A rede social (julgo que a designação não é abusiva) GoodReads entrevistou Terry Pratchett e Stephen Baxter a propósito de The Long Earth, obra conjunta dos dois autores que deverá ser lançada no próximo dia 21 de Junho. A entrevista, divulgada na edição deste mês da newsletter da GoodReads, contou também com várias questões colocadas por leitores e membros da rede social - tanto quanto sei, leitores que tivessem atribuído uma classificação de cinco estrelas a um dos livros dos autores (pelo menos de Terry Pratchett). Detalhes técnicos à parte: é uma entrevista muito divertida, como não podia deixar de ser quando Pratchett é um dos entrevistados, e abre muito o apetite para The Long Earth.
"First you use machines, then you wear machines, and then...? Then you serve machines." - John Brunner, Stand on Zanzibar
15 de junho de 2012
Hyperion
(...)But one of our whole eagle brood still keeps
His sov'reignty, and rule, and majesty;
Blazing Hyperion on his orbed fire
Still sits, still snuffs the incense teeming up
From man to the sun's God: yet unsecure,
For as upon the earth dire prodigies
Fright and perplex, so also shudders he:
Nor at dog's howl or gloom bird's Even screech,
Or the familiar visitings of one
Upon the first toll of his passing bell:
But horrors, portioned to a giant nerve,
Make great Hyperion ache. (...)
John Keats, The Fall of Hyperion: A Dream
Keats e o seu épico - e inacabado - poema The Fall of Hyperion são uma presença constante ao longo de Hyperion, obra invulgar dentro do género de ficção científica que valeu a Dan Simmons os prémios Hugo e Locus em 1990. Keats é sem dúvida uma inspiração e uma influência determinante para Simmons, se bem que esteja longe de ser a única: da Bíblia a William Gibson, muitas são as referências que podem ser encontradas ao longo de Hyperion, acrescentando detalhe e espessura à narrativa prodigiosa que Simmons desenvolve.
Hyperion decorre num futuro distante, quando a Humanidade se expandiu pela galáxia e a Terra (a “Velha Terra”, como é conhecida) faz parte de um passado já distante. O novo centro da Humanidade está localizado em Tau Ceti, em união com as restantes colónias da Web através da rede de “farcasters” e da frota da FORCE. Para lá das fronteiras da Web, os selvagens Ousters ameaçam a guerra, e a indecifrável AI TechnoCore faz os seus próprios movimentos com um objectivo obscuro em vista.
Nas vésperas de estalar a guerra, sete peregrinos partem da Web a bordo da “Treeship” Yggdrasil rumo ao remoto planeta Hyperion. Este é, para todos efeitos, o derradeiro enigma da galáxia, com o seu geomagnetismo muito particular, as suas estranhas formas de vida, as suas “flame forests” e, claro, as “Time Tombs” - um lugar onde o Tempo não obedece às regras por si estabelecidas, e onde vive Shrike, uma aberração orgânica e mecânica cujo mistério que a envolve apenas é comparável ao seu tremendo poder.
Os sete peregrinos não se conhecem, nunca se viram antes, e dificilmente poderiam ser mais diferentes entre si. Mas o passado de todos tem duas coisas em comum: Hyperion e Shrike. É devido a esse passado que todos rumam a Hyperion, mesmo sabendo que as probabilidades de ser uma viagem sem regresso. Procurando perceber o que levou o enigmático Culto do Shrike a ceder-lhes o privilégio de serem os últimos peregrinos a fazer a viagem para as "Time Tombs", os sete companheiros decidem contar o que os levou àquela desesperada peregrinação, quando o universo que conhecem parece estar à beira de mergulhar no caos.
