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11 de agosto de 2014

Gene Wolfe: "I think it [science fiction] matters a lot, because it’s mind-opening" (entrevista)

Para muitos leitores de fantasia e ficção científica o nome de Gene Wolfe dispensará quaisquer apresentações - o autor da célebre tetralogia The Book of the New Sun, de The Fifth Head of Cerberus e The Island of Doctor Death é considerado por muitos um dos melhores autores do fantástico contemporâneo, com a sua prosa inconfundível e os seus narradores muito pouco fiáveis. Numa longa entrevista a Jason Pontim para a revista MIT Technology Review, Wolfe fala sobre a sua já longa carreira literária, sobre as suas influências e preferências, sobre a fantasia e a ficção científica enquanto géneros literários, e até sobrea sua experiência como engenheiro e como editor de uma publicação técnica. Alguns excertos:
Jason Pontin/MIT Techonology Review: Why does science fiction matter?

Gene Wolfe: I think it matters a lot, because it’s mind-opening. That’s its great virtue. Ordinary fantasy opens minds, but not nearly as much. The Oz books [1900–1920] may open someone’s mind a little bit. Alice in Wonderland [1865] is kind of mind-opening. But a lot of science fiction is much more so. For instance, I could write a story in which a man has a conversation with his gun. I might do that sometime. Prince Valiant had his singing sword, and I always thought they could have done more with that than they did.

JP/MITTR: Many people say that science fiction matters because it is about contemporary society—that it is a kind of satire.
GW: Unfortunately. It’s true that a great many people think that it must be.
JP/MITTR: You mean: it needn’t be so.

GW: You could write a book about a landing on Mars in which a landing on Mars is a metaphor for something that is going on now. You could also write a book about a landing on Mars that’s a landing on Mars.
A entrevista completa pode ser lida online na MIT Technology Review.

Fonte: SF Signal

10 de agosto de 2014

Citação fantástica (147)

There are two kinds of fools. One says, "This is old, and therefore good." And one says, " This is new, and therefore better.”

John Brunner, The Shockwave Rider (1975)

8 de agosto de 2014

Red Mars: A nova fronteira

Poucos lugares serão tão familiares na ficção científica como Marte, o célebre "Planeta Vermelho", transportado para inúmeras páginas tanto na sua versão imaginada antiga, com os canais de Lowell, como com a aridez rubra que as sondas da era espacial revelaram. Marte serviu de palco para inúmeras histórias de ficção científica, das aventuras de Edgar Rice Burroughs às crónicas quase poéticas de Ray Bradbury; e sem esquecer, claro, as tramas de autores tão consagrados como Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Frederik Pohl, Philip K. Dick, Ben Bova ou Ian McDonald (entre muitos outros), cada um imaginando à sua maneira como seria a vida num Marte ficcional. No início dos anos 90, Kim Stanley Robinson - que até já se tinha aventurado pelos territórios literários do Planeta Vermelho com Icehenge em 1984 - decidiu explorar uma vez mais o nosso vizinho do Sistema Solar, mas através de uma perspectiva em simultâneo hard science fiction detalhada e sociopolítica, com todas as componentes de um drama em território hostil que, em momentos, quase se aproxima da ideia de western. O resultado foi a célebre Mars Trilogy, iniciada em 1993 com Red Mars.

Tendo como tema a colonização e a terraformação de Marte, Red Mars centra-se em algumas das personagens que integraram os "cem primeiros" - os cem indivíduos que integram a expedição "Ares" e para fundar a primeira colónia humana permanente em Marte. Seleccionados após um árduo treino na Antárctida, os cem primeiros são lançados no vazio numa nave colossal, rumo ao planeta vermelho - e é no tédio relativo (para as personagens) da viagem que o leitor começa a conhecer as figuras de destaque do romance (após um prólogo estimulante que faz com que a maior parte da trama seja narrada in medias res - adensando consideravelmente o mistério ao introduzir a morte de um dos protagonistas): John Boone, lendário por ter sido o primeiro homem a pisar o solo marciano; Frank Chalmers, o cínico líder do grupo norte-americano, que tem na volátil Maya Toitovna a sua equivalente na facção russa; Arkady Bogdanov, o engenheiro russo idealista, com o sonho de criar uma sociedade nova no planeta; e outros, como Nadia Chernyshevski (talvez a melhor personagem de todo o romance), Ann Clayborne, Hiroko Ai, Sax Russel, Michel Duval, Phyllis Boyle - cem no total, com estes a assumirem os papéis mais relevantes e, no caso de John, Frank, Nadia, Michel, Ann e Arkady, os pontos de vista da narrativa.

Claro que a colonização e a terraformação estão longe de ser pacíficas, e apesar de o desenvolver como inevitável, nem por isso deixa Kim Stanley Robinson de questionar a sua legitimidade a todo o momento - com a progressiva degradação da Terra colocada à distância a servir de exemplo (o debate constante, e por vezes agressivo, entre Ann, Phyllis e Sax é o melhor exemplo dessa discussão permanente). No seu esforço de construir uma sociedade nova num mundo tão diferente e hostil, os cem primeiros colonos procuram deixar o passado para trás para dar forma a algo adequado às circunstâncias - esquecendo-se com frequência de que eles mesmos, com toda a sua bagagem, fazem também parte dessas circunstâncias. Do entusiasmo da construção da primeira aldeia à fragmentação do grupo original e ao início da emigração interplanetária e da apropriação do território e dos recursos de Marte por megacorporações transnacionais mais poderosas que estados soberanos é um pequeno passo - que, uma vez dado, só pode ter como resultado uma revolução. Robinson desenvolve com bom ritmo cada uma destas partes - da atenção dada ao pormenor da construção dos primeiros abrigos à precipitação dos acontecimentos durante a revolução, nada é deixado ao acaso - e o drama das personagens é suficientemente cativante para manter o interesse na trama. 

Mas é no detalhe científico que Red Mars se excede e se eleva para o panteão da hard science fiction, fruto de uma pesquisa pormenorizada e exaustiva que transborda para as páginas e que confere uma verosimilhança ímpar à narrativa. Talvez não seja exagerado afirmar que a experiência de leitura de Red Mars será porventura o mais próximo que os leitores contemporâneos estarão de viajar de facto até Marte e de colonizar o planeta - e se alguns decerto serão afastados pelas longas e constantes descrições científicas explicadas de forma bastante acessível mas nem por isso menos rigorosa, outros decerto apreciarão a atenção dada ao pormenor e a forma como cada detalhe contribui para dar ao Marte de Kim Stanley Robinson uma aura de realismo que poucos romances conseguiram alcançar. A história dos cem primeiros colonos é, acima de tudo, verosímil

Já nas questões económicas, políticas e sociais, de resto quase tão importantes como as científicas, acabam por surgir um pouco... estranhas nesta segunda década do novo milénio. Apesar de ter sido escrito e publicado após a queda do Muro de Berlim, Red Mars ainda tem a dicotomia da Guerra Fria profundamente entranhada na sua trama - a divisão entre norte-americanos e russos, com um punhado de colonos de outras nacionalidades, a oposição constante entre capitalismo e marxismo, a veia revolucionária de várias personagens. É possível, no entanto - e este é um pormenor fascinante - que Red Mars estivesse mais datado no final dos anos 90 do que hoje, com o ressurgimento da Rússia na cena internacional e com a ascensão das sociedades muçulmanas, nem sempre pelos melhores motivos. Quase como se nas suas páginas ecoasse aquela velha ideia de que a História acaba sempre por se repetir, 

De certa forma, o que Red Mars acaba por ilustrar de forma exemplar (para lá de toda a enorme complexidade que uma expedição a Marte com o propósito de lá estabelecer uma colónia humana permanente acarreta, e que Robinson explora de uma forma que seria exaustiva se não fosse tão interessante) é a manifesta incapacidade de nós, enquanto humanos, sermos incapazes de deixar o nosso passado para trás - mesmo quando, para todos os efeitos, esse passado reside para lá de um enorme abismo espacial, a distâncias que a mente humana tem sérias dificuldades de conceber; e quando toda essa bagagem de pouco serve numa realidade completamente nova, estranha e hostil. Como intriga científica e social, Red Mars é um êxito assinalável - uma "novela" marciana, sim, mas com uma complexidade, uma atmosfera e um nível de detalhe que elevam o drama e tornam toda a leitura numa experiência memorável, como se o leitor, também ele, fosse um dos "cem primeiros" colonos a participar naquela expedição única.

