16 de maio de 2012

Diablo 3: Wrath

Doze anos volvidos desde Diablo 2, eis que a Blizzard Entertainment finalmente lançou o muito aguardado Diablo 3. O jogo chegou ontem às lojas, com muita animação em algumas cidades europeias. Infelizmente, os meus planos para adquirir logo o jogo, se possível na edição de coleccionador, foram por água abaixo - três estrelas gigantes vermelhas, intituladas EDP, Lisboa Gás e Meo entraram em colapso simultâneo e criaram um buraco negro supermassivo no pequeno universo do meu saldo bancário. Enfim, fica para o próximo mês, que a efeméride do meu aniversário pode até não ser celebrada, mas sempre servirá para alguma coisa. 

 Entretanto, e porque para todos os efeitos o lançamento do Diablo 3 é um dos acontecimentos do ano no que aos videojogos diz respeito, deixo aqui uma (excelente) curta de animação escrita pelo próprio director artístico da Blizzard Entertainment, Chris Metzen, sobre este fantástico universo.



15 de maio de 2012

Yarrr, Game of Thrones

Parece que Game of Thrones está a caminho de se tornar na série televisiva mais pirateada de 2012. O que, diga-se de passagem, só surpreenderá os mais desatentos. O problema, como bem aponta este artigo da Forbes, está menos na pirataria em si (alguns utilizadores vão sempre optar pelo download ilegal independentemente do que a HBO fizer) e mais no modelo de distribuição da série. Dada a enorme popularidade da adaptação televisiva de A Song of Ice and Fire, a HBO devia ter optado por um modelo de distribuição online para todo o mundo em linha com a transmissão nos Estados Unidos, para além de assegurar  a difusão nos canais televisivos de outros países com o mínimo possível de desfasamento temporal. Um pouco, por exemplo, como a Fox fez por cá com The Walking Dead, cujas duas primeiras temporadas estreavam ao Domingo à noite nos EUA e à Terça-feira na Fox Portugal.

É provável que esta situação tenha um impacto pouco significativo nas vendas posteriores em DVD, mas para já é um indicador expressivo de duas coisas: 1) o sucesso de Game of Thrones é incomparavelmente maior do que as audiências televisivas revelam, e 2) a HBO não está a fazer tanto dinheiro como poderia com a série. E não adianta muito usar o habitual bode expiatório da pirataria (que hoje em dia serve de desculpa para tudo e mais um par de botas), quando a culpa reside sobretudo num modelo de distribuição completamente obsoleto para a realidade actual. 

A ficção científica e o cinema: Melancholia

É algo difícil enquadrar Melancholia (Lars Von Trier, 2011) no género de ficção científica, ou mesmo num Fantástico mais abrangente. O filme foge às tropes clássicas do género ao apresentar-se desprovido de um enquadramento temporal identificativo (tanto quanto sabemos, a acção decorre nos nossos dias, e não num futuro distante) e com poucos elementos relevantes. Na verdade, só o motivo de fundo - a destruição da Terra - e uma certa intuição premonitória que Justine revela dão a este filme um carácter de Fantástico. O que não só não é invulgar como, pessoalmente, é também mais do que suficiente para mim. Numa altura em que a ficção científica "clássica" tem perdido força no grande ecrã, é refrescante ver trabalhos alternativos de qualidade, produzidos e realizados por pessoas que normalmente não associamos ao género - mesmo que o utilizem não como motivo principal, mas como pano de fundo para algo diferente. 

Para ir directo ao assunto: Melancholia é um filme a todos os níveis excepcional, de longe a melhor estreia que vi em muito tempo. Não sou particular conhecedor da obra de Von Trier, pelo que evitarei as comparações - mas em Melancholia, o dinamarquês tem sem dúvida uma obra-prima. É um filme muito contido, com um enredo simples e coeso, centrado na vida de duas irmãs durante as semanas que antecedem a destruição da Terra pela colisão com o planeta-nómada Melancolia. Isto, atenção, não é propriamente um spoiler: nos primeiros momentos do filme, através de uma sucessão de imagens quase estáticas de grande beleza, Lars Von Trier mostra vários momentos importantes do filme, entre eles a colisão planetária que oblitera o planeta Terra. Melancholia não é o convencional filme-catástrofe a pedir pipocas numa tarde chuvosa de domingo. Não há aqui uma tragédia anunciada, a notícia do apocalipse apresentada à imprensa por um líder mundial, o pânico generalizado pelo mundo, e a tentativa meio desesperada, meio heróica de resolver o problema, sabendo que no final os heróis triunfam e salvam a Terra. Em Melancholia, a destruição da Terra é um facto consumado, e nada poderá mudar isso. Lars Von Trier não está sequer preocupado em mostrar como o mundo vive os dias do fim (o que poderia ser um exercício interessante) - ao longo do filme, nenhuma pista é dada nesse sentido. Apenas as duas irmãs, Justine e Claire, interessam.

