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20 de novembro de 2012

A ficção científica e o cinema: A Scanner Darkly, ou a adaptação (quase) perfeita de Philip K. Dick

Já falei várias vezes aqui no blogue sobre A Scanner Darkly, aquele que para mim é (até ver) o melhor livro de Philip K. Dick - uma trip vertiginosa e autobiográfica sobre as consequências do consumo abusivo de drogas pesadas através da história de um polícia infiltrado da Brigada de Narcóticos. Em 2006, estreou nas salas de cinema a adaptação desta extraordinária obra: A Scanner Darkly, realizada por Richard Linklater, uma produção independente de baixo orçamento com um elenco de luxo (Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Rory Cochrane).

A narrativa de A Scanner Darkly decorre em Anaheim, Orange County (Califórnia), num futuro próximo ("sete anos no futuro", como é dito antes dos créditos iniciais) marcado pela hiper-vigilância dos cidadãos. Numa sociedade com 20 por cento de indivíduos viciados em drogas pesadas, trava-se uma "guerra" sem tréguas entre as autoridades governamentais de combate aos narcóticos e os traficantes de droga. A principal preocupação das autoridades é a "Substance D": uma uma droga tão poderosa como viciante, capaz de provocar danos irreversíveis no cérebro. Para combater o flagelo, a polícia emprega agentes infiltrados que levam uma vida aparentemente normal nos meios onde circulam as drogas. Só nas altas esferas da autoridade é que a identidade dos agentes infiltrados é conhecida; nas instalações ligadas à polícia, utilizam uma tecnologia muito interessante intitulada scramble suit: um fato que lhes oculta a identidade ao mostrar uma série de expressões faciais e volumes corporais a uma velocidade tão rápida que a figura se torna numa mancha indistinta. Robert "Bob" Arctor (Keanu Reeves) é um destes agentes com vida dupla: divide casa com James Barris (Robert Downey Jr.) e Ernie Luckman (Woody Harrelson), e mantém uma relação amorosa e algo platónica com Donna Hawthorne (Winona Ryder). No decurso da sua investigação, começa a consumir "Substance D", tal como os seus companheiros, viciando-se na droga - e começa a sentir os seus efeitos preversos quando sente a sua identidade a fragmentar-se, à medida que o seu trabalho o leva a investigar-se a si mesmo.

Com premissas clássicas de Philip K. Dick - a fragmentação de identidade e a permanente interrogação sobre a realidade -, A Scanner Darkly recria a narrativa complexa e vertiginosa do livro através de um guião fragmentado mas sempre coerente, nunca perdendo de vista o livro em que se baseia. A elevada fidelidade do filme face à obra original, porém, deve-se não só ao excelente guião, mas também a outros dois factores: o elenco e a animação.

O elenco, como referi, é excepcional, e apresenta desempenhos que correspondem às expectativas: Keanu Reeves provou, uma vez mais, ter o melhor agente do mundo, pois a alienação e a inexpressividade que o caracterizam (e que tanta vez servem para o parodiar) fazem dele um Bob Arctor a todos os níveis perfeito; Winona Ryder interpreta uma Donna Hawthorne particularmente expressiva; Woody Harrelson e Rory Cochrane dão solidez e verosimilhança às personagens de Ernie Luckman e Charles Freck; mas é Robert Downey Jr. quem brilha no papel de James Barris, com um desempenho frenético, alucinado, rico em tiques e maneirismos que dão à personagem uma densidade especial. 

A animação é um dos aspectos mais curiosos do filme. Richard Linklater empregou a técnica da rotoscopia (em inglês, rotoscoping), que consiste na construção da imagem animada sobre uma filmagem verdadeira. Dito de outra forma: o filme foi filmado de forma normal na sua totalidade, e animado depois, sobre a filmagem original. O resultado é uma animação simultaneamente detalhada e difusa, viva e colorida, em movimento permanente - e que encaixa na perfeição tanto no tema como no tom do filme, contribuindo para a alienação experimentada por Arctor à medida que a sua identidade se fragmenta. É certo que, para muita gente, a utilização desta técnica de animação foi problemático e diminuiu o impacto do filme; para mim, porém, a sensação foi a oposta: a animação acentuou o tom do filme, ao ponto de meio e mensagem se confundirem para criar um filme único. 

