22 de abril de 2012

Citação fantástica (10)

No utopia can ever give satisfaction to everyone, all the time. As their material conditions improve, men raise their sights and become discontented with power and possessions that once would have seemed beyond their wildest dreams. And even when the external world has granted all it can, there still remain the searchings of the mind and the longings of the heart.

Arthur C. Clarke, Childhood's End (1953)

George R. R. Martin em Portugal: Q&A na apresentação de O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias

Na apresentação de O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, no passado dia 18, houve a possibilidade de o público colocar algumas questões a George R. R. Martin. Foi uma sessão muito descontraída e com bastante humor, na qual o autor esclareceu que, apesar de ter algumas notas dispersas sobre o futuro da história, "se me acontecer alguma coisa, estão todos sem sorte". 

Quando lhe perguntaram qual o seu personagem preferido no universo de A Song of Ice and Fire, George R. R. Martin não hesitou: Tyrion Lannister. "O que não significa que ele esteja a salvo", acrescentou. O autor assumiu uma predilecção por personagens bem construídos, e no caso de Tyrion aprecia especialmente a sua faceta de "underdog" e a astúcia que o caracteriza, e que lhe dá às suas palavras um sentido de oportunidade particularmente apurado. 

Já sobre o processo de escrita, Martin afirmou não escrever os capítulos pela ordem que eles têm nos livros. "Gosto de explorar um personagem quando estou dentro da sua cabeça", explica, "e quando surge um problema, mudo de personagem". Ainda assim, considera ser "difícil mudar de personagens. Cada um tem a sua voz própria."

Sobre o grande universo de A Song of Ice and Fire, George R. R. Martin disse, em resposta a uma pergunta, não tencionar escrever algo de concreto sobre momentos do passado recente da narrativa, como a Rebelião de Robert, ou sobre personagens como Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark. "Tudo o que houver de relevante sobre isso será revelado em A Song of Ice and Fire quando a história estiver concluída". Entretanto, "há outras coisas que quero fazer, como escrever mais sobre o Dunk e o Egg, ou mesmo outras histórias de Westeros" - e, claro, "regressar à ficção científica e ao horror". Quanto ao final da série, remeteu a possibilidade de um final feliz para as expectativas dos leitores, reforçando a intenção de criar um final que "seja satisfatório, podendo ser bom para alguns e mau para outros". Por outras palavras, o final "agri-doce" a que já aludira noutras ocasiões. Como exemplo, dá o final de The Lord of the Rings, que considera ser "extremamente satisfatório e profundo", e destaca o capítulo The Scouring of the Shire, omitido na adaptação cinematográfica, como fundamental para o livro. 

Tolkien é, aliás, uma das grandes influências de George R. R. Martin, que apesar de se sentir "lisonjeado" pelo título de "o Tolkien americano", descarta qualquer comparação com o velho professor inglês. Para além deste, entre os seus autores preferidos destaca Jack Vance, Roger Zelazny e Robert A. Heinlein, o seu autor preferido em jovem. 

No final, disse tencionar escrever outras histórias quando "acabar A Song of Ice and Fire", e desabafou: "preciso de imortalidade!" E, numa breve reflexão sobre o seu fandom, conclui que "a vantagem de ter milhões de fãs é que, se por acaso precisar de um rim...", para gargalhada geral da sala.

21 de abril de 2012

Notas sobre ficção científica (1)

Science fiction really isn't about the future; it's about the present, which concerns SF writers as much as it does anyone else. SF's much reviled "escapist genre rubbish" is in fact a rich and varied field of fiction. It gives a writer more freedom to explore ideas as well as experiment with style than any other literary form. The best SF, truly "mind-bending", holding a fun-house mirror to our reality, warping the reader's fixed perceptions about society, and giving them a fresh and liberating parallax view.

(...)

Some people have called SF "modern mythology", because it clothes the universal themes of myth into "modern dress". Throughout the ages, stories with certain basic themes have recurred over and over, in widely disparate cultures; emerging like the goddess Venus from the sea of our unconscious. Each time, storytellers clothed the naked body of myth in their own traditions, so that listeners could relate more easily to its deeper meaning. For us, the "clothing" is high-tech, while the resonance it somehow creates in the dephts of our soul affirms our relationship with countless generations before us, and the universal bond of our common humanity today. Those subliminal messages reassure and guide us as we struggle to deal with ever-increasing rates of change and complexity in our modern world. 