E é precisamente entre ambas que o filme se divide, em duas partes que recebem o nome de cada uma delas. A primeira, "Justine", retrata a cerimónia e a festa de casamento de Justine (Kristen Dunst num desempenho formidável), num momento de drama familiar onde sobressai a oposição entre a impulsividade e o carácter depressivo e auto-destrutivo de Justine e o rigor e o auto-controlo de Claire (Charlotte Gainsbourg), num cenário humano que tenta (em vão) compensar a sua vacuidade através da ostentação. As diferenças suscitam o conflito entre ambas, mas curiosamente são um ponto de união entre as duas irmãs nomeio de uma família disfuncional. Na segunda parte, intitulada "Claire", Justine cede por fim à depressão, e é Claire quem vai tomar conta dela enquanto o planeta Melancolia se aproxima da Terra - com John (Kiefer Sutherland), o marido de Claire, a garantir que o planeta passará pela Terra sem risco de colisão. Aqui dá-se uma inversão curiosa de papéis, entre uma Justine a sair progressivamente da sua depressão (ou a aprender por fim a viver com ela) e a aceitar de forma surpreendentemente estóica e controlada o fim da Humanidade quando se torna evidente que os planetas vão de facto colidir, e uma Claire a perder o auto-controlo e a mergulhar numa loucura induzida pelo desespero.

Este drama familiar é pautado por uma banda sonora formidável (Tristão e Isolda, de Wagner), que contribui de forma subtil mas decisiva para a atmosfera criada por Lars Von Trier - cada vez mais opressiva à medida que o fim se aproxima e sabemos nada poder ser feito para o evitar. Entrar em Melancholia induz uma sensação difusa de desconforto, uma angústia permanente que extravasa as imagens de grande beleza que Von Trier recria até ao último momento. Pessoalmente, a única experiência que tive do género foi quando li Childhood's End, de Arthur C. Clarke - que, não por acaso, é o meu livro de ficção científica preferido. Vi Melancholia no cinema, em Dezembro, e no momento em que o filme acabou, ninguém se moveu - durante longos minutos rolavam os créditos, e o público permaneceu sentado, em silêncio, sem desviar o olhar da tela. É possível que nem todos tenham gostado do filme - aliás, é muito provável que metade da audiência tenha detestado Melancholia. Mas ninguém lhe ficou indiferente. 9.5/10


[Que um filme deste calibre tenha sido praticamente posto de parte devido às declarações idiotas de Lars Von Trier numa conferência de imprensa só demonstra (como se ainda houvesse dúvidas) a estupidez reinante no meio cinematográfico.]

14 de maio de 2012

Notícias de George R.R. Martin

Finda a tour por Inglaterra e Portugal (já lá vai quase um mês), George R.R. Martin já regressou ao trabalho - e deixa no seu blogue pessoal alguns apontamentos sobre o que tem em mãos e o que podemos esperar nos próximos tempos. Em jeito de resumo, as novidades mais "quentes": 

1) o autor já retomou a escrita de The Winds of Winter (está a escrever passagens dos Dothraki, o que provavelmente significa que a Dany e o Drogon não fizeram churrasco deles); 

2) A antologia Dangerous Women, de Martin com Gardner Dozois, está quase completa - sendo que o "quase" aqui traduz-se por "vai sair atrasada". Recordo que esta antologia deverá incluir o conto The She-Wolves of Winterfell, a quarta história de Dunk & Egg. 

3) Martin e Dozois vão colaborar em três novas antologias de originais: a primeira, intitulada Rogues, segue mais ou menos na linha das antologias Warriors; as outras duas, que o autor classifica de "retro-futuristas", intitulam-se Old Mars e Old Venus.

