A sessão de Junho do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa terá lugar amanhã, 14 de Junho, na livraria Bertrand do centro comercial Picoas Plaza. O início da sessão está previsto para as 18:30 e o autor convidado será Pedro Medina Ribeiro, autor de A Noite e o Sobressalto - livro em debate - e O Diletante e a Quimera. Também em discussão estarão as obras de Edgar Allan Poe. A moderação, como é habitual, estará a cargo do Rogério Ribeiro.
"First you use machines, then you wear machines, and then...? Then you serve machines." - John Brunner, Stand on Zanzibar
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13 de junho de 2013
20 de maio de 2013
Antologia Lisboa no Ano 2000 em debate no Clube de Leitura Bertrand do Fantástico
No passado dia 10 de Maio, o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa regressou às suas sessões mensais, após um interregno de alguns meses e com um novo ponto de encontro - do anexo da Bertrand no Chiado passou para um espaço entre prateleiras na livraria do (quase abandonado) centro comercial Picoas Plaza. Já o moderador manteve-se - e para esta sessão em casa nova o Rogério Ribeiro escolheu como livro para debate a antologia Lisboa no Ano 2000, organizada por João Barreiros e publicada no ano passado pela Saída de Emergência (sobre a qual escrevi aqui). A acompanhá-lo estiveram João Ventura, Telmo Marçal e Guilherme Trindade, autores de três dos 17 contos incluídos na antologia.
Para João Barreiros, a gestão de um grupo de 14 autores (e mais alguns potenciais que, por motivos diversos, ficaram de fora) para este projecto foi feita "aos bochechos" - o arranque oficial deu-se no Fórum Fantástico de 2011, com a apresentação do projecto e a exibição de algumas imagens alusivas ao tema. "As participações chegaram às pinguinhas durante dois anos", recorda Barreiros, perfazendo um total de "34 participantes", ainda que a qualidade das submissões tenha sido tudo menos equilibrada. "Algumas eram terríveis; outros autores faziam sugestões e nada mais; houve mesmo um que queria meter Salazar como primeiro-ministro imortal", conta, recordando também outros anacronismos comuns, como o do plástico, ao qual nem o próprio escapou.
O mais interessante de Lisboa no Ano 2000 é o facto de todos os contos fazerem parte de um universo partilhado - algo que não estava de todo planeado quando João Barreiros escreveu o conto que serve de mote à antologia, O Turno da Noite, publicado originalmente na revista "Bang!". As inspirações para o conto - e mais tarde para a antologia - foram diversas, passando por autores como Robida, Wells, Salgari, Kipling e Mello de Matos. Num primeiro momento, a ideia passou por colocar contos num blogue, o que ajudou naquela fase; mas cedo o projecto descolou desse formato. Sobre a interligação entre os vários contos, João Barreiros alude a "pequenas coincidências entre contos, ideias comuns, e uma sincronicidade muito grande que não consigo explicar."
Já no que diz respeito à possibilidade de voltar a escrever no universo de Lisboa no Ano 2000, João Barreiros afirma que "gostaria de continuar", tendo "ideias para vários contos" - ainda que de momento esteja centrado apenas em antologias.
Já no que diz respeito à possibilidade de voltar a escrever no universo de Lisboa no Ano 2000, João Barreiros afirma que "gostaria de continuar", tendo "ideias para vários contos" - ainda que de momento esteja centrado apenas em antologias.
Os autores presentes também tiveram a oportunidade de falar um pouco sobre os seus contos e a sua participação na antologia. João Ventura, autor do conto Energia das Almas, recorda ter partido da premissa estabelecida por João Barreiros, inspirado pelas suas leituras sobre as teorias de MacDougall sobre o peso das almas (21 gramas) e, claro, sobre a relatividade de Einstein. Telmo Marçal, que participou na antologia com o conto O Obus de Newton, diz gostar muito do conto que escreveu, e que este - o segundo que fez para a antologia - lhe permitiu explorar várias ideias, de conceitos de Verne ao canibalismo brasileiro. Guilherme Trindade, autor de Taxidermia, admite querer sair do tema dos espectros, apelativo para vários autores, tendo por isso optado por centrar a sua história numa parte pouco explorada de Lisboa - o Jardim Zoológico - para nela abordar o tema da "natureza conquistada" e da vida natural da desaparecer (inspirando-se também no clássico Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick).