Joan D. Vinge, The Snow Queen (1980), Warner Books, Reading Group Guide: A Conversation With Joan D. Vinge


20 de abril de 2012

George R. R. Martin na imprensa

ActionScreen: Em entrevista com George R.R. Martin
Convidada pela Syfy, a Action Screen teve a oportunidade de participar numa mesa redonda entre bloggers e George Martin, autor da série de livros “As Crónicas de Gelo e Fogo”, que deu origem à série televisiva da HBO “A Guerra dos Tronos”.

Antena 2: Entrevista para o programa "Última Edição" (podcast)

BGamer: George R.R. Martin em Portugal
A BGamer esteve à conversa com o autor de A Guerra dos Tronos. 

Correio da Manhã: Autor de "A Guerra dos Tronos" em Portugal.

O escritor norte-americano George R.R. Martin está esta semana em Portugal para falar da série fantástica ‘As Crónicas de Gelo e do Fogo’, que está a ser adaptada para televisão com o título "A Guerra dos Tronos".


Correio da Manhã: Rei da Fantasia em Lisboa
Escritor norte-americano apresentou ‘O Cavaleiro de Westeros & Outras Histórias’


Diário Digital: George R. R. Martin na primeira pessoa: Um céptico com fome de encontrar Deus
Escreve histórias do Fantástico, mas diz-se um homem da ciência. Na política define-se como liberal democrata, já foi activista, actualmente pensa que pode intervir mais através da escrita. George R.R. Martin, autor da saga «As Crónicas de Gelo e Fogo», confessa-se um «céptico» mas com «fome de encontrar Deus». (contém spoilers)


Jornalismo Porto Net: Autor de "A Guerra dos Tronos" em Matosinhos
George R. R. Martin, um dos mais famosos escritores de literatura fantástica, vai estar, à conversa com os fãs, na Fnac do Norteshopping. Iniciativa serve para promover a obra do escritor, que já foi adaptada para televisão. 


TSF: «Mesmo que ninguém comprasse os meus livros continuava a escrever», diz George RR Martin (com áudio)
George R.R. Martin está esta semana em Portugal para falar sobre a série fantástica «As Crónicas de Gelo e do Fogo», que está a ser adaptada para a televisão com o título «A Guerra dos Tronos».


TV Dependente: Encontro com George R.R. Martin: Quando uma égua rouba todas as atenções


TVNet: George RR Martin desvenda Game of Thrones
O autor das Crónicas do Gelo e do Fogo desvendeu um pouco da segunda temporada da série Game of Thrones. George RR Martin esteve à conversa com os jornalistas, em Lisboa, e a TVNET esteve presente (com vídeo).

A Game of Thrones

A Game of Thrones (A Guerra dos Tronos, na edição portuguesa da Saída de Emergência), publicado em 1996, é a primeira parte da série A Song of Ice and Fire,  de George R. R. Martin. A série conta já com cinco livros publicados: A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000), A Feast For Crows (2005) e A Dance With Dragons (2011). Estão previstos mais dois livros para completar a série, The Winds of Winter e A Dream of Spring, apesar de ser impossível fazer qualquer previsão sobre a conclusão e publicação das duas últimas sequelas. Dentro da literatura de fantasia, há muito quem considere A Song of Ice and Fire a melhor série do género desde que Bilbo encontrou o Anel e Frodo teve de resolver o problema. Talvez não seja a melhor série literária do género deste Tolkien - o britânico Philip Pullman, com a trilogia His Dark Materials, é sempre um sério candidato ao segundo lugar -, mas não fica decerto longe disso, e conseguiu refrescar um género que, ao longo dos anos, usou e abusou das ideias do velho professor inglês.

