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10 de julho de 2014

Guillermo Del Toro: "It was hard to create a world that did not come from a comic book, that had its own mythology, so we had to sacrifice many aspects to be able to cram everything in the first movie" (entrevista)

Entre a série televisiva The Strain, com estreia marcada nos Estados Unidos para o próximo fim-de-semana, e pós-produção do seu próximo filme, Crimson Peak (com estreia prevista para o Outono do próximo ano), Guillermo Del Toro não terá decerto mãos a medir com todos os projectos em que está envolvido - e a confirmação da continuidade de Pacific Rim em filme, série de animação e banda desenhada decerto irão mantê-lo bem ocupado ao longo dos próximos anos. Em entrevista a Michael Calia para o blogue Speakeasy (do The Wall Street Journal), Del Toro fala dos seus vários projectos, reabrindo a porta para a sua adaptação cinematográfica de At the Mountains of Madness, de Lovecraft (ainda que em PG-13) e explicando o rumo a seguir com o universo ficcional de Pacific Rim. Três excertos:
Michael Calia/Speakeasy: With this support from Legendary, do you have any hope that your adaptation of H.P. Lovecraft’s “At the Mountains of Madness” will be made? 
Guillermo Del Toro: That’s exactly what I discussed with them. I said to them, that’s the movie that I would really love to do one day, and it’s still expensive, it’s still … I think that now, with the way I’ve seen PG-13 become more and more flexible, I think I could do it PG-13 now, so I’m going to explore it with [Legendary], to be as horrifying as I can, but to not be quite as graphic. There’s basically one or two scenes in the book that people don’t remember that are pretty graphic. Namely, for example, the human autopsy that the aliens do, which is a very shocking moment. But I think I can find ways of doing it. We’ll see. It’s certainly a possibility in the future. Legendary was very close to doing it at one point, so I know they love the screenplay. So, we’ll see. Hopefully it’ll happen. It’s certainly one of the movies I would love to do. 
MC/SE: If it doesn’t work out, what are the chances we see (Lovecraft’s) Cthulhu appear as a kaiju in a “Pacific Rim” movie? 
GDT: (laughs) Not really. I think there’s a really strong possibility we can do it (“At the Mountains of Madness”) at Legendary because now they are at Universal, and Universal, you may remember, almost greenlit the movie. The fact that we now have two studios together that love the material, and if they support each other, they are risking a lot less. It would be great to do it, but I’ve understood that you don’t plan your career, it just happens. 
MC/SE: Without spoiling anything, what can fans expect from “Pacific Rim 2″? 
GDT: We are three years away, so to spoil anything would be fantastically silly of me. What I can tell you: [screenwriter Zak Penn] and I really went in, we started with [screenwriter Travis Beacham] about a year and a half ago, kicking ideas back and forth. And, admittedly, I said to Zak, let’s keep kicking ideas till we find one that really, really turns the first movie on its ear, so to speak. (…) It was hard to create a world that did not come from a comic book, that had its own mythology, so we had to sacrifice many aspects to be able to cram everything in the first movie. Namely, for example “the Drift” (editor’s note: the neural link between pilots of the giant robots, or jaegers), which was an interesting concept. [Then there was] this portal that ripped a hole into the fabric of our universe, what were the tools they were using? And we came up with a really, really interesting idea. I don’t want to spoil it, but I think at the end of the second movie, people will find out that the two movies stand on their own. They’re very different from each other, although hopefully bringing the same joyful giant spectacle. But the tenor of the two movies will be quite different.
A entrevista completa pode ser lida na íntegra no Speakeasy.

Fonte: Speakeasy

9 de julho de 2014

Guardians of the Galaxy: Novo trailer

A hype machine da Marvel continua a funcionar a todo o gás. Com estreia prevista para o início de Agosto, Guardians of the Galaxy acaba de ter mais um trailer divulgado, com trechos já conhecidos combinados com imagens novas que mostram um pouco mais dos protagonistas e dos vilões - e que realçam o tom aventuresco e o humor da space opera, mais do que qualquer ligação aos comics

Guardians of the Galaxy tem estreia prevista para 7 de Agosto em Portugal.


Fonte: io9

8 de julho de 2014

The Dark Crystal: Quando a jornada do herói encontra as criaturas de Jim Henson

Será porventura fácil - demasiado fácil, dirá talvez quem tiver idade e memória para se lembrar -, perante os avanços prodigiosos das computer generated images, esquecer que houve um tempo em que os filmes de fantasia e de ficção científica eram feitos com outra tecnologia de ponta - com marionetas, maquetas, criações mecânicas, cenários reais, efeitos práticos, e uma dose inexcedível de talento, criatividade e esforço para tornar as imagens da imaginação em algo tangível. E nessa medida, submersos pelos efeitos especiais hiper-realistas alimentados pela cenografia virtual, pela imagem visual e pela motion capture, será talvez fácil para o público contemporâneo arrumar na prateleira do "datado" o espantoso legado de Jim Henson, um dos mais originais, criativos e audazes criadores que o entretenimento audiovisual (podemos falar tanto de televisão como de cinema) alguma vez conheceu. Muito se poderia dizer sobre Henson e sobre o seu célebre "Creature Shop", ainda hoje responsável pela animação de muitas criaturas do cinema fantástico (Where the Wild Things Are, de Spike Jonze, foi uma das mais recentes produções a contar com a colaboração do Jim Henson Creature Shop), e sobre programas clássicos como The Mupper Show ou Sesame Street, com as suas inesquecíveis marionetas. Talvez um dia me aventure nesse tema; hoje, porém, merece destaque uma das suas longas metragens, um clássico de culto de fantasia sem um único ser humano à vista: The Dark Crystal


Concebido com o propósito de se afastar do humor e da ligeireza das suas outras produções de se aproximar um pouco mais das raízes mais sombrias dos contos de fadas originais, The Dark Crystal coloca a sua história num mundo novo e original - Thra, um planeta iluminado por três sóis e alimentado pela magia de um "cristal encantado". O design conceptual e de personagens é de Brian Froud, cujas ilustrações de fantasia capturaram a atenção de Henson. Toda a cenografia do filme é magnífica, dos espaços exteriores aos vários níveis do castelo dos Skeksis - e, claro, ao fascinante planetário de Aughra, em movimento constante. Mas onde a imaginação de Froud se excede é na criação das várias raças que povoam o mundo de Thra - dos Místicos pacíficos e em harmonia com a natureza aos vilões Skeksis, num misto de ave com réptil; dos Podlings pigmeus aos Gelflings, parecidos com elfos clássicos; e sem esquecer as inúmeras criaturas que se encontram naquela natureza. 


O design de Froud encontrou na realização e no engenho de Henson e do seu parceiro Frank Oz os seus complementos perfeitos - e onde The Dark Crystal se eleva é na sua ilimitada criatividade visual, que dá uma vida exuberante a todo aquele mundo. Todos os espaços estão povoados por criaturas selvagens - as florestas têm as suas feras, os seus monstros e os seus bichos de pequena dimensão, que vemos escapulir-se à passagem dos protagonistas; nas masmorras do castelo vêem-se pequenas criaturas rastejantes a fugir da luz para a escuridão. E os vários povos de Thra ganham vida com um magnífico trabalho de marionetas construídas com um nível de detalhe impressionante - são absolutamente realistas na sua aparência fantasiosa (e por vezes quase assustadora), e com uma caracterização individual muito inteligente. Em termos estéticos e visuais, The Dark Crystal foi revolucionário na sua época, na primeira metade dos anos 80; e hoje, mais de três décadas volvidas, está muito, muito longe de se poder considerar, em boa fé, datada. 


A estes elementos junta-se um voice acting excepcional e uma banda sonora impecável de Trevor Jones, perfeita no tom e na atmosfera que evoca - forças mais do que suficientes para compensar as fraquezas de The Dark Crystal, que acabam por surgir na sua vertente narrativa. Aqui, The Dark Crystal segue em larga medida os pergaminhos da fantasia literária na vertente Tolkieniana - um jovem de uma raça mais ou menos insignificante na luta de poder por aquele mundo descobre que é a pedra angular de uma profecia antiga, tendo de partir numa demanda mais ou menos sinuosa para impedir que o Mal triunfe e restaurar a paz e o equilíbrio natural originais. No caso, o protagonista é Jen, o último dos Gelflins, criado pelos sábios Místicos; e segundo uma profecia antiga, Jen terá de encontrar um fragmento do Cristal Encantado e restaurar a pureza original do Cristal quando os três sóis se alinharem - caso falhe, as trevas tomarão conta do mundo. 


