25 de maio de 2012

Leitura para o Towel Day: The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

Hoje, 25 de Maio, celebra-se o Towel Day. Para quem desconhece esta tradição, o Towel Day é assinalado desde 2001, ano da morte de Douglas Adams, e é um tributo anual dos fãs ao autor de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. A toalha deve-se à uma passagem do livro (que não transcrevo já por ser demasiado longa) na qual, de forma muito resumida, é explicado o motivo pelo qual uma toalha é um objecto indispensável para qualquer tipo que ande à boleia pela galáxia. Julgo que Adams apreciaria o gesto - numa época em que praticamente cada número no calendário assinala o dia internacional de qualquer coisa disparatada, por que não fazer um Towel Day?

Aqui no Viagem a Andrómeda também vou homenagear Douglas Adams, assinalando o Towel Day com a republicação de um texto que escrevi há algum tempo, no Delito de Opinião, justamente sobre The Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Falemos então de Arthur Dent. 

Arthur Dent é um pacato cidadão que, numa bela manhã de quarta-feira, acorda com uma valente ressaca. E, ao acordar, apercebe-se de que a sua casa está cercada por buldozers, preparadas para a demolir, com o objectivo de naquele lugar construir um acesso a uma auto-estrada. Indignado, Arthur Dent decide resistir, e deita-se no chão diante as máquinas, para impedir o seu avanço e assim salvar a sua casa. A história de Arthur Dent, assim contada, não daria para grande prosa de ficção científica, mas a verdade é que, no hilariante livro de Douglas Adams (por vezes considerado o "sétimo elemento" dos Monty Python), The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, este pequeno acontecimento na vida de Arthur Dent é a versão diminuta de um evento de dimensões... galácticas, quando chega ao planeta Terra uma frota de naves da burocrática raça alienígena Vogon (lesmas espaciais, para terem uma ideia) com o intuito de... demolir a Terra, para naquele ponto do espaço construir o acesso a uma "auto-estrada" galáctica. De nada servem os apelos da Humanidade; a Terra é demolida, e todos os seus habitantes são erradicados. 

Quase todos. Arthur Dent salva-se quando o seu amigo Ford Prefect decide resgatá-lo de sua casa, pagar-lhe umas quantas cervejas, e, no momento em que chegam as naves Vogon, arranjar uma boleia para o espaço. Pois Ford apenas na aparência é humano, sendo na verdade natural de um "planeta nas proximidades de Betelgeuse". E é também um dos colaboradores do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy", o mais conhecido guia para uma bela viagem à boleia pela galáxia, com vendas superiores à grande Enciclopédia Galáctica e, é um prático computador com uma capa onde se pode ler, em letras gordas e amigáveis, as palavras "Don't Panic". 

E a partir deste momento começa a odisseia de Arthur Dent e Ford Prefect pela Via Láctea, ao longo da qual encontram personagens inesquecíveis como Zaphod Beeblebrox, Presidente da Galáxia, Trillian, Marvin, o robot depressivo, Slartibartfast, e se envolvem nas mais hilariantes situações. Ao longo da narrativa, é também explicada a busca incansável de uma antiga raça inteligente pela resposta à "Grande Questão da Vida, do Universo... e de Tudo!", e ainda sobra tempo para que os leitores nunca mais olhem para um rato ou para um golfinho da mesma maneira. 

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy é um livro divertido. Muito divertido. A mim, fez-me rir desde a primeira linha da introdução (também de Douglas Adams) até ao final. As influências do humor non-sense tão típicas dos Monty Python, dos quais Adams era próximo, são evidentes. Diria mais: se os Monty Python tivessem entrado na ficção científica (esqueçamos por momentos o rapto alienígena em Life of Brian), não teriam feito melhor que The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. Indispensável para quem gosta de ficção científica ou de comédia - e absolutamente obrigatório para quem gosta de ambas.