A verdade é que A Game of Thrones aproxima-se muito mais da nossa História medieval do que das narrativas de fantasia convencionais. George Martin assume ter retirado bastantes ideias de episódios históricos como, entre outros, a Guerra das Rosas. Os elementos do fantástico estão presentes, e tornam-se cada vez mais relevantes à medida que a série avança, mas a intriga e os conflitos entre as várias casas nobres e facções políticas e militares do mundo ficcional dos Sete Reinos de Westeros constituem o verdadeiro motor de toda a história, à medida que os apoiantes das grandes casas Stark, Baratheon, Arryn, Tully, Lannister, Tyrell e Martell (e outros, tantos outros), sem esquecer os despojados herdeiros dos Targaryens, se embrenham nas malhas da intriga da capital do reino. E, acrescente-se de passagem, que intriga!

A estrutura narrativa é outro dos pontos fortes de A Game of Thrones, com a estrutura por capítulos a abdicar dos narradores de primeira ou terceira pessoa convencionais. Cada capítulo do livro tem como título o nome de uma personagem, e é narrado de acordo com o ponto de vista dessa personagem. Esta estrutura pode parecer estranha ao início, mas revela-se surpreendentemente dinâmica à medida que a história progride, dando protagonismo a vários personagens em localizações distantes. Sem esquecer, claro, que diferentes personagens encaram as situações de formas distintas, e também isso é visível ao longo da narrativa.

Em resumo, A Game of Thrones (e o resto da série) é uma leitura cativante, que certamente não decepcionará quem gostar de uma boa história muito bem contada. Deixo contudo o aviso: George Martin parece retirar particular satisfação de quebrar convenções, e a noção de "plot armor" é praticamente inexistente na sua obra. Dito de outra forma, e em jeito de advertência a potenciais leitores: não se afeiçoem demasiado às personagens, mesmo que (aparentemente) elas sejam protagonistas. É bastante provável que venham a ter alguns dissabores (que, na minha opinião, só melhoram a leitura).

Para os aficcionados - e também para quem aprecia bons contos - fica também a recomendação para uma série de contos no mundo de A Song of Ice and Fire publicados por George R. R. Martin ao longo dos anos. Estes contos, conhecidos de forma mais ou menos informal como The Tales of Dunk and Egg, passam-se cerca de 90 anos antes dos acontecimentos de A Game of Thrones, quando Westeros ainda era governado pela dinastia Targaryen. Até ao momento foram publicados três contos: The Hedge Knight, The Sworn Sword e The Mistery Knight. The Hedge Knight foi publicado originalmente na antologia de contos Legends, organizada por Robert Silverberg em 1998 - e foi agora editado em português na antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, da Saída de Emergência. The Sworn Sword foi publicado na antologia Legends II, também organizada por Robert Silverberg; e The Mistery Knight foi publicado na antologia Warriors I, organizada por Gardner Dozois e pelo próprio George R. R. Martin. 

[artigo adaptado deste post do Delito de Opinião]

19 de abril de 2012

George R. R. Martin em Portugal: Apresentação de O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias

Pela segunda vez em quatro anos, George R. R. Martin, autor de aclamada série A Song of Ice and Fire, esteve em Portugal. O que é extraordinário, se considerarmos o enorme sucesso que os seus livros têm conhecido, e o furor gerado pela adaptação televisiva da HBO. No passado dia 18 de Abril, o autor norte-americano esteve em Lisboa, a convite da editora Saída de Emergência, para a apresentação do livro O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, uma antologia com alguns dos seus melhores contos de ficção científica e horror, e com a tradução do conto The Hedge Knight, a primeira das histórias de "Dunk & Egg".

A apresentação decorreu num Teatro Villaret completamente lotado, com todos os lugares ocupados e imensas pessoas de pé a assistir. George R. R. Martin foi recebido com uma tremenda ovação da plateia - a prova definitiva do entusiasmo que os seus livros e a série geram entre pessoas de todas as idades. 