É aqui que Hyperion se distingue do ponto de vista narrativo: ao longo da viagem até às “Time Tombs”, os peregrinos partilham as suas histórias mais pessoais. Cada uma dessas memórias é, na prática, uma história dentro da grande narrativa de Hyperion - e cada uma delas é distinta e peculiar, com um estilo e um ritmo próprios, reflectindo as diferenças das várias personagens. Do horror ao noir, do drama ao épico, as várias histórias de Hyperion são em si fascinantes na forma e no conteúdo. Lenar Hoyt, um padre católico, narra a história de um outro padre, Paul Duré, e da misteriosa aventura que viveu junto dos selvagens que habitam a região das “flame forests” - e ele mesmo lá esteve, e guarda um segredo terrível sobre aqueles acontecimentos. O Coronel Fedmahn Kassad, militar muçulmano, relembra a sua carreira, e a forma como acabou por ir parar a Hyperion, onde viveu uma extraordinária aventura. Martin Silenus, reconhecido poeta, conta a história da sua vida, a sua carreira literária, e o reino utópico que ajudou a fundar em Hyperion até à desolação se instalar. Sol Weintraub, um académico judeu, narra uma história particularmente tocante - e terrível - que envolve a sua filha bebé, Rachel, que viaja consigo rumo a Hyperion. A investigadora Brawne Lamia partilha uma autêntica história de detective que a leva ao mundo do AI TechnoCore - e, por fim, a Hyperion. Finalmente, o Cônsul narra aos peregrinos uma outra história, mais antiga, antes da sua própria, decisiva para o desfecho.
De todas as histórias, destacaria duas: a primeira, do padre Lenar Hoyt (The Man Who Cried God), de referências marcadamente religiosas e com um desfecho a roçar o horror; e a quarta, do académico Sol Weintraub (The River Lethe’s Taste Is Bitter), como particularmente tocante. Todas elas, à sua maneira, contribuem para o grande mistério que é o planeta Hyperion e o enigmático Shrike.
Hyperion é a todos os níveis uma obra prodigiosa, tanto do ponto de vista narrativo como do ponto de vista da própria história que está a contar. Simmons joga com vários elementos típicos da ficção científica para colorir dar forma a todo aquele universo, e explora o passado das várias personagens para introduzir na narrativa vários elementos fundamentais para o desenlace. É, sem dúvida, um clássico - uma obra densa e rica no detalhe, a ser lida e relida.
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14 de junho de 2012
Prometheus: actores e argumentistas em entrevista
O portal io9 colocou algumas questões ao actor Logan Marshall-Green (que representa em Prometheus o cientista Charlie Holloway) e ao argumentista Damon Lindelof. A entrevista pode ser lida aqui, e está sem dúvida interessante. No entanto, não consigo deixar de destacar este momento:
io9: Why is Holloway such a jerk to David?
Logan Marshall-Green: It's something that I wanted to implement and I really, really liked it. Michael and I had a blast with it. It's something I haven't seen in science fiction, which is a sense of racism or bigotry towards androids and synthetic life. I think synthetic life is inevitable, and along that line bigotry and racism (if you will) will be inevitable as well. Although I can't approach a role thinking of [my character] as a racist or a bigot. Certainly now I can look back and explain his disdain for Michael in that way. I kind of loved it... that social reflection on a future being, a synthetic android.
Não querendo ser mauzinho, o tema do preconceito para com a "vida artificial" é tudo menos novo na ficção científica (independentemente do formato). Para não ir muito longe, os próprios filmes da série Alien exploram isso, quando no segundo filme (Aliens, de James Cameron) Ripley descobre que Bishop é um andróide e, recordando a má experiência com Ash (no primeiro filme), torna-se especialmente agressiva. Variações deste tema podem ser encontrados na literatura (Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick - e na própria adaptação cinematográfica de Ridley Scott, Blade Runner), no cinema (o universo de The Matrix explora isso também, ainda que não de forma directa nos filmes) e até nos videojogos (Mass Effect). E estes, note-se, são apenas alguns exemplos.
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13 de junho de 2012
The Walking Dead em entrevista
A terceira temporada de The Walking Dead já está em produção, com estreia prevista - tal como as anteriores - no Outono, por ocasião do Halloween. Entretanto, deixo aqui a ligação para duas entrevistas sobre a série, ambas no blogue da AMC:
Q: Season 3 seems to be more about human threats than zombies. Does the human drama feel like more familiar ground for you as a director?