É possível traçar o paralelismo com The Lord of the Rings ou encaixar as várias etapas do enredo no monomito de Joseph Campbell; em termos gerais, Henson não se afastou muito das convenções estabelecidas no género, e utiliza alguns recursos mais ou menos tradicionais para enquadrar toda a trama - a narração inicial é disso exemplo, estabelecendo a história de Thra e o conflito que lhe é nuclear (e ainda que os diálogos possam ser, a espaços, um pouco fracos, a narração introdutória é surpreendentemente boa na simetria que estabelece, deixando adivinhar um dos temas centrais do filme sem no entanto ser óbvia a esse respeito). Mas o arrojo conceptual que Henson e Oz empregaram na componente visual e no worldbuilding de The Dark Crystal acaba também por se reflectir em alguns aspectos da narrativa; e isso nota-se não só em alguns pormenores da premissa (a dualidade do conflito original), mas também - sobretudo, diria - nas personagens.


Aqui chegados, é interessante notar como os papéis clássicos são ao mesmo tempo seguidos e subvertidos - e a subversão é feita sobretudo através do elemento do género. Jen, o protagonista e centro da profecia que coloca toda a trama em marcha, não é o herói convencional - é hesitante, trapalhão, pouco dado à aventura, e a sua inegável coragem apenas se revela no último momento. A demanda, essa, prossegue pela influência de duas outras personagens, ambas femininas. 


A primeira, Aughra, é uma profetisa e astrónoma de origens desconhecidas, temperamento irascível e lealdade imprevisível (a sua neutralidade também tem muito que se lhe diga), que vive num planetário majestoso no topo de uma montanha, a partir do qual estuda o movimento dos astros e tece as suas profecias. A segunda é Kira, uma Gelfling orfã (como Jen), criada pelo povo Podling e com o dom de falar com os animais - para além de possuir a coragem, a determinação e a abnegação que normalmente são associadas ao herói. Em momento algum assume a posição de damsel in distress - é através dos seus dons e do seu engenho que se salva dos vários perigos que enfrenta, e é através da sua coragem que Jed consegue avançar na sua demanda. 


Com o cinema fantástico contemporâneo absolutamente dependente dos efeitos especiais computorizados, mais sofisticados a cada blockbuster, capazes de recriar com um realismo por vezes excessivo tudo aquilo que se consiga imaginar, torna-se ainda mais interessante rever The Dark Crystal, trinta anos volvidos desde a sua estreia - e apreciar esta relíquia do cinema pré-CGI, quando os efeitos práticos, as maquetas, as marionetas e os cenários reais trabalhados em pormenor eram a norma, e quando brevíssimas sequências de animação serviam para mostrar aquilo que de outro modo seria impossível de reproduzir. Visualmente assombroso pelo engenho com que constrói todo um mundo credível e familiar na sua estranheza, The Dark Crystal poderá limitar-se a contar uma história mais ou menos típica de fantasia, mas fá-lo com uma imaginação e com um charme que são raríssimos de encontrar hoje em dia no género. Já não se fazem mesmo filmes assim. 8.2/10


The Dark Crystal (1984)
Realizado por Jim Henson e Frank Oz
Argumento de Jim Henson e David Odell
Com Jim Henson, Kathryn Mullen, Frank Oz, Billie Whitelaw, Steve Whitmire e Dave Goelz
93 minutos

5 de julho de 2014

António de Macedo (1931 - )

Arquitecto de profissão e cineasta de vocação, António de Macedo revelou-se num dos mais irreverentes praticantes do cinema português. Pioneiro do "Cinema Novo", construindo uma obra cinematográfica conceptualmente arrojada tanto em termos formais como em termos temáticos. E se os primeiros fazem do conjunto da sua obra cinematográfica uma das mais originais que a sétima arte conheceu no nosso país, os segundos valeram-lhe problemas com a censura durante o Estado Novo, e um certo afastamento do mainstream que, porventura, terá contribuído para a falta de apoios nos últimos anos da sua carreira. Com A Primeira Mensagem, curta de 1961, abre a sua aventura pelo cinema - e Domingo à Tarde, de 1965, foi a primeira de várias longas-metragens, entre as quais se destacam Sete Balas para Selma (1967), Nojo aos Cães (1970), A Promessa (1972), O Rico, o Camelo e o Reino, ou o Princípio da Sabedoria (1975) ou Os Abismos da Meia-Noite (1982). Chá Forte com Limão, de 1993, marca o fim da carreira cinematográfica, ao longo da qual explorou conceitos e ideias do fantástico; O Emissário de Khalom, de 1987, será disso o exemplo perfeito, sendo uma das raras longas-metragens de ficção científica que o cinema português conheceu.

Mas a obra de António de Macedo não se limita ao cinema (e à televisão), possuindo ainda uma obra de grande relevância no contexto do fantástico literário português. Os Limites de Rudzky, de 1992, reúne três peças de ficção curta; seguiram-se os romances Contos de Androthelys (1993), Sulphira & Lucyphur (1995), A Sonata de Cristal (1996), Erotosofia (1998), O Cipreste Apaixonado (2000), As Furtivas Pegadas da Serpente (2004), a colectânea A Conspiração dos Abandonados (2007) e O Sangue e o Fogo (2011). A sua actividade escrita relevou-se também importante no ensaio, e ainda passou pela dramaturgia. 

António de Macedo nasceu em Lisboa a 05 de Julho de 1931, e celebra hoje o seu 83º aniversário.

1 de julho de 2014

Spirited Away: Idade da inocência

Não se pode dizer que em 2001 Hayao Miyazaki fosse um desconhecido no Ocidente - ainda que a maior parte da sua obra talvez não tivesse alcançado naquela altura a popularidade que merecia, o êxito de Mononoke-hime cinco anos tornou-o definitivamente num nome a acompanhar no que ao cinema de animação dizia respeito. Mas o sucesso internacional absoluto chegaria naquele Verão com a estreia de Spirited Away, filme que se tornaria num clássico instantâneo do cinema de animação (japonesa e não só) e num dos mais aclamados filmes da primeira década do novo milénio. O Óscar para Melhor Filme de Animação em 2003 (o filme só estreou nos Estados Unidos em 2002) confirmou o êxito internacional do filme que ainda hoje, com quase treze anos volvidos desde a sua estreia, permanece de pedra e cal no topo do box office japonês.

O sucesso, diga-se de passagem, é merecido: é possível que Spirited Away não seja o melhor filme de Miyazaki (pessoalmente, julgo que a ambiguidade e a densidade de Mononoke-hime tornam o filme de 1997 mais completo), será sem dúvida o exemplo perfeito da imaginação inesgotável do realizador/argumentista/animador, aqui recorrendo à vasta mitologia japonesa para dar forma a uma fábula moderna sobre a identidade, a maturidade e alguns paradoxos do Japão moderno (que não serão porventura exclusivos do Japão...).


Para todos os efeitos, Spirited Away (o título inglês é perfeito no trocadilho que faz entre o significado de to spirit away e os temas e as imagens do filme) é a história de Chihiro, uma jovem rapariga de dez anos que, quando o filme começa, se mostra tristíssima pela mudança de casa em curso, que a afastará da sua antiga escola e de toda a gente que conhecia. Durante a viagem de carro, o seu pai engana-se no caminho, e a família acaba por encontrar, numa mata onde se diz viverem espíritos antigos, a entrada de um parque de diversões abandonado, nunca concluído - um sinal dos tempos, após o fim do "milagre japonês" na economia, que conduziu ao declínio do país e ao desencantamento do seu povo.


No parque de diversões encontram vários restaurantes que parecem estar abandonados - mas que nem por isso deixam de ter imensa comida. Movidos pela gula, os pais de Chihiro decidem entregar-se a um almoço invulgar, deixando-a a explorar as imediações sozinha. Chihiro chega a a uma ponte que leva a um estranho edifício junto à costa - e lá encontra um misterioso rapaz chamado Haku, que a avisa para regressar antes que anoiteça. Um aviso que chega tarde: Chihiro encontra os seus pais transformados em porcos, e toda aquela zona aparentemente abandonada revela-se ser um mundo diferente daquele a que pertence - e ao qual não consegue regressar.