A sessão foi conduzida por Safaa Dib e pelo editor Luís Corte Real, da Saída de Emergência. Martin falou do livro O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, que consiste na adaptação portuguesa das antologias GRRM: A Rretrospective e Dreamsongs, e fez uma breve descrição sobre os vários contos que compõem o livro e respectivas influências, sempre com muito humor (a história do colega de quarto que tinha um aquário com piranhas que alimentava com peixinhos dourados foi hilariante). Naturalmente, o conto O Cavaleiro de Westeros teve destaque, sendo a primeira história das personagens Dunk e Egg, que viveram em Westeros cerca de cem anos antes dos acontecimentos da série A Song of Ice and Fire. Existem já três contos escritos, com um quarto em produção e com publicação prevista na antologia Dangerous Women [com o título provisório The She-Wolves of Winterfell]. 

"Gosto de escrever coisas diferentes. Adoro ficção científica, adoro horror." As palavras são do próprio autor, e a antologia publicada reflecte esta paixão, e reflecte as suas influências principais, desde Robert A. Heinlein (Have Space Suit - Will Travel foi o primeiro livro que leu) a Jack Vance ("o melhor escritor de ficção científica vivo"), sem esquecer, naturalmente, J. R. R. Tolkien. Os seus contos já lhe valeram bastantes prémios internacionais na área do Fantástico (entre os quais alguns Hugo Awards). 

De qualquer forma, o público que actualmente acompanha o autor segue sobretudo a densa história de Starks, Lannisters, Targaryens e outros - e George R. R. Martin falou longamente sobre A Song of Ice and Fire, e sobre o fenómeno mundial que a série constitui actualmente. O autor assume alguma surpresa sobre a dimensão do fenómeno, com uma comunidade de fãs que, apesar da pequena minoria de "trolls" (nas palavras do próprio, "é o mundo moderno da Internet"), se tem revelado bastante leal e dedicada. A escrita dos livros teve já os seus problemas, sobretudo após a publicação de A Storm of Swords, em 2000 - a ideia do autor era dar um salto narrativo de cinco anos, para que algumas personagens pudessem "crescer". Essa ideia, contudo, não resultou como o previsto, pois "o que funciona bem para uma personagem não funciona para outra". O que acabou por se traduzir em bastante tempo de trabalho perdido.

Actualmente, A Song of Ice and Fire conta já com cinco volumes - e estão previstos mais dois para concluir a série. A adaptação televisiva da HBO - Guerra dos Tronos, que estreia no dia 23 em Portugal, no canal SyFy - vai já na segunda temporada. Entre os fãs, há o receio de que a série televisiva acabe por eventualmente "ultrapassar" a literária, mas Martin parece não partilhar esse receio. O seu método é simples: "não penso na pirâmide completa, mas apenas na primeira pedra. E depois na próxima". E mantém-se optimista quanto aos próximos volumes. "Espero acabar os livros antes da conclusão da série", afirma. "Mas não faço promessas", disse, recordando os sucessivos adiamentos que a publicação dos dois últimos livros conheceram. Na série televisiva, George R. R. Martin é um dos produtores executivos, e escreve o guião de um episódio por temporada. "Também dou as minha opinião sobre o elenco, mas a série não é minha", sublinhou. 

À apresentação seguiu-se uma sessão de perguntas e respostas por parte da audiência - que foi excelente; escrevei sobre essa parte amanhã - e a sessão de autógrafos, que demorou mais de duas horas e meia. Houve quem se queixasse da organização, mas sejamos francos: organizar uma sessão de autógrafos com mais de 500 pessoas é sempre uma confusão. Pessoalmente, não encontro motivos de queixa: quem estava de pé despachou-se primeiro, e quem tinha lugar sentado aguardou confortavelmente - e, em alguns casos, ansiosamente - pela sua vez. 


Nota: As fotografias presentes neste artigo foram gentilmente cedidas pela Saída de Emergência, incansável na organização desta apresentação. Aos responsáveis, os meus agradecimentos. 

Quando o Fantástico entra em quadros clássicos...