Uma última nota para a excelente banda sonora de Graham Reynolds, e sobretudo para as quatro músicas de Radiohead e para a música a solo de Thom Yorke incluídas no filme. Para além de serem excelentes músicas (claro), encaixam de forma muito subtil na narrativa e na animação. 

A Scanner Darkly será porventura a mais fiel das adaptações cinematográficas da obra de Philip K. Dick - e muitos foram os seus contos e livros a chegar ao grande ecrã, com mais ou menos sucesso. Tanto na evolução do enredo como no tom da narrativa, o filme acompanha os momentos principais do livro, sem deixar de parte duas das mais memoráveis e hilariantes cenas descritas por Philip K. Dick: a discussão a propósito das mudanças da bicicleta e o karma  (chamemos-lhe assim para evitar o spoiler) de Charles Freck. Com uma premissa fascinante, uma narrativa complexa, uma componente visual alucinante e uma banda sonora superlativa, A Scanner Darkly destaca-se com facilidade tanto entre os melhores filmes de ficção científica da última década como entre as melhores adaptações de um dos mais fascinantes - e importantes - autores da ficção científica. 8.1/10

A Scanner Darkly (2006)
Realizado por Richard Linklater
Com Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Rory Cochrane
100 minutos


30 de outubro de 2012

A ficção científica e o cinema: Minority Report

Não há outro autor de ficção científica cuja obra tenha sido - e seja - tão adaptada ao cinema como Philip K. Dick. Vários foram os seus contos e romances que ganharam vida no grande ecrã - algumas com grande sucesso, outras nem por isso. Por (ainda) não ter lido o conto, não consigo dizer se Minority Report (2002), a adaptação de Steven Spielberg do conto The Minority Report (escrito originalmente em 1956 e publicado na revista Fantastic Universe), está fiel à obra original; enquanto filme, porém, o resultado foi globalmente positivo, apesar do argumento algo nebuloso.

A premissa de Minority Report é interessante: em 2054, um projecto experimental denominado "Precrime" erradicou os crimes de homicídio de Washington, D.C.. Este feito deve-se a três humanos mutantes - os precogs - com o dom da premonição, capazes de prever com exactidão a ocorrência de um homicídio - e de accionar a resposta adequada da parte das forças policiais para impedir que esse homicídio seja de facto executado. Os assassinos são assim presos antes mesmo de cometerem o crime pelo qual seriam condenados, o que se não só previne aqueles crimes como constitui um efeito dissuasor. Criada e dirigida por Lamar Burgess (Max von Sydow), a unidade "Precrime" tem como líder operacional John Anderton (Tom Cruise), um ex-polícia viciado em drogas desde o trágico desaparecimento do seu filho Sean e do subsequente divórcio da sua (ex)mulher, Lara (Kathryn Morris). Anderton acredita de forma absoluta no sistema que representa, movido pelo desejo de evitar que mais ninguém passe por aquilo que passou. No entanto, durante a auditoria do agente do Departamento de Justiça Danny Witwer (Colin Farrell), Anderton repara numa curiosa memória preservada por uma das precogs, Agatha (Samantha Morton); e, pouco depois, o sistema prevê que Anderton irá assassinar um homem que desconhece.

Ciente de que alguém lhe montou uma armadilha, Anderton coloca-se imediatamente em fuga - uma tarefa particularmente difícil numa sociedade futurista marcada pela hiper-viligância e pela perseguição que lhe é movida não só pela sua unidade, que o conhece bem, como também por Witwer. É a partir deste ponto que a premissa do filme ganha consistência, com Anderton em fuga para tentar provar a sua inocência num crime que não cometeu nem consegue imaginar como poderia cometer. Esta sua cruzada leva-o a demonstrar a falha fundamental de todo o sistema do "Precrime", e a questionar a justiça que é feita num sistema que assenta num determinísmo falível, e não em livre-arbítrio (este é, para todos os efeitos, o tema principal do filme).

