31 de maio de 2012

Clube de Leitura do Fantástico: O Clube Dumas

Terá lugar amanhã, dia 1 de Junho, a próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico em Lisboa. O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte. O convidado será David Soares, que irá falar não só sobre o romance de Pérez-Reverte, como sobre a sua própria obra - incluindo o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, recentemente publicado pela Saída de Emergência. Como é costume, esta tertúlia terá lugar na Livraria Bertrand do Chiado a partir das 19:00. 

Logo de seguida - também para não variar - decorre a Tertúlia Noite Fantástica, desta vez num novo local: o restaurante Chez Degroote. 




30 de maio de 2012

Game of Thrones: Novidades no elenco da terceira temporada

Em entrevista à Entertainment Weekly, David Benioff e Dan Weiss, os criadores da adaptação televisiva de A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin, falaram sobre a terceira temporada da série e revelaram algumas novidades relativas ao elenco. 

As boas notícias: Jojen e Meera Reede vão aparecer, tal como Ser Brynden "Blackfish" Tully (uma das personagens mais cool dos livros)*. Edmure Tully, irmão de Catelyn Stark, também vai entrar na série - como seria necessário para justificar um certo festim nas Twins. Ser Beric Dondarrion também vai regressar, depois da sua brevíssima aparição na primeira temporada - e virá acompanhado pelo famoso Thoros of Myr. A família de Stannis Baratheon também vai aparecer, com Lady Selyse e Shireen a entrarem na série (curiosamente, sem Patchface). Olenna Redwyne, a genial Queen of Thorns, vai aparecer - e espero que apareça em grande, a fazer justiça aos livros. Daenerys vai encontrar Daario Naharis. E, a norte da Wall, Mance Rayder vai finalmente revelar-se, assim como o grande(em todos os sentidos) Tormund Giantsbane, uma das melhores personagens secundárias criadas por Martin. 

De fora fica Strong Belwas, o que é uma pena - a par de Blackfish e de Tormund Giantsbane, é uma das minhas personagens secundárias preferidas, e uma das mais divertidas. Ramsay Bolton continua ausente - é certo que no terceiro livro, A Storm of Swords, ele não aparece, mas dada a sua ausência na segunda série, não seria de descartar a possibilidade de ele finalmente aparecer. O que, admito, não me preocupa - já foi várias vezes mencionado na segunda temporada, pelo que, se a série continuar, mais cedo ou mais tarde fará a sua estreia. De qualquer forma, e em termos gerais, as perspectivas para a terceira temporada de Game of Thrones não poderiam ser melhores no que ao elenco diz respeito.

*Está assim respondida a primeira pergunta da minha entrevista ao autor, em Abril último.

[fonte: TV Dependente]

Notas sobre ficção científica (4)

The Paris Review: Why do you write science fiction?
Ray Bradbury: Science fiction is the fiction of ideas. Ideas excite me, and as soon as I get excited, the adrenaline gets going and the next thing I know I’m borrowing energy from the ideas themselves. Science fiction is any idea that occurs in the head and doesn’t exist yet, but soon will, and will change everything for everybody, and nothing will ever be the same again. As soon as you have an idea that changes some small part of the world you are writing science fiction. It is always the art of the possible, never the impossible.

(...)

The Paris Review: Does science fiction satisfy something that mainstream writing does not? 
Ray Bradbury: Yes, it does, because the mainstream hasn’t been paying attention to all the changes in our culture during the last fifty years. The major ideas of our time—developments in medicine, the importance of space exploration to advance our species—have been neglected. The critics are generally wrong, or they’re fifteen, twenty years late. It’s a great shame. They miss out on a lot. Why the fiction of ideas should be so neglected is beyond me. I can’t explain it, exceptin terms of intellectual snobbery. 

Ray Bradbury, numa entrevista muito interessante à The Paris Review 

[fonte: Trema]

29 de maio de 2012

Douglas Adams chega à SF Masterworks

Para além de ficar agradavelmente surpreendido por a Fnac assinalar - de forma simbólica, é certo - o Towel Day colocando The Hitchhiker's Guide to the Galaxy em destaque a 25 de Maio, surpreendeu-me ver este clássico da ficção científica publicada na colecção SF Masterworks, do Orion Publishing Group - que assim acrescenta mais um grande título da ficção científica ao seu muito recomendável catálogo. Douglas Adams junta-se assim a outros grandes autores de ficção científica já publicados nesta colecção, como Frank Herbert, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, Frederik Pohl, Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin, Dan Simmons, entre muitos outros. A fazer fé na lista divulgada na Wikipedia, durante 2012 e 2013 serão publicados títulos como Frankenstein, de Mary Shelley, The Gods Themselves, de Isaac Asimov, The Doomsday Book, de Connie Willis, e A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.. 