... o resultado é este:


A pintora Hillary White tem uma série de pinturas onde cruza os motivos de quadros clássicos com personagens familiares do Fantástico. Este que aqui apresento, intitulado The Best Supper, é um deles. Mas há mais aqui

[fonte: io9]

18 de abril de 2012

Os (meus) videojogos e o Fantástico (6) - Mass Effect

Descobri Mass Effect mais ou menos por acaso já perto do final do ano passado. Alguns amigos andavam a falar-me do segundo título da série há alguns meses, mas apesar de a ideia de um jogo de role-play passado num futuro de ficção científica ser bastante atractiva, a curiosidade não foi suficiente para procurar activamente o jogo - e, verdade seja dita, não sou apreciador do Steam como alternativa para adquirir videojogos. Um dia, contudo, ao passar na Fnac encontrei os dois primeiros títulos da série - Mass Effect e Mass Effect 2 - por um preço irrecusável, e não resisti: comprei os dois. Após cinco minutos de jogo, percebi que os meus amigos tinham razão: tinha nas mãos um videojogo extraordinário.

Mesmo considerando os problemas com o final do último capítulo da série, Mass Effect tem lugar garantido entre os melhores videojogos de ficção científica. A narrativa acompanha o/a Comandante Shepard (considerando a minha experiência de jogo, doravante será "a" Comandante Shepard) na sua missão de salvar a Via Láctea do perigo iminente dos Reapers - uma raça antiga de máquinas que, a cada cinquenta mil anos, extingue as civilizações mais avançadas da galáxia. Mass Effect reúne vários elementos clássicos de role play, como o sistema de quests (divididas entre principais e secundárias) que fazem a narrativa progredir, mas acrescenta uma óptima componente de acção e introduz-lhe um grau de escolha raro nos videojogos, e que se traduz numa experiência única para cada jogador. Dependendo das escolhas que são feitas, Shepard pode ser uma Marine, uma franco-atiradora ou outra das "classes" disponíveis, e pode assumir o personalidade clássica de heroína (Paragon) ou revelar uma faceta mais sombria (Renegade). As escolhas determinam a forma como a protagonista interage com as restantes personagens, introduzem diversidade nas várias missões e, ainda que a narrativa principal seja fundamentalmente linear, o jogador pode determinar a forma como ela se desenrola, através das suas decisões e das personagens que escolhe para executar cada missão (que, por sua vez, interagem de forma diferente com os vários elementos).

As personagens são, também elas, um dos elementos mais fortes de Mass Effect. Suportadas por um voice acting muito sólido, elas dão textura e profundidade à narrativa, enriquecendo todo aquele mundo com a sua diversidade (sobretudo com as várias possibilidades de romance). Inicialmente, a tripulação da Normandy - a nave de Shepard - é composta exclusivamente por humanos, mas várias raças alienígenas acabam por se juntar à missão: Asari, Quarians, Turians e Krogans (no primeiro título; no segundo, há também um Salarian, um Drell e um Geth) aliam-se a Shepard, indicando que a sua missão não pretende apenas salvar a raça humana, mas todas as raças que compõem a grande civilização galáctica. No geral, as personagens são todas bastante sólidas, cada uma com a sua própria história e visão do universo - e contribuem para alguns momentos inesquecíveis (aqui, destaco Wrex e Tali).

Mass Effect é um jogo ao qual invariavelmente se regressa. Há várias classes para experimentar, várias personalidades a escolher, pequenos momentos que merecem ser vistos e revistos, e inúmeras combinações de personagens e missões que introduzem sempre uma novidade à experiência já conhecida. E é, acima de tudo, um triunfo na arte de contar uma história através de videojogos, com um nível de interactividade ímpar que realmente coloca o jogador numa galáxia na iminência da guerra definitiva. Em Mass Effect encontramos, sem sombra de dúvida, um dos melhores exemplos - se não mesmo o melhor exemplo - de ficção científica jogável, com inúmeras influências a espreitar aqui e ali, mas sempre com uma personalidade muito própria. Não sei se existem "videojogos essenciais" - mas a existirem, este é um deles. Para fãs de ficção científica e não só.