[As coisas que se aprendem nos comentários do Ars Technica: hoje, 25 de Maio (05) de 2012 (12) assinala-se o Towel Day. Uma soma rápida: 25+5+12=42]

24 de maio de 2012

Diablo III: os recordes e os problemas

Sem grande supresa, e apesar do arranque um tanto ou quanto turbulento, Diablo III parece estar a bater recordes: de acordo com a Blizzard Entertainment, nas primeiras 24 horas foram vendidos 3,5 milhões de exemplares do jogo, não contando com as cópias incluídas na promoção da subscrição anual de World of Warcraft (mais de 1,2 milhões de exemplares). Dito de outra forma: só no primeiro dia, cerca de 4,7 milhões de jogadores começaram a jogar Diablo III (ou tentaram, pelo menos). No espaço de uma semana, esse número ascendeu a cerca de 6,3 milhões de jogadores. 

Para colocar as coisas em perspectiva, há muitos países no mundo com número inferior de habitantes.

No entanto, e apesar de ainda não estar a jogar Diablo III, creio ser importante sublinhar a polémica que envolveu o lançamento do jogo - com todos os problemas relacionados com a sobrelotação dos servidores, com o infame - e já transformado e meme - Erro#37, e com mais uma carrada de bugs e pequenos erros agravados pelo estúpido requisito always online, que torraram a paciência a jogadores de todo o mundo nos dias que se seguiram ao lançamento mundial. Claro que isto é perfeitamente natural no lançamento de qualquer videojogo - quando foi lançado em 2004, World of Warcraft tinha mais bugs e problemas do que o Windows Millennium, e mesmo os outros grandes títulos da Blizzard, como Diablo II e Starcraft, precisaram de tempo e de algumas actualizações para se aperfeiçoarem. É possível, claro, que isto seja uma situação momentânea, e que daqui a um mês ninguém mais fale do Erro#37. De qualquer forma, o arranque demasiado atribulado e a ausência do modo player versus player e do sistema de leilões de equipamento - no fundo, a grande justificação para a obrigatoriedade de uma ligação persistente à Internet - não deixam de ser sinais preocupantes. Por tradição, a Blizzard nunca lançava os seus videojogos dentro do prazo. "When it's ready" era o lema da empresa - e apesar da impaciência da comunidade de jogadores, esta filosofia ajudou a Blizzard a tornar os seus três títulos em fenómenos mundiais. Isso não aconteceu desta vez: a data de lançamento de Diablo III foi escrupulosamente cumprida, mas os problemas avolumaram-se - e, no processo, a empresa pode mesmo ter conseguido alienar uma parte da sua base de jogadores. É possível que esta situação tenha sido apenas a excepção que confirma a regra - mas também poderá ser um indicador do que o futuro reserva à Blizzard (ou melhor, à Activision Blizzard), uma vez aberto o precedente. A ver vamos. 


[Já agora, e isto em off-topic: acho absolutamente fascinante - e louvável - que uma publicação como a Forbes, na sua edição online, tenha uma secção inteiramente dedicada a videojogos - e com artigos muitas vezes melhores do que aqueles que podemos encontrar em muita imprensa especializada. Nos meios de comunicação social portugueses, quando é que temos a oportunidade de ler qualquer coisa sobre este mercado?]

Conto do Vento no Shortcutz Lisboa

Na Terça-feira fui pela primeira vez ao Shortcutz Lisboa. Para quem não conhece: o Shortcutz é, muito resumidamente, uma competição de curtas que tem lugar em várias cidades de Portugal e também já em algumas cidades europeias. Em Lisboa, há sessões todas as Terças-feiras no Bicaense; cada sessão conta com um convidado, com uma curta convidada e com duas curtas a concurso para a competição mensal (é isto, certo?).

Nesta sessão, o convidado foi o Rogério Ribeiro, um dos "fundadores" da Shortcutz, com uma breve apresentação da Antologia de Ficção Científica do Fantasporto. E a premiadíssima curta Conto do Vento, de Nélson Martins e Cláudio Jordão, foi a curta convidada. Até ia escrever sobre ela uma breve review, mas o Artur Coelho já o fez, e bem melhor do que eu conseguiria, pelo que deixo aqui o artigo como leitura recomendada. De qualquer forma, fiquei agradavelmente surpreendido com a qualidade da animação e da narrativa - e ouvir os próprios criadores a falarem do projecto, do processo criativo e das várias etapas da longa produção desta pequena curta foi muito interessante. 

