certo que The Walking Dead não está isenta de falhas - de personagens pouco desenvolvidas (e são bem menos do que na banda desenhada) a alguns problemas de ritmo narrativo, a série apresenta vários aspectos passíveis de ser melhorados. Mas com a sua forte componente dramática e, claro, com zombies absolutamente espetaculares, The Walking Dead destaca-se das restantes séries televisivas da actualidade. É extraordinário que um projecto desta natureza tenha avançado - e, acima de tudo, com a qualidade apresentada. 8.5/10

16 de setembro de 2012

Citação fantástica (32)

Seeing, contrary to popular wisdom, isn't believing. It's where belief stops, because it isn't needed any more.

Terry Pratchett, Pyramids (1989)

William Gibson em entrevista(s)

William Gibson, porventura um dos maiores autores contemporâneos de ficção científica (podia passar o resto da vida à sombra de Neuromancer, verdade seja dita), deu duas entrevistas muito interessantes durante a semana que passou. Primeiro à revista Wired, numa longa conversa com Geeta Dayal dividida em três partes. E, mais tarde, a Annalee Newitz, para o portal io9.

William Gibson: The Wired Interview


14 de setembro de 2012

António de Macedo e a “escola do bocejo”

Na passada Sexta-feira, o suplemento Ipsilon, do Público, publicou uma reportagem de duas páginas sobre o cineasta e escritor António de Macedo. Recentemente homenageado pela Cinemateca de Lisboa, que organizou uma retrospectiva da sua obra (tive a oportunidade de ver o invulgar e excelente O Princípio da Sabedoria, e arrependo-me de não ter ido ver mais alguns) e preparou um catálogo, António de Macedo tem uma longa carreira cinematográfica e literária ligada ao Fantástico, sem dúvida única no nosso país. A reportagem do Público, do jornalista João Lameira, pode (e deve) agora ser lida online.


Fonte: Ipsilon

Ender's Game

Há dias, o portal io9 publicou um top12 das melhores histórias de guerra na ficção científica. Apesar de algumas surpresas, os livros que ocupam os três primeiros lugares da lista são já clássicos nestas andanças, sendo com frequências considerados as obras mais relevantes dentro deste tema da ficção científica: Starship Troopers, de Robert A. Heinlein, The Forever War, de Joe Haldeman, e Ender’s Game, de Orson Scott Card. As três obras têm uma premissa comum - a Humanidade encontra-se em guerra com uma raça alienígena que, se não for travada, poderá implicar a aniquilação da raça humana. No entanto, os três autores recorreram à mesma premissa para contarem histórias radicalmente diferentes. Starship Troopers centra-se no processo de recruta e em questões tácticas, estratégicas e sociais (passe a simplificação), enquanto The Forever War reflecte sobre a loucura e a alienação da guerra utilizando a dilatação temporal como plot device. Já Ender’s Game incide sobre o treino intensivo, desde a infância, dos futuros comandantes das frotas espaciais da Terra, e nas consequências dessa educação, através de uma personagem tão ambígua como fascinante: Andrew “Ender” Wiggin.

No futuro onde a narrativa tem lugar, a Terra vive na sombra das duas guerras travadas contra uma raça alienígena designada por “Formics” mas vulgarmente conhecida por “buggers”, devido à sua aparência e modelo social idêntico ao dos insectos. Apesar das divisões políticas que existem, a Humanidade tem uma presença militar espacial unificada na "International Fleet" (IF). Saída de uma vitória graças ao lendário Mazer Rackham, que comandou a frota da IF na Segunda Guerra, a IF procura um novo líder capaz de comandar as frotas numa derradeira guerra com os alienígenas - e para esse fim, monitorizam as crianças à procura de potenciais líderes, que serão treinados na "Battle School" e, mais tarde, na "Command School".

Andrew “Ender” Wiggin vive sob o estigma de ser um “Terceiro”, ou seja, um terceiro filho numa sociedade onde apenas são permitidas duas crianças por casal. É uma criança a todos os níveis brilhante, com uma forte ligação afectiva à sua irmã Valentine a compensar o terror que o seu irmão Peter lhe provoca. Devido a um incidente na escola após a remoção do dispositivo de monitorização, Ender acaba por ser seleccionado para a “Battle School”, devido à crença do Coronel Graff de que ele se revelará o comandante que salvará a Humanidade.

