29 de junho de 2012

Rendezvous With Rama

O primeiro desafio Arthur C. Clarke coloca ao leitor com Rendezvous With Rama (1972) é de perspectiva, implodindo qualquer noção de familiaridade ao apresentar um mundo cilíndrico - no interior do cilindro. É um pouco como a ideia antiga da Hollow Earth, mas alguns passos mais à frente - um mundo completo com cidades e mares construído na superfície interior de um gigantesco cilindro oco a viajar pelo espaço.

Está então apresentado Rama, nome dado a um misterioso objecto que é detectado ao entrar no Sistema Solar, num futuro no qual a Humanidade já se expandiu para fora da órbita da Terra e colonizou vários planetas e luas. É, inicialmente, tomado por um asteróide; no entanto, essa teoria cai por terra quando análises à sua trajectória indicam não estar a orbitar o Sol. Mais: indicam que aquele objecto é um cilindro perfeito e gigantesco, completamente liso, com um movimento de rotação incrivelmente rápido. O que torna evidente que não pode ser um objecto natural - foi criado por alguém, e poderá ser uma nave espacial. De imediato é preparada uma missão, liderada pelo Comandante Norton da nave Endeavour, para chegar a Rama e tentar perceber o que é, de onde vem e qual é o seu objectivo antes de se aproximar demasiado do centro do Sistema Solar e de o Sol inviabilizar qualquer tentativa de exploração. 

Rendezvous With Rama é a história da tripulação da Endeavour durante a sua exploração de Rama - com todo o engenho e toda a improvisação que foi necessária para tentarem desvendar os mistérios daquele artefacto extraterrestre. Clarke desenvolve a narrativa a um ritmo perfeito, com capítulos curtos e intensos, mostrando aos poucos as maravilhas que a tripulação, qual exploradores de outros tempos, vai descobrindo naquele estranho mundo cilíndrico onde o familiar assume frequentemente formas estranhas e o estranho está para lá da mais rebuscada imaginação. Não é dada especial atenção à caracterização das personagens, pois a verdadeira personagem não faz parte da Endeavour - é, sim, a própria Rama; e toda a concepção de Rama é um prodígio que desafia constantemente a percepção do leitor ao apresentar o impossível de forma tão plausível e rigorosa. É frequentemente considerado um dos grandes livros de Clarke, e uma obra fundamental na hard science fiction; quando foi publicado, venceu os prémios Nébula e Hugo. Percebe-se bem porquê.

(Seria fascinante ver Rendezvous With Rama adaptado para o cinema - e não sou só eu a dizê-lo. Morgan Freeman está há mais de uma década envolvido no projecto que teima em não sair do development hell. David Fincher é um dos realizadores apontados para o projecto, mas, ao que parece, falta ainda um guião realmente bom. Que seja escrito, e depressa.)

28 de junho de 2012

Cinema: cartazes alternativos de filmes clássicos


Este artigo do Shortlist.com mostra alguns cartazes promocionais alternativos de clássicos do cinema. O cartaz que aqui mostro, alusivo ao filme Alien, de Ridley Scott (1979), foi desenhado por Voagar e é na minha opinião um dos melhores (pelo conceito e pela forma como o apresenta). Mas a selecção inclui mais alguns muito bons - e vários de filmes ligados aos vários géneros do Fantástico. 

27 de junho de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte

Decorreu no passado dia 1 de Junho (sim, este artigo está bastante atrasado) a quarta sessão do Clube De Leitura Bertrand do Fantástico, dedicada ao livro O Clube Dumas de Arturo Pérez-Reverte (adaptado para o cinema por Roman Polansky - mas já lá irei). Admito desde já que não li o livro em debate, o que torna bastante mais difícil escrever sobre o que se falou (os anteriores foram relativamente fáceis, pois não só tinha lido os livros como tinha gostado muito deles). Enfim, vamos ver o que se arranja.