Esta premissa é muito bem executada no final - e a última meia-hora de filme reserva twists suficientes para surpreender mesmo os mais atentos. No entanto, o argumento tem, também ele, uma falha fundamental que coloca em causa a sua lógica interna: a impossibilidade da cilada feita a Anderton por esta e a premonição serem interdependentes. Ou seja: o que move Anderton para o local onde supostamente irá cometer um homicídio é a premonição de que irá cometer esse homicídio; sem esse ponto de partida, jamais Anderton se veria naquelas circunstâncias. É certo que apenas o conhecimento da premonição dá ao potencial homicida a possibilidade de escolher não cometer o crime - mas, neste caso, mais do que abrir essa possibilidade, a premonição é, ela mesma, a fundação do próprio crime (uma self-fulfilling prophecy, portanto). É difícil, assim, imaginar como poderia a armadilha ser preparada naqueles moldes sem a possibilidade de "plantar" a premonição nos precogs.

Apesar desta incongruência narrativa, Steven Spielberg conseguiu desenvolver um thriller de acção interessante, com um ritmo irrepreensível - mal se notam as mais de duas horas de duração do filme. Do ponto de vista visual, Minority Report impressiona, com a sua cidade futurista a contrastar com o submundo arruinado do sprawl (alusão a Gibson), com as auto-estradas automatizadas, a publicidade omnipresente alimentada por um sistema de vigilância com identificação de retina que lhe confere uma quase-omnisciência. As vistosas interfaces tácteis utilizadas pela equipa do "Precrime" tornaram-se particularmente icónicas, e apesar dos recentes - e vertiginosos - progressos tecnológicos nessa área, ainda estamos longe de algo com aquele estilo.

Minority Report é um filme de ficção científica bastante sólido - as suas fragilidades narrativas, ainda que evidentes, não retiram interesse à premissa nem roubam pertinência às questões e aos dilemas que o enredo suscita. Não será porventura o melhor filme baseado ou inspirado na obra de Philip K. Dick, mas não desilude, e tem força suficiente não só para proporcionar cerca de duas horas e meia de óptimo entretenimento, como para suscitar muitas mais horas de discussão acerca das questões levantadas e da verosimilhança da premissa. O que, diga-se de passagem, já é bastante bom. 7.2/10


Minority Report (2002)
Realizado por Steven Spielberg
Com Tom Cruise, Colin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton, Kathryn Morris e Peter Stormare
145 minutos 

22 de outubro de 2012

Sugestões de leitura

No The Verge, recorda-se Douglas Adams e Dirk Gently's Holistic Detective Agency, livro que faz parte da minha "to buy-list" desde que li The Hitchhiker's Guide to the Galaxy há quatro ou cinco anos. Pela descrição, parece tão hilariante como o clássico de comédia FC. 

No io9, entrevista com Bruce Campbell, o único e inigualável dos lendários filmes da série Evil Dead de Sam Raimi. A entrevista é sobre o remake que está a ser produzido, e que estreará para o ano. É sempre um prazer ler/ouvir Campbell (como é sempre um prazer rever Evil Dead 2 e Evil Dead 3: Army of Darkness), mas deste lado mantém-se o cepticismo: Evil Dead sem Campbell não é Evil Dead.

Na BBC News (ignorem a data de publicação, por favor), um artigo muito interessante a propósito dos 30 anos de Blade Runner e dos dez anos de Minority Report: Blade Runner: Which Predictions Have Come True? Ambos os filmes - baseados em obras de Philip K. Dick - se situam em futuros relativamente próximos que mostram um certo grau de previsão. Quais dessas previsões bateram certo? (Nota: ainda temos cinco anos para desenvolver os hovercars do Blade Runner). 


5 de outubro de 2012

A influência de Philip K. Dick

No portal The Verge, uma interessante reportagem escrita e em vídeo sobre Philip K Dick, a propósito do Philip K. Dick Festival em São Francisco - muito oportuna, quando celebramos neste ano o trigésimo aniversário da morte (prematura) de um dos mais fascinantes autores da ficção científica. A ler e ver na íntegra.