[Há ainda um pormenor de Red Mars que merece referência, ainda que me tenha esquecido de o incluir no texto: ciente da vasta "ficção marciana" existente, e em muita da qual decerto se terá também inspirado, Kim Stanley Robinson deu várias designações familiares a algumas localidades que vão surgindo no decurso da trama - como as cidades de Burroughs e de Bradbury, por exemplo. São uma espécie de easter eggs, digamos assim - e dão um toque muito especial ao worldbuilding]

Título: Red Mars
Autor: Kim Stanley Robinson
Editora: Bantam Spectra
Ano: 1993
Formato: Paperback
Páginas: 572
Género: Ficção Científica / Hard Science Fiction

7 de agosto de 2014

SyFy Channel vai adaptar Old Man's War de John Scalzi para série televisiva

Após anos de filmes de série B- (que, surpreendentemente, se tornaram num fenómeno de culto nos últimos tempos), de séries de interesse moderado e de uma programação no mínimo errática, o SyFy Channel parece querer emendar a mão e regressar à produção de ficção científica com um módico de qualidade - e está à procura dessa qualidade na literatura do género*. Old Man's War, de John Scalzi, será um dos próximos projectos do canal, e de acordo com Scalzi (que será produtor executivo da série), se tudo correr bem esta adaptação poderá estrear algures em 2016. Intitulada Ghost Brigades, pegando no título da sequela a Old Man's War, a série será desenvolvida a partir de elementos dos vários livros.

Ghost Brigades junta-se assim ao projecto de adaptar a série Expanse, de James S. A. Corey, para televisão - e aos projectos já mais avançados de 12 Monkeys, Ascension e Dominion.  

Fontes: Tor / Whatever

* Não deixa de ser curioso que entretanto o SyFy tenha deixado cair a adaptação de The Man in the High Castle, entretanto repescado pela Amazon).

6 de agosto de 2014

Connie Willis: "Every story basically takes your whole career to write" (entrevista)

Com onze prémios Hugo e sete prémios Nébula tanto para romance como nas categorias de ficção curta, o nome de Connie Willis é incontornável na ficção científica moderna - com uma carreira literária de várias décadas, a qual inclui sucessos assinaláveis como Doomsday Book, To Say Nothing of the Dog, o díptico Blackout/All Clear, e inúmeros contos premiados. Em entrevista a Carl Slaughter para o portal Diabolical Plots, Connie Willis fala sobre a pesquisa e o trabalho subjacentes a cada história, e sobre outras curiosidades da sua carreira na ficção científica. Um excerto:
Carl Slaughter/Diabolical Plots: I can’t say I’ve ever read a short piece of speculative fiction more consistently sophisticated than Inside Job. How long did it take you to write? How many revisions?

Connie Willis: I rewrite constantly (which is why my novels are always late), and I put in loads of work on every single piece I do. My two-volume novel Blackout/All Clear took eight years to write, Doomsday Book took five, To Say Nothing of the Dog four. But that doesn’t tell the whole story. Every story basically takes your whole career to write, both in the skills you acquire and where the stuff comes from that the stories are about. “Inside Job” took a year or so to write, but acquiring the stuff that went into it (including my fascination with Mencken and admiration of him, my hatred of fake psychics and mediums who prey on people to get their money, and my decision to have the heroine be an actress who’s too smart to be in Hollywood) all took years longer. If you really want to know how long the story took, you’d have to include my reading Postcards from the Edge and all Carrie Fisher’s other books (that’s where I got my too-smart actress from), my reading Inherit the Wind and The Great Scopes Monkey Trial and lots of other books about the Scopes evolution trial which Mencken covered, all of my reading of Mencken’s stuff and biographies about him before I ever decided to write the story, and the original story (about a fundamentalist group who were trying to raise their dead evangelist from the grave in Baltimore and accidentally got Mencken), which led me to go visit Mencken’s grave way back in 1982. That original story never got written, but it’s what led to my writing “Inside Job.” Some famous writer said, when asked how long it took him to write a story, “My entire life,” and that’s pretty much true.

As to revising, I can’t answer the question, “How many revisions?” because I rewrite as I go, rewriting lines and then scenes and then, once the story’s done, the whole thing till it does what I want. I love the scene in Stranger than Fiction where the professor tells Emma Thompson, “You realize that now your ending doesn’t match the rest of the story?” and Emma says, “Yes, so now all I have to do is rewrite the book to match the ending.” That’s pretty much how it is with me. After I write the ending, I have to go back and make the whole thing match.
A entrevista completa pode ser lida na íntegra no Diabolical Plots.

Fonte: SF Signal

5 de agosto de 2014

Dark City: Simulacro noir

Quando passou por cá no ano passado, Ian McDonald referiu um detalhe curioso acerca do seu (excelente) Desolation Road: na época em que o escreveu, a ideia de um Marte terraformado parecia fazer parte do inconsciente colectivo da ficção científica literária, e vários foram os autores que exploraram o tema da colonização do Planeta Vermelho durante aqueles anos (Kim Stanley Robinson, por exemplo), sem aparente ligação entre si. Na segunda metade da década de 90 a ficção científica conheceu outro fenómeno desta natureza, mas no cinema - e nos anos que antecederam o novo milénio estreou um conjunto de filmes que exploraram, cada um à sua maneira, os limites da identidade, da realidade e da nossa percepção daquilo que é - ou poderá ser - real. Como se o tal inconsciente colectivo a que McDonald aludiu tivesse absorvido as preocupações da obra de Philip K. Dick para o projectar numa mão-cheia de longas metragens de bastante interesse: The Matrix será sem dúvida a mais conhecida, mas naqueles anos estrearam ainda The Thirteenth FloorThe Truman Show e Dark City

Dark City, realizado por Alex Proyas e estreado em 1998, é um caso especialmente interessante pela forma como, mesmo antes de as discussões na Internet se tornarem mais recorrentes, ser comparado de forma insistente com The Matrix, com frequência como se o segundo fosse uma cópia mais ou menos velada do primeiro. É certo que ambos os filmes foram filmados nos mesmos estúdios na Austrália, e que ainda que a estética de ambos seja bastante diferente (o cyberpunk estilizado dos Wachowski é muito diferente do noir quase gótico de Proyas), há várias aproximações em termos temáticos - sobretudo na forma como podemos ver ambas as tramas como alusões à Alegoria da Caverna de Platão. E, claro, há uma cena infame que é mesmo muito parecida, decerto pela coincidência do local de rodagem. 


A verdade é que esta comparação com The Matrix, de resto tão frequente (ainda hoje), não só peca por falta de rigor como também acaba por não fazer justiça a ambos os filmes: mais do que do cyberpunk existencial e messiânico dos irmãos Wachowski, Dark City aproxima-se dos temas da identidade, da realidade e da impossibilidade de determinar uma e outra, tão caros à ficção científica de Philip K. Dick. Para todos os efeitos, a noção de um simulacro de mundo, restrito e em circuito fechado, a ser alterado de acordo com os caprichos de uma entidade na aparência inescrutável, parece mais uma transposição em tons noir da premissa de The Adjustment Team - ou de vários outros contos nos quais Dick colocou em causa a percepção humana do real nos simulacros labirínticos em que encerrava as suas personagens.