O conto original que Orson Scott Card expandiu para criar Ender’s Game parte deste ponto e explora o treino intensivo de Ender na “Battle School”, as relações de amizade, inimizade e rivalidade que estabelece com as outras crianças, o seu amadurecimento forçado e precoce em condições brutais e a genialidade táctica que revela, mesmo perante as maiores adversidades (e as menores probabilidades de sucesso). Ender, como referi, é uma personagem fascinante na sua ambiguidade. A sua resistência ao “molde” que lhe está a ser imposto através da formação militar - do qual tem plena consciência - é visível, e as suas ambições modestas e pacíficas estão em conflito permanente contra o ambiente que o rodeia - primeiro em casa, com Peter, e mais tarde na escola, com as restantes crianças e com o próprio jogo. Esse jogo, pilar fundamental da formação militar na “Battle School”, consiste em simulações de batalhas tácticas competitivas em gravidade zero, com equipas (pelotões) de crianças organizadas entre si em hierarquias militares rigidamente definidas. Na expansão da narrativa, Card incluiu não só o enquadramento de Ender, como também as narrativas laterais de Valentine e Peter na Terra, e a ascensão que, à sua maneira muito própria, também conheceram.

O génio de Ender e as relações que estabelece são o motor de uma narrativa que se desenvolve a um ritmo extraordinariamente rápido (foi das mais rápidas leituras que fiz nos últimos anos), e os twists finais são surpreendentes (pelo menos para mim foram). Ainda que seja considerado um livro destinado sobretudo a um público mais juvenil, diria que Ender’s Game é uma leitura cativante para qualquer idade, devido ao forte protagonista, ao ritmo elevado e às reflexões que suscita.

Entretanto, Orson Scott Card alargou o mundo de Ender com várias sequelas, prequelas e histórias paralelas. E em 2013, estreará a adaptação cinematográfica de Ender’s Game, realizada por Gavin Hood (com Orson Scott Card como produtor), e com um elenco composto por Asa Butterfield, Harrison Ford, Ben Kingsley, Viola Davis, Hailee Steinfeld e Abigail Breslin, entre outros.

13 de setembro de 2012

Facepalm: O flagelo social dos videojogos

Para quem se interessa por videojogos, recomendo a leitura deste artigo de Paul Tassi na Forbes Online. Quanto a mim, subscrevo-o na íntegra - o multiplayer pode ser interessante mas em momento algum deve sobrepor-se ao clássico modo individual, onde as narrativas podem verdadeiramente brilhar e um videojogo pode ser de facto algo mais do que a combinação de jogabilidade, mecânicas e gráficos.

As declarações da Electronic Arts, vindas de onde vêm, só surpreendem os mais distraídos. Apesar de não ser o principal problema do jogo, a introdução de um modo multiplayer interligado com o single player de Mass Effect 3 foi um disparate tão grande que é impossível ninguém na EA ter reparado na coisa antes de o jogo sair de Beta. A introdução de multiplayer em Dead Space 3, dizem-me alguns amigos que conhecem a série, é também de levar as mãos à cabeça. Idem para Sim City. E decerto poderia continuar a enumeração. 

Sim, jogar com outros jogadores pode ser uma experiência muito divertida, e sim, há casos de jogos single player em que a introdução de um modo para mais do que um jogador bem - o modo Co-Op de Portal 2 é um exemplo. Há também jogos mais tradicionais que sempre separaram com sucesso as suas componentes individuais e de múltiplos jogadores, como Starcraft, e a coisa resulta. Não entendo é a necessidade de todos os jogos terem agora de ter componentes sociais. É uma moda, provavelmente, mas é uma particularmente irritante, e que irá causar muitos mais estragos enquanto durar. 

EuroSteamCon: Almanaque Steampunk já tem autores seleccionados

Uma das iniciativas desenvolvidas pela organização da EuroSteamCon (no Porto, em finais de Setembro) é a criação de um Almanaque Steampunk, ao estilo clássico e tão característico deste tipo de publicações. Depois do apelo de Verão à participação nesta iniciativa, foi finalmente divulgada no Clockwork Portugal a lista de autores que colaboram no almanaque, que será lançado no dia 29 de Setembro estará disponível na convenção.

É com pena que não poderei estar presente na EuroSteamCon (apesar de não ser exactamente um aficcionado do subgénero), mas espero ter a oportunidade de ver um destes almanaques. 