A: It's human drama but after an apocalypse. It's human drama after society has completely disintegrated... Our people have figured their way through one menace but now there's the human menace, and now they're taking advantage of the fact that there's no law, there's no more government. Who can you trust? It's still dealing with pretty esoteric territory.
E a segunda, uma entrevista feita a partir de perguntas colocadas por vários fãs (parte 1 e parte 2) a Glen Mazzara, produtor da série:
Q: How do you decide which story elements from the comics will work on screen? --Robert Becka
A: It's not easy, because there are elements in the comic that may not translate to TV, and then you have to look at the spirit of the story there and try to capture that. I'll say that the way we approach a story is like we're stringing beans together, so we work on an episode and try to make that episode as good as possible, and then you decide what comes next. So you let the characters and the story kind of dictate where the story is going. I think that's true of any quality cable drama -- it was certainly true of The Shield, and we have to allow ourselves as artists to be surprised by where the story takes us.
12 de junho de 2012
The New Yorker: Edição sobre ficção científica
Já está nas bancas a edição da revista The New Yorker dedicada à ficção científica. A começar pela capa, com o astronauta, o alienígena e o robô a irromper numa festa, a revista é uma maravilha. Destaco o evocativo artigo "Take Me Home", de Ray Bradbury, particularmente tocante quando consideramos que o autor faleceu há dias. Há também um excelente ensaio de Anthony Burgess, intitulado "The Clockwork Condition", sobre a génese da sua mais controversa obra, A Clockwork Orange, e a problemática do condicionamento e da busca pela sociedade perfeita; um artigo de William Gibson ("Olds Rocket 88, 1950") sobre as suas mais antigas recordações da ficção científica, e a influência que o género teve no seu crescimento enquanto leitor; e uma interessante evocação de Ursula K. Le Guin ao ambiente da "Golden Age" da ficção científica. Para além disto (que já li), há ainda artigos de China Miéville, Margareth Atwood, Jonathan Lethem, Colson Whitehead, Karen Russel, Laura Miller e Emily Nussbaum - para além da antecipada ficção twittada de Jennifer Egan, e do conto de Junot Díaz.
A Ficção Científica e o Cinema: Prometheus
Prometheus era sem dúvida um dos filmes mais aguardados deste ano. Por um lado, marca o regresso do realizador Ridley Scott à ficção científica, género para o qual deu um contributo inestimável há mais de três décadas ao realizar Alien, em 1979, e Blade Runner, em 1982. Mais: Prometheus representa também o regresso de Scott ao universo de ficção científica que criou com Alien, e que, exceptuando a sequela realizada por James Cameron (Aliens, de 1986), foi sendo posteriormente abastardado com sequelas e spin-offs cada vez piores (Alien versus Predator foi um dos raros filmes que me fez desligar o leitor de DVD a meio; ao segundo não dei qualquer hipótese). E, claro, se falamos de expectativas falamos de hype, e Prometheus elevou a fasquia do hype cinematográfico com uma longa e eficaz campanha de marketing impulsionada online, a qual consistiu nos inevitáveis trailers e em vários e excelentes vídeos virais que iluminaram alguns aspectos do que aí vinha, aguçando o apetite sem no entanto revelar demasiado. A questão é: conseguiu Prometheus alcançar a fasquia que Ridley Scott estabeleceu no campo da ficção científica com os seus dois clássicos, e que o próprio Prometheus elevou com a sua campanha? (aviso: SPOILERS).
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11 de junho de 2012
"O curto voo de Firefly"
Dez anos volvidos sobre a sua estreia – e o seu polémico fim -, valerá a pena falarmos ainda de “Firefly“?