E é num simulacro dessa natureza que Dark City se centra: uma vasta e soturna cidade a atravessar uma noite aparentemente eterna, da qual nenhum dos seus habitantes sabe ao certo como sair - ainda que possuam memórias de outros locais, de outros tempos. E, à meia-noite, pára tudo - cada habitante da cidade adormece de súbito, para acordar alguns momentos depois como se nada tivesse acontecido; quando, para todos os efeitos, muita coisa na sua cidade, nas suas vidas e nas suas memórias individuais e colectivas foi alterada. 


Aqui chegados, importa fazer um reparo: Dark City começa com uma narração em off que, na sua tentativa desajeitada de introduzir a trama, acaba por revelar desde logo a solução para o mistério: quem são aqueles perturbadores homens de negro, e quais são os seus motivos. É a grande fraqueza do filme, e aquilo que o impede de elevar a sua premissa pelo enigma que apresenta, e que vai sendo desvendado à medida que o enredo avança - os vilões são notáveis, e seriam excepcionais se a sua estranheza fosse sendo descoberta aos poucos, e não através de um infodump no prólogo. O que não deixa de ser uma pena: o verdadeiro início do filme, com Murdoch (Rufus Sewell) a acordar despido numa banheira, sem memórias, num apartamento estranho com o cadáver mutilado de uma mulher tem todos os ingredientes necessários para se tornar numa abertura clássica e icónica, que Proyas filma com mestria. 


Confuso, Murdoch começa a tentar encontrar respostas para o que lhe aconteceu - o que o levará a redescobrir a sua mulher, Emma (Jennifer Connely), de quem se tinha afastado ao descobrir que ela o traíra. Pelo caminho, encontra Frank Bumstead (William Hurt), um inspector da polícia que se encontra oficialmente a investigar o homicídio em série de várias prostitutas - e, a título não oficial, a tentar encontrar alguma pista para o caso que levou um colega seu à loucura. E encontra ainda o Dr. Daniel Schreber (Kiefer Sutherland), um psiquiatra misterioso que afirma ser o seu médico e que diz querer ajudá-lo - mas que parece ter uma agenda própria. E, claro, depara-se com um grupo de estranhos homens vestidos de negro, com poderes telequinéticos - para descobrir, num misto de espanto e desespero, que também possui tais poderes. 


O que se segue é um autêntico jogo do gato e do rato entre Murdoch, as suas memórias e aquelas estranhas criaturas - e tudo isto decorre numa cidade atmosférica que Alex Proyas constrói com requinte noir, recombinado a estética que tanto sucesso teve em The Crow com elementos do Metropolis de Fritz Lang (o relógio é icónico) e do Brazil de Terry Gilliam e com algumas inspirações no Akira de Katsuhiro Otomo (as influências, diga-se de passagem, foram as melhores) para criar uma autêntica cidade negra: sombria, soturna, pesada, um labirinto de pesadelo a que Scraber alude de forma excepcional com o labirinto onde coloca um rato, durante a visita de Emma. 


Com uma atmosfera excepcional, uma estética noir soberba e uma trama intrigante, Dark City merece com justiça o seu estatuto de clássico de culto - é um filme notável e memorável, ainda que o (excelente) enigma da sua premissa seja destruído nos minutos iniciais por uma introdução tão desnecessária como despropositada. Talvez lhe falte também uma personagem mesmo carismática - o Dr. Schaber de Kiefer Sutherland será o melhor que o filme apresenta no que aos desempenhos diz respeito, ainda que no geral as interpretações do restante elenco sejam suficientemente sólidas para não comprometer. De qualquer forma, merece mais do que a comparação com The Matrix: infodumps e spoilers à parte, Dark City tem força mais do que suficiente para se afirmar a título individual. 7.9/10

Dark City (1998)
Realizado por Alex Proyas
Argumento de Alex Proyas, Lem Dobbs e David S. Goyer
Com Rufus Sewel, Kiefer Sutherland, Jennifer Connely, William Hurt, Richard O'Brien, Ian Richardson, Bruce Spence e Colin Friels
100 minutos

3 de agosto de 2014

Aconteceu em Agosto:

02 de Agosto:
  • 1954 - Nasceu Ken MacLeod, escritor escocês de ficção científica mais conhecido pela sua hard SF e pelas suas space operas. Na sua bibliografia merecem destaque a série Fall Revolution (The Star Fraction, The Stone Canal, The Cassini Division e The Sky Road, publicados entre 1995 e 1999 e reeditados em dois volumes omnibus em 2009) e a trilogia Engines of Light (Cosmonaut Keep, Dark Light e Engine City, editados entre 2001 e 2003).
03 de Agosto:
  • 1904 - Nasceu Clifford D. Simak, autor norte-americano de ficção científica que se notabilizou durante a "Golden Age" do género. Venceu o prémio Hugo na categoria de "Melhor Romance" com Way Station, de 1964; a sua bibliografia inclui ainda títulos como Time and Again (1951) e Ring Around the Sun (1953), para além de inúmeros contos. Faleceu a 25 de Abril de 1988. 
06 de Agosto:
  • 1934 - Nasceu Piers Anthony (nome de baptismo: Piers Anthony Dillingham Jacob), um dos mais prolíficos autores contemporâneos de ficção e fantasia e de fantasia. Entre outras séries literárias, é o criador da saga de fantasia Xanth, iniciada em 1977 com A Spell for Chameleon e continuada desde então em 38 livros. 
  • 1966 - faleceu Cordwainer Smith (nome de baptismo: Paul Myron Anthony Linebarger), mestre de ficção curta durante a "Golden Age" da ficção científica e criador do universo ficcional conhecido como Instrumentality of Mankind, que serve de pano de fundo a boa parte dos seus contos. Scanners Live in Vain (1950), The Game of Rat and Dragon (1955), When the People Fell (1959) e A Planet Named Named Shayol (1961) são os títulos de alguns dos seus contos mais célebres. A título póstumo, os romances curtos Planet Buyer e The Underpeople, de 1964 e 1968, foram reunidos a título póstumo num volume intitulado Nostrilia, de 1975. Natural de Milwaukee, no Winsconsin, Cordwainer Smith nasceu a 11 de Julho de 1913. 
  • 1972 - Nasceu Paolo Bacigalupi, autor norte-americano de ficção científica que se estreou na ficção longa em 2009 com o romance The Windup Girl, obra vencedora dos prémios Hugo e Nébula na categoria de "melhor romance", e do Locus como "melhor primeiro romance". Bacigalupi é ainda o autor de Ship Breaker (2910) e The Drowned Cities (2012), assim como de alguma ficção curta reunida na colectânea de 2008 Pump Six and Other Stories.
07 de Agosto:
  • 1933 - Nasceu Jerry Pournelle, autor norte-americano de ficção científica que se notabilizou pela sua ficção científica militar e pelas suas colaborações regulares com Larry Niven, da qual resultaram romances como The Mote In God's Eye (1975) e Lucifer's Hammer (1977), entre muitos outros. Na sua bilbiografia pessoal incluem-se títulos como High Justice (1974), Birth of Fire (1976) e The Mercenary (1977).
09 de Agosto:
  • 1927 - Nasceu Daniel Keyes, autor de Flowers for Algernon. Faleceu a 15 de Junho de 2014.
  • 1947 - Nasceu John Herbert Varley, autor norte-americano de ficção científica, em cuja bibliografia encontramos a trilogia Gaea (TitanWizard e Demon, de 1979, 1980 e 1984), a série Eight Worlds (Steel Beach e The Golden Globe, de 1992 e 1998) e a trilogia Thunder and Lightning (Red Thunder, Red Lightning e Rolling Thunder, de 2003, 2006 e 2008). 
13 de Agosto:
  • 1946 - Faleceu Herbert George "H.G." Wells, amplamente considerado um dos fundadores da ficção científica moderna com alguns dos mais icónicos romances que o género conheceu na primeira metade do século XX: títulos como The War of the Worlds (), The Time Machine (), The Invisible Man () ou The Island of Doctor Moreau () são há muito clássicos incontornáveis da ficção científica, tendo contribuído para o estabelecimento de ideias, conceitos e convenções que fazem parte do ideário do género, com várias adaptações cinematográficas e televisivas. E algumas das suas personagens tornaram-se parte da cultura popular contemporânea, e foram trabalhadas por autores diversos numa grande variedade de histórias. H. G. Wells nasceu a 21 de Setembro de 1866.
15 de Agosto:
  • 2012 - Faleceu Harry Harrison (nome de baptismo: Henry Maxwell Dempsey), autor norte-americano de ficção científica que se consagrou em 1966 com a distopia populacional Make Room! Make Room!, adaptada para o cinema em 1973 no célebre Soylent Green. Na sua bibliografia merece ainda destaque The Stainless Steel Rat (1961), continuado em várias sequelas e também transposto para banda desenhada, e a personagem Bill, the Galactic Hero. Harry Harrison nasceu a 12 de Março de 1925. 
16 de Agosto:
  • 1884 - Nasceu Hugo Gernsback, norte-americano de origem luxemburguesa que se notabilizou sobretudo como editor - e cujo trabalho em várias revistas especializadas durante a primeira metade do século XX foi de tal forma relevante que se tornou numa das figuras fundadoras da ficção científica enquanto género literário. Em 1926 fundou a Amazing Stories, a primeira revista especializada de ficção científica, que serviu de rampa de lançamento a alguns dos mais consagrados autores que o género conheceu. Os prémios Hugo, atribuídos anualmente na World Science Fiction Convention (Worldcon) desde 1953, foram criados em sua homenagem. Hugo Gernsback faleceu a 19 de Agosto de 1967.
  • 1954 - Nasceu James Francis Cameron, realizador e produtor canadiano responsável por alguns dos maiores êxitos da história do cinema. Terminator (1984), Aliens (1986), The Abyss (1989), Terminator 2: Judgment Day (1991) e Avatar (2009) constituem o seu legado na ficção científica cinematográfica. 
18 de Agosto:
  • 1925 - Nasceu Brian Wilson Aldiss, autor, editor, antologista e crítico britânico de ficção científica. Na sua bibliografia incluem-se romances como Non-Stop (1958), The Interpreter (1960), Hothouse (1962), Graybeard (1964), e a célebre e ambiciosa trilogia Helliconia, composta por Helliconia Spring (1982), Helliconia Summer (1983) e Helliconia Winter (1955), para além de várias colectâneas de ficção curta - entre a qual se inclui o conto Super-Toys Last All Summer Long (1969), que Steven Spielberg adaptou para o cinema em A.I. (no seguimento do projecto de Stanley Kubrick). Como antologista, organizou várias antologias de ficção científica para a Penguin Books, e editou com Harry Harrison a série anual de antologias The Year's Best Science Fiction entre os números 1 e 6 (1968 - 1973). Ao longo da sua carreira conquistou dois prémios Hugo, um Nénbula e o John W. Campbell Memorial. 
20 de Agosto:
  • 1890 - Nasceu Howard Philips "H.P." Lovecraft, um dos mais consagrados autores de horror literário - ainda que o seu reconhecimento tenha sido sobretudo póstumo (Lovecraft faleceu a 15 de Março de 1937). Foi o criador do Chtulhu Mythos e da ficção original que lhe está associada. 
  • 1951 - Nasceu Gregory Dale "Greg" Bear, autor norte-americano de fantasia e ficção científica. A sua vasta bibliografia inclui romances em universos ficcionais que não são da sua autoria (Halo, Star Trek, Star Wars), mas merece destaque sobretudo pelas suas obras originais: Darwin's Radio (1999) e Darwin's Children (2003), The Forge of God (1987) e Anvil of Stars (1992), a série The Way (Eon, Eternity e Legacy, de 1985, 1988 e 1995), Blood Music (1985) e Hull Zero Three (2010), entre muitos outros. 
21 de Agosto:
  • 1911 - Nasceu Anthony Boucher (nome de baptismo: William Anthony Parker), editor e autor de contos de ficção científica e de mistério. Foi um dos fundadores da Magazine of Fantasy and Science Fiction. Faleceu a 29 de Abril de 1968. 
22 de Agosto:
  • 1920 - Nasceu Ray Douglas Bradbury, um dos mais consagrados autores norte-americanos do século XX, e com uma carreira excepcional em géneros literários como a ficção científica, a fantasia, o horror e o mistério. Dono de uma prosa memorável, Bradbury deixou como legado à ficção científica as inesquecíveis The Martian Chronicles (1950), romances como The Illustrated Man (1951) e Something Wicked This Way Comes (1962) - e, claro, Fahrenheit 451, de 1953, uma das mais aclamadas distopias literárias, adaptada para o cinema por François Truffaut em 1966. Ray Bradbury faleceu a 5 de Junho de 2012.
24 de Agosto:
  • 1915 - Nasceu James Triptree, Jr. (nome de baptismo: Alice Bradley Sheldon), autora norte-americana cujo pseudónimo masculino escondeu a sua verdadeira identidade - e, mais importante, o seu género - até 1977. A revelação causou uma polémica assinalável no meio, e contribuiu de forma decisiva para o debate do preconceito de género na ficção científica (tema que ainda hoje é recorrente, tantos anos volvidos). James Tiptree distinguiu-se sobretudo pela sua ficção curta e provocadora, que lhe assegurou vários prémios Hugo e Nébula; Love Is the Plan the Plan Is Death (1973), The Girl Who Was Plugged In (1973), Houston, Houston, Do You Read? (1977) e The Screwfly Solution (1977) são alguns dos seus contos mais conhecidos. James Tiptree, Jr. faleceu a 19 de Maio de 1987. 
  • 1951 - Nasceu Orson Scott Card, autor de ficção científica norte-americano -  e único autor até ao presente a vencer em dois anos consecutivos os prémios Hugo e Nébula na categoria de "Melhor Romance", com Ender's Game e Speaker for the Dead, de 1985 e 1986. A série do jovem Ender, uma criança-prodígio manipulada para se tornar num estratega militar capaz de derrotar uma raça alienígena invasora, tornou-se numa das mais populares da ficção científica moderna; Card deu-lhe continuidade directa em várias sequelas, e na série paralela que abriu com Ender's Shadow (1999). Da sua autoria são ainda as séries Alvin Maker, inciada em 1988 com Seventh Son e continuada em várias sequelas até ao presente, e a série Homecoming, que tem em The Memory of Earth (1992) o primeiro dos seus cinco volumes. 
  • 2010 - Faleceu Satoshi Kon, animador e realizador japonês que assinou alguns clássicos recentes da animação japonesa como Perfect Blue (1997), Millennium Actress (2001), Tokyo Godfathers (2003) e Paprika (2006), assim como a série televisiva Paranoia Agent (2004). Satoshi Kon nasceu a 12 de Outubro de 1963.
26 de Agosto:
  • 1995 - Faleceu John Brunner, autor britânico de fantasia e ficção científica cuja carreira começou ainda nos anos 50 com space operas de cariz mais ou menos pulp - até ao advento da "New Wave" da ficção científica, movimento do qual se tornou um dos mais relevantes autores com um quarteto de romances que se tornariam clássicos pelo seu arrojo conceptual e pela sua antecipação temática e de tendências da própria ficção científica literária. Com a distopia populacional de Stand on Zanzibar (1968), Brunner venceu os prémios Hugo e BSFA; seguiram-se The Jagged Orbit (1969), The Sheep Look Up (1972) e The Shockwave Rider (1975), entre outros romances e contos que continou sempre a escrever. Judas é o título do conto que submeteu à antologia Dangerous Visions (1967), de Harlan Ellison; a sua ficção curta encontra-se compilada em várias colectâneas. John Brunner nasceu a 24 de Setembro de 1934, e faleceu durante a Worldcon de 1995 em Glasgow. 
28 de Agosto:
  • 1916 - Nasceu John Holbrook "Jack" Vance, autor norte-americano de fantasia, ficção científica e mistério que se distinguiu pela sua obra multifacetada e influente. The Dying Earth será sem dúvida a sua série mais conhecida, uma fantasia num futuro pós-apocalíptico explorado ao longo de quatro volumes: The Dying Earth (1950), The Eyes of the Overworld (1966), Cugel's Saga (1983) e Rhialto the Marvellous (1984). A trilogia Lyonesse (Lyonesse, The Green Pearl e Madouc, de 1983, 1985 e 1989 respectivamente) e o romance Emphyrio (1969) merecem igualmente destaque na sua vasta bibliografia. Jack Vance faleceu a 26 de Maio de 2013.
  • 1948 - Nasceu Vonda Neel McIntyre, autora norte-americana de ficção científica. Dreamsnake, de 1978, venceu os prémios Hugo e Nébula na categoria de romance; derivou da noveleta Of Mist, and Grass, and Sand, de 1973, que já tinha sido reconhecida com um Nébula. Na sua bibliografia encontra-se a série Starfarers (Starfarers, Transition, Metaphase e Nautilus, de 1989, 1991, 1992 e 1994), que surgiu a partir de uma série televisiva imaginada. McIntyre escreveu ainda vários romances para os universos alargados de Star Trek e Star Wars
30 de Agosto:
  • 1797 - Nasceu Mary Shelley (nome de baptismo: Mary Wollstonecraft Godwin), escritora, dramaturga e ensaísta inglesa cujo romance Frankenstein: or, The Modern Prometheus é hoje considerado como um dos textos fundadores da ficção científica literária. Mary Shelley faleceu a 1 de Fevereiro de 1851.
31 de Agosto:
  • 1965 - Faleceu Edward Elmer Smith, conhecido como E. E. "Doc" Smith", autor norte-americano da "Golden Age" da ficção científica, que conheceu grande popularidade nas décadas de 30, 40 e 50. É considerado um dos fundadores da space opera enquanto sub-género da ficção científica; as séries Skylark e Lensman são da sua autoria. "Doc" Smith nasceu a 2 de Maio de 1890.