Presa no mundo dos espíritos, Chihiro segue as indicações de Haku e vai procurar um trabalho naquele estranho edifício, que descobre ser uma casa de banhos onde os espíritos podem relaxar e purificar-se. Chihiro começa por pedir trabalho a Kamaji, responsável pelas caldeiras de aquecimento de água com o seu pequeno exército de susuwatari (bolas andantes de fuligem); lá conhece também Lin, que trabalha nos banhos. E ambos acabam por encaminhá-la para a dona do estabelecimento: a bruxa Yubaba, responsável pela transformação dos seus pais, que lhe vai propor um contrato muito especial. 


O mundo dos espíritos que Miyazaki conjura é espantoso pela sua imensa diversidade de criaturas (passe a designação) fantásticas reminiscentes do folclore japonês e das mitologias orientais - do No-Face que segue Chihiro ao Stink Spirit que ela se vê obrigada a servir, sem esquecer todos os outros hóspedes da casa de banhos que se vislumbram, e que deixam antever todo um mundo encantado que se estende para lá do prado verdejante do parque de diversões e do mar infinito que se estende para lá do edifício. A animação, colorida e pormenorizada, é a todos os níveis soberba, conferindo a todo aquele universo um certo tom de encantamento que o torna mais verosímil. 


Chihiro, renomeada Sen pelo contrato com Yubaba, movimenta-se com cada vez mais habilidade por entre os espíritos e os humanos que os servem, com a sua inocência desarmante e a sua bondade natural. Mas aquele mundo não é o seu, e é justamente essa inocência que será posta à prova numa aventura para recuperar a sua identidade, perdida para Yubaba, os seus pais, e para regressar ao mundo a que pertence. Para tal, porém, terá de perceber quem é Haku - se os rumores nada abonatórios que correm na casa de banhos sobre ele são verdadeiros, ou se existe um Haku real que ninguém conhece.


Para todos os efeitos, Spirited Away é uma história sobre o deslocamento, sobre a estranheza, e sobre a nossa definição de nós mesmos perante a mudança - Chihiro, deslocada do seu mundo natural, acaba num mundo espiritual ao qual pertence ainda menos, e é na memória e no reconhecimento da sua identidade que está a chave para conseguir sair daquele lugar. É um filme sobre o crescimento e a maturidade - na prática, é essa a jornada pessoal de Chihiro, que se vê obrigada (em mais do que um sentido) a se adaptar a situações completamente novas para alcançar aquilo que deseja. Mas é também possível descortinar nas entrelinhas outras mensagens de Miyazaki - a problematização ecológica, tão cara à sua filmografia, surge aqui em dois momentos cruciais; e os temas da ganância, da corrupção e do declínio social surgem associados a vários momentos e a algumas personagens.


Não é difícil perceber por que motivo Spirited Away ainda hoje é o filme mais bem sucedido de sempre no Japão, e um dos seus filmes mais conhecidos para lá do arquipélago - para todos os efeitos, Miyazaki criou uma fábula moderna no rito de passagem da jovem Chihiro, num mundo secundário fascinante e ricamente povoado por toda a sorte de criaturas fantásticas; e, com a subtileza que lhe é reconhecida (já demonstrada em Mononoke-hime), embebeu a aventura na aparência simples de Chihiro/Sen temas e mensagens de uma maior complexidade e ambiguidade. É um clássico instantâneo - um dos melhores filmes de animação alguma vez realizados -, e um marco numa carreira recheada de clássicos como a de Miyazaki. 8.5/10

Sen to Chihiro no kamikakushi / Spirited Away (2001)
Realização e argumento de Hayao Miyazaki
Com Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Bunta Sugawara, Mari Natsuki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi, Yumi Tamai, Tatsuya Gashuin e Akio Nakamura
125 minutos

28 de junho de 2014

Guillermo del Toro confirma continuidade de Pacific Rim



O anúncio foi feito ontem pelo próprio Guillermo del Toro - Pacific Rim irá ter uma sequela em filme com estreia prevista para 2017. E mais do que isso: a banda desenhada Tales From Year Zero, do argumentista Travis Beecham, também irá ser continuada, e será produzida ainda uma série animada neste universo ficcional. O que parece indicar que os resultados da bilheteira internacional (leia-se: não norte-americana) foram suficientes para convencer os responsáveis da Legendary Pictures a dar continuidade ao projecto de del Toro.

Recebo a notícia com um misto curioso de satisfação e frustração. Por um lado, Pacific Rim - com todas as suas falhas e limitações - foi, de longe, o filme que mais gostei de ver em cinema nos últimos anos: duas horas de diversão pura, com uma história positiva como poucas na ficção científica contemporânea. Mais do que isso, por entre a espectacularidade das batalhas entre Jaegers e Kaiju, Pacific Rim deixa antever uma sociedade profundamente alterada após anos de invasões sucessivas, num mundo apocalíptico que se percebe ser rico, detalhado e muito interessante - e é excelente que del Toro, Beecham e Zak Penn tenham uma oportunidade de o aprofundar. Por outro lado, não deixa de ser mais uma sequela num mercado saturadíssimo de continuações e derivações - e por mais interessante que Pacific Rim 2 se venha a revelar, nem por isso deixa de ser um tanto ou quanto desnecessário, dada a forma como o filme original consegue contar a sua história sem deixar pontas soltas ou mesmo um fio condutor evidente para alimentar eventuais continuações. Dito de outra forma: Pacific Rim dispensava tornar-se numa franchise. Sobretudo quando permanece em águas de bacalhau (ou, para usar o termo de Hollywood, em development hell) o terceiro e último capítulo da (excelente) trilogia Hellboy, previsto no argumento dos dois filmes anteriores mas nunca produzido. 

Mas, por mais que tenha gostado do filme original, preferia ver novos projectos, originais ou adaptados, de de Toro. Enfim, retire-se a boa notícia do caso: mais kaiju serão sempre bem-vindos. 

Fonte: io9 / The Verge

24 de junho de 2014

X-Men: Days of Future Past: Regresso ao futuro

Em 1981, com Chris Claremont, John Byrne e Terry Austin a cargo do título The Uncanny X-Men, foi publicada uma das histórias mais populares da célebre equipa de mutantes heróis (e vilões): Days of Future Past. Como o título indica, trata-se de uma história de viagens no tempo que arranca num futuro apocalíptico no qual os mutantes são perseguidos pelas Sentinelas e enviados para campos de concentração próprios - aqueles que sobrevivem ao confronto com aquelas máquinas concebidas com o propósito único de caçar mutantes. Em desespero de causa, Kitty Pride utiliza os seus poderes para fazer a sua consciência regredir no tempo e, ocupando o seu corpo jovem, impedir o acontecimento que determinou aquele futuro sombrio: o assassinato do Senador Robert Kelly pelos mutantes liderados por Mystique. A premissa assenta na ideia de que uma alteração no passado provocaria alterações radicais no futuro - conceito explorado de forma mais ou menos recorrente na ficção científica (e que, no cinema do género, viria a conhecer duas entradas muito populares alguns anos mais tarde com o Terminator de James Cameron e Back to the Future de Robert Zemeckis), e que aqui é utilizado de forma inteligente. E que Bryan Singer e Matthew Vaughn aproveitaram para, num único filme, unir as duas continuidades narrativas e temporais da franchise no cinema, aproveitando uma oportunidade única para juntar, no mesmo blockbuster, dois dos melhores elencos que as adaptações cinematográficas de comics já conheceram. O resultado foi o muito aguardado X-Men: Days of Future Past.

Situando-se como sequela directa tanto a Last Stand como a First Class, Days of Future Past começa num futuro apocalíptico no qual as Sentinelas construídas pelas Trask Industries caçam e aniquilam os mutantes - isto numa primeira fase, pois cedo os alvos daqueles monstros mecânicos passa também para seres humanos comuns que revelem potencial de ter descendentes com mutações, ou que simplesmente simpatizem com a causa mutante (o paralelo com o Holocausto é evidente). Numa sequência inicial que prima pela eficácia, Singer e Vaughn mostram quão violento e desolador é aquele futuro, e quão desesperada é a luta dos sobreviventes.