Aliás, a avaliar pela (excelente) qualidade de Conto do Vento e das duas curtas em competição - The Great Monteleone, de João Leitão, e Bebé, de Reza Hajipour -, cheira-me que vai sendo altura de eu rever alguns  preconceitos para com o cinema português. Pelo menos para com o "curto".

23 de maio de 2012

Literatura fantástica: que obras poderiam originar bons videojogos?

Fala-se frequentemente da adaptação de livros para filmes - mas hoje, a ideia é sugerir a adaptação de livros para videojogos. Já houve algumas, mais ou menos bem sucedidas. Mas que livros de ficção científica e fantasia poderiam ser adaptados para videojogos? 

Esta lista no Kotaku sugere vários. Discworld é evidente, claro - até porque já foram feitos vários videojogos com base na obra de Terry Pratchett. The Forever War, de Joe Haldeman, poderia ser muito interessante em termos de tema, mas provavelmente muito difícil de executar devido à dilatação temporal (que é fundamental à obra). Os restantes ainda não li, mas tenho algumas sugestões:

A mais evidente: Gateway, de Frederik Pohl. Já foram feitos dois videojogos com base neste universo (em 1992 e 1993), mas creio que poderia ser interessante fazer um role-play de ficção científica moderno com base na premissa do livro - a de que existe, num asteróide perto da Terra, um porto espacial com uma série de naves pré-programadas de uma civilização alienígena antiga. Aliás, pensando agora nisso, um videojogo de Gateway bem executado poderia ser mesmo muito bom - tanto em modo single-play como em modo co-op, já que as naves Heechee podem levar um máximo de cinco passageiros. Alguém envie a ideia à Bethesda (já que a Bioware está queimada e a Blizzard estragaria tudo com leilões e requisitos de always-online). 

The End of Eternity, de Asimov, também poderia resultar num bom videojogo, em formato role play, no qual o jogador explorasse a estrutura temporal daquele universo, mas aqui teria de haver mais algum cuidado - o tema das viagens no tempo é sempre delicado. De qualquer forma, a possibilidade de fazer várias missões ao longo da linha temporal para ajustar a história ao sabor das necessidades narrativas seria sem dúvida aliciante. 

E, claro, ainda no formato role play, não poderia não mencionar Earthsea, de Ursula K. Le Guin - ainda que não haja propriamente escassez de jogos role-play em universos de fantasia (bem pelo contrário).

The Stars My Destination, de Alfred Bester, poderia ser muito interessante num formato mais orientado para a acção, na terceira pessoa. Gully Foyle seria certamente um protagonista fascinante para acompanhar ao longo da sua odisseia de vingança pelo Sistema Solar. 

22 de maio de 2012

Mass Effect 3: Lance Henriksen regressa ao estúdio

Lance Henriksen será (a par de Martin Sheen) um dos mais famosos actores a dar voz a uma personagem na série Mass Effect - e, de acordo com o Game Front, regressou aos estúdios, juntamente com outros actores, para dar voz ao "closure DLC" com o qual a Bioware e a Electronic Arts esperam acalmar a ira dos fãs e dar algum sentido lógico ao controverso final de Mass Effect 3. No rescaldo da polémica de Março, a Bioware prometeu conteúdos adicionais para "ajudar a esclarecer" o final do jogo (como se fosse esse o problema); e, de facto, o regresso de Henriksen e de outros actores pode indicar que se prepara algo mais do que um simples "esclarecimento" - pelo menos o Admiral Hackett irá ter mais algumas linhas. É esperar para ver. 