A Ficção Científica e o Cinema: Ghost in the Shell

Falar de ficção científica cinematográfica sem mencionar algumas obras de animação japonesa seria deixar de fora alguns filmes incontornáveis do género. Já falei, há algumas semanas, de Paprika, e certamente mencionarei outros clássicos ao longo desta série. Hoje, e recordando o que escrevi há dois anos no Delito de Opinião, dedico o artigo semanal sobre cinema a Ghost in the Shell (Mamoru Oshii, 1995 - e perdoem-me os leitores por evitar as designações japonesas ou a ridícula tradução portuguesa para "Cidade Assombrada") - que, mais do que ser um dos grandes filmes de animação japonesa, é com toda a justiça um dos melhores filmes de ficção científica da década de 90.

Baseado no mangá homónimo de Masamune Shirow, Ghost in the Shell leva-nos para um universo ciberpunk com óbvias inspirações no inevitável Blade Runner, tanto na atmosfera como também no enredo. A narrativa decorre numa Tóquio futurista, com uma sociedade na qual a rede (uma Internet extremamente sofisticada) se tornou ubíqua com o acesso ao fluxo ilimitado de informação directamente através de implantes cerebrais cibernéticos. A protagonista é Motoko Kusanagi, Major da Secção 9, uma unidade governamental de combate ao ciberterrorismo altamente especializada com uma liberdade de acção considerável e que, habitualmente, é chamada a resolver situações que as restantes agências governamentais não conseguem solucionar por meios convencionais. Mas Motoko não é exactamente humana, mas sim uma cyborg - a sua mente humana reside num corpo artificial topo de gama -, e questiona-se permanentemente sobre a sua condição. Que, diga-se de passagem, está longe de ser invulgar - dentro da Secção 9, apenas o líder, Aramaki, e um dos mais novos membros, o ex-polícia Togusa, são completamente humanos (Togusa, aliás, foi seleccionado precisamente por esse motivo). No decurso de uma nova investigação, a Secção 9 tropeça numa ponta solta de uma conspiração com origem noutra agência governamental - e um famoso hacker,uma "consciência sem corpo" auto-intitulada "Pupper Master", emerge no ciberespaço e leva Motoko a procurar por todos os meios obter as respostas sobre quem (ou o que) ela é.

Como mencionei acima, Ghost in the Shell vai beber directamente à fonte de Blade Runner (e, em termos literários, diria que também Neuromancer, de William Gibson, é uma influência deste filme), não só no tema - onde reside exactamente a fronteira que separa a vida "natural" da "artificial" - mas também na atmosfera, na grande e sombria metrópole, simultaneamente sofisticada e suja (gritty), onde até os momentos que decorrem durante o dia parecem difusos e sombrios. Mas mais relevante do que as suas inspirações seja o facto de Ghost in the Shell ser, em si e por mérito próprio, um marco incontornável na ficção científica cinematográfica. A título de exemplo, The Matrix, um dos mais populares e influentes filmes de ficção científica das últimas décadas, tem nesta obra japonesa uma das suas grandes influências.


Longe de cair no velho - e tão gasto - estereótipo que define filmes de animação como filmes para crianças, Ghost in the Shell apresenta uma narrativa e muito bem construída em redor de poucas mas interessantes personagens, com uma animação extraordinária para a época (e que ainda hoje considero excelente). É um thriller denso, violento a espaços, com excelentes sequências de acção a quebrar o tom "filosófico" que atravessa toda a narrativa. Ghost in the Shell é, a todos os níveis, imperdível - e inesquecível. 8.8/10

Em jeito de nota de rodapé: se gostarem deste filme, não deixem de ver as duas temporadas da série televisiva "paralela" Ghost in the Shell: Stand Alone Complex - de longe, uma das melhores que já vi.