Com os seus números desfalcados por várias mortes, Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) colocaram de lado as suas diferenças para conseguirem sobreviver de forma radical. Os seus passos convergem com um outro grupo de mutantes, quem tem sobrevivido graças aos poderes únicos de Kitty Pride: quando as Sentinelas os detectam, Colossus (Daniel Cudmore), Warpath (Booboo Stewart), Sunspot (Adan Canto), Blink (Bingbing Fan) e Iceman (Shawn Ashmore) combatem enquanto Pryde envia a consciência de Bishop (Omar Sy) para o passado, alertando o grupo antes de o ataque ter lugar - permitindo-lhes assim mudar para uma localização temporariamente mais segura. 


Quando os dois grupos se encontram na China, Xavier propõe uma derivação radical desta ideia: enviar alguém até aos anos 70 para impedir o acontecimento que acabou por conduzir àquele futuro: o assassinato de Bolivar Trask (Peter Dinklage) por Mystique (Jennifer Lawrence). Os poderes regenerativos de Wolverine - e mais do que isso, convenhamos, o protagonismo de Hugh Jackman - tornam-no no emissário ideal, capaz de sobreviver aos rigores de um recuo temporal de décadas; e Logan vai acordar no seu corpo de 1973, com a missão insólita de reunir os desavindos Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) para poder parar Mystique. Mas entre um Professor perdido nas suas próprias mágoas e um Magneto obcecado com os seus sonhos de supremacia mutante, a missão de Wolverine não se vai revelar nada fácil - sobretudo quando o desastre paira sobre o futuro de todos. 


Para todos os efeitos, Days of Future Past é um dos melhores filmes da franchise: se o elenco da trilogia original era bom e o de First Class não ficou atrás, juntar os dois num mesmo filme acaba por se revelar numa aposta mais do que ganha, com as interpretações sólidas e credíveis a que os vários autores já habituaram o seu público. Singer e Vaughn conseguem recuperar para o passado vários elementos que fizeram de First Class um filme tão interessante, como o entrecruzar da História alternativa com a História real (visível, por exemplo, no envolvimento de Erik no assassinato de Kennedy ou na recruta de Havok e de outros mutantes para a guerra no Vietname) enquanto acenam em várias ocasiões, e frequentemente com muito humor, à continuidade narrativa tanto da trilogia como de First Class


Também em termos visuais Days of Future Past merece destaque pela forma como mostra o futuro negro dos mutantes, e os espantosos combates dos sobreviventes contra umas Sentinelas monstruosas, capazes de se adaptar a todos os poderes pelos genes de Mystique. As sequências com Blink são especialmente evocativas (a fazer lembrar quase uma test chamber de Portal), sincronizadas na perfeição para mostrar os poderes espantosos dos seus companheiros - e a sua derradeira inutilidade perante a força das Sentinelas. Tal como a sequência de câmara lenta de Quicksilver no resgate a Magneto - executada na perfeição e divertidíssima de acompanhar. No resto, importa sublinhar o contraste do futuro sombrio com o estilo retro das cenas dos anos 70 - a diferença é notória, e funciona muito bem.


Mas todos estes pontos positivos não evitam que Days of Future Past acabe por ser vítima da sua ambição em alguns momentos - sobretudo no desfecho, que para todos os efeitos é um reset funcional à trilogia original (quem desejou que Last Stand nunca tivesse acontecido vai ter motivos para celebrar). As consequências de todo o plano para Wolverine nunca ficam claras, e persiste a sensação de que toda a gente avançou no tempo na nova continuidade, menos ele; e o seu passado, por via de um pormenor intrigante após o clímax, acaba por desafiar o que fora estabelecido em filmes anteriores. Também é curioso notar como o desenvolvimento do enredo, a espaços feito de forma tão inteligente, acaba por se deixar cair na armadilha da conveniência (a fraqueza momentânea de Wolverine ao ver Stryker); e não deixa de ser lamentável que toda a introdução dos mutantes no Vietname acabe por se revelar um beco sem saída, com aquelas personagens a não terem qualquer relevância após o fim daquela cena. E, como não podia deixar de ser, se avançamos para as questões de continuidade narrativa com a trilogia original a coisa pode ficar mesmo confusa, com a ressurreição por explicar de Xavier a ser apenas a ponta do icebergue (afinal, Last Stand aconteceu antes de não ter acontecido).


Com uma estética irrepreensível e um estilo notável na antítese que estabelece entre dois momentos tão distintos no tempo e no tom, X-Men: Days of Future Past estabelece-se aos poucos como um dos melhores filmes de uma franchise que já vai longa: combina dois elencos notáveis de forma satisfatória, desenvolve uma trama ambiciosa que, não estando isenta de problemas, acaba por se revelar bastante satisfatória, e denota um apuro visual excepcional na utilização de efeitos especiais em prol da narrativa. Os fãs mais irredutíveis do comic original poderão encontrar alguns problemas na adaptação (um Wolverine martelado na viagem no tempo e sem a sua cena icónica com Colossus e a Sentinela), mas nem por isso o resultado deixa de ser um filme muito consistente na sua apresentação e no seu desenvolvimento. E, pasme-se, consegue ser relevante na sua qualidade de prequela, sequela e reboot funcional de uma franchise cinematográfica. O que, convenhamos, não é para todos. 7.9/10

X-Men: Days of Future Past (2014)
Realizado por Bryan Singer
Argumento de Matthew Vaughn, Simon Kinberg e Jane Goldman
Com Patrick Stewart, Ian McKellen, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Ellen Page, Nicholas Hoult, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Omar Sy, Evan Peters, Bingbing Fan, Josh Helman, Daniel Cudmore, Adan Canto, Booboo Stewart e Mark Camacho
131 minutos 

20 de junho de 2014

This happening world (16)

We're losing all our Strong Female Characters to Trinity Syndrome. Tasha Robinson explora neste interessante artigo publicado no portal The Dissolve a constante secundarização de personagens femininas com potencial no fantástico cinematográfico contemporâneo - e dá como exemplo a protagonista feminina de The Matrix (interpretada por Carrie-Anne Moss), que abre o filme com uma sequência de acção inesquecível para, a cada cena, perder importância para as personagens masculinas até ao ponto em que se vê dependente delas. De acordo com Robinson, o mesmo aconteceu com Mako Mori em Pacific Rim, Carol Marcus em Star Trek: Into Darkness - ou com as mais recentes Tauriel em The Hobbit, Wyldstyle em The Lego Movie e Valka em How to Train Your Dragon 2. Mas por que motivo personagens femininas complexas, competentes e, acima de tudo, interessantes, continuam a passar para segundo plano?

No The Guardian, Sandra Newman faz uma apologia estranha, para não dizer polémica, à ficção científica literária clássica - sobretudo àquela ficção científica denegrida de forma consistente na crítica e na academia pelas suas personagens pouco densas, pela sua pobreza estilística, pelo sexismo dos tempos e pela submissão da riqueza estilística às premissas e às ideias. É uma ideia curiosa e polémica, sobretudo se pensarmos que a ficção científica moderna continua a tentar libertar-se desse estigma, não inteiramente verdadeiro - e mesmo Newman, na sua tentativa de o demonstrar, acaba por cair na falácia de cherry picking. Nem por isso, porém, deixa o artigo de ser pertinente, e sobretudo por uma ideia: os conceitos continuam, ou deviam continuar, a ser o centro de todo o género. 

Ainda no The Guardian (era bom termos em Portugal um jornal de referência a falar tanto de ficção científica, não era?), Nicholas Barber augura o ressurgimento da space opera no cinema com o muito antecipado Guardians of the Galaxy - e traça a história do sub-género, desde o seu apogeu em Star Trek e Star Wars nos anos 60 e 70 até ao seu declínio nas duas últimas décadas. 

E a propósito de space operao que significa ao certo o adiamento da estreia de Jupiter Ascending, o próximo blockbuster de ficção científica de Andy e Lana Wachowsky, da época alta de Julho para a época baixíssima de Fevereiro? O tema é explorado neste artigo da Variety, mas sem respostas definitivas: os exemplos de outros filmes recentes que viram a sua estreia adiada, como o aclamadíssimo Gravity ou o não tão aclamado 300: Rise of an Empire, acabam por não permitir grandes extrapolações. 