4) Para a terceira temporada de Game of Thrones, Martin já concluiu o argumento do sétimo episódio, intitulado "Autumn Storms". Entretanto, ainda aguardamos o "Blackwater", na segunda temporada...

O artigo completo pode ser lido aqui.

13 de maio de 2012

Citação fantástica (13)

All explorers are seeking something they have lost. It is seldom that they find it, and more seldom still that the attainment brings them greater happiness than the quest.

Arthur C. Clarke, The City and the Stars (1956)

12 de maio de 2012

Notas sobre ficção científica (3)

Please do not misunderstand me: I have enormously enjoyed the best of Star Trek and Lucas/Spielberg's epics, to mention only the most famous examples of the genre. But these works are fantasy, not science fiction in the strict meaning of the term. It now seems almost certain that in the real universe we may never exceed the velocity of light. Even the very closest star systems will always be decades or centuries apart; no Warp Six will ever get you from one episode to another in time for next week's installment. The Great Producer in the Sky did not arrange his program planning that way. 

Arthur C. Clarke, The Songs of Distant Earth (1986): Introdução

11 de maio de 2012

The City and the Stars

De que falamos quando pensamos em ficção científica num futuro distante? A ficção científica, nas suas diversas formas, produziu várias respostas ao longo dos anos, e a tecnologia evolui até ao ponto em que a humanidade consegue viajar a velocidades superiores às da luz (ou encontrar uma estratégia que permita obter os mesmos resultados de outra forma) e colonizar as estrelas mais distantes. A noção de império galáctico não é de todo estranha ao género. No entanto, fica a pergunta: o que acontece após a Humanidade conquistar as estrelas? 

The City and the Stars, de Arthur C. Clarke, ensaia uma resposta possível numa obra admirável. Expandindo o seu primeiro trabalho publicado, a noveleta Against the Fall of Night (título formidável que devia ter permanecido), The City and the Stars situa-se, em termos cronológicos, mais distante no tempo do que qualquer outra obra de ficção científica que tenha lido: mais de mil milhões de anos no futuro. A sua história não tem lugar em qualquer outro planeta ou galáxia, mas na cidade fechada de Diaspar: a última cidade que existe numa Terra devastada e árida cujos oceanos há muito se evaporaram, o último reduto da Humanidade que vive pacificamente entre muros depois de ter conquistado e perdido as estrelas. Ninguém sai ou deseja sair de Diaspar - aliás, ninguém se lembra da última vez em que alguém saiu de Diaspar. Nela, os seres humanos não nascem - são criados artificialmente pelas máquinas que mantém a cidade. As mentes e as memórias individuais são preservadas e atribuídas aos novos cidadãos quando estes "nascem", e apenas uma pequena parte da população potencial de Diaspar vive a cada momento. 

Esta regra, porém, tem algumas excepções muito raras - como o caso de Alvin, o protagonista. Alvin é um Único - foi concebido sem memórias, é alguém que não possuiu outra vida antes, e que não tem assim quaisquer memórias de Diaspar. Ao contrário dos seus conterrâneos, Alvin não teme o exterior, e deseja deixar a protecção da cidade e saber o que existe fora dela. Eventualmente consegue-o - e fora dos muros fechados de Diaspar encontra um mundo que supera a sua imaginação.

The City and the Stars é um livro sobre o impulso humano de querer chegar mais longe. De descobrir, de explorar, de nos superarmos a cada demanda. É uma história sobre a superação do medo, sobre o desconhecido que tememos, que frequentemente embrulhámos em lendas ambíguas para justificar os nossos medos sem querer admitir a sua existência. É também um livro sobre a utopia, com a última sociedade humana a viver uma existência quase imortal e sem ambição entre as paredes de Diaspar, num mundo fascinante concebido por Arthur C. Clarke. 