28 de maio de 2012

Julgar o livro pela capa (2)

Quem conhece as edições paperback inglesas dos livros da série Discworld, de Terry Pratchett, estará certamente familiarizado com as magníficas ilustrações de Josh Kirby (1928 - 2001). Dos 39 livros publicados nesta série desde 1983 até ao presente, Kirby desenhou 26 capas* - a sua última foi para The Thief of Time, publicado em 2001. No entanto, mais do que desenhar meras ilustrações genéricas para as capas dos livros, Kirby desenhou autênticos quadros cheios de cor que capturaram na perfeição o espírito e o humor da obra de Pratchett, e dando vida às personagens mais familiares (como Rincewind, Luggage, Granny Weatherwax ou a Morte). Estes "quadros", mais do que servir de ilustração à capa, envolvem todo o livro e apresentam desde logo o tema, as personagens e o ambiente que vão proporcionar ao leitor algumas horas de muito boa disposição. 

As capas - ou melhor, os quadros - que deixo abaixo são alguns dos trabalhos iniciais de Josh Kirby para Discworld: The Light Fantastic (1986), Equal Rites (1987), Mort (1987) e Guards! Guards! (1989). Clique nas imagens para aumentar.





*Capas de Josh Kirby para Discworld, de Terry Pratchett: The Colour of Magic (1983), The Light Fantastic (1986), Equal Rites (1987), Mort (1987), Sourcery (1988), Wyrd Sisters (1988), Pyramids (1989), Guards!, Guards! (1989), Eric (1990), Moving Pictures (1990), Reaper Man (1991), Witches Abroad (1991), Small Gods (1992), Lords and Ladies (1992), Men at Arms (1993), Soul Music (1994), Interesting Times (1994), Maskerade (1995), Feet of Clay (1996), Hogfather (1996), Jingo (1997), The Last Continent (1998), Carpe Jugulum (1998), The Fifth Elephant (1999), The Truth (2000), The Thief of Time (2001). Kirby ilustrou ainda outros livros relacionados com este universo de Pratchett, e outras obras de fantasia e de ficção científica. É também da sua autoria a capa da antologia Legends (1998), organizada por Robert Silverberg. Esta antologia inclui um conto de Pratchett no universo de Discworld e um conto de Silverberg no universo de Majipoor - para o qual Kirby também fez algumas ilustrações.

27 de maio de 2012

Citação fantástica (15)

Animal minds are simple, and therefore sharp. Animals never spend time dividing experience into little bits and speculating about all the bits they've missed. The whole panoply of the universe has been neatly expressed to them as things to (a) mate with, (b) eat, (c) run away from, and (d) rocks. This frees the mind from unnecessary thoughts and gives it a cutting edge where it matters. Your normal animal, in fact, never tries to walk and chew gum at the same time. 

The average human, on the other hand, thinks about all sorts of things around the clock, on all sorts of levels, with interruptions from dozens of biological calendars and timepieces. There's thoughts about to be said, and private thoughts, and real thoughts, and thoughts about thoughts, and a whole gamut of subconscious thoughts. To a telepath the human head is a din. It is a railway terminus with all the Tannoys talking at once. It is a complete FM waveband - and some of those stations aren't reputable, they're outlawed pirates on forbidden seas who play late-night records with limbic lyrics.

Terry Pratchett, Equal Rites (1987)

26 de maio de 2012

Game of Thrones: The National interpretam "Rains of Castamere"

Quando juntamos uma das melhores bandas de indie rock da actualidade - The National - com a série Game of Thrones, o resultado é uma versão espectacular de "Rains of Castamere", a famosa - e infame - canção que conta a história da destruição da casa Reyne de Castamere por Tywin Lannister. Gostos à parte - e, sim, os The National estão entre as minhas bandas preferidas -, a voz de Matt Berninger é perfeita para esta música.

Seria interessante que a produção da série convidasse o vocalista Matt Berninger (e o resto da banda, já agora) para a cena do "Red Wedding" na terceira (quarta?) temporada. Não seria inédito ver uma banda a interpretar numa série (ou num filme) uma música da sua autoria, e o resultado era capaz de ser muito bom.

Ideias à parte, aqui fica a música: "Rains of Castamere".



[fonte: io9]

25 de maio de 2012

Ficção científica na revista The New Yorker

Ora aqui está uma iniciativa muito interessante: a próxima edição da revista The New Yorker será dedicada à ficção científica - e contará com um conto inédito da escritora Jennifer Egan. Baseado numa das personagens do seu premiado livro A Visit From the Goon Squad, o conto também será publicado ao longo dos próximos dias no Twitter. 