O convidado desta sessão foi o escritor David Soares, que assumiu desde logo "não ser um grande fã do livro", que na sua opinião "tenta recuperar a literatura de folhetim do século XIX." Para David Soares, as duas histórias paralelas que compõem a narrativa "não são necessárias", como se o autor tivesse "duas ideias diferentes que tentou unir, de forma a que fizessem sentido". Acrescenta ainda que "o final não se resolveu, pois o facto de cada elemento do clube ser o guardião de um dos capítulos não tem grande impacto". No entanto, reconhece que o livro "tem coisas muito interessantes na contextualização da época de Dumas", e destaca a ambiguidade da personagem feminina, que nunca se sabe se é ou não de origem sobrenatural. Coisa que o filme de Polanski com Johnny Depp, intitulado The Ninth Gate (aludindo a uma das narrativas) resolve logo ao mostrá-la como um demónio.

Como não podia deixar de ser, a adaptação cinematográfica de O Clube Dumas suscitou um debate interessante. David Soares considera o filme como "uma boa adaptação", ao "escamotear a parte do Clube Dumas e se centrar na história das nove portas". Já Rogério Ribeiro (como sempre, a moderar o debate) considerou-o uma má adaptação - e, entre a plateia, as opiniões dividiram-se entre ambas as posições (e, claro, houve ainda quem não tivesse visto o filme).

Saindo do livro de Arturo Pérez-Reverte, David Soares falou um pouco sobre a sua mais recente obra, o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, editado pela Saída de Emergência. De acordo com o autor, a génese do livro reside "nos anexos e apêndices do final dos romances, a sua base bibliográfica - e sempre achei que partilhar essas referências seria interessante." Todo o Compêndio é feito de informação factual, sem ficção, "recuperando as intenções das enciclopédias e dos compêndios do século XVIII". A partir desta ideia, recuperou a o conceito da "árvore do conhecimento" para organizar internamente o Compêndio, ramificando-o em quatro "troncos" para quatro temas de que gosta - a História, a Ciência, o Oculto e a Mitologia (onde se inclui a religião). Começa pela História, numa abordagem "relativamente generalista", para passar logo de seguida para a Ciência - ou antes, para "o lado negro da Ciência". No "troco" dedicado ao Oculto, David Soares procurou recuperar alguns conceitos, dando-lhe "bases mais sólidas". Por fim, o "tronco" dedicado à Mitologia inclui um bestiário e aborda, entre outras coisas, "o sobrenatural na cultura popular", sempre "da forma mais fidedigna possível", sublinhando o exaustivo trabalho de fundamentação do material incluído.

David Soares admite vir a fazer um segundo volume, caso este "corra bem". Quanto à ideia de que algumas das histórias incluídas no Compêndio poderiam ser a base para excelentes ficções, reconhece o potencial mas não coloca "para já" a possibilidade de explorar esse filão. O autor traça ainda uma fronteira muito clara entre o "autêntico" e o "provável" na ficção, conceitos que não são de todo sinónimos.

Sobre a sua carreira literária, David Soares explicou que o seu processo de escrita funciona por "ciclos", normalmente de três romances que encerram o ciclo, mas não o universo autoral - sendo o ciclo seguinte uma "outra forma de olhar para os mesmos temas". Falou ainda sobre a internacionalização da sua obra, sobre a excelente relação que mantém com a sua editora, a Saída de Emergência, e sobre como viver da escrita - algo que, na sua opinião, requer "espírito de missão" e "ter vontade" (pois "ter só ideias não funciona"), não só para começar mas para levar a obra até ao fim.

Finda a sessão, decorreu, como é habitual, a Tertúlia Noite Fantástica, desta vez no restaurante Chez Degroote - e, pessoalmente, julgo que foi a melhor Tertúlia até agora, tanto pela qualidade do restaurante como pelas conversas.

Quanto ao Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, a próxima sessão terá lugar no dia 6 de Julho e incidirá sobre o livro O Império do Medo, de Brian Stableford (publicado pela Saída de Emergência). O convidado será o escritor João Barreiros, que também falará (entre muitas outras coisas, certamente) do livro Se Acordar Antes de Morrer (publicado pela Gailivro em 2010). A moderação estará a cargo, uma vez mais, do Rogério Ribeiro.

26 de junho de 2012

A Ficção Científica e o Cinema: Aliens

Realizar a sequela a uma obra-prima é uma tarefa que não está ao alcance de todos: a muitos faltaria a arte, e à maioria faltaria mesmo a coragem. A James Cameron não faltou uma ou outra quando decidiu realizar Aliens (1986).