(Já agora: é natural que sempre que se fala das adaptações cinematográficas da obra de Philip K. Dick, seja destacado o filme Blade Runner, de Ridley Scott - não só se baseou numa das obras mais relevantes de Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?, como o fez de forma brilhante, estando indiscutivelmente entre os melhores filmes que a ficção científica conheceu. No entanto, é uma pena que se esqueça com tanta frequência A Scanner Darkly, de Richard Linklater - o filme não só é formidável como captura o espírito do livro de forma brilhante)

3 de setembro de 2012

A importância de ler Philip K. Dick

Sugestão de leitura: no LitReactor, Philip K. Dick: A Primer, por Jon Korn. Apesar de o artigo ter já mais de um mês, julgo ser muito interessante tanto para quem não leu ainda a obra deste mestre da ficção científica como para quem já está muito familiarizado com aquele que será porventura o autor do género cuja obra mais vezes foi (e é) adaptada para o cinema. O artigo destaca como "obrigatórias" as obras Do Androids Dream of Electric Sheep? e The Man in the High Castle - pessoalmente, destacaria ainda A Scanner Darkly, obra formidável sobre um agente policial de combate ao narcotráfico que perde a noção do que separa o real da alucinação. A bibliografia de Philip K Dick é vasta e a sua obra demasiado complexa para ser resumida em meia dúzia de linhas, mas julgo que o autor resumiu a coisa muito bem no seguinte parágrafo:

And so, as we prepare for more films with Dick's name in the credits, it behooves every fan of Science Fiction to seek out his original work. Along with the two novels and short story collection mentioned above, Dick is responsible for some of the most intriguingly batshit writing of the past century, including such classics as Ubik; Flow My Tears, The Policeman Said; A Scanner Darkly; and The Three Stigmata of Palmer Eldritch. As a whole, Dick's bibliography is more than worthy of being included with both fellow titans of Science Fiction like Asimov and Clarke, as well as similarly weird stylists like Pynchon and David Foster Wallace.

É exactamente isto. De resto, reafirmo o que aqui publiquei a 2 de Março, por ocasião do trigésimo aniversário da morte do autor: (...) trinta anos volvidos sobre a sua morte, faz todo o sentido recordarmos Philip Kindred Dick (1928 - 1982) como um dos maiores autores da história da ficção científica.


1 de julho de 2012

Citação fantástica (20)

You will be required to do wrong no matter where you go. It is the basic condition of life, to be required to violate your own identity. At some time, every creature which lives must do so. It is the ultimate shadow, the defeat of creation; this is the curse at work, the curse that feeds on all life. Everywhere in the universe.

Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968)

25 de junho de 2012

Julgar o livro pela capa (6)

The Man in the High Castle (1962), não é exactamente o meu livro preferido de Philip K. Dick - coisa que talvez se venha a resolver com uma releitura um dia destes (como já aconteceu). No entanto, não consigo deixar de admirar o complexo e brilhante worldbuilding desenvolvido em redor da ideia de que os Aliados teriam perdido a Segunda Guerra Mundial para as forças do Eixo, e que a Alemanha e o Japão, enquanto vencedores, teriam dividido o território dos Estados Unidos entre si. Algumas das ilustrações de capa das várias edições do livro conseguiram ser particularmente evocativas:


(da esquerda para a direita: capa mais recente da edição da Gollancz integrada na colecção SF Masterworks; capa da Penguin Classics, também utilizada na edição portuguesa da Saída de Emergência; capa de edição desconhecida, mas nem por isso menos interessante)


2 de abril de 2012

Total Recall: Primeiro trailer revelado

Foi lançado o primeiro trailer do filme Total Recall, de Len Wiseman, remake do filme homónimo de 1990 realizado por Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone e Michael Ironside. Esta nova versão cinematográfica do conto We Can Remember It For You Wholesale de Philip K. Dick conta com os desempenhos de Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bill Nighy e Ethan Hawke, entre outros. A avaliar pelas imagens, parece estar interessante, e provavelmente até valerá a pena vê-lo no cinema - mas não deixa ser mais um remake, num ano em que as apostas se parecem concentrar todas na repetição.

Estreia a 16 de Agosto.


9 de março de 2012

Facepalm (1)

Excluída a Saída de Emergência, que realmente tem lá pessoas que sabem da poda (no caso, sabem e gostam do Fantástico), para o mercado editorial português o Fantástico parece ser apenas um verbo de encher - mesmo quando algum Fantástico parece ser moda hoje em dia. E não, não é (só) por causa das traduções. Exemplo rápido: como dá para reparar ali na barra do lado, estou actualmente a ler - e, já agora, quase a acabar - Ubik, de Philip K. Dick. Sem surpresas, está a ser uma leitura fenomenal - como, de resto, o autor já me habituou. A edição que tenho, comprada por mais ou menos sete euros na Amazon britânica, é a da colecção SF Masterworks, da Gollancz. Na contracapa, tem a sinopse que transcrevo de seguida:

Glen Runciter is dead. Or is he? Someone died in the explosion orchestrated by its business rivals, but even as his funeral is scheduled, his mourning employees are receiving bewildering messages from their boss. And the world around them is warping and regressing in ways which suggest that their own time is running out. If it hasn't already.