[fonte: facebook/io9]

Leitura para o Towel Day: The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

Hoje, 25 de Maio, celebra-se o Towel Day. Para quem desconhece esta tradição, o Towel Day é assinalado desde 2001, ano da morte de Douglas Adams, e é um tributo anual dos fãs ao autor de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. A toalha deve-se à uma passagem do livro (que não transcrevo já por ser demasiado longa) na qual, de forma muito resumida, é explicado o motivo pelo qual uma toalha é um objecto indispensável para qualquer tipo que ande à boleia pela galáxia. Julgo que Adams apreciaria o gesto - numa época em que praticamente cada número no calendário assinala o dia internacional de qualquer coisa disparatada, por que não fazer um Towel Day?

Aqui no Viagem a Andrómeda também vou homenagear Douglas Adams, assinalando o Towel Day com a republicação de um texto que escrevi há algum tempo, no Delito de Opinião, justamente sobre The Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Falemos então de Arthur Dent. 

Arthur Dent é um pacato cidadão que, numa bela manhã de quarta-feira, acorda com uma valente ressaca. E, ao acordar, apercebe-se de que a sua casa está cercada por buldozers, preparadas para a demolir, com o objectivo de naquele lugar construir um acesso a uma auto-estrada. Indignado, Arthur Dent decide resistir, e deita-se no chão diante as máquinas, para impedir o seu avanço e assim salvar a sua casa. A história de Arthur Dent, assim contada, não daria para grande prosa de ficção científica, mas a verdade é que, no hilariante livro de Douglas Adams (por vezes considerado o "sétimo elemento" dos Monty Python), The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, este pequeno acontecimento na vida de Arthur Dent é a versão diminuta de um evento de dimensões... galácticas, quando chega ao planeta Terra uma frota de naves da burocrática raça alienígena Vogon (lesmas espaciais, para terem uma ideia) com o intuito de... demolir a Terra, para naquele ponto do espaço construir o acesso a uma "auto-estrada" galáctica. De nada servem os apelos da Humanidade; a Terra é demolida, e todos os seus habitantes são erradicados. 

Quase todos. Arthur Dent salva-se quando o seu amigo Ford Prefect decide resgatá-lo de sua casa, pagar-lhe umas quantas cervejas, e, no momento em que chegam as naves Vogon, arranjar uma boleia para o espaço. Pois Ford apenas na aparência é humano, sendo na verdade natural de um "planeta nas proximidades de Betelgeuse". E é também um dos colaboradores do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy", o mais conhecido guia para uma bela viagem à boleia pela galáxia, com vendas superiores à grande Enciclopédia Galáctica e, é um prático computador com uma capa onde se pode ler, em letras gordas e amigáveis, as palavras "Don't Panic". 

E a partir deste momento começa a odisseia de Arthur Dent e Ford Prefect pela Via Láctea, ao longo da qual encontram personagens inesquecíveis como Zaphod Beeblebrox, Presidente da Galáxia, Trillian, Marvin, o robot depressivo, Slartibartfast, e se envolvem nas mais hilariantes situações. Ao longo da narrativa, é também explicada a busca incansável de uma antiga raça inteligente pela resposta à "Grande Questão da Vida, do Universo... e de Tudo!", e ainda sobra tempo para que os leitores nunca mais olhem para um rato ou para um golfinho da mesma maneira. 

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy é um livro divertido. Muito divertido. A mim, fez-me rir desde a primeira linha da introdução (também de Douglas Adams) até ao final. As influências do humor non-sense tão típicas dos Monty Python, dos quais Adams era próximo, são evidentes. Diria mais: se os Monty Python tivessem entrado na ficção científica (esqueçamos por momentos o rapto alienígena em Life of Brian), não teriam feito melhor que The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. Indispensável para quem gosta de ficção científica ou de comédia - e absolutamente obrigatório para quem gosta de ambas.