The Avengers

Admito logo à partida que as minhas expectativas quanto ao filme The Avengers eram extraordinariamente baixas. Nunca fui fã dos super-heróis da Marvel - e, se excluirmos o primeiro filme do Spider Man, que é razoável numa tarde de fim-de-semana, e o primeiro filme do Iron Man, que é muito aceitável, os restantes filmes que vi (não foram todos) pareceram-me demasiado insípidos, e anularam qualquer interesse que pudesse ter em ver outros. Por outro lado, o conceito de The Avengers, mesmo em banda desenhada, parece-me forçado - a ideia de juntar tantos personagens e tantas narrativas distintas num só filme sempre me soou problemática. 

Dito isto, The Avengers é um filme excelente - o que, vindo de mim, é mesmo um grande elogio. Não merece as classificações elevadíssimas que lhe foram atribuídas no IMDb ou no Rotten Tomatoes, mas continua a ser um excelente filme. Quem estiver à procura de um filme denso, com significados ocultos, uma moral escondida e uma "mensagem" veiculada por uma "visão artística" (e todas essas coisas que a crítica usa como objecto onanístico nas páginas dos suplementos ditos "de cultura"), pode ir procurar noutro lado - não vale a pena sequer entrar na sala. Mas quem quiser gastar duas horas e meia a ver um óptimo filme de puro entretenimento com um guião muito inteligente e divertido, bons actores, gags mirabolantes, acção non-stop e efeitos especiais a condizer, então não precisa de procurar mais - The Avengers é o filme do momento. 

Joss Whedon conseguiu fazer o que muitos consideravam impossível - escreveu um argumento coerente envolvendo tantas personagens distintas e relevantes, com densidade e com um humor muito bem encadeado, que diverte sem cair no ridículo. Claro que na escrita de Whedon isto não surpreende - recordemos Firefly - mas não deixa de ser muito interessante ver o seu estilo aplicado a um universo de super-heróis tão distintos e individualizados. Já sabemos como funcionam os truques de Whedon - uma referência no aos cinco minutos vai gerar uma piada aos dez e uma recordação - para nova piada - aos quinze, e isso funciona muito bem. O ritmo da narrativa é excelente, acelerando e abrandando nos momentos certos, ao sabor da história que vai sendo contada - com os momentos de acção a serem na sua generalidade muito bons, com efeitos especiais excelentes (que, no entanto, não são o alfa e o ómega do filme, como acontece em tantos outros blockbusters) e desempenhos muito sólidos. É certo que alguns actores limitaram-se a cumprir o exigido - e fizeram-no bem, diga-se de passagem. Simplesmente não acrescentaram às suas personagens o carisma e o cunho pessoal que as poderia tornar memoráveis. Chris Evans representa aquilo que se pode esperar do Capitão América - mas não o torna numa personagem memorável. O mesmo se pode dizer de Chris Hemsworth e Thor (ainda que um pouco menos), e de Jeremy Renner e Hawkeye. Não estão mal, de todo - cumprem o seu papel, são competentes, mas limitam-se a isso. Isto nota-se sobretudo pelo contraste com os restantes actores. Do Tony Stark/Iron Man de Robert Downey Jr. não vale a pena dizer muito - Downey Jr. é um excelente actor, carrega às costas o humor do filme e praticamente todas as cenas em que entra são excelentes (de resto, não é por acaso que dos restantes filmes da Marvel, os do Iron Man sejam talvez os melhores). Mark Ruffalo, para minha surpresa, consegue encarnar muito bem o espírito de Dr. Jekyll e Mr. Hyde no personagem de Bruce Banner, sempre atormentado pelo monstruoso Hulk, até ao momento em que finalmente o aceita e controla. Scarlet Johansson entra muito bem no papel da Black Widow, e tem provavelmente a "apresentação" mais divertida do filme. E Tom Hiddleston faz um Loki excelente, com tudo o que se pode esperar de um bom vilão numa história de super-heróis. 