Anne Elizabeth Moore, no Salon, coloca uma pergunta interessante: Why is the horror genre particularly horrible for women. E, mais do que dar uma resposta, explora o tema à luz de acontecimentos recentes e antigos na sociedade norte-americana. 

17 de junho de 2014

Guardians of the Galaxy: Novo trailer

Enquanto a comunidade geek se entretém a discutir à exaustão cada não-notícia sobre os próximos filmes de Star Wars, a Marvel continua a afinar a sua máquina de hype para Guardians of the Galaxy, que deverá a dada altura cruzar-se com a continuidade narrativa de The Avengers. Enquanto esse momento não chega, porém, o próximo filme de James Gunn parece apostado em recuperar a veia de aventura tão característica da space opera - e, a avaliar pelas imagens já reveladas nos vários trailers, tenciona fazê-lo num tom mais próximo de Firefly do que de Star Wars (o que, a confirmar-se, será sem dúvida uma excelente notícia).

Guardians of the Galaxy estreia a 1 de Agosto nos Estados Unidos. Abaixo, o trailer.


Fonte: io9

X-Men: First Class: Regresso às origens

Os sucessos recentes tanto da trilogia Dark Knight de Christopher Nolan como do Marvel Cinematic Universe legitimaram em definitivo as adaptações cinematográficas dos comics de super-heróis não como algo ligeiro e mais ou menos inconsequente, mas como uma forma de entretenimento de dimensão global, capaz de dar origem a filmes que se afastaram do tom camp que marcou boa parte das transposições de banda desenhada para o grande ecrã até à viragem do milénio (os dois Batman de Tim Burton não contam, como é bom de ver). Dado o sucesso de ambas as franchises, torna-se algo fácil desculpar algumas fraquezas mais ou menos evidentes (o desfecho do aclamadíssimo The Dark Knight é muito duvidoso em termos narrativos, e The Dark Knight Rises nunca se eleva acima da mediocridade) e a alguns acidentes de percurso (recordemos, se tivermos estômago para tanto, o Hulk de Ang Lee); tal como é fácil esquecer, perante o marketing milionário, a bilheteira estrondosa e os fanboys entrincheirados, que a afirmação dos comics no cinema antecede em alguns anos o Batman de Nolan e o Iron Man de Favreau: deu-se, sim, na viragem do milénio pela mão de Sam Raimi e Bryan Singer, com Spider-Man e X-Men, respectivamente, com o primeiro a recuperar o sentido de aventura e de diversão do género sem abdicar da qualidade, e com o segundo a mostrar como uma história de banda desenhada pode, em termos narrativos e simbólicos, ser muito mais do que isso. 

É certo que ambas as as franchises se afundam ao terceiro filme depois de um segundo capítulo sólido (a simetria é curiosa), mas o ponto hoje não é esse. Em 2000, X-Men surpreendeu pela forma como conseguiu adaptar uma banda desenhada vasta, complexa e com uma quantidade de personagens de destaque muito superior àquela que é recomendável no cinema. Como é bom de ver, para esse sucesso não terá decerto sido alheio o elenco notável que Singer conseguiu reunir, com Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Halle Berry e Anna Paquin, entre outros. Para fãs e aficionados seria sem dúvida fácil de imaginar que, num eventual reboot da série, dificilmente seria possível reunir um elenco de talento comparável. Mas quando Matthew Vaughn pegou na franchise em 2011 e se propôs explorar as origens de Charles Xavier e de Erik "Magneto" Lensherr (e companhia) em X-Men: First Class, provou ser possível não só fazer com que um relâmpago caia duas vezes no mesmo sítio, como também conjurar um relâmpago mais brilhante à segunda tentativa. 


Se na trilogia original de Singer os papéis de Professor X e de Magneto ganharam uma gravitas muito própria com o carisma de Patrick Stewart e de Ian McKellen, neste regresso ao passado temos James McAvoy e Michael Fassbender a interpretar as versões jovens daqueles dois carismáticos mutantes - e ambos mostram estar à altura do desafio, tanto nas suas cenas em conjunto como nos seus momentos individuais. Sobretudo Fassbender, magnífico como um Magneto sedento de vingança pelos traumas da sua infância às mãos do nazi Sebastian Shaw (Kevin Bacon). Mas a surpresa acaba por chegar em Raven/Mystique, que ganha uma nova e extraordinária vida com Jennifer Lawrence. 


Em termos narrativos, First Class enquadra as suas várias personagens no contexto histórico (verídico) da época - uma noção que, não sendo nova, se revela especialmente bem sucedida a reforçar a verosimilhança daquelas estranhas personagens com poderes espantosos, que para todos os efeitos mal compreendem. O filme abre com um Erik Lensherr ainda criança, deportado para um campo de concentração nazi controlado por Sebastian Shaw. Ao aperceber-se dos poderes involuntários daquela criança, Shaw manipula-o com violência para o ensinar a controlar o seu dom. Mais ou menos ao mesmo tempo, o jovem telepata Charles Xavier conhece uma mutante azul capaz de assumir a forma de quem quiser: Raven. 


Anos mais tarde, enquanto Charles constrói uma carreira académica de prestígio (sempre com o apoio da sua irmã adoptiva), uma investigação da CIA conduzida por Moira MacTaggert (Rose Byrne) leva-a a descobrir que Shaw, com um grupo de mutantes às suas ordens, está a manipular os Estados Unidos e a União Soviética para desencadear um conflito nuclear de escala mundial. Com o objectivo de saber mais sobre os mutantes, MacTaggert chega até Charles - e juntos encontram Erik no decurso da sua cruzada de vingança. Percebendo que Shaw é uma ameaça muito maior, Charles e Erik começam, com o apoio de uma divisão da CIA, a encontrar outros jovens mutantes - num conflito que irá escalar até um confronto naval ao largo de Cuba, com consequências potencialmente devastadoras.


A forma como Vaughn e os argumentistas Jane Goldman, Zack Stentz e Ashley Edward Miller tecem a história das origens dos mutantes e das facções de Charles Xavier e Magneto (a divisão que encontramos na trilogia original) com o contexto histórico da Crise dos Mísseis de Cuba é sem dúvida habilidosa no enquadramento e no tom que confere ao filme, enquanto torna os mutantes mais verosímeis ao colocá-los como actores da História. Dito isto, o argumento de First Class, ainda que sólido durante a maior parte do tempo, não deixa de acusar algumas fraquezas - com a conversão de Magneto e Mystique a acontecerem de forma demasiado rápida, sem tempo suficiente para se estabelecerem como inevitáveis para quem estiver a entrar na franchise naquele momento (sobretudo no caso de Mystique).


No resto, First Class funciona como a prequela praticamente perfeita - recupera os motivos que tornaram a trilogia original numa franchise de sucesso enquanto se reinventa com um novo tom e um novo estilo, e revitaliza as personagens numa história de origens bem contada, com um módico de coerência e um elenco talentoso a ancorá-la. E nem se esquece de deixar algumas referências de passagem: a brevíssima cena com o Wolverine de Hugh Jackman é notável pelo seu sentido de humor e pela forma como, com uma simplicidade desarmante, estabelece o nexo de continuidade entre futuro e passado. Depois da desilusão de X-Men 3: Last Stand, foi sem dúvida um regresso auspicioso à forma; e, mais do que isso, um regresso que permitiu abrir inúmeras potencialidades para o futuro da série. Como se viria a ver, aliás, em Days of Future Past. 7.5/10

X-Men: First Class (2011)
Realizado por Matthew Vaughn
Argumento de Jane Goldman, Zack Stentz e Ashley Edward Miller a partir dos comics de Jack Kirby e Stan Lee
Com James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon, Rose Byrne, January Jones, Zoë Kravitz, Nicholas Hoult Lucas Till, Matt Craven e Oliver Platt
132 minutos

    10 de junho de 2014

    Edge of Tomorrow: Elogio da repetição

    À primeira vista, seria fácil tomar Edge of Tomorrow, a adaptação cinematográfica do realizador Doug Liman ao romance All You Need Is Kill, de Hiroshi Sakurazaka, por mais um filme de ficção científica de acção dedicado ao tema recorrente da invasão alienígena que a Humanidade tem de repelir a qualquer custo - e decerto com a ajuda de um herói relutante a espaços, mas determinado quando tal é exigido. O casting de Tom Cruise, já com experiência como herói de acção, para o papel principal até poderia ser um indicador desse acomodar à fórmula de filmes como Independence Day; e, para todos o efeitos, nem falta ao filme a power armor indispensável a qualquer aproximação que se preze à ficção científica militar. Mas nem o romance de Sakurazaka nem o filme de Liman se prestam ao cliché - o herói relutante mas determinado dá lugar a William Cage, um oficial sem experiência de combate mas com muita experiência de propaganda, que se vê atirado com um bando de inadaptados em power armor para um autêntico Dia D futurista (a referência é mais do que evidente, e em alguns momentos o filme evoca, na sua estética própria, o frenesim desesperado dos instantes iniciais Saving Private Ryan); e o desembarque na Normandia resulta num massacre que, longe de originar uma vitória decisiva, resulta numa derrota devastadora, à qual não escapa o próprio protagonista, morto num confronto com uma criatura alienígena pouco depois de conseguir (finalmente!) activar as suas armas.