Percebendo que não poderia limitar-se a repetir a fórmula do filme original de Ridley Scott para gerar aquele horror claustrofóbico que tornara Alien num filme tão especial, Cameron optou por mudar de registo: passou da combinação de ficção científica, suspense e horror para uma ficção científica mais orientada para a acção, sem contudo abdicar do suspense e de alguns sobressaltos. This time there’s more, anunciava a frase promocional do filme; e fiel à sua promessa, Cameron mostrou em Aliens muitos xenomorphs (e evitou de forma muito elegante a denominação “Alien 2”), e procurou dar algumas respostas que Scott omitira no primeiro filme (e que, com franqueza, não eram relevantes para o filme). Nomeadamente, a origem dos “ovos” de onde saiu o facehugger que atacou Kane e lhe plantou um xenomorph nas entranhas. A solução encontrada por Cameron é para muitos discutível, talvez por ser tão óbvia, mas pessoalmente gosto muito da Alien Queen.

Em Aliens, Ellen Ripley (Sigourney Weaver, uma vez mais) deixa de ser a sobrevivente do primeiro filme para assumir definitivamente o papel de heroína de acção. Encontrada após mais de cinquenta anos a vaguear em sono criogénico pelo vazio do espaço, Ripley é convidada a regressar a LV-426 - o planeta onde o xenomorph foi encontrado pela infeliz tripulação da Nostromo. O planeta fora entretanto colonizado, mas o contacto com a colónia foi interrompido. Desta vez, porém, ao invés de ter por companhia uma tripulação civil, Ripley é acompanhada por um pelotão de Marines cuja confiança nas suas capacidades apenas é comparável ao poder de fogo que transportam consigo. Mas o título do filme não alude aos Marines, mas aos xenomorphs, aos Aliens - e já sabemos como estes encontros costumam acabar.

Enquanto filme de acção, Aliens é um triunfo de James Cameron - perfeito no ritmo e excelente nos efeitos especiais (para a época), com uma excelente caracterização das personagens e um argumento bastante sólido (basta pensarmos na quantidade de deixas do filme que fazem hoje parte da cultura popular). Ripley evoluiu da sobrevivente solitária de Alien para uma autêntica heroína de acção, personagem que seria quase masculina não fosse a sua forte ligação maternal a Newt. Lance Henriksen brilha no papel do andróide Bishop, que, longe do frio calculismo de Ash no primeiro filme, procura ajudar Ripley a sobreviver ao terror dos xenomorphs. Carrie Henn, no único papel da sua carreira, representou uma Newt inesquecível, simultaneamente frágil e corajosa. O resto das personagens encaixa nos estereótipos da praxe - Marines, o tipo da corporação -, mas conseguem na sua maioria ter interesse e densidade suficientes para serem mais do que carne para canhão (mesmo que, na prática, sejam apenas carne para canhão).

O horror, esse, ficou um pouco remetido para segundo plano, mas Aliens tem momentos mais do que suficientes para justificar alguns saltos da cadeira ou do sofá. Os cenários mantiveram a influência original de H.R. Giger, que, combinados com os tons predominantemente sombrios em todo o filme, com os espaços apertados onde as personagens se movem e, claro, com a grande quantidade de xenomorphs, asseguram que há espaços escuros e claustrofóbicos mais do que suficientes para entusiasmar os adeptos do horror.

Não costumo entrar na discussão sobre qual dos filmes é melhor: se o primeiro, de Scott, ou se este, de Cameron. Há quem diga que Aliens supera o Alien; pessoalmente, prefiro o original, mas considero que esta sequela tem imenso mérito, e continua a ser um filme de cortar a respiração. Fossem todas assim. 8.8/10

(adaptado deste post do Delito de Opinião)

25 de junho de 2012

Julgar o livro pela capa (6)

The Man in the High Castle (1962), não é exactamente o meu livro preferido de Philip K. Dick - coisa que talvez se venha a resolver com uma releitura um dia destes (como já aconteceu). No entanto, não consigo deixar de admirar o complexo e brilhante worldbuilding desenvolvido em redor da ideia de que os Aliados teriam perdido a Segunda Guerra Mundial para as forças do Eixo, e que a Alemanha e o Japão, enquanto vencedores, teriam dividido o território dos Estados Unidos entre si. Algumas das ilustrações de capa das várias edições do livro conseguiram ser particularmente evocativas:


(da esquerda para a direita: capa mais recente da edição da Gollancz integrada na colecção SF Masterworks; capa da Penguin Classics, também utilizada na edição portuguesa da Saída de Emergência; capa de edição desconhecida, mas nem por isso menos interessante)


24 de junho de 2012

Citação fantástica (19)

It is our suffering that brings us together. It is not love. Love does not obey the mind, and turns to hate when forced. The bond that binds us is beyond choice. We are brothers. We are brothers in what we share. In pain, which each of us must suffer alone, in hunger, in poverty, in hope, we know our brotherhood. We know it, because we have had to learn it. We know that there is no help for us but from one another, that no hand will save us if we do not reach out our hand. And the hand that you reach out is empty, as mine is. You have nothing. You possess nothing. You own nothing. You are free. All you have is what you are, and what you give.

Ursula K. Le Guin, The Dispossessed: An Ambiguous Utopia (1974)

23 de junho de 2012

Cinemateca apresenta ciclo de cinema de António de Macedo

Arrancou ontem o ciclo de cinema da Cinemateca de Lisboa dedicado à obra do cineasta António de Macedo. E arrancou muito bem, com a exibição do filme O Princípio da Sabedoria, de 1975, com Sinde Filipe, Guida Maria, Helena Isabel e Nicolau Breyner, entre outros. É um filme ousado e invulgar, com uma narrativa com traços muito fortes de fantástico e de sobrenatural e um sentido de humor muito apurado, com momentos a roçar o non-sense. Do ponto de vista visual, O Princípio da Sabedoria é um assombro, e certamente terá sido revolucionário na sua época. A primeira cena é absolutamente arrebatadora, e mesmo perturbante. 

Foi o primeiro filme que vi de António de Macedo, e sem dúvida abriu o apetite para ver mais. Já conhecia contudo o cineasta, que esteve presente na edição de 2011 do Fórum Fantástico, onde deliciou a audiência - tanto como orador como a partir do público - com a sua vasta cultura e o seu sentido de humor apuradíssimo (e, sem querer entrar em off-topic, na sua brilhante desconstrução do Acordo Ortográfico). Hoje, antes de ter início a exibição do filme, a assistência teve a oportunidade de ouvi-lo uma vez mais, enquanto contava detalhes e curiosidades sobre a produção do filme e explicava alguns truques muito interessantes que ele e a sua equipa inventaram para conseguirem criar os efeitos especiais do filme. 

O programa completo do ciclo António de Macedo pode ser consultado aqui.

Mass Effect 3: Extended Cut DLC confirmado

É oficial: a Bioware vai disponibilizar gratuitamente no próximo dia 26 de Junho, Terça-feira, o DLC Extended Cut para o Mass Effect 3, prometendo "clarificar" o polémico final através de cutscenes e epílogos adicionais. Será porventura a resposta possível da Bioware à enorme polémica que envolveu o final do terceiro título da série, uma cedência que muito provavelmente não vai ceder grande coisa. Resta saber se esta resposta será suficiente. Pessoalmente, duvido: os problemas narrativos dos momentos finais de Mass Effect 3 são demasiado vastos para serem resolvidos com algumas sequências de vídeo. Ross Lincoln, do GameFront, resume muito bem esta questão neste artigo

De qualquer maneira, a partir de Terça-feira ficaremos a saber se a polémica se reacende ou se acaba de vez.

22 de junho de 2012

Gateway

A roleta russa tem regras simples. Joga-se com um revólver de seis tiros e uma única bala. Aponta-se à própria têmpora. Prime-se o gatilho. Passa-se ao próximo. Com seis jogadores, a fava - ou melhor, a bala - há-de sair a algum. Podem no entanto haver formas mais interessantes de se jogar à roleta russa, dispensando até o arcaico revólver. Que tal entrar, sozinho ou acompanhado, numa nave de fabrico alienígena, com a rota previamente introduzida e inalterável, para ver onde ela nos leva e o que há no seu destino - e, mais interessante, se ela nos traz de volta ao ponto de partida? 