Public Relations Facepalm

São ainda necessárias provas de que os videojogos já saíram da sua redoma geek adquiriram um estatuto comparável a qualquer outra forma de entretenimento? Basta acompanharmos a cobertura que a edição on-line da Forbes (sim, essa Forbes) tem dado à polémica em redor do jogo Mass Effect 3. Desde o início que a publicação tem acompanhado o caso, e, surpreendentemente (ou não), com artigos de qualidade muito superior a muitos da imprensa especializada. Este último, sobre o aproveitamento da controvérsia do final do jogo para gerar um belo spin de relações públicas, não só consegue ser claro e directo, como tem também um tom irónico que é raro ao jornalismo - e que só o torna melhor:
One can’t help but wonder if this was done on purpose, just to needle all those “entitled” fans out there clamoring for a new ending. Tout the perfect scores, and then spin all the bad press over the series finale by saying that the game has “provoked a bigger fan reaction than any other videogame’s conclusion in the medium’s history.”
Isto é puro génio de Relações Públicas. Ou então é simplesmente descaramento.

Pelo meio, os (ir)responsáveis da Electronic Arts/Bioware ainda conseguiram meter o autor George R. R. Martin ao barulho - é o vale-tudo. Naturalmente, os comentários estão à altura. Ora vejamos:
"And as far as entitlements go, how about entitled to acclaim when you rush a product to completion while taking an artistic risk? If George Martin rushed the book and had a quick ending (magic skull kills all Others but also everyone under 5 feet tall), the fan rage would be just as loud, Entertainment Weekly would say everyone was entitled, and PR would say “don’t miss the most controversial book of the year.”
Touché. No meio desta polémica toda, só é pena que a Electronic Arts e a Bioware continuem sem perceber o que está realmente em causa.

Prometheus: David, o Andróide

Prometheus é, naturalmente, um dos filmes mais aguardados do ano - ou não marcasse o regresso de Ridley Scott à ficção científica, género no qual assinou dois clássicos incontornáveis no final da década de 70 e no início da década de 80 (Alien e Blade Runner, respectivamente). Os teasers e trailers entretanto divulgados abrem o apetite, e a campanha construída em redor do filme tem dado que falar na Internet. Os sites  Weyland Industries e Project Prometheus estão no centro desta campanha, e ontem divulgaram o novo vídeo promocional - que, desta vez, incide sobre David, o andróide interpretado por Michael Fassbender.

17 de abril de 2012

George R. R. Martin em Portugal


George R. R. Martin, autor da aclamada série A Song of Ice and Fire, regressa a Portugal esta semana para algumas apresentações em Lisboa e no Porto. Um tema a acompanhar por aqui.

A Wizard of Earthsea e Maria do Rosário Monteiro na próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico

No seguimento do que referi aqui, a próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico terá lugar no próximo dia 4 de Maio, regressando assim à primeira Sexta-feira do mês. O livro em debate será A Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin (editado em Portugal pela Presença com o título O Feiticeiro e a Sombra). A convidada especial será Maria do Rosário Monteiro, que falará não só da obra de Le Guin como também de A Simbólica do Espaço em "O Senhor dos Anéis" de J.R.R. Tolkien. A moderação, como sempre, estará a cargo do Rogério Ribeiro.

Resumindo: a próxima sessão do Clube incidirá sobre a excelente obra de Fantasia de uma das maiores autoras do Fantástico, tanto em Fantasia como em Ficção Científica, e conta com a presença de uma das maiores especialistas em Tolkien de Portugal. Mais interessante do que isto é mesmo muito difícil. 

16 de abril de 2012

Dentro dos sonhos: Inception e Paprika

O meu problema com o filme Inception, de Christopher Nolan, não é o facto este ser um mau filme - coisa que não é, de todo. O meu problema é de outra natureza: Inception é um filme bastante bom, mas poderia ser muito mais do que isso. E não é por falta de esforço que falha.

Longe de ser apenas "pirotecnia visual", como tanto blockbuster que hoje em dia entope as salas de cinema, Inception é um filme ambicioso, da autoria de um realizador experiente e apostado em cumprir aquilo que a boa ficção científica normalmente faz muito: explorar as potencialidades da tecnologia - efeitos especiais, imagens geradas por computador, câmaras, enfim, um sem-número de truques de encher o olho - para contar uma história. A verdade é que sem recurso a esses truques, filmes como 2001: A Space Odyssey, Star Wars, Alien, Blade Runner ou The Matrix não teriam sido possíveis no seu tempo. Em termos gerais, e pese um ou outro momento menos inspirado, Inception trabalha muito bem a componente visual, e tem algumas cenas que são um regalo para a vista.