A world where black magic is at work is not that different from high science fiction

Jon Spaihts, um dos argumentistas de Prometheus, deu uma excelente entrevista ao portal io9 - sobre o filme de Ridley Scott, sobre o estado da ficção científica, e sobre outros projectos. A entrevista pode ser lida na íntegra aqui (o que recomendo). Três destaques:

Why is it so hard to get Hollywood to greenlight space adventures like your Shadow 19 script? Video games like Mass Effect make insane amounts of money, so why is it so hard for Hollywood to commit to similar movies? 
There are some technical reasons why. In game engines, hard shiny surfaces are easy to render, while pliable or complex surfaces are hard. So in a game, spaceships, tanks and armored figures are very approachable subjects. It's a lot harder to render, say, a long-haired girl in a flowing dress chasing a shaggy dog through a garden. That's brutal geometry for a game engine. In games, scifi's easier to achieve than mundane reality. With film, the opposite is true. Anything available in the real world you can just point a camera at. Fantastic things have to be built, physically or digitally, and that's expensive. Scifi costs more in film. All that said: scifi blockbusters have made mountains of money, and are over-represented in the top fifty box office hits of all time. The mighty Avatar first among them, with the Star Wars films and others trailing behind. Clearly the audience will turn out if you execute well. I think there's a ready market for grand space adventures. But it's got to be a good story on every level: good characters, emotional arcs, sharp dialogue, comprehensible world, clear stakes… it's a lot to get right. There aren't that many people around who can do it well. 
(...) 
Do you think films like Prometheus and Gravity could spark a new interest in big space epics that aren't based on an existing franchise? 
I want to say yes, but I think those aren't the films for the job. Prometheus "shares DNA" with a pre-existing franchise, and what I know of Gravity suggests it's a fairly grounded predicament movie, without the larger-than-life characters or fanciful story-world that would naturally give birth to a franchise. To launch a new franchise you need both a strikingly imagined world with a conflict built into its bones, and vivid characters with heroic traits that allow them to the be the backbone of a series of stories. See "Star Wars." 
(...) 
How weird is it moving from hard science fiction to something like The Mummy, and do you think you have some room to expand the mythos of why there are mummies coming to life and chasing people around? 
In Arthur C. Clarke's words, "any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic." So a world where black magic is at work is not that different from high science fiction. You still need rules, powers, a world whose history and sweep of events extends beyond the borders of the frame. I'd never have taken the job if I didn't think I had something new to bring to it. I'm incubating a mythology I really dig – once more balancing the imperatives to honor the canon and the archetypes of the story universe, and to give birth to something new.

[fonte: io9]

10 de maio de 2012

Hear me roar!

Peter Dinklage, o actor que dá vida ao hábil Tyrion Lannister na série Game of Thrones, está na capa da próxima edição da revista Rolling Stone. O que, não deixa de ser assinalável, e um justo reconhecimento não só do sucesso de Game of Thrones, mas também do grande desempenho de Dinklage num dos papéis mais cativantes da série. De acordo com George R. R. Martin, não houve casting para o papel de Tyrion Lannister - a produção da série apenas considerou Peter Dinklage para o papel. Basta vermos um episódio - qualquer um - da série para percebermos porquê. 

(E a coisa melhora sempre quando vemos Tyrion a esbofetear Joffrey, como no último episódio)

[fonte: io9]

Sugestão de leitura (1)

As sessões do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico têm suscitado alguns debates mais ou menos laterais mas igualmente interessantes. Um deles, porventura o mais constante, tem incidido sobre sobre os livros electrónicos e tudo aquilo que eles implicam para a literatura enquanto arte e enquanto mercado, e mesmo para a leitura. A propósito deste tema, lembrei-me de um ensaio de Nicholas G. Carr, publicado na revista The Atlantic há já alguns anos, intitulado Is Google Making Us Stupid? - What the Internet Is Doing to Our Brains. Carr é frequentemente polémico, mas sempre merecedor da nossa atenção, e esta tese é particularmente interessante para reflectirmos nas muitas mudanças que a Internet introduziu nas nossas vidas - entre as quais poderemos talvez contar mudanças cognitivas. É uma sugestão de leitura um pouco extensa, mas que vale a pena.

9 de maio de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Wizard of Earthsea, com Maria do Rosário Monteiro (1)

O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico reuniu uma vez mais em Lisboa na passada Sexta-feira, 04 de Maio, para falar sobre The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin - e, claro, sobre os restantes livros que compõem o Earthsea Quartet. A convidada foi a professora Maria do Rosário Monteiro, que na sua carreira académica estudou o Fantástico, tendo trabalhado, em tese, sobre as obras de Tolkien e Le Guin. A "moderar" a tertúlia esteve, como sempre, o Rogério Ribeiro, que desta vez apostou num formato ligeiramente diferente e mais "interactivo", convidando (desafiando?) a assistência a intervir com maior regularidade - o que, diga-se de passagem, resultou muito bem, tornando a tertúlia quase numa conversa entre o Rogério, a Maria do Rosário Monteiro e todos os presentes. 