Foi a partir desta premissa que Frederik Pohl desenvolveu Gateway (1977), obra vencedora dos prémios Hugo e Nébula e um clássico da ficção científica espacial por mérito inteiramente próprio. A narrativa divide-se em dois momentos cronologicamente diferentes, alternando entre si a cada capítulo: o primeiro momento, no presente, passa-se no gabinete do psiquiatra robótico "Sigfrid Von Shrink", durante as várias sessões em que Robinette Broadhead, o protagonista, procura lidar com os seus medos, as suas pulsões e um enorme sentimento de culpa provocado por algo terrível no seu passado; o segundo momento, nesse passado, é a narração do próprio Robinette da sua vida miserável como mineiro na Terra, da lotaria que ganhou e da sua partida para "Gateway" para se tornar Prospector.

"Gateway" é, de forma muito resumida, uma estação espacial alienígena construída pela misteriosa raça Heechee há milhares de anos no interior de um asteróide relativamente próximo da Terra. Encontra-se na sua maior parte funcional, ainda que deserta - nenhum dos seus construtores ou habitantes originais permaneceu lá, ou deixou vestígios da sua passagem e do seu desaparecimento. Para trás ficaram, porém, várias naves espaciais - mais de um milhar, de acordo com as estimativas -, e muitas delas funcionais. Isto, claro, se ignorarmos alguns detalhes: a sua tecnologia não é entendida na totalidade; todas as tentativas de reverse-engineering resultaram na auto-destruição das naves; e, apesar de poderem ser livremente activadas e desactivadas pelos humanos, as suas rotas estão pré-definidas, e o mecanismo que as define e altera escapa à compreensão dos melhores cientistas disponíveis. De qualquer forma, está criada a oportunidade: a Humanidade instala-se em "Gateway", a corporação que controla o asteróide começa a organizar expedições e dezenas de pessoas candidatam-se para Prospectores, deixando "Gateway" em naves individuais ou de dois e cinco ocupantes, com rumo incerto, e sem saber se levam mantimentos suficientes e se regressarão vivos. Algumas naves perdem-se definitivamente. Outras regressam vazias, ou com os seus ocupantes mortos. Outras regressam normalmente com os seus Prospectores, mas sem qualquer descoberta relevante a assinalar. Há, contudo, alguns Prospectores que têm a sorte de encontrar um mundo que suporte vida, ou artefactos Heechee, ou qualquer outra descoberta de grande valor - e esses Prospectores são ricamente recompensados. O que, por sua vez, alimenta a vontade de mais e mais Prospectores querem continuar a ter lugar nesta roleta russa galáctica, na esperança de lhes sair a sorte grande. Robinette narra, justamente, a sua vida em Gateway, desde a sua partida da Terra à sua adaptação ao asteróide, ao seu treino, às suas relações amorosas e aos medos que enfrentou. 

Mais interessante do que a vida de Robinette e os motivos que o levam ao psiquiatra é a própria construção do mundo de Gateway. Frederik Pohl não poupou esforços ou imaginação - o asteróide-estação espacial, com a sua baixa gravidade e os seus habitantes peculiares, tem aquele aspecto gritty, sujo e usado que confere uma atmosfera bastante realista àquela localização fantástica. As naves Heechee são fascinantes, com os seus misteriosos controlos e o pouco que revelam sobre os seus tripulantes originais (questão que fica por responder). E, claro, todo o conceito de exploração às cegas em naves alienígenas antigas é interessantíssimo, e Pohl explora-o de forma magistral através do instável Robinette e das várias personagens que ele vai conhecendo durante a sua estadia em "Gateway". Com um final surpreendente e um sentido de humor interessante, Gateway é uma aventura muito difícil de colocar de lado. Não conheço o resto da “saga Heechee” posteriormente desenvolvida por Pohl, mas este primeiro livro é imperdível.

21 de junho de 2012

Ficção Científica: ciência em forma de ficção ou ficção com um cheirinho de ciência?