    ... para acordar no dia anterior aos pés do Sargento Farell (um hilariante Bill Paxton), num Heathrow convertido em base militar, despromovido e entregue à recruta básica nas vésperas da batalha que a Humanidade espera poder virar o curso da guerra contra os invasores alienígenas conhecidos como Mimics. O espanto de Cage é palpável - por momentos, espectador e personagem ponderam a possibilidade de algo ali ser um sonho. Ou um pesadelo, quando dá por si a reviver a experiência traumática do desembarque na praia, o massacre subsequente, e a sua própria morte... para acordar de novo aos pés de Farell, num loop temporal interminável, algo reminiscente do célebre Groundhog Day que obrigou o Phil Connors de Bill Murray a reviver o mesmo dia vezes sem conta.  


    Mas onde Groundhog Day se centra na aprendizagem do protagonista de ser uma pessoa melhor, Edge of Tomorrow dá ao seu protagonista a possibilidade de experienciar o derradeiro método de aprendizagem por tentativa e erro: sempre que morre, acorda no dia anterior com todas as memórias do dia seguinte, que para todos os efeitos ainda não aconteceu - o que lhe permite tentar de alguma forma tirar partido da situação. Perante a impossibilidade de evitar ir para a frente de batalha, Cage aprende a utilizar as armas e procura salvar os seus companheiros da morte certa que já presenciou; e numa das batalhas vai salvar Rita Vrataski (Emily Blunt), a heroína de guerra responsável pela única vitória da Humanidade na sua guerra contra os Mimics - e a única pessoa que lhe poderá dar algumas respostas quanto ao seu improvável dom.


    Aqui chegados, é bom de ver que a lógica se aproxima mais dos videojogos do que do clássico de Harold Ramis: o protagonista tem uma missão e um parceiro, avança até certo ponto, morre, e regressa ao último save, que é no dia anterior - e todos os amigos e inimigos fazem respawn na antecipação da próxima batalha. Como é evidente, o conceito tem um vasto potencial cómico, que Doug Liman sabe explorá-lo sem o tornar cansativo ou repetitivo (imagine-se!): é divertidíssimo ver o William Cage de Tom Cruise ser morto de forma sucessiva, antes, durante e depois da batalha na costa de França, aprendendo o suficiente para chegar um pouco mais longe a cada tentativa - qual protagonista de um videojogo em hard mode


    Um filme mais sério - mais grimdark, na tendência recente e já enjoativa do fantástico moderno - acabaria por explorar o desgaste do processo, mas Edge of Tomorrow, num rasgo de brilhantismo raro nos blockbusters contemporâneos, opta antes por dar destaque ao carácter humano e dramático de Cage, afastando-se a cada batalha e a cada morte da covardia e da "chico-esperteza" que lhe eram características para adquirir um pouco de abnegação e de inteligência prática. O momento - quão longo? Nunca o sabemos - que passa com Rita numa casa abandonada longe da praia é ilustrativo desse crescimento; e a revelação que lá tem lugar mostra quão distante Cage está daquele homem manhoso que é apresentado nas primeiras cenas do filme.


    Nada disto, como é bom de ver, seria possível de alcançar se os actores não estivessem à altura; mas Tom Cruise e Emily Blunt encarnam na perfeição as suas personagens. Cruise, herói para toda a obra, consegue transmitir na perfeição a imagem do covarde astuto habituado a utilizar todos os meios que tem ao seu dispor para evitar o perigo - e transporta a sua personagem numa evolução dramática assinalável em menos de duas horas. E Emily Blunt, enfim, é Emily Blunt - começa a ser recorrente vê-la a roubar as suas cenas com interpretações desarmantes (é vê-la em Looper e The Adjustment Team); a forma como dá em simultâneo força e fragilidade à sua Rita Vrataski é notável, tornando-a numa personagem muito mais complexa, e por isso muito mais interessante, do que a "Full Metal Bitch" (o pun não é meu) que aparenta ser na propaganda militar; e a química que estabelece com Cruise transporta o filme tanto nos seus momentos mais meditativos (e ainda há alguns) como nos mais frenéticos. Para além, claro, de ficar espantosa na sua power armor


    Algumas críticas apontam a falta de motivação dos invasores alienígenas como uma fraqueza de Edge of Tomorrow. É um facto que pouco se sabe acerca dos Mimics: as suas origens e os seus propósitos permanecem, para todos os efeitos, envoltos em mistério. Isso, no entanto, está longe de ser um problema - e em termos de lógica interna do filme, explica-se facilmente pelo facto de ninguém saber a resposta a tais questões. São extraterrestres e deram início a uma invasão hostil do planeta - o tema é mais do que recorrente na ficção científica, e só passará de moda no dia em que houver um primeiro contacto pacífico real


    De resto, Edge of Tomorrow não é tanto uma história sobre uma invasão alienígena, como The War of the Worlds; tão-pouco tem como tema (principal ou secundário) a tentativa de compreender o invasor, como Ender's Game; é, sim, um filme sobre a aprendizagem violenta daquelas personagens, pela utilização de um poder que utilizam sem compreender - pela necessidade de fazer o impossível, e prevenir um massacre que já viram como inevitável. A progressiva empatia de Cage para com Vrataski e para com o bando de inadaptados que constituem o Pelotão J ilustra isso na perfeição.


    Mais do que o filme de acção competentíssimo que é, Edge of Tomorrow revela-se um blockbuster raro pela inteligência do seu argumento, ao evitar as armadilhas da repetição enquanto premissa e ao ser capaz de dosear com habilidade a adrenalina do combate, o humor que o conceito permite e personagens credíveis com um crescimento assinalável, tornadas interessantes sobretudo pelas suas imperfeições. Não deixando de fazer sentido, a sinopse "Groundhog Day" meets "Starship Troopers" acaba por pecar por falta de rigor - Edge of Tomorrow é tudo isso, mas é também mais do que isso. No que aos blockbusters de verão diz respeito, é difícil pedir muito mais, ou muito melhor. 8.2/10

    Edge of Tomorrow (2014)
    Realização de Doug Liman
    Argumento de Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth a partir do romance All You Need Is Kill de Hiroshi Sakurazaka
    Com Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton e Jonas Armstrong
    113 minutos

    4 de junho de 2014

    This happening world (14)

    Será a série Mad Men ficção científica? A proposta poderá à primeira vista parecer arrojada (para não dizer disparatada), mas Nathan Mattise, do Ars Technica, explica neste artigo intrigante por que motivos podemos ver o drama de época criado por Matthew Weiner como ficção científica - e a sua análise baseia-se tanto nas múltiplas referências encontradas ao longo das sete temporadas da série como na própria personalidade e na evolução do protagonista, o já célebre Don Draper interpretado por Jon Hamm. 

    Na Amazing Stories, Steve Fahnestalk continua a sua exploração dos "juveniles" de Robert A. Heinlein - e desta vez, para além da referência aos elementos mais datados de alguns desses livros, entra no território das visões políticas e sociais de Heinlein, e da validade ou pertinência de quaisquer extrapolações simplistas levantadas a partir das suas personagens. E fala, de raspão, da bibliografia em dois volumes escrita por William Patterson, e que será decerto uma leitura fascinante para os apreciadores de Heinlein.