Inception parte de uma premissa interessante: a ideia de que existe tecnologia que permite entrar nos sonhos, e assim fazer várias coisas, desde implantar sonhos diferentes a roubar ideias. O problema é que esta ideia nunca é explorada de forma convincente. O filme é demasiado action-oriented, quando uma narrativa que se desenvolve literalmente dentro de sonhos devia ser mais fantasy-oriented. Não falo de elfos e orcs, atenção, mas sim da vertente onírica e surreal que os sonhos têm, e que Inception omite por completo, preferindo utilizar a desculpa de que "os cenários dos sonhos são implantados na mente" para nos presentear com vários "níveis" em que os mecanismos de defesa do inconsciente se resumem a... homens armados. Sim, há a cena do comboio, supostamente representando o "descontrolo" causado por Mal (Marion Cotillard), a falecida mulher de Cobb (Leonardo DiCaprio) - mas mesmo isso é desinspirado. O único momento em que esta lógica parece ser subvertida é quando Eames (Tom Hardy) usa um lança-foguetes, mas esse momento acaba por ser mais um comic relief do que uma demonstração do carácter imprevisível dos sonhos.

Se a isto juntarmos um elenco muito bom e terrivelmente desaproveitado com um argumento demasiado rígido e pouco imaginativo, é bom de ver porque Inception não consegue elevar-se ao patamar altíssimo em que o hype o colocou: o filme é bom, tem momentos excelentes, mas quer revelar-se tão inteligente que acaba por se perder dentro do seu próprio labirinto, sem por um momento conseguir realmente surpreender o espectador nos sonhos que cria e recria.

Por contraste, podemos dar uma vista de olhos à forma como o filme Paprika, de Satoshi Kon, aborda uma premissa parecida. É certo que Paprika é um filme de animação, tendo por isso à partida muito mais liberdade criativa para abordar o tema dos sonhos. A questão é que Paprika trabalha este tema de forma praticamente irrepreensível. Não só as personagens são muito interessantes, como os sonhos são, de facto, surreais, delirantes e imprevisíveis como devem ser. O espectador nunca sabe ao certo o que irá acontecer a seguir - que forma irão as personagens assumir, ou como irá o sonho evoluir. Até ao momento em que todas as camadas se parecem fundir num único pesadelo. Paprika leva-nos para um mundo verdadeiramente onírico, repleto de possibilidades, onde as fronteiras entre o sonho e a realidade se esbatem, e onde o bizarro é rei e senhor - tal como nos nossos próprios sonhos. Se juntarmos a isto a mestria de Satoshi Kon, é bom de ver por que Paprika é um filme tão bom, e por que consegue chegar ao patamar a que Inception aspirou.

Claro que, comparações à parte, Inception não é um mau filme - simplesmente não cumpre aquilo que a primeira meia hora promete. É interessante, sim, mas não explora da melhor maneira todos os caminhos que poderia ter explorado - e alguns dos quais teriam sido bem mais interessantes. Acontece que é justamente essa a diferença entre um filme bom e um clássico. 

Inception: 7.1/10
Paprika: 8.8/10

Clube de Leitura do Fantástico - O Livro de Areia (13 de Abril de 2012)

Se duas sessões servirem de amostra, diria que uma das coisas mais interessantes do Clube de Leitura do Fantástico da Bertrand é o facto de se acabar por falar menos do livro que serve de mote à sessão e mais de outros temas e assuntos. Isto, note-se não é uma crítica: do livro fala-se sempre, e temos sempre oportunidade de falar deles (e de outros); mas nem sempre temos a oportunidade de estar à conversa com os convidados sobre temas que eles conhecem bem. Na sessão da última Sexta-feira (13, e chuvosa), o convidado da tertúlia moderada pelo Rogério Ribeiro foi o Pedro Piedade Marques, editor da Livros de Areia, designer gráfico e recentemente nomeado para um British Science Fiction Award na categoria de "Best Art" pelo seu trabalho na ilustração da capa do livro Osama, de Lavie Tidhar.