[As coisas que se aprendem nos comentários do Ars Technica: hoje, 25 de Maio (05) de 2012 (12) assinala-se o Towel Day. Uma soma rápida: 25+5+12=42]

24 de maio de 2012

Diablo III: os recordes e os problemas

Sem grande supresa, e apesar do arranque um tanto ou quanto turbulento, Diablo III parece estar a bater recordes: de acordo com a Blizzard Entertainment, nas primeiras 24 horas foram vendidos 3,5 milhões de exemplares do jogo, não contando com as cópias incluídas na promoção da subscrição anual de World of Warcraft (mais de 1,2 milhões de exemplares). Dito de outra forma: só no primeiro dia, cerca de 4,7 milhões de jogadores começaram a jogar Diablo III (ou tentaram, pelo menos). No espaço de uma semana, esse número ascendeu a cerca de 6,3 milhões de jogadores. 

Para colocar as coisas em perspectiva, há muitos países no mundo com número inferior de habitantes.

No entanto, e apesar de ainda não estar a jogar Diablo III, creio ser importante sublinhar a polémica que envolveu o lançamento do jogo - com todos os problemas relacionados com a sobrelotação dos servidores, com o infame - e já transformado e meme - Erro#37, e com mais uma carrada de bugs e pequenos erros agravados pelo estúpido requisito always online, que torraram a paciência a jogadores de todo o mundo nos dias que se seguiram ao lançamento mundial. Claro que isto é perfeitamente natural no lançamento de qualquer videojogo - quando foi lançado em 2004, World of Warcraft tinha mais bugs e problemas do que o Windows Millennium, e mesmo os outros grandes títulos da Blizzard, como Diablo II e Starcraft, precisaram de tempo e de algumas actualizações para se aperfeiçoarem. É possível, claro, que isto seja uma situação momentânea, e que daqui a um mês ninguém mais fale do Erro#37. De qualquer forma, o arranque demasiado atribulado e a ausência do modo player versus player e do sistema de leilões de equipamento - no fundo, a grande justificação para a obrigatoriedade de uma ligação persistente à Internet - não deixam de ser sinais preocupantes. Por tradição, a Blizzard nunca lançava os seus videojogos dentro do prazo. "When it's ready" era o lema da empresa - e apesar da impaciência da comunidade de jogadores, esta filosofia ajudou a Blizzard a tornar os seus três títulos em fenómenos mundiais. Isso não aconteceu desta vez: a data de lançamento de Diablo III foi escrupulosamente cumprida, mas os problemas avolumaram-se - e, no processo, a empresa pode mesmo ter conseguido alienar uma parte da sua base de jogadores. É possível que esta situação tenha sido apenas a excepção que confirma a regra - mas também poderá ser um indicador do que o futuro reserva à Blizzard (ou melhor, à Activision Blizzard), uma vez aberto o precedente. A ver vamos. 


[Já agora, e isto em off-topic: acho absolutamente fascinante - e louvável - que uma publicação como a Forbes, na sua edição online, tenha uma secção inteiramente dedicada a videojogos - e com artigos muitas vezes melhores do que aqueles que podemos encontrar em muita imprensa especializada. Nos meios de comunicação social portugueses, quando é que temos a oportunidade de ler qualquer coisa sobre este mercado?]

Conto do Vento no Shortcutz Lisboa

Na Terça-feira fui pela primeira vez ao Shortcutz Lisboa. Para quem não conhece: o Shortcutz é, muito resumidamente, uma competição de curtas que tem lugar em várias cidades de Portugal e também já em algumas cidades europeias. Em Lisboa, há sessões todas as Terças-feiras no Bicaense; cada sessão conta com um convidado, com uma curta convidada e com duas curtas a concurso para a competição mensal (é isto, certo?).

Nesta sessão, o convidado foi o Rogério Ribeiro, um dos "fundadores" da Shortcutz, com uma breve apresentação da Antologia de Ficção Científica do Fantasporto. E a premiadíssima curta Conto do Vento, de Nélson Martins e Cláudio Jordão, foi a curta convidada. Até ia escrever sobre ela uma breve review, mas o Artur Coelho já o fez, e bem melhor do que eu conseguiria, pelo que deixo aqui o artigo como leitura recomendada. De qualquer forma, fiquei agradavelmente surpreendido com a qualidade da animação e da narrativa - e ouvir os próprios criadores a falarem do projecto, do processo criativo e das várias etapas da longa produção desta pequena curta foi muito interessante. 

Aliás, a avaliar pela (excelente) qualidade de Conto do Vento e das duas curtas em competição - The Great Monteleone, de João Leitão, e Bebé, de Reza Hajipour -, cheira-me que vai sendo altura de eu rever alguns  preconceitos para com o cinema português. Pelo menos para com o "curto".