    Estreia de Jupiter Ascending adiada de Julho de 2014 para Fevereiro de 2015 - o que não augura de bom para a space opera de Andy e Lana Wachowsky. A razão oficial para esse adiamento é a necessidade de mais tempo para trabalhar nos efeitos especiais; mas dada a passagem do filme do Verão, época alta também para as grandes estreias, para o período mais ou menos morto de Inverno, traz nas entrelinhas uma enorme falta de confiança da Warner Bros. no projecto. (via io9)

    Enquanto Star Citizen conhece alguns atrasos, Elite: Dangerous avança para a fase beta. O massively multiplayer online space simulator de Chris Roberts, que até esta data já angariou mais de 44 milhões de dólares em crowdfunding, adiou uma vez mais o lançamento do módulo de dogfighting para "eliminar alguns bugs" - pelo que os apoiantes do projecto ainda terão de esperar mais um pouco para finalmente testar o combate espacial em Star Citizen. Entretanto, o desenvolvimento de Elite: Dangerous, o MMO space sim de David Braben (também financiado por crowdfunding, ainda que longe dos patamares de Star Citizen) continua a avançar a bom ritmo, e já está disponível acesso a uma fase beta "premium". (via Ars Technica)

    A icónica sequência de abertura de Ghost in the Shell foi recriada em live action por uma equipa de 30 artistas digitais, num tributo em nada relacionado com a adaptação cinematográfica da Dreamworks. O vídeo completo ainda não está disponível; mas no io9 é possível ver alguns stills

    3 de junho de 2014

    Godzilla: Dos monstros e dos homens

    Ainda que seja consideravelmente mais relevante no Oriente do que no Ocidente, o subgénero kaiju da ficção científica cinematográficos - os filmes com grandes monstros, se quisermos simplificar - sempre gozaram de um estatuto icónico muito próprio, derivado sobretudo do primeiro e mais célebre de todos os kaiju: Godzilla. Criado por Ishiro Honda em 1954 para o filme homónimo dos estúdios da Toho como uma metáfora dos traumas nucleares de Hiroshima e Nagasaki, Godzilla deu origem a uma longa e proveitosa franchise, figurando o "Rei dos Monstros" no papel principal ou dando destaque a outras criaturas gigantescas, como Mothra ou Rodan - e cedo se tornou num fenómeno de culto e num ícone popular e inconfundível em todo o mundo, pela devastação causada e pelos seus efeitos especiais inconfundíveis. A sua passagem para uma grande produção de Hollywood seria sempre uma questão de tempo - e foi Roland Emmerich, realizador de destruição massiva lui même, o primeiro a fazê-la, naquele filme sofrível de 1998 que nem o carisma de Jean Reno conseguiu salvar. Uma tentativa falhada, porém, não foi suficiente para afastar o interesse de Hollywood (até porque a bilheteira não correu mal); e eis que chegamos a 2014 e ao Godzilla de Gareth Edwards, que regressa às origens do monstro de Ishiro Honda num blockbuster ambicioso e meta-referencial.

    Deixemos o óbvio fora do caminho: em termos visuais, o Godzilla de Edwards é magnífico, uma actualização excepcional do vetusto e pesado monstro pré-histórico para os mais modernos efeitos especiais, numa escala poucas vezes encontrada no género - é a maior versão de Godzilla, e sem dúvida um dos maiores kaiju que o género já ofereceu. A sequência final de São Francisco é soberba pela dimensão e pela energia do combate entre monstros primevos (mesmo nunca alcançando a adrenalina pura de Pacific Rim, para recordar uma das mais recentes entradas do género); e toda a cena do HALO jump ao som do Requiem de Ligeti (que Kubrick já usara em 2001) será sem dúvida uma das mais memoráveis de todos os blockbusters de 2014. 


    E há, diga-se de passagem, alguma originalidade na devastação: ainda que São Francisco seja arrasada com metódica regularidade no grande ecrã, Las Vegas e Honolulu - sobretudo Honolulu - não gozam da mesma sorte e não se encontram entre os destinos mais populares de desastres naturais ou humanos. Edwards gere as aparições dos monstros com parcimónia - vários confrontos são atirados para off-screen após breves instantes, deixando antever pela destruição e por imagens fugazes a dimensão da escaramuça. A técnica, reconheça-se, é moderadamente eficaz na construção de suspense e na gestão de expectativas para o showdown final, mas não deixa de transmitir a sensação de que Godzilla acaba por ser uma personagem secundária no seu próprio filme (sim, a crítica tem sido recorrente - e, neste ponto, inteiramente justa).


    Isso deve-se à aposta no ângulo humano e do drama familiar para ancorar esta história de kaiju - o que não seria um problema se o argumento estivesse à altura da sua própria ambição, e da qualidade do elenco que Edwards tem à sua disposição. Neste ponto, Godzilla começa bastante bem, com o obcecado Joe Brody de Bryan Cranston a revelar-se numa personagem imperfeita e fascinante, num pai ausente que nunca recuperou da sua culpa de sobrevivente do desastre que se abateu sobre a central nuclear que geria no Japão e que ceifou a vida da sua companheira e mãe do seu filho. 


    Mas o seu protagonismo cedo passa para o filho, Ford (Aaron Taylor-Johnson), marine e pai de família regressado da guerra; e a partir desse momento, todo o ângulo humano do filme se esvai entre a irrelevância das personagens interpretadas por actores e actrizes com o talento de Ken Watanabe (um trauma andante), Elizabeth Olsen (reduzida a lágrimas e pouco mais) e Sally Hawkins (a cargo de metade dos infodumps do filme). O tema da reunificação de uma família separada pelo aparecimento dos MUTO e de Godzilla, e ameaçada pela devastação causada pelos monstros, acaba por não se revelar capaz de transportar a narrativa de forma eficiente; e, em última análise, nenhuma personagem para além de Joe Brody deixa uma marca positiva - e activa - no filme.


    A ambição deste Godzilla revela-se não só na tua tentativa de se focar no drama humano perante uma devastação sem quartel, mas também na exploração uma metáfora de desequilíbrio natural (sem grande sentido na forma como é apresentada) e na aproximação à realidade contemporânea. Sem o temor nuclear que revestiu o Godzilla original de um carácter simbólico muito próprio, Edwards vale-se da iconografia de destruição deste novo milénio - do 11 de Setembro ao tsunami de 2004 e ao desastre de Fukushima de 2011, as alusões não são em momento algum subtis, mas carecem de um enquadramento simbólico que lhes dê um significado específico. Acto humano intencional? Erro humano? Desastre natural inevitável? Não o sabemos, e não encontramos no argumento respostas esclarecedoras. 


    O regresso do rei dos kaiju ao grande ecrã é sempre de saudar - e Gareth Edwards consegue neste seu Godzilla equilibrar a reverência aos filmes clássicos com as exigências mínimas do blockbuster moderno. Infelizmente, a espectacularidade da batalha final entre Godzilla e o casal de MUTO, e a tremenda destruição causada não é suficiente para compensar a mensagem confusa e pouco coerente, as metáforas desconexas e a falta de personagens com relevância e densidade (e a inexistência de uma personagem feminina relevante), e as várias falhas na lógica interna do filme. Em última análise, Godzilla proporciona duas horas de suspense moderado e de entretenimento bastante razoável - mas acaba por faltar kaiju neste filme de kaiju. 6.9/10

    Godzilla (2014)
    Realização de Gareth Edwards
    Argumento de Max Borenstein e Dave Callahan
    Com Aaron Taylor-Johnson, Bryan Cranston, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, Sally Hawkins, Juliette Binoche, C.J. Adams, David Strathairn e Richard T. Jones
    123 minutos

    27 de maio de 2014

    Watchmen: A armadilha da adaptação

    Até há alguns anos, Watchmen figuraria decerto em qualquer lista de obras literárias cuja adaptação para o cinema seria um projecto impossível - a complexidade narrativa profundamente ancorada no próprio formato de comic assegurou, em termos práticos, a impossibilidade da transposição da graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons para outro meio. O que, diga-se de passagem, não impediu que esse projecto passasse anos no development hell de Hollywood, do final dos anos 80 até meados da primeira década do novo milénio, com realizadores tão distintos como Terry Gillian ou Darren Aronofsky a surgirem associados a ele. Quem no entanto acabou por concretizá-lo foi Zack Snyder, saído do sucesso comercial da adaptação de 300, de Frank Miller; perante a recusa antiga de Alan Moore de escrever ele mesmo um argumento - o autor, aliás, foi mais longe e recusou qualquer associação com o filme -, o argumentista Alex Tse pegou no guião que David Hayter preparara em 2001 e o filme pôde por fim avançar. Com estreia em 2009: Watchmen, a adaptação impossível da mais aclamada das graphic novels.