58 palavras. Tudo muito simples - fala-se do protagonista, fala-se da narrativa, sem no entanto revelar demasiado ou incluir spoilers demasiado óbvios. Pois bem; Ubik foi traduzido e editado em Portugal pela Editorial Presença. Há dias, ao passar numa livraria em Lisboa, deparei-me com o livro, e não resisti a ler a contracapa. Para meu grande espanto, que ainda mantenho alguma ingenuidade, a contracapa é praticamente toda ocupada por uma mancha de texto que pretendia ser uma sinopse mas que na prática elimina a necessidade de o leitor ler com atenção pelo menos os cinco primeiros capítulos do livro. Não estou a brincar: aquela sinopse explica tudo. Mais ou menos como ver um filme com um amigo que, por já ter visto, decide contar logo a primeira metade da história pensando que nos vai aguçar o apetite.

Mas isto talvez nem seja o pior. Mais divertida ainda é a sinopse ao livro que está on-line no site da Presença. Ora vejam:

Ubik
Entre Dois Mundos (na capa do livro, aparece "Entre 2 Mundos"; detalhes)
Sinopse: Ubik, tal como Blade Runner ou Minority Report, é uma das obras-primas de Philip K. Dick. Um dos livros mais assinaláveis dos anos 60, foi escrito num estilo muito próximo da pulp fiction e encerra tanto um thriller como um romance. O enredo desenrola-se numa atmosfera futurista, no ano de 1992, em que os avanços tecnológicos permitem manter os defuntos num estado de meia-vida até à próxima reencarnação. É criada em Nova Iorque uma organização que emprega pessoas com vários talentos psíquicos, desde telepatas a precogs, entre outros. Do mesmo autor de Relatório Minoritário e de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Ubik é uma espantosa comédia metafísica sobre o medo da morte e a salvação, em que as pessoas são congeladas, num estado de meia-vida. Mais um livro deste consagrado autor que integra a colecção Viajantes no Tempo.

Senhores da Presença: Blade Runner não é "uma das obras-primas" de Philip K. Dick, mas sim de Ridley Scott. A obra-prima de Philip K. Dick a que se referem será o livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, no qual Scott se baseou para fazer um dos melhores filmes de ficção científica de sempre. Isto não é um detalhe - é uma confusão grave entre duas obras completamente diferentes.

Enfim, isto é a edição de clássicos da ficção científica em Portugal - com um preço de capa de quinze euros, mais coisa menos coisa. Depois admiram-se as editoras de que quem se pode dar a tal luxo opte pelas edições inglesas ou americanas.

2 de março de 2012

A Scanner Darkly

Num dia dedicado a Philip K. Dick, não poderia deixar de adaptar para aqui um texto já antigo, publicado no Delito de Opinião, sobre aquele que considero o melhor livro que li deste autor americano: A Scanner Darkly (em português, O Homem Duplo). A Scanner Darkly, com a sua escrita alucinada e uma narrativa tão psicadélica como as drogas de que fala, pode muito bem ser o exemplo perfeito de um livro de ficção científica que, por si só, devia afastar qualquer preconceito de género. Houve alguns livros de ficção científica que pularam a cerca, passe a expressão, e se impuseram como referências na literatura mundial, talvez não por serem obras de ficção científica, mas apesar de serem obras de ficção científica - como bons exemplos, poderia apresentar Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, ou, claro, Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. Pessoalmente, A Scanner Darkly não fica atrás de nenhum destes - e é, muito justamente, considerada uma das obras maiores de Philip K. Dick, ele mesmo considerado por muitos um dos maiores escritores de ficção científica de sempre.