Será certamente inútil manter a esperança de um eventual retorno da série. Serenity, o filme-continuação escrito e realizado por Joss Whedon em 2005, deu uma conclusão lógica, ainda que curta, ao principal arco narrativo da série; e, mais recentemente, o próprio Whedon admitiu a impossibilidade de tal retorno, considerando as carreiras dos vários actores envolvidos no projecto (Nathan Fillon como protagonista em “Castle“, Morena Baccarin em “V” e na extraordinária “Homeland”… e os restantes actores noutros trabalhos). Em resumo, a chama de “Firefly“ voou pouco, consumiu-se depressa, e não voltará a acender-se.
Começa assim o meu artigo sobre a série Firefly para o portal TV Dependente, na sequência do simpático convite que me foi endereçado (o qual aproveito para agradecer uma vez mais, penitenciando-me pelo enorme atraso na resposta). Para ler na íntegra, clique aqui.
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Julgar o livro pela capa (4)
Não gosto particularmente da capa original de Neuromancer (William Gibson, 1984), apresentada aqui ao lado. Concedo que possa ter alguma relação com a obra, que terá porventura inaugurado - e em grande estilo, diga-se de passagem - o subgénero cyberpunk (apesar de o próprio autor reconhecer enormes influências noutros autores, entre os quais Alfred Bester); no entanto, esteticamente não a considero de todo atractiva. Aliás, em algumas pesquisas que fiz online encontrei muito poucas ilustrações de capa realmente boas, capazes de fazer justiça à extraordinária obra de William Gibson.
Há uma, no entanto, que considero a todos os níveis extraordinária: a da edição brasileira da Aleph, que apresento abaixo. É uma ilustração muito simples, e julgo que é nessa simplicidade que reside a sua força - no desenho estilizado do rosto feminino de Molly (uma das protagonistas de Neuromancer), com o seu enigmático olhar aparentemente vazio (as lentes cibernéticas que usava) e a sua silhueta a desaparecer no fundo completamente negro. Por vezes, less is more. Julgo que este caso é disso um exemplo perfeito.
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10 de junho de 2012
Citação fantástica (17)
I now understand the need for faith - pure, blind, fly-in-the-face-of-reason faith - as a small life preserver in the world and endless sea of a universe ruled by unfeeling laws and totally indifferent to the small, reasoning beings that inhabit it.
Dan Simmons, Hyperion (1989)
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9 de junho de 2012
Joe Haldeman (1943 - )
É impossível falarmos do tema da guerra na ficção científica sem referirmos Joe Haldeman - que, em 1974, transpôs a sua experiência na guerra do Vietname (na qual foi ferido) para o épico espacial The Forever War, uma obra a todos os níveis notável, vencedora dos prémios Hugo e Locus em 1976 e hoje um clássico da ficção científica. Haldeman expandiu mais tarde o universo estabelecido em The Forever War com as sequelas Forever Peace (1997) e Forever Free (1999), assim como alguns contos, como A Separate War, publicado em 1999 na antologia Far Horizons de Robert Silverberg, e Forever Bound, publicado em 2010 na antologia Warriors 1, de George R. R. Martin e Gardner Dozois.
Haldeman, contudo, tem uma carreira literária bem mais vasta que o mundo fascinante de The Forever War, tendo publicado ao longo dos anos vários livros e contos de ficção científica, que lhe valeram vários prémios, assim como dois livros do universo de Star Trek. Também editou algumas antologias de contos, sobretudo de índole militar.
Está prevista uma adaptação cinematográfica de The Forever War realizada por Ridley Scott.
Para além da escrita de ficção científica, Joe Haldeman dedica-se também à pintura, e dá aulas no MIT. Nasceu em 1943 em Oklahoma City e celebra hoje 69 anos.
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8 de junho de 2012
A Fall of Moondust
As décadas de 50 e 60 ficaram marcadas (entre outros acontecimentos) pela corrida espacial que colocou os Estados Unidos da América e a União Soviética a competir para ver qual das super-potências conseguia chegar mais longe na exploração do espaço. O resultado já nós conhecemos, e quem viveu em 1969 pode assistir, em directo, ao famoso passeio de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a superfície lunar. Esse momento, contudo, foi o culminar de uma série de avanços tecnológicos desenvolvidos ao longo de vários anos, capazes de entusiasmar o mundo inteiro - e, creio, esse entusiasmo pelo espaço terá contribuído para a ficção científica da época, tanto na qualidade dos seus autores como na sua adesão por parte dos leitores.