Maria do Rosário Monteiro começou por referir que se nota muito a evolução da própria autora da primeira à quarta história. The Wizard of Earthsea é, na sua essência, uma história de aventura, orientada sobretudo para um público mais jovem (mas não só), "aplicando a ideia tradicional do herói com uns pozinhos de Jung e de taoísmo". Esta primeira aventura é, na sua essência, a jornada pessoal de Ged na descoberta de si mesmo, até à aceitação e harmonização dos seus aspectos positivos e negativos. "É uma narrativa de auto-aprendizagem", considera Maria do Rosário Monteiro, "assente na noção de que não mudamos o mundo." Relembrando o carácter inato da magia em Earthsea, a professora sublinha o carácter "científico" que o controlo desta assume, seguindo um processo racionalizado. No centro da magia neste universo reside a palavra, enquanto essência do ser - demonstrada por Ged no final da narrativa. 

No segundo livro, The Tombs of Atuan - obra que, de acordo com a própria autora, surgiu a partir de um reparo da própria mãe sobre o facto de Le Guin ser declaradamente feminista e no entanto escrever sobre personagens masculinos -, o protagonismo é dado a uma mulher, Tenar. Para Maria do Rosário Monteiro, Tenar manteve a ambivalência tradicional das deusas femininas - o que lhe dá particular força - e ganhou com isso densidade, sem em momento algum cair "nos radicalismos femininos". No entanto, a construção desta personagem foi um desafio por "não haver na altura tradição literária para heroínas" - e também pela dificuldade de desenvolver uma heroína "que não tem actos heróicos".

Já The Farthest Shore, o terceiro livro da série, é para Maria do Rosário Monteiro uma história "muito bonita e altamente filosófica", na qual Ged regressa como protagonista. O seu novo papel de "tutor" (de Arren) ilustra o problema da escolha e da responsabilidade - ideia cara a Le Guin, a de que todos os actos têm uma consequência, que o protagonista resolve através da sua própria definição da "filosofia da não-acção", noção central no taoísmo (conforme relembra Maria do Rosário Monteiro, este "é um problema sem solução dentro do próprio taoísmo"). The Farthest Shore, com o seu final aberto e incerto, deixou porém a Ursula K. Le Guin um problema por resolver: "como dar continuidade ao Ged e desenvolver uma filosofia feminina com Tenar" Na opinião da convidada, Tehanu, escrito vários anos após o terceiro livro, é um excelente regresso da autora ao mundo de Earthsea , sobretudo porque o livro anterior "acaba numa situação de desequilíbrio entre a vida e a morte", que a continuação resolve [felizmente, falou-se pouco deste livro, que ainda não li].

A sessão, desta vez, contou com uma audiência mais participativa (e não houve a habitual "música ambiente" no exterior da livraria), que na sua maioria tinha lido Earthsea nas edições "Quartet" em inglês. Os vários livros que compõem a série têm várias traduções em Português - a mais recente é da Editorial Presença, numa edição claramente orientada para um público infantil-juvenil (mais infantil, até). Luís Filipe Silva relembrou que o fenómeno do "infantil-juvenil" expandiu-se com outro fenómeno literário muito forte - Harry Potter -, sem que a colecção da Presença tenha tido o sucesso antecipado. "Salvaram-se" alguns autores, entre os quais Ursula K. Le Guin - e ficaram as capas horríveis e infantis numa obra "com uma linguagem mais adulta e um estilo mais adulto". 

Esta sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico não se esgotou contudo em Earthsea e Ursula K. Le Guin. Dos géneros do Fantástico a Tolkien, passando pela edição e pela literatura actual, vários foram os temas abordados por Maria do Rosário Monteiro ao longo daquela hora e meia que acabou por saber a pouco. Sobre esses temas, falarei noutro artigo. 