No debate, Luís Filipe Silva destacou o carácter "arrojado e improvável" de Lisboa no Ano 2000, não deixando porém de chamar a atenção para um detalhe muito curioso: a "falta de visão de império". Na viragem do século XIX para o século XX, Portugal, recorda, "era vasto; hoje estamos limitados a esta pequena terra". Referências imperiais estão de facto, e em termos gerais (há uma pequena excepção), ausentes da antologia - algo que Luís Filipe Silva explica por "os autores serem sempre influenciados pela época em que vivem". Uma tendência que, sublinha, "acompanhou a ficção científica ao longo do século XX".
O debate animado foi interrompido pelo encerramento muito pontual da livraria às 20:00 - adiando a conversa para um restaurante próximo. Em breve serão anunciadas a data da sessão do próximo mês e as obras em debate.
30 de abril de 2013
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico regressa a "uma Lisboa que nunca existiu"
Após alguns meses de interregno, o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico vai regressar a Lisboa em Maio. Esta sessão, marcada para o próximo dia 10 (Sexta-feira) às 19:00 na Livraria Bertrand do Centro Comercial Picoas Plaza, terá como tema Lisboa no Ano 2000, antologia organizada por João Barreiros e editada em 2012 pela Saída de Emergência que reúne histórias de uma Lisboa retrofuturista, alimentada pela omnipresente electricidade das Torres Tesla, num universo partilhado por vários autores. A sessão contará com a presença de João Barreiros, organizador e autor de três dos contos incluídos, e de alguns autores dos vários contos que dão vida a esta Lisboa, como João Ventura, Ricardo Correia, Guilherme Trindade, Pedro Vicente, Pedro Martins, Michael Silva e Telmo Marçal.
10 de janeiro de 2013
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico vai a Marte com Ray Bradbury e Edgar Rice Burroughs
Marte estará em destaque naquela que será a primeira sessão de 2013 do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa. O clássico The Martian Chronicles, de Ray Bradbury, e A Princess of Mars (na recente edição portuguesa, John Carter), de Edgar Rice Burroughs são os livros em destaque numa sessão que terá como convidado José Saraiva, investigador do Instituto Superior Técnico, com vários trabalhos sobre o "Planeta Vermelho". Esta sessão terá lugar na próxima Sexta-feira, 11 de Janeiro (amanhã), às 19:00, na Livraria Bertrand do Chiado. A moderar a sessão estará, como é habitual, o Rogério Ribeiro.
13 de dezembro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico vai a Marte em 2013
A primeira sessão de 2013 do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa terá lugar no dia 11 de Janeiro, na Livraria Bertrand do Chiado, e irá até ao Planeta Vermelho. Os livros em debate serão The Martian Chronicles, de Ray Bradbury, e The Princess of Mars, de Edgar Rice Burroughs (traduzido para português recentemente pela Saída de Emergência com o título John Carter, alusivo ao filme da Disney estreado neste ano). O convidado será José Saraiva, investigador do Instituto Superior Técnico com vários trabalhos sobre o quarto planeta do Sistema Solar. Apesar de o ano ser novo, a moderação manter-se-á (e muito bem) a cargo do Rogério Ribeiro.
12 de dezembro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Dezembro: À conversa com João Leal
Na passada Sexta-feira o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico voltou a reunir-se em Lisboa. Lord of Light, de Roger Zelazny, serviu de mote à tertúlia que teve como convidado o escritor João Leal, que falou sobre o seu primeiro livro, Alçapão.
Sobre Lord of Light, falou-se dos elementos religiosos e da invulgar mistura de fantasia e de ficção científica que Roger Zelazny soube desenvolver com mestria. Mas o destaque da sessão foi mesmo para Alçapão. Publicado em 2001 pela Quetzal, Alçapão foi o livro de estreia de João Leal, e é uma história dividida em duas, uma no presente e outra "num passado entre o Dilúvio e a Torre de Babel". Segundo o autor, não foi o primeiro livro que escreveu, mas sim o primeiro que publicou - e apesar de nunca antes ter escrito um livro que entrasse no Fantástico, não achou que o desafio fosse muito difícil.