Este artigo do Ars Technica sobre os erros científicos em Prometheus gerou uma enorme e interessantíssima discussão na caixa de comentários (quando digo que o Ars Technica é o melhor portal de ciência, tecnologia e cultura geek, não é apenas pela excelente qualidade do jornalismo, mas também pela superlativa qualidade dos comentários). Em termos muito sucintos, o jornalista queixa-se da falta de rigor científico do filme, o que acabou por lhe estragar a experiência; nos comentários, as opiniões dos utilizadores dividiram-se, ramificaram-se e geraram conversas paralelas fascinantes. Facto #1: Prometheus tem de facto vários erros científicos. Facto #2: Se quisermos ser exaustivamente rigorosos, todos os filmes de ficção científica - e porventura todas as obras de ficção científica - incluem erros científicos. A pergunta que se impõe é: será o rigor científico fundamental para uma boa obra de ficção científica?

A minha resposta: Nim.

Resumindo a coisa ao essencial (e arriscando-me a fazer figura de Capitão Óbvio), é tudo uma questão de suspensão da descrença. Sem recorrer ao dicionário - e sabendo que se estiver a dizer um disparate alguém virá puxar-me as orelhas -, diria que a suspensão da descrença depende mais da verosimilhança do que da verdade - e existe uma diferença assinalável entre ambos os conceitos. Regra geral, no Fantástico não é necessário que tudo seja verdadeiro, ou mesmo teoricamente possível - é apenas necessário que tudo seja coerente com as regras previamente estabelecidas. Ou, dito de outra forma, é preciso que todos os elementos sejam verosímeis. Isto é evidente na Fantasia - caso contrário, Hobbits, feiticeiros e dragões estariam feitos ao proverbial bife. E é também evidente na Ficção Científica, ainda que neste género o escrutínio científico seja mais elevado. Sim, é espectacular ver o realismo de 2001: A Space Odyssey, com os interiores e os sapatos de velcro, com as estações espaciais em movimento de rotação e com a Discovery a demorar meses a chegar a Júpiter (e, atenção, mesmo 2001 tem erros científicos). Sim, é excelente ler as as consequências da dilatação temporal tal como Haldeman as descreveu em The Forever War ou Clarke em Childhood’s End. Isto, porém, e relembrando duas frases célebres do próprio Clarke, não torna necessariamente a tecnologia indistinguível da magia, nem tem forçosamente de atirar para o campo da Fantasia toda a ficção científica que opta por dar gravidade artificial às naves espaciais sem a explicar cientificamente. Sobretudo em cinema, por motivos óbvios (facilidade de filmar). Da mesma forma, não remete para a Fantasia toda a ficção científica espacial que recorre a algum expediente (collapsars, warp drives, wormholes, mass effect fields, farcasters, etc) para possibilitar viagens a velocidades superiores à da luz e ignorar os efeitos da dilatação temporal. Sim, houve (e há) autores que utilizam esses conceitos com um módico de rigor para enriquecer a sua narrativa - mas há outros que optam por ignorar esses aspectos e nem por isso a narrativa fica a perder.

No fundo, tudo depende da narrativa e dos seus próprios alicerces. É certo que há casos em que os erros e os disparates científicos são de tal ordem que até um leigo (como eu) se abstrai do filme e fica a meditar na coisa (veja-se, a título de exemplo - e de puro entretenimento - The Core, ou qualquer outro filme-catástrofe). Mas em muitos casos, aquilo que frequentemente se aponta como um erro científico é apenas uma conveniência narrativa, um plot device, se quiserem. No caso muito concreto de Prometheus, o que me incomodou - e destruiu de forma lenta e metódica a minha suspensão da descrença - foi a imbecilidade tremenda de praticamente todos os personagens (retirarem os capacetes, etc - já falei da coisa aqui). Não me incomodou especialmente a precisão - ou falta dela - de Vickers ao dizer a distância que a nave tinha percorrido para chegar àquele planeta, a composição atmosférica de LV-223 (afinal, space is big), ou mesmo o facto de a nave aparentemente ter gravidade própria e deslocar-se a velocidades superiores às da luz. Dito de outra forma - o que me abstraiu do filme não foi a inconsistência científica, mas a inconsistência narrativa e a débil (passe o eufemismo) caracterização das personagens. Coisa que não acontece em muitos outros filmes (como, por exemplo, em Alien). 