8 de maio de 2012

A ficção científica e o cinema: Back to the Future

Um dos mais interessantes aspectos da ficção científica enquanto género cinematográfico é a possibilidade que oferece de combinar muito bem com outros géneros mais "convencionais". Um filme de ficção científica pode ser também um filme de acção ou de terror, um drama ou um thriller, uma aventura ou um épico, ou mesmo uma comédia - e sem perder a sua identidade de ficção científica, especulativa e arrojada. Para evitar uma lista exaustiva, vou abster-me de dar exemplos de todas estas categorias, para falar de um projecto que combinou com mestria a ficção científica com a comédia e a aventura, resultando num filme a todos os níveis inesquecível: Back to the Future

Poderíamos começar pelo próprio título, tão bem conseguido que se tornou numa expressão idiomática. Back to the Future (Robert Zemeckis, 1985) é um filme sobre viagens no tempo, um tema clássico e normalmente mal tratado na ficção científica, dada a sua complexidade. Diria que o grande problema deste tema é a noção de paradoxo - se voltarmos atrás no tempo e alterarmos algo, essa alteração tem impacto no futuro de onde partimos. Isto origina aquele exemplo clássico de irmos ao passado matar a nossa própria mãe, deixando assim de existir. Claro que há várias formas de abordar a questão. Na literatura, e a título de exemplo, Robert A. Heinlein, descartou toda e qualquer noção de paradoxo com grande elegância em Time Enough for Love, sem que para isso tenha sido obrigado a sacrificar a lógica; e neste romance, o protagonista Lazarus Long volta atrás no tempo não para matar a mãe, mas para "conhecer" com a mãe - assumindo o tempo como algo impossível de alterar. No cinema, a narrativa de Terminator, de James Cameron, segue uma abordagem na mesma linha quando Kyle Reese viaja para o passado para proteger Sarah Connor e, pelo caminho, gerar o futuro líder da resistência humana. Back to the Future optou por uma abordagem mais "conservadora", digamos assim, ao tema: qualquer alteração no passado tem impacto no futuro, e quando o jovem Marty McFly (Michael J. Fox) viaja inadvertidamente para 1955 e acaba por colocar a sua própria existência em risco ao, sem querer, fazer com que a mãe se apaixone por ele, e não pelo seu pai. No seu hilariante percurso pela adolescência dos seus pais, conhece ainda Emmett "Doc" Brown, futuro inventor do "DeLorean", quando este era mais jovem - e, com a sua ajuda, consegue regressar à sua época. Mas não sem fazer algumas mudanças subtis no futuro… 

Back to the Future é, acima de tudo, um filme bastante divertido, que mostra que não é preciso recorrer a cenários futuristas, raças alienígenas e distopias sombrias para fazer boa ficção científica - basta usar alguma imaginação e muito sentido de humor. Neste caso, bastou juntar tudo a uma viagem, não para um futuro distante, mas para um passado demasiado próximo. Em inúmeros aspectos, o filme tornou-se icónico: nenhuma máquina do tempo é tão cool como o DeLorean, nenhum cientista é tão positivamente louco como Doc (Christopher Lloyd no papel de uma vida), e nenhuma viagem no tempo deve ser tão embaraçosa como a de Marty McFly. As duas sequelas que se seguiram foram divertidas à sua maneira (quem não desejou ter um skate antigravidade?), mas nenhuma foi comparável ao original de 1985. 8/10


7 de maio de 2012

Prometheus: Análise do trailer

Para quem ficou curioso quanto ao último trailer do filme Prometheus: Shot-for-shot breakdown of all the new alien monsters in Ridley Scott's Prometheus!, no io9. De facto, já conseguimos ter uma visão mais ou menos clara do que se vai passar no filme - mais ou menos como um puzzle parcialmente completo, que nos deixa visualizar já o motivo principal sem no entanto nos mostrar tudo, com todos os detalhes, pormenores e ligações (o que, diga-se de passagem, em nada reduz o meu entusiasmo quanto ao filme). Também interessante é a discussão nos comentários do artigo sobre o problema tecnológico da continuidade narrativa - se assumirmos Prometheus como uma prequela de Alien, porque parece a nave Prometheus tão superior do ponto de vista tecnológico à Nostromo quando, na verdade, é muito anterior a esta? (é uma falsa questão, que no entanto não deixa de dar um bom debate). 

6 de maio de 2012

Citação fantástica (12)

Any road followed precisely to its end leads precisely nowhere. Climb the mountain just a little bit to test that it's a mountain. From the top of the mountain, you cannot see the mountain. 