23 de maio de 2012

Literatura fantástica: que obras poderiam originar bons videojogos?

Fala-se frequentemente da adaptação de livros para filmes - mas hoje, a ideia é sugerir a adaptação de livros para videojogos. Já houve algumas, mais ou menos bem sucedidas. Mas que livros de ficção científica e fantasia poderiam ser adaptados para videojogos? 

Esta lista no Kotaku sugere vários. Discworld é evidente, claro - até porque já foram feitos vários videojogos com base na obra de Terry Pratchett. The Forever War, de Joe Haldeman, poderia ser muito interessante em termos de tema, mas provavelmente muito difícil de executar devido à dilatação temporal (que é fundamental à obra). Os restantes ainda não li, mas tenho algumas sugestões:

A mais evidente: Gateway, de Frederik Pohl. Já foram feitos dois videojogos com base neste universo (em 1992 e 1993), mas creio que poderia ser interessante fazer um role-play de ficção científica moderno com base na premissa do livro - a de que existe, num asteróide perto da Terra, um porto espacial com uma série de naves pré-programadas de uma civilização alienígena antiga. Aliás, pensando agora nisso, um videojogo de Gateway bem executado poderia ser mesmo muito bom - tanto em modo single-play como em modo co-op, já que as naves Heechee podem levar um máximo de cinco passageiros. Alguém envie a ideia à Bethesda (já que a Bioware está queimada e a Blizzard estragaria tudo com leilões e requisitos de always-online). 

The End of Eternity, de Asimov, também poderia resultar num bom videojogo, em formato role play, no qual o jogador explorasse a estrutura temporal daquele universo, mas aqui teria de haver mais algum cuidado - o tema das viagens no tempo é sempre delicado. De qualquer forma, a possibilidade de fazer várias missões ao longo da linha temporal para ajustar a história ao sabor das necessidades narrativas seria sem dúvida aliciante. 

E, claro, ainda no formato role play, não poderia não mencionar Earthsea, de Ursula K. Le Guin - ainda que não haja propriamente escassez de jogos role-play em universos de fantasia (bem pelo contrário).

The Stars My Destination, de Alfred Bester, poderia ser muito interessante num formato mais orientado para a acção, na terceira pessoa. Gully Foyle seria certamente um protagonista fascinante para acompanhar ao longo da sua odisseia de vingança pelo Sistema Solar. 

22 de maio de 2012

Mass Effect 3: Lance Henriksen regressa ao estúdio

Lance Henriksen será (a par de Martin Sheen) um dos mais famosos actores a dar voz a uma personagem na série Mass Effect - e, de acordo com o Game Front, regressou aos estúdios, juntamente com outros actores, para dar voz ao "closure DLC" com o qual a Bioware e a Electronic Arts esperam acalmar a ira dos fãs e dar algum sentido lógico ao controverso final de Mass Effect 3. No rescaldo da polémica de Março, a Bioware prometeu conteúdos adicionais para "ajudar a esclarecer" o final do jogo (como se fosse esse o problema); e, de facto, o regresso de Henriksen e de outros actores pode indicar que se prepara algo mais do que um simples "esclarecimento" - pelo menos o Admiral Hackett irá ter mais algumas linhas. É esperar para ver. 

The Avengers

Admito logo à partida que as minhas expectativas quanto ao filme The Avengers eram extraordinariamente baixas. Nunca fui fã dos super-heróis da Marvel - e, se excluirmos o primeiro filme do Spider Man, que é razoável numa tarde de fim-de-semana, e o primeiro filme do Iron Man, que é muito aceitável, os restantes filmes que vi (não foram todos) pareceram-me demasiado insípidos, e anularam qualquer interesse que pudesse ter em ver outros. Por outro lado, o conceito de The Avengers, mesmo em banda desenhada, parece-me forçado - a ideia de juntar tantos personagens e tantas narrativas distintas num só filme sempre me soou problemática. 