20 de junho de 2012

Starcraft 2: Heart of the Swarm "99% concluído"

Pelo menos assim o afirma o lead designer Dustin Bowder, da Blizzard Entertainment, em entrevista ao portal Kotaku:

"We are 99% done, but that last 1%'s a bitch." (...) "There's something in for everything — it's whether we like it or not that's an open question. It's the tuning and polish that really takes us a long time, and that's where we get into the unknowns."

É certo que Heart of the Swarm já está bastante fora de prazo, se considerarmos o plano original de lançar esta primeira expansão - que se centra na narrativa dos Zerg - um ano e meio após o lançamento de Starcraft II: Wings of Liberty (Julho de 2010). No entanto, a relação problemática da Blizzard com os prazos é já lendária no universo dos videojogos, visível na sua filosofia it's done when it's done. Pessoalmente, nada contra; nem me importo de esperar mais um ano por Heart of the Swarm, desde que o resultado não seja o sarilho que foi, há pouco mais de um mês, o lançamento de Diablo III (e por favor, que nos poupem a mais um jogo que exija ligação permanente à Internet...).

19 de junho de 2012

A Ficção Científica e o Cinema: The Matrix


É possível que The Matrix seja, na ficção científica cinematográfica “recente” (o filme leva já treze anos), o último verdadeiro clássico do género, digno de figurar na galeria dos grandes como 2001: A Space Odyssey, Alien ou Blade Runner. Será sem dúvida o grande filme de ficção científica da minha geração, nascida entre meados e finais dos anos 80, longe dos clássicos já mencionados e de outros que marcaram o género. Recordo-me de quando o vi pela primeira vez: aqui entre nós, porque a coisa foi descaradamente ilegal, tinha catorze ou quinze anos (estava no nono ano) e um professor arranjou uma cópia em VHS que exibiu durante duas horas que, normalmente, seriam passadas a brincar com a “fórmula resolvente” ou a estrebuchar com o Teorema de Pitágoras. Poucos foram os filmes que vi posteriormente que conseguiram transmitir aquela sensação de que estava a assistir a algo absolutamente revolucionário - The Matrix conseguiu-o, de forma inesquecível, logo nos primeiros momentos. Bastou Trinity (Carrie-Anne Moss) levantar-se, ficar suspensa no ar enquanto a câmara rodopiava em seu redor numa slow motion elegantíssima. Hoje, o truque é banal: qualquer filme ou série medíocre repete o truque ad nauseam, com mais ou menos talento. Na viragem do milénio, porém, foi quanto bastou para Larry e Andy Wachowsky mudarem definitivamente a forma como as narrativas de acção são feitas.

Aliás, a ficção científica cinematográfica também é isto - inovação nos métodos, na forma, nas artimanhas utilizadas para provocar impacto visual e criar uma estética única. É certo que nem todos os grandes filmes de ficção científica requem uma componente visual assombrosa - mas muitas das mais memoráveis películas do género destacaram-se também - quando não em primeiro lugar - nesse campo. The Matrix não foi excepção. Podemos, para todos os efeitos, falar de cinema de acção pré-The Matrix e pós-The Matrix.

Naturalmente, um filme de ficção científica não é feito apenas pelas suas componentes visuais e de efeitos especiais (coisa que muitos realizadores contemporâneos continuam a ignorar) - mas The Matrix é uma obra superior mesmo no que ao enredo e à narrativa diz respeito. Sim, o filme é, todo ele, um autêntico portfolio de efeitos especiais - mas estes não sobrevivem por si só, antes enriquecem a narrativa, encaixando-se perfeitamente no todo que é o filme. O enredo remete-nos imediatamente para o universo cyberpunk, num futuro incerto no qual as inteligências artificiais - as “Máquinas” - destruíram a civilização humana e utilizam seres humanos gerados artificialmente (“cultivados”, como diz Morpheus) como fonte de energia. De forma a manter a Humanidade escravizada, as Máquinas “ligaram” todos os seres humanos a uma ilusão em forma de realidade virtual - The Matrix, a Matriz que dá nome ao filme, uma “alegoria da caverna” cibernética -, a qual é aceite por todos excepto os “últimos humanos livres”, de Zion, cidade escondida perto do centro do planeta a partir da qual se trava uma guerra contra as Máquinas - no mundo real e dentro da própria Matriz. O filme centra-se na tripulação da nave Nebuchadnezzar, comandada pelo icónico e idealista Morpheus (a inesquecível personagem de Lawrence Fishburne), que procura encontrar o Escolhido, o “Messias” que uma profecia diz ser capaz de subverter as rígidas regras da Matriz para a derrubar a partir de dentro, libertando a humanidade dos grilhões da ilusão em que vive. Esse “Messias” é Thomas A. Anderson, o hacker conhecido por “Neo” (interpretado pelo lacónico Keanu Reeves, provavelmente o actor com o melhor agente de Hollywood), que será libertado para combater as Máquinas. Mas contra eles estão os “Agentes”, inteligências artificiais que residem no interior da Matriz lideradas pelo Agent Smith, que Hugo Weaving imortalizou como um dos grandes vilões da ficção científica. 