12 de setembro de 2012

Looper e Cloud Atlas: Primeiras impressões da crítica (Festival de Cinema de Toronto)

Os dois filmes de ficção científica mais aguardados do ano, Looper e Cloud Atlas, tiveram a sua ante-estreia no Festival de Cinema de Toronto, no Canadá. Sem surpresas para quem viu o trailer, Cloud Atlas foi recebido com muito entusiasmo por alguns e muita perplexidade por outros, dividindo-se a opinião entre quem considerou o filme excepcional e um desperdício de tempo e de dinheiro (Roger Ebert, por exemplo, parece fazer parte do primeiro grupo). Já Looper, a avaliar pelas críticas deixadas no portal Rotten Tomatoes, parece ser mais consensual: é do melhor que a ficção científica conheceu nos últimos anos. 

Quanto ao filme de Rian Johnson com Bruce Willis e Joseph Gordon-Levitt a representar o mesmo papel, basta esperarmos mais alguns dias: estreia em Portugal a 27 de Setembro. A adaptação dos Wachowsky e Tom Tykwer ao romance de David Mitchell vai obrigar-nos a esperar mais um pouco: apesar de estrear a 26 de Outubro na América do Norte, só irá chegar a Portugal a 20 de Dezembro.

11 de setembro de 2012

A ficção científica e o cinema: Children of Men

Continuamos nas distopias (por pura coincidência - não estou a fazer um mês temático, apesar de a ideia ser tentadora). Depois da divagação e do exemplo literário, passamos para um dos melhores - porventura o melhor? - e mais surpreendentes filmes de ficção científica da última década: Children of Men, de Alfonso Cuáron (2006), uma adaptação do romance distópico The Children of Men, da autora britânica P. D. James. 

Com a narrativa situada em 2027, Children of Men apresenta uma premissa tão simples como sombria: poucos anos após a viragem do milénio, as mulheres tornaram-se progressivamente inférteis, ao ponto de não nascerem mais crianças em todo o mundo. Os motivos para este surto global de infertilidade não são explicados, nem tal é necessário para o enredo - o que importa são as consequências, e essas são desastrosas. A prazo, a falta de uma qualquer solução para a infertilidade implicará a extinção da raça humana. Com a inevitável espiral no caos que desintegrou sociedades inteiras ao mergulhá-las no desespero. O Reino Unido é uma das últimas nações a tentar manter algum controlo, mas o excesso de imigrantes tornou a velha democracia num estado policial com campos de concentração para refugiados e estrangeiros, terreno fértil para várias organizações terroristas. 

Theo Faron (Clive Owen) é um ex-activista que procura viver uma vida normal quando se vê envolvido com um grupo activista intitulado "Fishes", liderado pela sua ex-namorada Julian Taylor (Julianne Moore), que procura obter através dele um documento de livre trânsito para uma misteriosa rapariga deixar o país. Theo acaba por se juntar aos activistas para escoltar Kee (Clare-Hope Ashitey) até um barco na costa, quando descobre a verdadeira importância de Kee - e o motivo pelo qual os "Fishes" a querem usar para os seus próprios fins. Nesse momento, decide contactar Jasper (Michael Caine em mais uma excelente interpretação) para procurar uma ajuda para Kee que nem sabe se de facto existe. 

A forma como Alfonso Cuáron mostrou uma sociedade entregue ao desespero é extraordinária - da calma aparente da cidade fortemente policiada para afastar os refugiados às milícias dispersas pelas zonas rurais, da realidade desoladora dos campos de refugiados à brutalidade de uma autêntica guerra urbana, nenhuma cena é desperdiçada ou surge por acaso. Pouco adepto da exposição, Cuáron opta por deixar as imagens falarem por si - e o impacto é inegável. Com inúmeras cenas memoráveis - entre as quais destacaria (como muitos) as duas perseguições e a batalha em Bexhill - e uma última meia hora avassaladora, Children of Men é um filme sobre a esperança perante o mais profundo dos desesperos, repleto de simbologia cristã e com uma mensagem particularmente ambígua no final. 

Não posso dizer se Children of Men é uma adaptação fiel do romance de P. D. James, pois (ainda) não o li - de acordo com a Wikipedia, ainda que a essência da premissa se mantinha, Alfonso Cuáron fez algumas mudanças significativas face ao livro. Não podendo discutir ou comparar os méritos de ambas as obras, resumo-me ao filme - e esse é extraordinário, com uma mestria técnica e um realismo que envergonha boa parte dos filmes de acção contemporâneos e com uma carga simbólica e emocional que arruma a um canto muito do cinema pseudo-intelectual que tanto entusiasma a crítica e as "elites". É um dos melhores filmes de ficção científica da década que passou - não por esta ter sido um pouco fraca no que ao género diz respeito, mas por mérito inteiramente próprio. E, acima de tudo, Children of Men é mais do que um grande filme de ficção científica - é um dos grandes filmes dos últimos anos. 8.9/10