Citação fantástica (146)

It was the secrets of heaven and earth that I desired to learn; and whether it was the outward substance of things or the inner spirit of nature and the mysterious soul of man that occupied me, still my inquiries were directed to the metaphysical, or in its highest sense, the physical secrets of the world.

Mary Shelley, Frankenstein, or the Modern Prometheus (1818)

2 de agosto de 2014

Ursula K. Le Guin em destaque na edição 109 da Somnium

Com uma pequena colaboração do Viagem a Andrómeda (fica o agradecimento ao convite). O número 109 da Somnium, a fanzine oficial do Clube de Leitores de Ficção Científica, pode ser descarregado gratuitamente aqui

31 de julho de 2014

Interstellar: Novo trailer

Depois do longo mistério e de dois trailers prometedores, ainda que um pouco duvidosos no que à premissa diz respeito, Interstellar consegue finalmente impressionar com o seu terceiro trailer, divulgado ontem. Não que as dúvidas quanto à premissa tenham sido esclarecidas (isso só o filme o fará); mas porque Christopher Nolan parece apostado, uma vez deixada a Terra apocalíptica para trás, em realizar uma odisseia espacial moderna, rigorosa e memorável, com um drama humano sustentado pelas questões da relatividade. No resto, elogie-se a elegância do trailer: imagens criteriosamente escolhidas, uma boa introdução à premissa, às personagens e ao drama que as envolve, sem spoilers excessivos. Algo tão raro no marketing moderno que, por si só, é digno de notícia.

Interstellar tem estreia prevista para 6 de Novembro em Portugal. Abaixo, o trailer.


Fonte: io9

João Barreiros (1952 - )

No que à ficção científica em língua portuguesa diz respeito, poucos nomes merecem o destaque de João Barreiros, um dos seus mais ilustres praticantes, com uma actividade tão relevante como multifacetada ao longo das últimas quatro décadas - foi (e é) autor, tradutor, crítico, antologista, editor, e, aicma de tudo, fã incondicional do género. Formado em Filosofia, desenvolveu a sua carreira literária em paralelo com a profissão de professor do Ensino Secundário; os seus primeiros contos publicados datam de 1977, numa edição de autor intitulada Duas Fábulas Tecnocráticas. Alguma da sua ficção curta encontra-se reunida em várias colectâneas, como O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994), A Verdadeira Invasão dos Marcianos (2004) e Se Acordar Antes de Morrer (2010); outros contos encontram-se dispersos por várias antologias e publicações profissionais e amadoras. Com Luís Filipe Silva assinou Terrarium: Um Romance em Mosaicos, obra maior (na ambição e no resultado) da ficção científica portuguesa, publicado em 1996 na entretanto extinta colecção "azul" da Caminho. A Bondade dos Estranhos, de 2007, é o seu segundo romance.

Como antologista, organizou Lisboa no Ano 2000, antologia de 2012 publicada pela Saída de Emergência, na qual desenvolveu - e partilhou com outros autores - um universo ficcional retrofuturista de estilo teslapunk sob o mote de uma Lisboa alternativa na viragem do milénio. Na qualidade de editor, teve a seu cargo as (infelizmente curtas) colecções de ficção científica das editoras Clássica e Gradiva; sob a sua orientação foram publicados autores à época inéditos em Portugal como Dan Simmons, William Gibson ou Iain M. Banks. E traduziu romances como The Eye of the Queen, de Phillip Mann, The Song of Kali, de Dan Simmons, e The Forever War, de Joe Haldeman, entre vários outros. As suas críticas literárias foram publicadas em jornais como o Público e O Independente, e nas revistas Ler e Os Meus Livros. Foi um dos membros fundadores da Simetria - Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, e em 1984 (há precisamente 30 anos) participou activamente na organização do célebre Ciclo de Cinema de Ficção Científica, da Cinemateca de Lisboa e da Fundação Calouste Gulbenkian.

João Manuel Barreiros nasceu a 31 de Julho de 1952, e assinala hoje o seu 62º aniversário. 

30 de julho de 2014

Trailers da San Diego Comic-Con (1): Mad Max: Fury Road

A San Diego Comic-Con, que decorreu no fim-de-semana passado, tornou-se no lugar de eleição para os grandes estúdios de cinema afinarem as suas hype machines para os blockbusters da temporada - durante os poucos dias da convenção multiplicaram-se os anúncios, as novidades, os rumores, as não-notícias. E, claro, os inevitáveis teasers, trailers e teaser-trailers (uma inutilidade moderna, uma espécie de versão audiovisual de um tweet). Mad Max: Fury Road foi um dos filmes em destaque, para entusiasmo de muitos - um entusiasmo que, findos os quase três minutos do vídeo, não consigo compreender. Em 2012, Ridley Scott demonstrou que o regresso de um realizador de provas dadas a um dos seus sucessos não é de todo garantia de um novo filme à altura das expectativas (e, acima de tudo, do seu legado); à primeira vista, George Miller parece preparar-se para repetir a lição, com um Mad Max mais ao estilo de Michael Bay do que de outro realizador qualquer - muita pirotecnia, mas com mais aparência do que substância (o estilo naturalmente gritty dos originais era parte indelével do seu apelo). 

Mad Max: Fury Road tem estreia prevista para a Primavera de 2015. Abaixo, o primeiro trailer.