A primeira parte do livro, centrada no cenário do orfanato, foi a última a ser escrita. Começou por escrever a segunda parte do livro, a história da ilha, algo que lhe deu especial prazer. "Há com a ilha uma relação quase animista", comenta, referindo todos os problemas básicos que teve de criar para tornar aquele cenário verosímil - o que comer, as distâncias, os espaços, os ofícios, entre muitos outros aspectos. Já pensou em escrever um conjunto de contos passados sobre a ilha, mas lamenta que "em Portugal ninguém queira publicar contos". Deverá, contudo, voltar a este universo. Aliás, admite desde logo que Alçapão é, de certa forma, uma "narrativa inicial" de um universo mais vasto que pretende continuar a explorar ao longo dos anos, explorando os seus estudos de teologia e angelologia.
Para já, porém, João Leal está a dedicar o seu tempo a um novo livro, que talvez seja publicado em 2013 (se estiver pronto a tempo), e que já rescreveu três vezes, com muitas alterações. "É fácil escrever um livro linear", considera, admitindo que a dificuldade reside no equilíbrio das muitas ideias que vão surgindo. Muitas foram já introduzidas, tanto em termos de conceitos como em questões meramente formais. No entanto, conclui afirmando que "o que me interessa na escrita é contar boas histórias", e que "o leitor deve divertir-se" na leitura.
Finda a sessão, decorreu mais uma Tertúlia Noite Fantástica, decerto muito animada (desta vez não me foi possível estar presente). E a indicação de que em Janeiro, o Clube de Leitura irá até Marte...
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7 de dezembro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: Lord of Light e Alçapão em Lisboa
O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico volta a reunir-se em Lisboa hoje ao final do dia. Na Livraria Bertrand do Chiado vai estar em discussão a partir das 19:00 Lord of Light, livro de 1967 que valeu a Roger Zelazny o Prémio Hugo e que fundiu fantasia e ficção científica de forma excepcional. O convidado desta sessão será João Leal, que irá falar sobre o seu romance de estreia, Alçapão. A moderação, para não variar, estará a cargo do Rogério Ribeiro.
Como é habitual, logo de seguida terá lugar o sempre animado jantar da Tertúlia Noite Fantástica.
12 de novembro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: O Brasil no multiverso da ficção científica literária e cinematográfica
Um título pomposo para falar sobre a última sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico em Lisboa - o livro em debate foi Brasyl, de Ian McDonald, e, na falta de um convidado (não foi possível ao autor brasileiro Eduardo Spohr estar presente, conforme previsto), o Rogério Ribeiro sugeriu que se debatesse também Brazil, filme clássico de ficção científica realizado por Terry Gilliam.
A ausência de convidado foi largamente compensada pela qualidade da plateia - onde estavam, entre outros entusiastas do Fantástico, João Barreiros, António de Macedo e Luís Filipe Silva. No entanto, o formato mais "aberto" torna muito mais difícil descrever toda a conversa que decorreu durante uma hora na Livraria Bertrand. Da aparente influência de Philip Pullman em Brasyl à qualidade da trilogia temática de Ian McDonald (composta por River of Gods (2004), Brasyl (2007) e The Devrish House (2010), com histórias passadas respectivamente na Índia, no Brasil e na Turquia), da influência onírica de Philip K. Dick e Orwell em Brazil à sua qualidade de fábula que opõe a tecnocracia e a burocracia à expressão individual, das questões da impossibilidade da originalidade literária à necessidade de repetição dos argumentos cinematográficos - enfim, falou-se de tudo um pouco, numa conversa animada e divertida que, para alguns, se prolongou na Tertúlia Noite Fantástica, regressada neste mês ao restaurante Chez Degroote.
Na falta de um relato mais "vivo" da sessão, nesta semana o filme em destaque no blogue será Brazil, de Terry Gilliam (a publicar amanhã), e o livro será Brasyl, de Ian McDonald (a publicar na Sexta-feira).