O que torna The Matrix tão interessante do ponto de vista do enredo é a mistura de filosofias que contém, e a forma como, sem responder a algumas das mais relevantes questões de forma explícita, deixa pistas suficientes para várias interpretações - e muitas das respostas dadas nas sequelas são logo dadas no primeiro filme (o “monólogo” de Smith com Morpheus, porventura o momento-chave do filme, explica de forma muito interessante a ideia das múltiplas realidades simuladas que, em Reloaded, o Arquitecto ilustra de forma bastante clara, e deixa no ar o primeiro indício de que Zion não é exactamente a “última cidade livre”). Denso, intenso, cheio de pistas e com espaço para o debate. Dificilmente poderia ser melhor.

Junte-se a isto um conjunto de excelentes personagens (de Morpheus a Trinity, de Neo a Smith, sem esquecer a enigmática Oracle), óptimas interpretações (sim - Keanu Reeves pode não ser grande actor, mas fez um excelente Neo), um ritmo praticamente perfeito e sequências de acção inesquecíveis. O resultado é um filme a todos os níveis memorável, que deu origem a um universo muito interessante, ainda que nem sempre executado da melhor forma (as sequelas têm os seus problemas, tal como os videojogos, mas as nove curtas que compõem Animatrix são soberbas). Talvez não tenha passado ainda tempo suficiente para determinar se sobrevive mesmo ao teste do tempo (julgo que sim), mas vai no bom caminho - em termos de influência, nenhum filme de ficção científica posterior a 1999 lhe fez sombra até agora.  9.5/10

A Dance With Dragons ganha Prémio Locus

A Dance With Dragons, o quinto e mais recente livro da série A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin, venceu o Prémio Locus 2012 na categoria "Fantasy Novel". Sem ter lido (ainda) as restantes obras nomeadas, diria que este prémio é mais do que justo, dado não só o livro em si (que é uma excelente leitura), como toda a série na qual se insere.

Embassytown, de China Miéville, venceu o Prémio Locus 2012 na categoria "Science Fiction Novel". Os restantes prémios, assim como a lista completa dos nomeados, pode ser consultada aqui

18 de junho de 2012

Julgar o livro pela capa (5)

Voltemos a Discworld. Josh Kirby foi o responsável pelas ilustrações de capa da aclamada série de fantasia satírica de Terry Pratchett, e cumpriu a sua tarefa de forma exemplar entre 1983 e 2001, ano em que faleceu. Após a sua morte, coube ao ilustrador britânico Paul Kidby (os nomes, os nomes), que já trabalhava com Pratchett, a tarefa de desenhar as capas de Discworld. E, de 2001 até ao presente, conseguiu fazer ilustrações memoráveis. Como a de Night Watch (2002). Parece familiar?


Se parece, não é de admirar - a própria capa é uma paródia. Neste caso, a um dos quadros mais famosos do mundo, também conhecido pelo nome Night Watch, de Rembrandt. 


Diga-se de passagem que é uma paródia extremamente bem conseguida. E, convém acrescentar, não foi a única que Kidby fez para o universo de Discworld

17 de junho de 2012

Citação fantástica (18)

"Space," it says, "is big. Really big. You just won't believe how vastly, hugely, mindbogglingly big it is. I mean, you may think it's a long way down the road to the chemist's, but that's just peanuts to space, listen..."

Douglas Adams, The Hitchhiker's Guide to the Galaxy (1979)