Pedro Marques - que no último Fórum Fantástico teve a seu cargo uma excelente apresentação sobre ilustração na ficção científica nos anos 60 - falou sobre a sua experiência na área da edição, sobretudo com a editora Livros de Areia, da qual foi fundador. De acordo com as palavras do editor e ilustrador, a editora "surgiu em 2005, antes de o mercado editorial se tornar complicado", e rapidamente conseguiu um feedback muito bom da parte da imprensa - ainda que algumas reportagens tenham sido "curiosas", para dizer o mínimo (desde a "fotografia horrível" até à referência à "editora de Viana do Castelo", como se a geografia fosse relevante). Houve uma grande procura da parte do público pelas publicações da Livros de Areia, fruto da aposta na qualidade da edição, e que para Pedro Marques prova que o investimento na qualidade e na imagem pode compensar. No entanto, desde então muitas foram as mudanças no mercado editorial português, com o aparecimento de grandes grupos editoriais que retiraram liberdade aos livreiros e colocam as editoras mais pequenas em desvantagem. Hoje, considera Pedro Marques, "os livros não são vendidos pela qualidade, mas pela máquina de marketing.

Entrando por fim em Jorge Luís Borges, e falando tanto de O Livro de Areia - que serviu de mote à tertúlia - como de Ficções, Pedro Marques definiu ambas as obras de Borges como "um livro que se debica". O convidado admitiu desde logo não gostar de todos os contos do autor - algo que em nada diminui o fascínio por Borges, e por os contos em que "lança uma ideia e quase desafia o leitor a acabá-la". De certa forma, e evocando o último conto de O Livro de Areia, funcionam quase como um "livro aberto, um livro infinito", e é precisamente aí que reside o seu encanto. Pedro Marques salientou que o Fantástico de Borges é diferente do que normalmente designamos por Fantástico - não é tão de "nicho" como o americano, estando menos ligado à fantasia e ao horror, e abrindo portas para o mainstream. "É difícil falar de Borges só com um livro", admitiu Pedro Marques, aludindo aos constantes "labirintos" do autor, aos seus contos com grande componente autobiográfica (como o conto O Outro, o meu preferido n'O Livro de Areia), à sua vastíssima erudição que abre as portas a tantos outros autores e a tantas outras deambulações literárias. 

Houve ainda tempo para falar sobre um aspecto interessante da literatura, que é, justamente, tudo aquilo que envolve a literatura e que normalmente não se vê: os artistas, o trabalho da edição, todo "o processo de feitura dos livros". Um tema que para Pedro Marques é particularmente relevante, mas sobre o qual "falta interesse e estatísticas" - o que se torna cada vez mais preocupante num tempo em que a memória sobre isso se começa a perder, fruto da passagem do tempo e também do desaparecimento de muitas editoras, adquiridas por grandes grupos que não trabalham para preservar a memória. Pessoalmente, foi um tema que me interessou, sobretudo pelo facto de nunca nele ter pensado antes.

E finda a sessão - desta vez num outro espaço da Livraria Bertrand do Chiado (na prática, fora dela), mais frio, menos confortável e com um som ambiente formidável (passe a ironia) -, a conversa continuou animada na Tertúlia Noite Fantástica. O restaurante escolhido desta vez foi o Wok Oriental, com melhor preço, melhor comida e adolescentes a embebedarem-se com penalties de sangria mesmo atrás de nós (isto não é uma queixa - quem nunca fez aquilo que atire a primeira pedra). Para o mês que vem há mais - a próxima sessão do Clube de Leitura do Fantástico terá como livro em debate The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin. 


15 de abril de 2012

Citação fantástica (9)

Wealth ... or death. Those were the choices Gateway offered. Humans had discovered this artificial spaceport, full of working interstellar ships left behind by the mysterious, vanished Heechee. Their destinations are preprogrammed. They are easy to operate, but impossible to control. Some came back with discoveries which made their intrepid pilots rich; others returned with their remains barely identifiable. It was the ultimate game of Russian roulette, but in this resource-starved future there was no shortage of desperate.

Frederik Pohl, Gateway (1977)