    Será talvez interessante notar que em 2009, e apesar do grande sucesso comercial e moderado sucesso crítico das franchises X-Men,  Spider-Man e Batman (de Christopher Nolan), as adaptações da banda desenhada norte-americana de super-heróis para o cinema ainda não se tinha tornado no fenómeno avassalador e de escala planetária que é hoje, apenas cinco anos volvidos. Nesse sentido, é possível que Watchmen, com a sua narrativa meta-referencial e a sua desconstrução de todo o género, tenha conhecido a sua adaptação ao grande ecrã demasiado cedo - antes de todo o género ao qual pertence, e que desmonta a cada momento, se ter afirmado fora das pranchas e de se ter tornado num fenómeno da cultura popular contemporânea. Também por isso (ainda que não apenas por isso) o filme de Snyder dificilmente poderia almejar uma importância sequer próxima daquela que a obra original de Moore e Gibbons.


    Claro que, em termos práticos, não foi  por isso. Como em qualquer adaptação, Snyder e Tse tiveram de optar por excluir muitos elementos narrativos que jamais poderiam funcionar em filme. De fora ficaram os Tales of the Black Freighter e o seu estranho reflexo da narrativa principal; de fora ficaram ainda os inúmeros pormenores que Moore e Gibbons colocaram entre capítulos em forma de clippings e outros recortes para dar mais verosimilhança a toda a história, e a toda a História alternativa que é construída a partir da premissa de que os super-heróis mascarados foram legalizados no final dos anos 30 para combater o crime. E de fora ficou também a vasta trama lateral que conduz ao desenlace inesquecível que Alan Moore cunhou num rasgo da mais absoluta genialidade - toda a conspiração surge simplificada, ainda que funcional (a solução de Snyder, longe de ser perfeita, não deixa de ser airosa). 


    O que não quer dizer que Snyder não tenha encontrado ele mesmo algumas soluções interessantes - e até bastante inteligentes. A mais óbvia será a do genérico inicial, que surge logo após o homicídio de Edward Blake (Jeffrey Dean Morgan), cena que coloca em movimento toda a trama. Ao som da magnífica The Times They Are a-Changing, de Bob Dylan, a sequência inicial enquadra na perfeição toda a história ao apresentar, de forma condensada mas nem por isso menos eficaz, toda a história dos vigilantes mascarados desde os "Minutemen" originais até aos "Watchmen" dos últimos anos de legalidade, antes de o Keene Act retirar o enquadramento legal à sua actividade. Quem já conhecer a banda desenhada encontrará neste genérico inúmeras referências já familiares; quem nunca tiver lido, depressa apanhará todo o contexto da trama que se seguirá. 


    E essa segue em larga medida as batidas da história original, com o último vigilante ainda em actividade, Rorschach (Jackie Earle Haley) a investigar o homicídio de Blake e a descobrir que ele era o "Comedian", um herói mascarado com um carácter especialmente cínico e uma certa propensão para a violência que integrara ambas as gerações de vigilantes e que após a ilegalização passou a trabalhar com o governo norte-americano. Suspeitando de que a sua morte encerra muito mais do que um mero ajuste de contas, Rorschach decide começar a investigar o caso pelos seus próprios meios - e vai avisar os seus antigos colegas de que alguém anda a eliminar os antigos vigilantes. 


    Esses colegas são Dan Dreiberg, a segunda encarnação de Nite Owl; Adrian Veidt, que após o Keene Act assumiu ser o vigilante Ozymandias e tornou-se, desde então, num empresário de sucesso e num dos homens mais ricos do planeta; Laurie Jupiter, que sucedeu à sua mãe na personagem Silk Spectre; e Dr. Manhattan, um físico de nome Jon Osterman que na sequência de um acidente no laboratório se tornou num super-herói genuíno, o único do grupo. Enquanto todos os outros são seres humanos normais (ainda que no filme todos possuam força, resistência e habilidades marciais muito acima da média), Manhattan é algo diferente: desmaterializado por acidente e materializado por pura força de vontade, tornou-se numa criatura sobre-humana com poderes ilimitados, que só pela sua presença (e após a sua demonstração de poder no Vietname, a pedido de Nixon) manteve as duas super-potências da Guerra Gria numa paz armada e forçada. 


    Claro que seguir as batidas da trama original é muito diferente de uma reprodução fiel - e apesar de Snyder dar sinais claros de o entender bem pelo material que cortou, nem por isso deixa de tentar chegar o mais perto possível da fasquia de Moore e Gibbons. A ajudá-lo está um elenco muito sólido, com dois actores excepcionais: Jackie Earle Haley no papel do paranóico Rorschach, o vigilante noir que persegue a conspiração até às últimas consequências (é uma pena que o argumento tenha encontrado espaço para explorar todas as histórias de origens menos a dele, com a associação ao caso de Kitty Genovese); e Jeffrey Dean Morgan como Comedian, o herói violento e amoral que encara a sociedade e a Humanidade de forma especialmente cínica, e cuja morte no prólogo coloca em marcha toda a trama, com consequências mais vastas do que seria à partida de esperar.


    E é nessa tentativa de se aproximar da complexidade da graphic novel que Watchmen acaba por se perder um pouco, com um ritmo demasiado irregular e uma trama interrompida com frequência por flashbacks que, sendo interessantes e mesmo importantes, acabam por desviar demasiado a atenção do que se está de facto a passar - ao ponto de, a meio de um filme com mais de duas horas e meia, ainda não se ter avançado quase nada na trama principal, e de muitos plot points surgirem por isso quase forçados (Veidt será talvez a personagem a sofrer com isso). A alteração do final, por necessária que possa ter sido para encurtar o tempo de duração de um filme já em si bastante longo, acaba por funcionar com um grande mas: a solução, como disse acima, tem alguma elegância, mas nem por isso deixa de ter um problema lógico no mínimo curioso.


    Restam os efeitos especiais, que são excelentes e que são utilizados quase sempre em benefício da trama, sem lhe roubar protagonismo (ainda que Snyder abuse um pouco da câmara lenta), e permitindo criar um Dr. Manhattan muito credível. E, claro, a banda sonora excepcional, com temas de Bob Dylan, Leonard Cohen e Simon & Garfunkel a encaixarem-se na perfeição em vários momentos do filme. 


    No que às adaptações cinematográficas de romances ou graphic novels diz respeito, é praticamente cliché dizer que o livro é melhor que o filme - com os exemplos do contrário tão raros, o cliché há muito ganhou o estatuto de regra. Não será este Watchmen de Snyder a afamada excepção que confirma a norma; ainda que esforçado, com alguns desempenhos notáveis e rasgos esporádicos de brilhantismo, o filme fica longe da complexidade e do carácter meta-referencial da obra-prima de Alan Moore e Dan Gibbons, concebida como comic e que só naquele formato se poderá contemplar na sua totalidade. No entanto, é muito provável que perante uma obra impossível de adaptar, Snyder tenha feito a melhor adaptação possível: um filme interessante ainda que um pouco desequilibrado, capaz de capturar as batidas narrativas da aclamada graphic novel sem que consiga chegar perto da sua ambiguidade, originalidade e genialidade - mas também sem envergonhar a sua criação na passagem da prancha para a película. 7.2/10

    Watchmen (2009)
    Realização de Zack Snyder
    Argumento de David Hayter e Alex Tse a partir da graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons
    Com Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Malin Akerman, Billy Crudup, Jeffrey Dean Morgan, Matthew Goode, Carla Gugino, Matt Frewer e Stephen McHattie
    162 minutos