Referi acima os efeitos especiais como uma das vertentes positivas do filme, mas neste campo não posso deixar de referir um aspecto negativo: o 3D. É verdade que nos dias que correm praticamente todos os filmes de acção recorrem ao 3D, mas sejamos francos - ou o objectivo é fazer algo como Avatar (que, independentemente das questões narrativas, é extraordinário do ponto de vista visual), ou enfia-se a viola no saco e fica-se nas boas e velhas duas dimensões. O 3D em The Avengers faz lá tanta falta como o Spider Man - nenhuma. 

Dizer que The Avengers é o melhor filme de super-heróis de sempre pode soar a exagero - há pelo menos dois filmes do Batman (o original de Tim Burton, e The Dark Knight Returns, de Christopher Nolan) que lutam por esse lugar. No entanto, a comparação peca por injusta - Batman é muito diferente dos heróis da Marvel, e por isso os filmes acabam por ser necessariamente diferentes. A verdade é que The Avengers seria porventura o filme da Marvel mais difícil de contar - e tornou-se no melhor. Podemos mesmo dizer: The Avengers é um grande filme. Não será um clássico do cinema em termos gerais, mas é a prova definitiva de que há outros super-heróis que funcionam no cinema para além do homem-morcego. E é a definição de entretenimento em estado puro - duas horas e meia de acção, adrenalina, eye-candy e gargalhadas. Não se pode pedir mais. 08/10


21 de maio de 2012

Julgar o livro pela capa (1)

Hyperion (1990), Dan Simmons 

Muito a propósito, estou neste momento a ler (bom, não exactamente neste momento) Hyperion, de Dan Simmons. Infelizmente, a capa que coloquei ali ao lado - e que aqui reproduzo - não é a da minha edição. Esta, de acordo com este blogue, pertence à nova edição polaca de Hyperion que comemora o vigésimo aniversário da obra. Não consegui descobrir quem foi o autor desta espantosa - e vagamente arrepiaste - ilustração, mas a verdade é que o ilustrador conseguiu, numa imagem formidável, mostrar a premissa da narrativa no entanto a denunciar: os sete peregrinos (as sombras), que na iminência de uma guerra viajam até ao planeta Hyperion para encontrarem a misteriosa e letal criatura Shrike (no centro do motivo principal). Diria que tudo nesta capa está perfeito: as cores, o contraste entre os tons quentes do fundo e o negro das sombras dos peregrinos e de Shrike, até a fonte. Não é que Hyperion tenha tido más capas - mas esta é absolutamente extraordinária. 

20 de maio de 2012

Julgar o livro pela capa (0)

Não serei certamente a melhor pessoa para falar de capas de livros. Julgo que isso se deve ao facto de, em termos muito sucintos, pouco saber e menos entender sobre o assunto. No fundo, a coisa resume-se a isto: há capas de que gosto, e há capas de que não gosto; há capas que considero boas (podem ou não sê-lo) e capas que considero terríveis (idem). Sou capaz de explicar a minha opinião de forma subjectivamente fundamentada: gosto da ilustração, gosto da combinação de cores, detesto as capas da moda com fotografias de tudo e mais um par de botas (e aqui não faço concessões). 

De qualquer maneira, e porque 1) o facto de não se saber nada sobre um assunto nunca impediu ninguém de falar sobre ele e 2) os gostos, ao contrário do que diz a sabedoria popular, não só se discutem como dão excelentes discussões (aliás, acho que o ditado tem um equívoco não por causa da definição de "gosto", mas por causa do significado que atribuímos à palavra "discussão", que por cá quer dizer confronto e não debate; mas adiante). Assim, vou começar aqui no bloque uma nova série semanal, sobre capas de livros do Fantástico de que gosto especialmente, e porquê. É provável que abra esta série a participações exteriores, mas isso será ainda um caso a pensar.

De qualquer forma, amanhã sairá a primeira capa.

Citação fantástica (14)

There is no worse tyranny than to force a man to pay for what he does not want merely because you think it would be good for him. 