Frank Herbert, Dune (1965)

4 de maio de 2012

Earthsea e The Farthest Shore

Será Earthsea, de Ursula K. Le Guin, uma das grandes séries da literatura de fantasia? Após a leitura dos três primeiros livros, diria que sim: no mundo de Earthsea, composto pelas centenas - milhares? - de ilhas dispersas pelo Arquipélago central e pelas ilhas dos quatro "Reaches", Le Guin desenvolveu um universo fantástico incrivelmente rico, digno de figurar entre os outros grandes universos da fantasia literária. Composta por cinco volumes (The Wizard of EarthseaThe Tombs of AtuanThe Farthest Shore, Tehanu e The Other Wind) e por vários contos (compilados na antologia Tales from Earthsea), a série Earthsea segue, nos três primeiros livros - aqueles que li até agora -, a vida do feiticeiro Ged desde a sua infância na ilha-montanha de Gont até ao seu tempo como Arquifeiticeiro dos feiticeiros de Roke.

No entanto, cada um dos três primeiros livros conta uma aventura (chamemos-lhe assim) específica de Ged, e entre eles passam-se, na cronologia de Earthsea, vários anos. Em momento algum Ursula K. Le Guin sente a necessidade de contar tudo o que se passou - ao longo das histórias que decide contar, deixa alguns fragmentos de aventuras vividas nos interregnos da narrativa, mostrando que aqueles períodos não estão vazios e que têm importância - mas não são a história que ela pretende contar. O que, do ponto de vista narrativo, é excelente: ao resistir à tentação (se é que sentiu tal tentação) de contar tudo, Le Guin conseguiu centrar-se no essencial, e assim criar um universo bastante coeso, com três aventuras muito contidas, narradas a um ritmo excelente. É justamente nestes pontos que Ursula K. Le Guin revela toda a sua capacidade criativa, que já a destacara na ficção científica: consegue imaginar um mundo visualmente rico e seleccionar exactamente o que quer contar e como o quer contar,

Normalmente, quando quero escrever sobre um livro que faça parte de uma série, costumo escrever apenas sobre o primeiro volume da série, de forma a evitar eventuais spoilers. Vou no entanto abrir uma excepção hoje e, ao abordar Earthsea, de Ursula K. Le Guin, vou falar não do primeiro livro da série, The Wizard of Earthsea, mas do terceiro, intitulado The Farthest Shore. O motivo é simples: dos três livros que compõem a trilogia original, The Farthest Shore foi aquele que mais me prendeu. Sim, a perseguição do primeiro livro é excelente, sobretudo no desenlace. Sim, o labirinto de The Tombs of Atuan é extraordinário, e Tenar é uma personagem com um ponto de vista muito interessante. Mas o mistério de The Farthest Shore, com a magia e o conhecimento a desaparecerem do mundo enquanto um vazio indefinido se parece instalar, é a todos os níveis formidável; e ainda que durante a narrativa sejam dadas várias pistas sobre a natureza do vilão, sobre o papel de Arren e sobre a importância da constelação da estrela Gobardon (sempre referida num tom particularmente ominoso), a verdadeira natureza do enigma perdura, cada vez mais empolgante, até ao final. Na sua fascinante odisseia viagem pelos mais remotos arquipélagos de Earthsea, Ged e Arren encontram povoações mergulhadas na apatia, escapismo pelo consumo de drogas, traficantes de escravos, civilizações estranhas, dragões e as sombras para lá dos limites do mar sem fim. 

Não sei se (ou como) a história de Ged continua no quarto livro, Tehanu (tenho evitado spoilers, o que é particularmente difícil quando se tem o livro aqui mesmo ao lado). The Farthest Shore, contudo, funciona muito bem como uma conclusão para esta personagem. É, sem dúvida, uma viagem extraordinária, daquelas que a grande fantasia consegue oferecer-nos de forma única.

Este artigo surge, naturalmente, no contexto da sessão de hoje do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico que se realizará hoje, às 19:00, no Espaço do Autor da Livraria Bertrand do Chiado (Lisboa). O livro que dá o mote à tertúlia é, justamente, o primeiro livro da série Earthsea, de Ursula K. Le Guin: The Wizard of Earthsea. A convidada será a professora Maria do Rosário Monteiro, autora de A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. A moderação, como é habitual, estará a cargo de Rogério Ribeiro.