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9 de novembro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico
O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa tem mais tertúlia marcada para hoje, às 19:00, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa. O livro em debate é Brasyl, de Ian McDonald, uma fascinante história tripartida pelo século XVIII, pelo presente e por um tempo algumas décadas no futuro, mas sempre com o Brasil como pano de fundo. O autor brasileiro Eduardo Spohr era o convidado para esta sessão, mas não lhe vai ser possível estar hoje presente no debate. Como alternativa, falar-se-á não só do livro de Ian McDonald, mas também do filme Brazil, de Terry Gilliam (1984) - que, não estando de forma alguma relacionada com o livro em deebate, não deixa de ser um clássico da ficção científica cinematográfica e uma visão particularmente perturbadora de um mostro burocrático. A moderar a conversa sobre livro e filme estará, como habitualmente, o Rogério Ribeiro.
24 de outubro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Time Traveler's Wife, de Audrey Niffenegger, com Bruno Martins Soares
Bruno Martins Soares, autor de A Saga de Alex 9, foi o convidado especial da sessão de Outubro do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, que teve lugar no passado dia 12 na Livraria Bertrand do Chiado e que contou com moderação de Rogério Ribeiro. Numa sessão muito interessante, o livro em debate, The Time Traveler’s Wife, de Audrey Niffenegger, foi para o escritor “surpreendente, não era o que estava à espera - mais do que um livro de ficção científica é uma história de amor que conseguiu usar de forma muito inteligente a ficção científica para abordar este tema”, superando o desafio de “tornar original uma fórmula dada.” Para Bruno Martins Soares, numa história de amor “o essencial é aquilo que separa o casal, e as viagens no tempo tornaram isso muito interessante”, com a autora “a desconstruir os acontecimentos de forma muito semelhante aos nossos processos de memória” - acrescentando, numa frase lapidar, que “a memória é a verdadeira viagem no tempo”. Audrey Niffenegger terá, assim, construído todo o livro com uma linguagem que recria “a forma como a memória nos ocorre, e como as relações se constroem com base em memórias” - numa estrutura que em si diz qualquer coisa.
Considerando The Time Traveler’s Wife “um livro muito cinematográfico”, Bruno Martins Soares teceu algumas considerações sobre a escrita cinematográfica, por natureza “mais técnica, rígida e programada” que a literária. O que, curiosamente, torna os manuais de argumentismo “nos melhores livros de escrita criativa, pois as narrativas são estudadas à enésima potência.” Neste caso, esclarece o autor, o talento reside “respeitar a fórmula estabelecida mantendo a humanidade, com a emoção e o conflito” que lhe são característicos - algo que também é relevante quando se escreve um romance.
Sobre Alex 9, a saga de Bruno Martins Soares, Rogério Ribeiro começou por introduzir a ideia de que a trilogia fundiu fantasia épica e ficção científica, “duas coisas aparentemente díspares”. O autor explicou que esse foi o ponto de partida, procurando explorar uma premissa curiosa: “e se uma comando do século XXII fosse parar a um mundo medieval?” Esta ideia, já antiga, começou a ser pensada em 1990 - mas a escrita teve início apenas entre 2007 e 2008. “Houve muitos enredos até chegar aqui”, explica Bruno Martins Soares, sublinhando o trabalho de estruturar a narrativa de forma a torná-la funcional. A noção de publicar a obra em formato de trilogia surgiu após conversa com o editor da Saída de Emergência, Luís Corte Real, mas na cabeça do autor “ainda há mais uma trilogia”, uma história por contar.
À época da publicação [o primeiro volume foi publicado em 2009], Bruno Martins Soares “não sabia ao certo qual era a casa ideal para publicar a série - a primeira abordagem foi para uma colecção destinada ao mercado Young Adult (YA), ou seja, de leitores com idades compreendidas entre os 16 e os 25 anos. Essa foi a abordagem inicial da Colecção Teen, da Saída de Emergência, “que correu mal por vários motivos, e apesar das muitas tentativas para fazer a colecção correr bem”. O autor destaca o facto de, em Portugal, não existir o mercado YA tal como existe no universo literário anglo-saxónico - “as livrarias não sabiam onde colocar a colecção, e acabava por colocar na secção infanto-juvenil.” A mundança da série para a Colecção Bang!, a “colecção-mãe” da editora, foi para o escritor “quase um sonho”, e os dois primeiros volumes da trilogia foram reeditados num só volume com o terceiro livro - algo que considera “inevitável, também porque menos pessoas leram o segundo livro e o objectivo era chegar a um público que não tivesse lido a saga.” Esta republicação obrigou a algumas mudanças para trás, ainda que muito poucas - “apenas no prelúdio e no interlúdio”, esclarece o autor, procurando introduzir mais sensualidade e violência numa história que já não estava pensada para um público mais jovem.