 Robert A. Heinlein, The Moon Is a Harsh Mistress (1966)

18 de maio de 2012

The Forever War

The Forever War, the Joe Haldeman (1974) é um exemplo perfeito da ficção científica que coloca num enquadramento futuro temas do presente para sobre eles reflectir com maior desprendimento - e, frequentemente, com maior acutilância. Neste caso, o tema é a guerra (e a sua derradeira falta de sentido), a partir do ponto de vista de William Mandella, estudante brilhante recrutado para o exército com o objectivo de combater na guerra com os Taurans, uma misteriosa raça de extra-terrestres que atacou naves de colonização humana. Joe Haldeman foi, ele mesmo, um veterano do Vietname, pelo que as descrições do campo de recruta e de combate dificilmente poderiam ser mais realistas. Mandella junta-se a outros recrutas - todos com QI elevado e currículos académicos exemplares - para um período de recruta brutal em Charon, e depois embarca para o espaço profundo através das collapsar utilizadas para viajar a velocidades superiores às da luz, e assim chegar às zonas de batalha mais distantes.

É neste ponto que entra o tema central de The Forever War: considerando a teoria da relatividade como válida, a passagem do tempo para os soldados a bordo das naves de batalha é diferente daquela verificada no mundo que deixaram para trás - e que juraram defender. Para Mandella e os restantes soldados na frente de combate, passam-se alguns meses, poucos anos; mas na Terra, várias décadas passaram - e é com choque e surpresa que os militares sobreviventes regressam ao seu planeta-natal após uma longa campanha para encontrar um mundo radicalmente diferente daquele que deixaram. Haldeman jogou de forma brilhante com este conceito para ilustrar o deslocamento sentido pelas tropas quando regressam da guerra e se tentam reintegrar num mundo que já não conhecem, do qual já não fazem parte - e que já não tem lugar para eles, tendo avançado ao seu próprio ritmo e com as suas próprias condicionantes, privada das suas mentes mais brilhantes, consumidas pelo esforço de uma guerra espacial à escala galáctica. O mundo que Mandella encontra no seu regresso é uma autêntica distopia política, económica e social, uma de muitas que se sucederam durante os poucos anos que esteve ausente - que foram muitos, na sua ausência. Ao ponto de compreender que a guerra, que viveu de forma tão dura por tão pouco tempo, é o único mundo que lhe resta. 

The Forever War distingue-se de uma parte relevante da ficção científica ao ter em consideração a passagem do tempo em relatividade, com todas as suas consequências - das alterações sociais ao constante jogo do "gato e do rato" entre a Humanidade e os Taurans pela supremacia bélica quando as batalhas estão a distâncias - espaciais e temporais - incompreensíveis para um homem comum. Sem esquecer as próprias relações humanas, tornadas impossíveis a partir do momento em que a separação espacial implica uma separação temporal que se torna inevitavelmente permanente. Haldeman não foi, é certo, o único escritor a recorrer a este tema (podia nomear alguns bons exemplos), mas poucos terão alcançado o mesmo impacto e realismo. Mas aqui, mais do que ser um plot device, esta questão da relatividade é o centro da história, sustentando as várias ramificações do enredo e as diferentes questões que o autor levanta, e sobre as quais convida o leitor a reflectir. 

Joe Haldeman tem em The Forever War mais do que uma space opera, e mais do que um clássico incontornável da ficção científica - tem uma obra notável sobre a guerra e sobre os efeitos indeléveis que esta deixa naqueles que lhe sobrevivem, e uma reflexão sobre a sua própria experiência colocada num futuro plausível e extraordinariamente rico. Este futuro é descrito de forma extraordinária, num estilo sólido e com um ritmo narrativo perfeito. Na edição que possuo, da colecção SF Masterworks, o escritor Peter F. Hamilton descreve The Forever War como "a book that's damn near perfect". E é mesmo. Está, sem dúvida, entre a melhor ficção científica que já li. 