Fonte: IndieWire 

29 de julho de 2014

The Zero Theorem: À espera de um milagre (com spoilers)

Para todos os efeitos, uma nova incursão de Terry Gilliam pelos territórios da ficção científica será sempre um acontecimento, algo a registar e a acompanhar com atenção - trata-se, afinal, do realizador que assinou dois dos mais memoráveis filmes que o género conheceu nos últimos trinta anos, com a burocracia distópica de Brazil e com o pré-e-pós-apocalipse surreal de 12 Monkeys, na sua reinvenção criativa do extraordinário La Jetée, de Chris Marker. Depois de outras aventuras e de outros projectos, Gilliam regressou por fim ao género no qual deixou uma marca indelével, com o propósito de encerrar a sua trilogia temática de contornos orwellianos - e eis que em 2014 chega às salas The Zero Theorem, filme estreado em 2013 no circuito de festivais de cinema, tendo gerado opiniões divisivas desde então.

Uma vez mais, Gilliam coloca o seu protagonista no centro de um futuro caótico e de cariz distópico - e a Jonathan Pryce e a Bruce Willis segue-se Christopher Waltz no papel de Qohen Leth, um programador informático (o termo mais correcto é entity cruncher, que sou manifestamente incapaz de traduzir no contexto) cujo génio no desempenho do seu trabalho só é comparável à reclusão profunda em que vive e à sua absoluta incapacidade de conviver com outras pessoas. Qohen vive numa enorme igreja abandonada e degradada, da qual sai todos os dias contrariado para o seu trabalho diário num cubículo das instalações da megacorporação Mancom - mas sonha com o dia em que possa passar a trabalhar a partir da quietude do seu templo-casa, sem contactos forçados ou distracções desnecessárias.


O seu motivo, porém, é outro: Qohen aguarda com ansiedade pelo retorno de uma chamada telefónica interrompida anos antes, e que acredita conter o sentido para a sua existência. O seu segredo acaba por ser concedido após a ida (a muito custo) a uma festa organizada pelo seu supervisor, Jory (David Thewlis), onde conhece em circunstâncias invulgares Bainsley (Mélanie Thierry) e o líder da Mancom. Livre para trabalhar sossegado e evitar saídas desnecessárias, é é-lhe atribuída uma nova tarefa: resolver o célebre Teorema Zero. Qohen desconhece o propósito da equação, mas dedica-se com afinco ao desafio. Talvez com demasiado afinco.


The Zero Theorem é, inegavelmente, Terry Gilliam em estado puro - nota-se no surrealismo com que constrói cada cena, com que anima cada momento do filme. Afastando-se dos tons sombrios dos filmes anteriores, o cineasta aposta numa profusão caótica de imagens coloridas, intensas, intrusivas - a caminhada de Qohen mostra um mundo coberto por publicidade direccionada, como que uma alusão descontrolada e hiperbólica à omnipresença publicitária de Minority Report. Gilliam não se inibe em momento algum: cada pormenor esconde um easter egg, uma alusão, uma desconstrução, um rosto conhecido. A Igreja de Batman, o Redentor fica na memória, claro - mas há mais, e só por si justificam em pleno uma segunda ou uma terceira visualização.


Mas a construção luminosa e colorida da distopia de The Zero Theorem nem por isso a torna menos opressiva que a de Brazil - ou menos omnisciente. Vemos isso pela intrusão publicitária, claro; e pelo ambiente de trabalho da Mancom, brilhantemente desmontado em duas ou três frases por Qohen; e pelo controlo rígido do teu trabalho a partir de casa (numa crítica acutilante às filosofias laborais contemporâneas), tanto pelos relatórios constantes como pela vigilância intrusiva em todos os recantos da sua casa, num simbolismo tão evidente como interessante pelo seu significado. A sátira prossegue, aguçada no seu tom exagerado (e por vezes grotesco), estendendo-se às relações humanas - a festa de Jory é excepcional pela forma como ilustra as "ligações" contemporâneas, a ilusão do contacto, o isolamento na multidão.


É interessante notar como o argumento de Pat Rushin complementa na perfeição a visão caótica e imaginativa de Gilliam - a vida de Qohen, com a sua espera insana por uma chamada que nem sabe se foi real, é uma entrada directa no absurdo de Samuel Beckett em En Attendant Godot. Mas é a referência directa a The Matrix, facilmente identificável por qualquer fã de ficção científica, que acaba por se revelar fundamental, e não apenas pelo seu carácter de easter egg ou pela consciência que manifesta do género em que todo o filme se insere. Medida com rigor e colocada com toda a intenção, a deixa funciona como um resumo excepcional da personalidade de Qohen através de uma antítese tão inesperada como irónica: enquanto Neo escolheu abandonar o locus amoenus ilusório e virtual para enfrentar uma realidade agreste e ilusória, Qohen mostrou-se disposto a abdicar do locus horribilis da realidade, estranha e indiferente, em busca da ilusão virtual de sossego com Bainsley. Não deixa de ser irónico, porém, que tanto Neo como Qohen apenas possam ser de facto especiais no refúgio virtual, e não no mundo dito real.


Christoph Waltz carrega o filme em ombros sem dificuldade - o seu desempenho como Qohen é excepcional na aparência algo paranóica da personagem, com os seus trejeitos e maneirismos a darem-lhe uma personalidade muito própria. O restante elenco não lhe fica atrás: Mélanie Thierry é soberba como Bainsley, transitando com mestria da versão femme fatale para a desilusão final; David Thewlis está hiperactivo como Jory; e Lucas Hedges é notável como Bob, o filho misterioso e genial do patrão de Qohen. Os cameos são excepcionais - Tilda Swinton, surgindo como a Drª Shrink-Rom (a psiquiatra digital do protagonista), tem uma presença espantosa para quem está confinada a um ecrã minimalista; e Matt Damon emerge com uma interpretação surreal. A banda sonora de George Fentom é a cereja sobre o bolo.


É possível que falte a The Zero Theorem a ironia de Brazil ou a consistência narrativa de 12 Monkeys, com a sua reviravolta final memorável. Nem por isso, porém, surge aqui como uma obra menor da filmografia do cineasta e ex-Monty Python: ciente de que a ficção científica de qualidade acaba por ser tanto ou mais sobre o presente do que sobre o futuro, Gilliam explora as idiossincrasias de um mundo contemporâneo always online através da sua sátira mordaz e colorida, numa distopia garrida cuja luminosidade aparente não esconde por completo quão sombria é. E no meio do caos coloca a tragédia de um homem sozinho, em busca de um significado para algo que, em última análise, pode não ter significado algum. O elenco talentoso eleva a parada; mas é o surrealismo simbólico de Gilliam e Rushin que fazem de The Zero Theorem um dos acontecimentos cinematográficos da ficção científica deste ano. 8.6/10



The Zero Theorem (2013)
Realização de Terry Gilliam
Argumento de Pat Rushin
Com Christoph Waltz, Mélanie Thierry, David Thewlis, Lucas Hedges, Tilda Swinton e Matt Damon
107 minutos

28 de julho de 2014

Comandante Serralves em destaque no SciFi LX 2014

Depois da apresentação no Porto no Central Comics Fest, o projecto Comandante Serralves foi apresentado em Lisboa, na convenção Sci-Fi LX 2014, que decorreu no passado fim-de-semana nas instalações do Instituto Superior Técnico em Lisboa. O projecto, promovido pela Imaginauta, consiste num universo ficcional partilhado de contornos space opera que explora o que se seguiu a uma invasão alienígena na Terra, e à vitória da raça humana - com a divisão entre o carácter uniformizador da Aliança e o individualismo dos rebeldes separatistas, entre os quais figura o protagonista. Serralves é apresentado como um anti-herói de traços pulp, possuindo tecnologia roubada aos alienígenas e muitos truques na manga.