A publicação em três livros, na opinião de Bruno Martins Soares, “facilita a estruturação, dado que a estrutura clássica é de três actos, em crescendo até ao clímax.” Uma das inspirações para a elaboração de Alex 9 acabou por ser a estrutura narrativa da trilogia Star Wars original (“que é tanto de ficção científica como de fantasia”), composta por três momentos distintos: um filme introdutório que apresenta as personagens e o conflito, um segundo filme que complica e coloca os vilões em vantagem, e um terceiro filme de resolução e catarse - isto sem comprometer o valor individual de cada uma das obras. Em Alex 9, esta estrutura é de certa forma seguida ao longo da narrativa de Alex. Outra regra que o autor destacou como relevante é a já clássica de show, don’t tell, sublinhando ser “tão importante ter a capacidade de apresentar as personagens como de as esconder”. E deu o exemplo: “a Alex não sabe o que se passa em grande parte da narrativa, pelo que tive de esconder o que se estava a passar.”
A “escola do cinema” de Bruno Martins Soares explica a sua escrita orientada para a acção. “Estamos num tempo onde toda a gente já viu tudo”, defende, pegando na ideia de Jacques Kerouac de que “gerir a acção é gerir as emoções de quem vê ou lê.” Para ilustrar esta ideia, o autor dá como exemplo a animação japonesa, que “há alguns anos tinha a dificuldade de recriar um combate à velocidade de centenas de desenhos, e a solução foi abrandar a acção.” Algo que, mais tarde, foi recuperado pelo cinema, como em The Matrix.
Sobre a possibilidade de virem a ser escritos e publicados contos dentro do universo de Alex 9, Bruno Martins Soares não descartou a possibilidade, apesar de ter deixado a certeza de que o seu próximo livro “não será no Fantástico”. Com a intenção de “escrever muitas coisas diferentes”, estabelece como próximo objectivo “escrever literatura realista”. Quanto à hipótese de publicar no estrangeiro, o autor considera o mercado brasileiro como a alternativa mais viável. Sobre o mercado editorial português, considera, ao contrário do mercado norte-americano, “ser mais fácil publicar do que vender”, com os livros a terem “tiragens minúsculas que só vendem nas prateleiras das novidades”. “O mercado está viciado, muitas editoras não deviam existir - em Portugal existem mais de 2000 entidades editoras.” Viver da escrita também está nos planos de Bruno Martins Soares, mas reconhece que tal “não é possível em Portugal, e não é com livros, mas com cinema e televisão. Respondendo à questão que ele mesmo levantou - “como se sai daqui” -, falou sobre o filme Regret, do qual foi argumentista e produtor, e que deverá estrear em breve no mercado norte-americano.
Finda a sessão, decorreu a Tertúlia Noite Fantástica, num restaurante cujo nome me escapa (mas que posso garantir ser no Bairro Alto). E seguiu de lá para o Pavilhão Chinês, onde se falou de psicanálise, da série The Matrix, de Battlestar Galactica e de muitos outros temas numa noite particularmente animada.
11 de outubro de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico regressa a Lisbo
É já amanhã, dia 12 de Outubro, que o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico volta a reunir em Lisboa. A tertúlia terá lugar, como habitual, na Livraria Bertrand do Chiado às 19:00, e o livro em debate será The Time Traveler’s Wife, romance de estreia da autora norte-americana Audrey Niffenegger publicado em 2003 (a edição portuguesa é da Editorial Presença e tem o título “A Mulher do Viajante do Tempo). O escritor Bruno Martins Soares é o convidado desta sessão, decerto para falar não só do romance de Niffenegger como também da sua Saga de Alex 9, cuja terceira parte foi publicada este ano pela Saída de Emergência numa edição que reúne os três livros da trilogia. A moderação, como é habitual, está a cargo de Rogério Ribeiro.