17 de maio de 2012

O Grande Asteróide de '98

A Filmpuff, do Not a Film Critic, desafiou-me há tempos para escrever um texto sobre um dos meus guilty pleasures cinematográficos. O escolhido foi Armageddon. A quem interessar, o texto pode ser lido aqui

Prometheus: Quiet Eye

A menos de um mês da estreia de Prometheus, seria difícil o hype e as expectativas serem maiores - mas nem por isso a tremenda campanha de marketing viral dá sinais de abrandamento. Num novo vídeo viral divulgado ontem, intitulado Quiet Eye, a actriz Noomi Rapace interpreta a protagonista Elizabeth Shaw na sua "proposta" às Weyland Industries - escrutinada com tecnologia que faria inveja ao Cal Lightman da série Lie to Me. 




É possível que o filme seja uma desilusão (esperemos que não), mas temos de reconhecer que a campanha está formidável. 

16 de maio de 2012

Diablo 3: Wrath

Doze anos volvidos desde Diablo 2, eis que a Blizzard Entertainment finalmente lançou o muito aguardado Diablo 3. O jogo chegou ontem às lojas, com muita animação em algumas cidades europeias. Infelizmente, os meus planos para adquirir logo o jogo, se possível na edição de coleccionador, foram por água abaixo - três estrelas gigantes vermelhas, intituladas EDP, Lisboa Gás e Meo entraram em colapso simultâneo e criaram um buraco negro supermassivo no pequeno universo do meu saldo bancário. Enfim, fica para o próximo mês, que a efeméride do meu aniversário pode até não ser celebrada, mas sempre servirá para alguma coisa. 

 Entretanto, e porque para todos os efeitos o lançamento do Diablo 3 é um dos acontecimentos do ano no que aos videojogos diz respeito, deixo aqui uma (excelente) curta de animação escrita pelo próprio director artístico da Blizzard Entertainment, Chris Metzen, sobre este fantástico universo.



15 de maio de 2012

Yarrr, Game of Thrones

Parece que Game of Thrones está a caminho de se tornar na série televisiva mais pirateada de 2012. O que, diga-se de passagem, só surpreenderá os mais desatentos. O problema, como bem aponta este artigo da Forbes, está menos na pirataria em si (alguns utilizadores vão sempre optar pelo download ilegal independentemente do que a HBO fizer) e mais no modelo de distribuição da série. Dada a enorme popularidade da adaptação televisiva de A Song of Ice and Fire, a HBO devia ter optado por um modelo de distribuição online para todo o mundo em linha com a transmissão nos Estados Unidos, para além de assegurar  a difusão nos canais televisivos de outros países com o mínimo possível de desfasamento temporal. Um pouco, por exemplo, como a Fox fez por cá com The Walking Dead, cujas duas primeiras temporadas estreavam ao Domingo à noite nos EUA e à Terça-feira na Fox Portugal.

É provável que esta situação tenha um impacto pouco significativo nas vendas posteriores em DVD, mas para já é um indicador expressivo de duas coisas: 1) o sucesso de Game of Thrones é incomparavelmente maior do que as audiências televisivas revelam, e 2) a HBO não está a fazer tanto dinheiro como poderia com a série. E não adianta muito usar o habitual bode expiatório da pirataria (que hoje em dia serve de desculpa para tudo e mais um par de botas), quando a culpa reside sobretudo num modelo de distribuição completamente obsoleto para a realidade actual. 

A ficção científica e o cinema: Melancholia

É algo difícil enquadrar Melancholia (Lars Von Trier, 2011) no género de ficção científica, ou mesmo num Fantástico mais abrangente. O filme foge às tropes clássicas do género ao apresentar-se desprovido de um enquadramento temporal identificativo (tanto quanto sabemos, a acção decorre nos nossos dias, e não num futuro distante) e com poucos elementos relevantes. Na verdade, só o motivo de fundo - a destruição da Terra - e uma certa intuição premonitória que Justine revela dão a este filme um carácter de Fantástico. O que não só não é invulgar como, pessoalmente, é também mais do que suficiente para mim. Numa altura em que a ficção científica "clássica" tem perdido força no grande ecrã, é refrescante ver trabalhos alternativos de qualidade, produzidos e realizados por pessoas que normalmente não associamos ao género - mesmo que o utilizem não como motivo principal, mas como pano de fundo para algo diferente. 