Numa primeira fase, este projecto será materializado na edição do livro Comandante Serralves - Despojos de Guerra, uma edição de autor prevista para Setembro que incluirá sete contos escritos por seis autores diferentes, com o contributo de cada um a influenciar os restantes, dado origem a um todo que se pretende mais coeso do que outros mundos partilhados. Carlos Silva (Métodos de Evasão e Despojos de Guerra), Vítor Frazão (Sinais), Inês Montenegro (Dogson), Ana Ferreira (Das Eigentum), Joel Puga (A Guerra Esquecida) e Rui Leite (Static Falls) são os autores dos sete contos, que exploram diferentes facetas e premissas neste universo futurista. 

Na apresentação, que contou com a presença de Carlos Silva, Vítor Frazão, Inês Montenegro e Rui Leite, os autores deixaram bem vincado o carácter colectivo e deste universo ficcional, aberto a quem quiser dar o seu contributo - sem se restringir à sua componente literária. Ilustração, gaming e até música também serão vertentes a explorar. Para já, porém, aguarda-se o lançamento de Despojos de Guerra, uma muito bem-vinda entrada na ficção científica nacional.

27 de julho de 2014

Citação fantástica (145)

In games there are rules, but in life the rules keep changing. You could put your bishop out there to mate the other guy’s king, and he could lean down and whisper in your bishop’s ear, and suddenly it’s playing for him, and moving like a rook. And you’re fucked.

Kim Stanley Robinson, Red Mars (1993)

26 de julho de 2014

M. John Harrison (1945 - )

Em 1975, o britânico M. John Harrison publicou The Centauri Device, uma space opera escrita com o propósito de subverter as convenções do (sub)género. Para todos os efeitos, Harrison foi bem sucedido na subversão - mas aquele que hoje considera ser o seu pior romance tornou-se na pedra angular da space opera moderna, que autores como Iain M. Banks e Alastair Reynolds desenvolveram a partir dos anos 80, influenciados por aquele futuro gritty, com o seu protagonista improvável e com a sua trama ambígua e desconcertante. 

Mas o percurso de Harrison começa muito antes de revolucionar a space opera. Publicado pela primeira vez nas páginas da New Worlds de Michael Moorcock em 1966, deu um contributo inestimável para o movimento "New Wave", que viraria a ficção científica do avesso no final dos anos 60. De autor publicado passou a colaborador regular, crítico e editor. Em 1971 viu publicado o seu primeiro romance, The Commited Man - e no mesmo ano publicou ainda The Pastel City, título de abertura da série Viriconium e hoje um clássico da fantasia literária. A Storm of Wings, de 1980, e In Viriconium, em 1982, deram continuidade a este universo ficcional - e a colectânea Viriconium Nights, de 1985, reuniu boa parte dos contos nos quais Harrison explorou outras facetas de Viriconium. Após longo interregno, regressou à ficção científica em 2002 com Light, primeiro livro da trilogia Kefahuchi Tract; seguiram-se Nova Swing em 2006 e Empy Space em 2012. 

Michael John Harrison nasceu em Rugby, no Warwickshire (Reino Unido) em 1945, e celebra hoje o seu 69º aniversário. 

23 de julho de 2014

Gardner Dozois (1947 - )

Ainda que tenha vencido em duas ocasiões o Prémio Nébula na categoria de "Melhor Conto" - em 1983 com o conto The Peacemaker e em 1984 com Morning Child -, e que tenha uma produção assinalável de ficção curta, compilada desde o final dos anos 70 em várias colectâneas, Gardner Dozois é conhecido no meio da fantasia e da ficção científica sobretudo pela sua longa e reconhecida actividade como crítico, antologista e editor. A conquista de 15 Prémios Hugo em 17 anos na categoria de "Melhor Editor Profissional" reconhece em pleno a sua passagem pela revista Asimov's, a qual ajudou a fundar em 1977 e em cujas páginas foram publicados alguns dos mais conceituados autores que o género conheceu nas últimas quatro décadas. 

Como antologista, a actividade de Dozois é igualmente vasta - para além de inúmeras antologias individuais, editou entre 1989 e 2001 as antologias da Asimov's, e desde 1984 tem vindo a editar a série de antologias anuais The Year's Best Science Fiction - num total de 33 volumes publicados, com as 31 edições anuais e as duas edições comemorativas do vigésimo aniversário publicadas em 2005 e 2007. Entre 1982 e 2007 co-editou com Jack Dann a série de antologias temáticas da Ace Books, dedicadas a temas tanto de fantasia como de ficção científica, E nos últimos anos tem colaborado com George R. R. Martin em vários projectos temáticos que reúnem alguns dos melhores autores contemporâneos, dentro e fora do género. Songs of Dying Earth, de 2009, foi a primeira colaboração de ambos, num tributo ao popular universo ficcional de Jack Vance; seguiram-se Warriors (2010), Songs of Love and Death (2010), Down These Strange Streets (2011), Old Mars (2013), Dangerous Women (2013) e Rogues (2014). Na calha está já o próximo projecto, intitulado Old Venus, com lançamento previsto ainda para este ano.

Gardner Raymond Dozois nasceu em Salem, no Massachusetts, a 23 de Julho de 1947, e comemora hoje o seu 67º aniversário.

Convenção SciFi LX 2014 arranca no próximo fim-de-semana

Uma breve interrupção nas férias do blogue: vai decorrer no próximo fim-de-semana a convenção Sci-Fi LX 2014, no campus de Lisboa do Instituto Superior Técnico. Serão dois dias dedicados à ficção científica nos seus vários formatos, num evento que contará com apresentações e palestras sobre literatura e cinema, exibição de filmes clássicos do género (a saber: Dune, Alien, Akira, Metropolis, Blade Runner, Solyaris e Star Wars: A New Hope), e com áreas dedicadas aos jogos, a demonstrações e a outras actividades. Para além dos filmes, merecem destaque no Domingo a palestra de Bruno Martins Soares sobre "Estruturas Narrativas Modernas" e a apresentação do projecto Comandante Serralves.

A programação completa da Sci-Fi LX 2014 pode ser consultada na página oficial da convenção.

Fonte: Sci-Fi LX

16 de julho de 2014

Big Hero 6: Primeiro trailer

É interessante notar como o sucesso do Marvel Cinematic Universe tornou possível a adaptação de outras propriedades intelectuais menos conhecidas da Marvel - Guardians of the Galaxy é já um dos mais antecipados blockbusters deste Verão, e no Outono estreará Big Hero 6, a primeira produção animada da Disney de uma propriedade intelectual da Marvel. No caso, da banda desenhada criada em 1998 por Steven T. Seagle e Duncan Rouleau. O primeiro trailer foi ontem disponibilizado:


Fonte: io9

15 de julho de 2014

Demolition Man: A utopia do século XXI segundo os (loucos) anos 90 do século XX

Podemos começar pelo óbvio: avaliando a ficção científica dos anos 90, será sem dúvida difícil colocar Demolition Man (1993) entre as suas peças mais completas, memoráveis e duradouras. Falamos, afinal, da década que deu à extensa filmografia do género obras incontornáveis como Terminator 2: Judgment Day, Jurassic ParkGhost in the Shell e The Matrix, e clássicos de culto como Total Recall, Dark CityTwelve Monkeys ou Mars Attacks!. De certa forma, este filme de Marco Brambilla encaixa-se numa certa "tradição" iniciada ainda nos anos 80 que colocou as estrelas de acção (Jean-Claude Van Damme, Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone et al) em narrativas inspiradas no imaginário e nas convenções da ficção científica - encontramos viagens no tempo, ciborgues, inteligências artificiais - mas que servem para pouco mais do que um cenário para a pancadaria, bem regada de testosterona, que os actores proporcionam. Mas a verdade é que, com todas as suas limitações e com todos os seus defeitos (a submissão absoluta aos piores clichés do cinema de acção será porventura o mais evidente), Demolition Man acaba por se elevar um pouco acima da mediocridade hiper-violenta de outros filmes seus contemporâneos.