Repleto de elementos autobiográficos (com uma dedicatória final impressionante), A Scanner Darkly tem no consumo de drogas e respectivos efeitos o núcleo da história. Bob Arctor, o protagonista, um polícia de narcóticos sob disfarce (o célebre scramble suit), está a investigar o tráfico de uma droga particularmente forte e destrutiva: "Substance D", mais conhecida por "Death". Nem a própria polícia conhece a identidade de Arctor, que se identifica apenas pelo nome "Fred", a fim de evitar a habitual corrupção que grassa neste tipo de investigações. E a investigação de "Fred" gira em redor de Jim Barris, Ernie Luckman e Donna Hawthorne - respectivamente, colegas de casa e namorada de... Bob Arctor. Que, para efeitos do seu trabalho enquanto "Fred", tem de consumir as próprias drogas que está a investigar, levando-o a investigar-se a ele mesmo.

Confuso? Mais do que isso: uma verdadeira alucinação, numa narrativa psicadélica sustentada por uma escrita vertiginosa. Faltam-me adjectivos melhores, confesso; mas a verdade é esta: as quatro personagens principais da história estão quase sempre sob o efeito de drogas, e Philip K. Dick soube traduzir com mestria a vertigem desse estado para a escrita. Algumas passagens são autênticas alucinações, pela forma como prendem a atenção do leitor e insistem em desafiar uma lógica que se sabe não existir (há momentos em que não estamos certos de estar realmente a ler aquilo). Há uma passagem muito interessante (e famosa) que disso é exemplo: quando Arctor, Barris, Luckman e Donna discutem acaloradamente sobre a quantidade de mudanças que uma bicicleta tem. Isto colocado assim parece algo parvo, eu sei, mas a verdade é que desta ideia surge toda uma cena com um diálogo absolutamente brilhante - sem dúvida, uma das melhores passagens que tive o prazer de ler.

A Scanner Darkly (como muitas outras de Philip K. Dick) foi já também adaptada para cinema em 2006. O realizador foi Richard Linklater, e o filme conta com as interpretações de Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Winona Ryder. Não sendo uma obra-prima, é um filme bastante bom e interessante, com momentos deliciosamente adaptados do livro (como a discussão sobre as mudanças da bicicleta, uma vez mais) e que utiliza uma curiosa técnica de animação. Sim, é um filme de animação, criada, tanto quanto sei, em pós-produção, como se o filme fosse reconvertido para animação, ou algo assim: falta-me a linguagem técnica. O que pouco importa aqui: o efeito é surpreendente, sobretudo devido ao enredo já de si "alucinado".

(Aqui, uma excelente e mais elaborada crítica a este livro)

Philip K. Dick (1928 - 1982)

Hoje, trinta anos volvidos sobre a sua morte, faz todo o sentido recordarmos Philip Kindred Dick (1928 - 1982) como um dos maiores autores da história da ficção científica. O seu legado fala por si: para além de inúmeros contos, foi o autor de romances como The Man in the High Castle, A Scanner Darkly, Ubik, Valis, Do Androids Dream of Electric Sheep?, Flow My Tears, The Policeman Said, The Three Stigmata of Palmer Eldritch, entre muitos outros.

Philip K. Dick deixou uma vasta e persistente influência na literatura - e não só dentro dos círculos mais ou menos restritos da ficção científica -, mas também noutras áreas, nomeadamente no cinema. Os filmes Blade Runner, Total Recall, Minority Report, A Scanner Darkly, Screamers, Paycheck e The Adjustment Bureau são inspirados em contos e romances seus.  

Faleceu no dia 2 de Março de 1982, vítima de um acidente vascular cerebral. Tinha 53 anos.

Uma biografia interessante aqui.

8 de fevereiro de 2012

Through a glass, darkly

Quando há dias mencionei a lista daqueles que, para mim, são os 20 melhores filmes de ficção científica que vi, esqueci-me de mencionar um: A Scanner Darkly, de 2006, realizado por Richard Linklater. Vi o filme quando passou no Indie Lisboa  2007 (na única edição a que fui, agora que penso nisso); não sei se chegou a estar em exibição nas salas de cinema portuguesas. É certo que A Scanner Darkly não é uma obra-prima da ficção científica - não será certamente filme de top-ten - mas é sem dúvida um filme bastante sólido, com um enredo consistente, um elenco acima da média (Keanu Reeves - em mais um papel feito à medida -, Winona Ryder e Robert Downey Jr.) e uma animação tão invulgar como cativante. Tudo isto resulta numa excelente adaptação de um dos melhores livros de Philip K. Dick (sem dúvida o meu preferido).