Claro que, ganha a corrida, o entusiasmo pelo espaço foi-se desvanecendo. Não fizemos colónias na Lua, nem construímos enormes estações espaciais em órbita. Não viajámos até Marte nem explorámos os asteróides para prospecção mineira. Muito menos nos aventurámos para fora do sistema solar, para lá da misteriosa Nuvem de Oort. A economia, com ou sem crise, ditou que enviar sondas, robôs e telescópios para o espaço era e é mais rentável para o conhecimento humano do que mandar gente para muito longe da confortável atmosfera da Terra. Longe de mim, que passo horas a ver com fascínio os arquivos de imagens recolhidas pelos vários equipamentos da NASA, desvalorizar essa abordagem; mas a verdade é que enviar mais uma sonda robótica a Marte, ou mesmo a uma das luas de Júpiter, é incomparável menos entusiasmante do que pegar em dois ou três astronautas e pô-los a tripular uma nave numa expedição com elevadas probabilidades de não incluir viagem de regresso (o que também pode explicar muita coisa sobre o estado da ficção científica actual, mas logo tentarei desenvolver esse tema noutro dia).
De qualquer forma, começam a surgir bons sinais: a recente viagem da sonda da SpaceX à Estação Espacial Internacional foi um sucesso, e há por aí um consórcio multimilionário a falar na exploração dos asteróides mais próximos. Pode ser que nos próximos anos novas e arrojadas expedições ao vazio que nos rodeia façam renascer os entusiasmo pelo espaço, pela ficção científica, e por coisas que quem viveu há sessenta anos imaginava serem comuns hoje em dia. Como haver uma presença humana permanente na Lua e uma indústria de turismo lunar em expansão.
É neste contexto que trago hoje, como livro de Sexta-feira, uma obra muito curiosa de Arthur C. Clarke: A Fall of Moondust, de 1961. A premissa é muito simples: com a exploração do espaço a decorrer a bom ritmo e a humanidade confortavelmente instalada em órbita e na Lua, começa a ganhar força o turismo espacial. Uma das principais atracções turísticas do nosso satélite é também um dos seus mais intrigantes enigmas: uma vasta planície coberta por uma poeira de propriedades estranhas, que quase parece líquida (e age como tal), designada por "Sea of Thirst". Até aos nossos dias, nada foi encontrado na Lua que se pareça com isto - o que, claro, não quer dizer que não se venha ainda a encontrar. O próprio Clarke alude a esse facto no prefácio da edição de 1987 de A Fall of Moondust (reproduzido na recente edição da colecção SF Masterworks). No entanto, mais relevante para efeitos narrativos do que a existência do "Sea of Thirst" é a sua verosimilhança - e essa, Clarke consegue transmitir na perfeição.
A história de A Fall of Moondust também não procura ser particularmente complexa (o que, em muitos casos, está longe de ser um defeito). O protagonista, Pat Harris, orgulha-se de ser o único capitão de um barco na Lua, a Selene - um veículo especialmente concebido para "navegar" no "Sea of Thirst" e mostrar aquela paisagem formidável aos ávidos turistas lunares. A viagem que dá início à narrativa parece ser apenas mais uma das muitas que Harris já fez - até ao momento em que um incidente geológico faz a Selene "naufragar" com os seus vinte e dois passageiros e tripulantes, levando-a ao fundo daquele mar de poeira. É aqui que a prosa rápida e fluída de Clarke, sempre com um ritmo perfeito, revela ao leitor os esforços desenvolvidos pelas autoridades e pelos cientistas da Lua e da Terra para encontrar a Selene e resgatar os seus ocupantes com vida, numa complexa e quase impossível missão de salvamento. Paralelamente, a narrativa mostra a luta pela sobrevivência da tripulação e dos passageiros, enquanto um jornalista veterano se lança à aventura para transmitir a cacha da sua carreira. Clarke junta estes três pontos de vista de forma perfeita para construir um enredo espantoso, repleto de reviravoltas e de elementos científicos que não só dão suspense à história, como permitem ao leitor aprender imenso sobre a Lua.