Não que não seja violento. Longe disso: ainda que lhe falte o gore de outras produções da época, Demolition Man inclui violência mais do que suficiente, e uma ou duas cenas que podem pertencer a uma categoria intitulada nightmare fuel. O que o distingue, e em última análise o eleva, acaba por ser a sua construção utópica e distópica, o tom mais ligeiro e o carácter profundamente meta-referencial do argumento, ciente das convenções da ficção científica e hábil a utilizá-las tanto para efeitos cómicos como para colorir um futuro especulativo que, à distância de duas décadas, se apresenta mais profético do que se poderia imaginar à primeira vista.


As primeiras imagens, com o Hollywood sign em chamas perante uma cidade escura e arruinada, são todo um tratado: Los Angeles encontra-se mergulhada no caos e na violência - e para fazer frente à escalada destrutiva, as autoridades viram-se obrigadas a recorrer a métodos mais extremos. John Spartan (Sylvester Stallone) é um dos polícias mais duros da cidade, não olhando a meios para levar os criminosos à justiça - e encontra-se obcecado com a captura de Simon Phoenix (Wesley Snipes), um dos mais perversos e violentos marginais daquela região. O seu plano ousado para capturá-lo acaba por resultar, mas com um preço elevado - a morte (aparente) de várias dezenas de reféns. Tanto Spartan como Phoenix acabam por ser condenados, mas não são presos - naquela sociedade, a pena é cumprida em congelação criogénica, com implantes cibernéticos para reeducar os condenados com vista à sua reintegração futura na sociedade.


O problema surge quando Simon Phoenix, "descongelado" para a sua audição de liberdade condicional em 2033, acaba por se evadir, deixando um rasto de morte e destruição à sua passagem - numa sociedade utópica assente em ideais de paz e de compreensão, na qual as armas são peças de museu (literalmente) e o conceito de violência não é de todo compreendido. Incapaz de lidar com o criminoso a monte, a polícia vê-se obrigada a "descongelar" Spartan, o polícia de outro tempo que conseguiu capturar Phoenix. Ao acordar, porém, Spartan depara-se com uma sociedade que lhe é de todo estranha: um mundo higienizado e ingénuo, governado pela tecnologia de vigilância e controlado pelas boas intenções do "salvador" Raymond Cocteau; um mundo onde tudo é proibido, até o contacto físico. Um mundo que Spartan, o antepassado violento daquela civilização, se apressa a descrever como "fascista". 


"Send a maniac to catch one". A frase é de Spartan, que se vê obrigado a recorrer aos seus antigos métodos - ironicamente mais próximos do seu inimigo do que da sociedade que está a tentar proteger - para deter a ameaça de Phoenix. A acompanhá-lo está Lenina Huxley (Sandra Bullock), uma agente policial fascinada pelos anos 90 e desejosa de mais acção no seu trabalho. É sobretudo a partir da sua interacção com Huxley que Spartan se vai apercebendo das idiossincrasias daquele tempo tão diferente do seu; por seu lado, Huxley vai descobrir quão errada e injusta é a sociedade que integra, e que jurou proteger. 


É certo que, na maior parte do tempo, Demolition Man oscila entre uma sátira que se aproxima mais de galhofa do que de um olhar cínico sobre a evolução e as idiossincrasias daquela sociedade e a acção violenta com a qual se construiu a carreira cinematográfica do action hero Stallone. O protagonista faz o papel do costume, ainda que com mais ligeireza do que é habitual (ou do que era habitual naqueles anos) e com um guião repleto de deixas hilariantes; Sandra Bullock, no papel da agente Lenina Huxley, entra um pouco em overacting (e é divertido hoje vê-la a interpretar daquela maneira), mas nem por isso deixa de transmitir muito bem a relativa inocência da sua personagem, nascida numa sociedade esterilizada e incapaz de compreender, por mais que estude, o tempo do seu novo parceiro. E Wesley Snipes, pelos vistos, terá recebido carta branca para fazer o que quisesse - e o resultado é uma interpretação tão over the top que quase salta para fora do ecrã (e que funciona tão bem). 


A ligeireza do tom não é de todo uma fraqueza do filme - o futuro no qual Spartan e Phoenix vão acordar revela-se fascinante pela forma como utiliza convenções e ideias tradicionais da ficção científica para algo mais do que o mero enquadramento das sequências de acção entre as personagens de Stallone e Snipes. Demolition Man constrói com humor, mas também com algum cinismo, um futuro credível e hoje estranhamente presciente: uma sociedade higienizada e "limpa", pacificada de forma artificial, com assimetrias sociais profundas e enxotadas para debaixo do tapete (a metáfora é mais literal do que parece), incapaz de se desviar da norma vigente, imposta sobre todos com a melhor das intenções. Ao ver hoje aquele futuro smoke-free e insosso reconhecem-se logo algumas tendências muito presentes (não precisámos de chegar a 2033 para a paranóia higienista). O contraste de Spartan naquele tempo não podia ser mais claro - e ilustra na perfeição como é fácil se passar da boa intenção para a radicalização absoluta. 


Igualmente interessante à distância de vinte (e um) anos é a vertente de antecipação tecnológica de Demolished Man. Vemos Lenina Huxley a comunicar com o seu superior a partir de um tablet que transporta pela rua, em ligação permanente. O seu carro de polícia não só se conduz sozinho como possui um sofisticado sistema de navegação que funciona por algo na prática idêntico ao GPS (até na voz irritante que dá as indicações). A identificação e monitorização de cada cidadão por via de um chip - ainda não chegámos a tal ponto, mas para lá caminhamos. Sem esquecer, claro, a sátira (e problematização) aos relacionamentos intermediados por tecnologia - algo hoje banalíssimo, ainda que não no formato exacto que o filme antecipa. 


E, claro, merece destaque o carácter meta-referencial que é transversal a todo o filme - e que se revela sobretudo em tiradas humorísticas que os fãs de ficção científica notam logo à primeira. O nome "Lenina Huxley" carece de explicação, e não surpreende que a dada altura alguém se refira àquele tempo com a expressão "it's a brave new world". Será talvez difícil não sorrir quando se vê Simon Phoenix no arsenal do museu a interrogar-se: "Wait a minute, this is the future. Where are the phaser guns?" Ou, alguns momentos depois, "C'mon, HAL, where are the god damn guns?", numa referência a 2001. Ou mesmo quando John Spartan diz para o jovem polícia que o acompanha Hey, Luke Skywalker, use the Force!". Isto, note-se, sem incluir outras tiradas pop - há alusões a Rambo (claro), e há uma série de easter eggs dos anos 80 e 90 no gabinete e no apartamento de Huxley. 


Há muitas - muitas - formas de imaginar como Demolition Man poderia ser um filme bem melhor do que é, doseando de forma mais equilibrada o exagero sem abdicar das suas duas mais relevantes qualidades: a sua perspectiva satírica e o seu carácter meta-referencial. Nem por isso, porém, deixa de ser um filme interessante, surpreendentemente divertido, que em momento algum se leva a sério - e que convida o espectador, de forma tão descontraída como violenta, a mostrar como o Inferno se encontra de facto cheio de boas intenções, e como a utopia de uns será sempre a distopia de outros. Com um humor interessante (a questão das três conchas continua a ser uma das melhores piadas recorrentes do cinema de ficção científica; e a distorção da ideia de ressocialização criogénica com as habilidades de Spartan é hilariante) e uma trama de acção mais ou menos convencional, Demolished Man é um produto típico dos anos 90, com todas as suas qualidades e defeitos - mas, à distância, tem muito mais conteúdo do que poderia parecer à data da sua estreia. 07/10

Demolition Man (1993)
Realizado por Marco Brambilla
Argumento de Peter M. Lenkov, Robert Reneau e Daniel Waters
Com Sylvester Stallone, Wesley Snipes, Sandra Bullock, Nigel Hawthorne, Bob Gunton, Benjamin Bratt, Glenn Shadix, Dennis Leary e Grand L. Bush
115 minutos