Dito isto, The Avengers é um filme excelente - o que, vindo de mim, é mesmo um grande elogio. Não merece as classificações elevadíssimas que lhe foram atribuídas no IMDb ou no Rotten Tomatoes, mas continua a ser um excelente filme. Quem estiver à procura de um filme denso, com significados ocultos, uma moral escondida e uma "mensagem" veiculada por uma "visão artística" (e todas essas coisas que a crítica usa como objecto onanístico nas páginas dos suplementos ditos "de cultura"), pode ir procurar noutro lado - não vale a pena sequer entrar na sala. Mas quem quiser gastar duas horas e meia a ver um óptimo filme de puro entretenimento com um guião muito inteligente e divertido, bons actores, gags mirabolantes, acção non-stop e efeitos especiais a condizer, então não precisa de procurar mais - The Avengers é o filme do momento. 

Joss Whedon conseguiu fazer o que muitos consideravam impossível - escreveu um argumento coerente envolvendo tantas personagens distintas e relevantes, com densidade e com um humor muito bem encadeado, que diverte sem cair no ridículo. Claro que na escrita de Whedon isto não surpreende - recordemos Firefly - mas não deixa de ser muito interessante ver o seu estilo aplicado a um universo de super-heróis tão distintos e individualizados. Já sabemos como funcionam os truques de Whedon - uma referência no aos cinco minutos vai gerar uma piada aos dez e uma recordação - para nova piada - aos quinze, e isso funciona muito bem. O ritmo da narrativa é excelente, acelerando e abrandando nos momentos certos, ao sabor da história que vai sendo contada - com os momentos de acção a serem na sua generalidade muito bons, com efeitos especiais excelentes (que, no entanto, não são o alfa e o ómega do filme, como acontece em tantos outros blockbusters) e desempenhos muito sólidos. É certo que alguns actores limitaram-se a cumprir o exigido - e fizeram-no bem, diga-se de passagem. Simplesmente não acrescentaram às suas personagens o carisma e o cunho pessoal que as poderia tornar memoráveis. Chris Evans representa aquilo que se pode esperar do Capitão América - mas não o torna numa personagem memorável. O mesmo se pode dizer de Chris Hemsworth e Thor (ainda que um pouco menos), e de Jeremy Renner e Hawkeye. Não estão mal, de todo - cumprem o seu papel, são competentes, mas limitam-se a isso. Isto nota-se sobretudo pelo contraste com os restantes actores. Do Tony Stark/Iron Man de Robert Downey Jr. não vale a pena dizer muito - Downey Jr. é um excelente actor, carrega às costas o humor do filme e praticamente todas as cenas em que entra são excelentes (de resto, não é por acaso que dos restantes filmes da Marvel, os do Iron Man sejam talvez os melhores). Mark Ruffalo, para minha surpresa, consegue encarnar muito bem o espírito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde no personagem de Bruce Banner, sempre atormentado pelo monstruoso Hulk, até ao momento em que finalmente o aceita e controla. Scarlet Johansson entra muito bem no papel da Black Widow, e tem provavelmente a "apresentação" mais divertida do filme. E Tom Hiddleston faz um Loki excelente, com tudo o que se pode esperar de um bom vilão numa história de super-heróis. 

Referi acima os efeitos especiais como uma das vertentes positivas do filme, mas neste campo não posso deixar de referir um aspecto negativo: o 3D. É verdade que nos dias que correm praticamente todos os filmes de acção recorrem ao 3D, mas sejamos francos - ou o objectivo é fazer algo como Avatar (que, independentemente das questões narrativas, é extraordinário do ponto de vista visual), ou enfia-se a viola no saco e fica-se nas boas e velhas duas dimensões. O 3D em The Avengers faz lá tanta falta como o Spider Man - nenhuma. 

Dizer que The Avengers é o melhor filme de super-heróis de sempre pode soar a exagero - há pelo menos dois filmes do Batman (o original de Tim Burton, e The Dark Knight Returns, de Christopher Nolan) que lutam por esse lugar. No entanto, a comparação peca por injusta - Batman é muito diferente dos heróis da Marvel, e por isso os filmes acabam por ser necessariamente diferentes. A verdade é que The Avengers seria porventura o filme da Marvel mais difícil de contar - e tornou-se no melhor. Podemos mesmo dizer: The Avengers é um grande filme. Não será um clássico do cinema em termos gerais, mas é a prova definitiva de que há outros super-heróis que funcionam no cinema para além do homem-morcego. E é a definição de entretenimento em estado puro - duas horas e meia de acção, adrenalina, eye-candy e gargalhadas. Não se pode pedir mais. 08/10