A Fall of Moondust pode não ser o melhor livro de Clarke, mas nem por isso deve ser posto de parte: é uma história muito interessante, contada como só o velho mestre sabia. O seu final é potencialmente previsível, mas contém twists suficientes para dar vontade de continuar a ler. Diz-se muitas vezes, não exactamente por estas palavras, que as viagens valem pelo caminho percorrido, e não pelo destino. A Fall of Moondust é um excelente exemplo desta máxima: ao contrário de Rendezvous With Rama (esta, sim, uma das obras maiores de Clarke), no qual o autor coloca o leitor sempre em suspenso com os mistérios que irão ser revelados a seguir, aqui as perguntas são outras: será que as personagens se vão safar? E como?
Isso deixo à descoberta (ou redescoberta) dos leitores.
[adaptado deste artigo publicado no Delito de Opinião]
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7 de junho de 2012
Ray Bradbury na imprensa
Ray Bradbury, um dos grandes mestres do Fantástico, faleceu ontem aos 91 anos de idade. Algumas referências na imprensa nacional e internacional:
No Ars Technica: Science fiction author Ray Bradbury dead at 91
O Correio da Manhã dedicou uma página a Ray Bradbury:
No Público Online: Morreu o escritor Ray Bradbury, o mestre da ficção científica
No i Online: Ray Bradbury. O autor de Fahrenheit 451 morre aos 91 anos
No Diário de Notícias Online: Morreu Ray Bradbury
O artigo do DN Online inclui ainda um curto e interessante comentário do editor executivo adjunto Nuno Galopim.
A morte de Ray Bradbury é evidentemente uma grande perda para a ficção científica. No entanto, não significa o fim do género - tal como o desaparecimento de outros "mestres", como Asimov, Clarke, Heinlein ou Dick não condenaram o género ao esquecimento. Passe o lugar-comum, tudo na vida se renova - e ainda que a ausência das grandes vozes do género seja sentida, este não se esgota numa meia dúzia de autores excepcionais. Aos "veteranos" que ainda estão vivos juntam-se outros autores consagrados ainda em actividade, e, claro, nomes novos que surgem e continuarão a surgir ao longo dos anos. De resto, a ficção científica não se resume à literatura, e outros meios assumem cada vez mais um papel determinante na divulgação do género - há muito tempo que o cinema consegue fazer enormes sucessos de culto e de bilheteira com ficção científica, a televisão está a somar sucessos na área do Fantástico e, enfim, alguns dos maiores sucessos recentes no universo dos videojogos estão fortemente ancorados no imaginário do género. É caso para dizer, e não sem optimismo, "veremos o que o futuro nos reserva".
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6 de junho de 2012
Ray Bradbury (1920 - 2012)
![]() |
| 22.08.1920 - 06-06-2012 |
Everyone must leave something behind when he dies, my grandfather said.
A child or a book or a painting or a house or a wall built or a pair of
shoes made. Or a garden planted. Something your hand touched some way
so your soul has somewhere to go when you die, and when people look at
that tree or that flower you planted, you're there.
It doesn't
matter what you do, he said, so long as you change something from the
way it was before you touched it into something that's like you after
you take your hands away. The difference between the man who just cuts
lawns and a real gardener is in the touching, he said. The lawn-cutter
might just as well not have been there at all; the gardener will be
there a lifetime.
Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953)
Qual o melhor capitão de uma nave na ficção científica televisiva?
O TV Dependente está a promover uma votação para determinar quem é o melhor capitão de uma nave espacial na ficção científica televisiva. A votação já vai nas meias-finais, com Malcolm Reynols (Firefly) a enfrentar Jean-Luc Picard (Star Trek: The Next Generation) e James T. Kirk (Star Trek) a disputar o lugar na final com William Adama (Battlestar Galactica).