Para ir directo ao assunto: Melancholia é um filme a todos os níveis excepcional, de longe a melhor estreia que vi em muito tempo. Não sou particular conhecedor da obra de Von Trier, pelo que evitarei as comparações - mas em Melancholia, o dinamarquês tem sem dúvida uma obra-prima. É um filme muito contido, com um enredo simples e coeso, centrado na vida de duas irmãs durante as semanas que antecedem a destruição da Terra pela colisão com o planeta-nómada Melancolia. Isto, atenção, não é propriamente um spoiler: nos primeiros momentos do filme, através de uma sucessão de imagens quase estáticas de grande beleza, Lars Von Trier mostra vários momentos importantes do filme, entre eles a colisão planetária que oblitera o planeta Terra. Melancholia não é o convencional filme-catástrofe a pedir pipocas numa tarde chuvosa de domingo. Não há aqui uma tragédia anunciada, a notícia do apocalipse apresentada à imprensa por um líder mundial, o pânico generalizado pelo mundo, e a tentativa meio desesperada, meio heróica de resolver o problema, sabendo que no final os heróis triunfam e salvam a Terra. Em Melancholia, a destruição da Terra é um facto consumado, e nada poderá mudar isso. Lars Von Trier não está sequer preocupado em mostrar como o mundo vive os dias do fim (o que poderia ser um exercício interessante) - ao longo do filme, nenhuma pista é dada nesse sentido. Apenas as duas irmãs, Justine e Claire, interessam.

E é precisamente entre ambas que o filme se divide, em duas partes que recebem o nome de cada uma delas. A primeira, "Justine", retrata a cerimónia e a festa de casamento de Justine (Kristen Dunst num desempenho formidável), num momento de drama familiar onde sobressai a oposição entre a impulsividade e o carácter depressivo e auto-destrutivo de Justine e o rigor e o auto-controlo de Claire (Charlotte Gainsbourg), num cenário humano que tenta (em vão) compensar a sua vacuidade através da ostentação. As diferenças suscitam o conflito entre ambas, mas curiosamente são um ponto de união entre as duas irmãs nomeio de uma família disfuncional. Na segunda parte, intitulada "Claire", Justine cede por fim à depressão, e é Claire quem vai tomar conta dela enquanto o planeta Melancolia se aproxima da Terra - com John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire, a garantir que o planeta passará pela Terra sem risco de colisão. Aqui dá-se uma inversão curiosa de papéis, entre uma Justine a sair progressivamente da sua depressão (ou a aprender por fim a viver com ela) e a aceitar de forma surpreendentemente estóica e controlada o fim da Humanidade quando se torna evidente que os planetas vão de facto colidir, e uma Claire a perder o auto-controlo e a mergulhar numa loucura induzida pelo desespero.

Este drama familiar é pautado por uma banda sonora formidável (Tristão e Isolda, de Wagner), que contribui de forma subtil mas decisiva para a atmosfera criada por Lars Von Trier - cada vez mais opressiva à medida que o fim se aproxima e sabemos nada poder ser feito para o evitar. Entrar em Melancholia induz uma sensação difusa de desconforto, uma angústia permanente que extravasa as imagens de grande beleza que Von Trier recria até ao último momento. Pessoalmente, a única experiência que tive do género foi quando li Childhood's End, de Arthur C. Clarke - que, não por acaso, é o meu livro de ficção científica preferido. Vi Melancholia no cinema, em Dezembro, e no momento em que o filme acabou, ninguém se moveu - durante longos minutos rolavam os créditos, e o público permaneceu sentado, em silêncio, sem desviar o olhar da tela. É possível que nem todos tenham gostado do filme - aliás, é muito provável que metade da audiência tenha detestado Melancholia. Mas ninguém lhe ficou indiferente. 9.5/10


[Que um filme deste calibre tenha sido praticamente posto de parte devido às declarações idiotas de Lars Von Trier numa conferência de imprensa só demonstra (como se ainda houvesse dúvidas) a estupidez reinante no meio cinematográfico.]