Para trás ficaram Kathryn Janeway (Star Trek: Voyager), o Coronel Everett Young (Stargate Universe), Jonathan Archer (Star Trek: Enterprise) e Dylan Hunt (Andromeda).
Escusado será dizer que o Viagem a Andrómeda apoia inteiramente o senhor da fotografia: Malcolm "Mal" Reynolds, capitão da nave Serenity. Go Mal!
[Seria talvez curioso expandir esta lista para outros meios - como o cinema, a literatura e os videojogos]
5 de junho de 2012
A Ficção Científica e o Cinema: Alien
Na semana que marca o regresso de Ridley Scott à ficção científica com o muito aguardado Prometheus não poderia deixar de escrever algumas linhas sobre a primeira obra-prima do realizador britânico: Alien, de 1979.
É justo afirmar que Alien (em português, O Oitavo Passageiro - um título particularmente feliz) é um dos grandes clássicos da ficção científica cinematográfica. Numa época em que o género estava essencialmente ligado às space operas, com batalhas espaciais épicas e autênticas odisseias galácticas (como Star Wars), Ridley Scott decide “mudar as regras do jogo” ao fechar a narrativa no interior da nave de prospecção mineira Nostromo, na viagem de regresso, com uma reduzida tripulação de apenas sete elementos. O enredo é simples e sobejamente conhecido: a Nostromo detecta um sinal de socorro enviado de um planetóide próximo e a tripulação decide averiguar a sua origem. Mas a expedição à superfície do planeta, ainda que curta, corre horrivelmente mal, quando Kane (John Hurt) tem um “encontro imediato” com uma forma de vida alienígena desconhecida - que, para espanto e terror da tripulação (e do público, já agora), se vai revelar numa criatura sanguinária.
A premissa em si, ainda que interessante, não parece especialmente inovador - no fundo, resume-se ao proverbial encontro com o desconhecido que assume a forma do Mal. Mas em Alien, o Mal não é consciente ou inteligente - é um predador puro, que existe apenas para matar. Mas o enredo simples revela-se excelente, e a execução do filme é a todos os níveis extraordinária. Alien tem um ritmo narrativo lento mas em momento algum parado, em crescendo até ao momento do ovo na nave do Space Jockey, em novo crescendo até à famosa cena do chestburster e, de seguida, num derradeiro crescendo à medida que a criatura que ninguém vê com nitidez caça de forma metódica os elementos da tripulação um por um. Não há em Alien grandes batalhas ou aventuras - tudo se passa nos corredores e compartimentos escuros, gastos e vagamente claustrofóbicos da Nostromo. E a única coisa que interessa é a sobrevivência.
É neste verdadeiro jogo do gato e do rato (neste caso, do xenomorph e dos humanos) que surge Ellen Ripley (numa interpretação notável de Sigourney Weaver) como heroína acidental - e a escolha de uma personagem feminina para protagonista de Alien marca também a diferença num género que, à época, dava a primazia sobretudo aos heróis masculinos. Ripley não é comandante da Nostromo, não é uma cientista brilhante ou mesmo uma “mulher de armas” - é uma trabalhadora comum (como, aliás, todos os outros), que se vê confrontada com uma criatura de pesadelo no vazio do espaço.
Alien fica para história como um clássico da ficção científica e do terror, aspecto para o qual a criatura brilhantemente concebida por H.R. Giger contribuiu de forma decisiva - é uma das mais conhecidas criaturas do género, facilmente identificável mesmo por quem não aprecia ficção científica. O cartaz promocional exibia apenas um misterioso - e estranhamente alienígena - ovo num fundo negro, com a frase in space, no one can hear you scream. Simples, eficaz e certeira - como todo o filme. Vejo Alien hoje e noto que não envelheceu um dia desde 1979. O que não surpreende: afinal, os clássicos não envelhecem. 10/10.
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