Logo de seguida terá lugar (uma vez mais, para não fugir à regra) a Tertúlia Noite Fantástica, no restaurante Chez Degroote, ao Chiado.
24 de agosto de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: Anunciados livros e convidados para as próximas três sessões (Lisboa)
As próximas sessões do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa já têm data marcada, livros escolhidos e convidados - com a devida antecedência para que todos os interessados tenham tempo de colocar as leituras em dia. A agenda será:
12 de Outubro: The Time Traveler's Wife, de Audrey Niffenegger (2003). O romance de estreia da norte-americana Audrey Niffenegger é uma história de amor através do tempo, entre Clare Anne Abshire e Henry DeTamble - que, devido a uma desordem genética muito invulgar, viaja no tempo de forma involuntária e fora de controlo, sem saber onde vai parar. The Time Traveler's Wife foi adaptado para o cinema em 2009 por Robert Schwentke, com Eric Bana e Rachel McAdams. O convidado desta sessão é o autor Bruno Martins Soares, que este ano concluiu A Saga de Alex 9, trilogia recentemente reeditada pela Saída de Emergência num único volume.
9 de Novembro: Brasyl, de Ian McDonald (2007). Nomeado para os principais prémios internacionais de ficção científica em 2008 e 2009, Brasyl é uma narrativa tripartida, dividindo-se pelo tempo presente, pelo futuro em meados do século XXI e pelo século XVIII - mas sempre no Brasil. Muito apropriadamente, o convidado para a sessão dedicada a este livro é o primeiro convidado internacional do Clube de Leitura (pelo menos em Lisboa) - o autor brasileiro Eduardo Spohr, cujo livro A Batalha do Apocalipse foi publicado em Portugal pela Editorial Presença.
7 de Dezembro: Lord of Light, de Roger Zelazny (1968). Distinguido com o Prémio Hugo na categoria "Best Novel" em 1968 (e nomeado para o Nébula), Lord of Light passa-se num planeta distante e hostil no qual os colonos da nave espacial "Star of India" se vêem obrigados a sobreviver. E para isso recorrem à tecnologia que dominam, alterando as suas mentes, reforçando os seus corpos e alcançando até uma forma de quase imortalidade... O convidado para a sessão sobre este clássico da ficção científica será o escritor João Leal, que publicou em 2011 o romance Alçapão, na Quetzal.
11 de julho de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Empire of Fear, de Brian Stableford, com João Barreiros
A última sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, que decorreu na passada Sexta-feira, foi curiosa: falou-se mesmo muito pouco do livro em debate, The Empire of Fear (O Império do Medo, na edição portuguesa da Saída de Emergência), de Brian Stableford - decerto para felicidade dos presentes que estavam ainda a meio da leitura. O que, entenda-se, está longe de constituir um problema quando o convidado da sessão é João Barreiros, escritor maior da ficção científica portuguesa, que tem sempre qualquer coisa interessante - e muito divertida - para contar. Nada que quem frequente anualmente o Fórum Fantástico não saiba já.
Ainda assim, houve tempo para falar um pouco sobre The Empire of Fear - uma "escolha difícil", segundo o moderador, Rogério Ribeiro, pois "não há muitos livros bons de ficção científica em português". Este, de Stableford, revela-se particularmente interessante ao abordar de uma perspectiva de ficção científica um tema mais ligado à Fantasia e ao sobrenatural, hoje muito em voga: os vampiros. "Stableford dá uma vertente cientifica a um elemento tradicionalmente místico, tratando-o como uma doença sexualmente transmissível", explica João Barreiros.
Mas, como disse, a sessão acabou por incidir menos sobre o livro e mais sobre o próprio Stableford, autor britânico que João Barreiros conheceu pessoalmente em tempos ("numa livraria de Londres", recorda), tendo-o convidado para vir a dois encontros de ficção científica que decorreram em Cascais (e foi também a Reading jantar com o autor - mas esta história hilariante não a conto por não ser capaz de lhe fazer justiça). "Antes de O Império do Medo, Stableford escrevia space operas muito competentes e divertidas", conta João Barreiros. Foi-lhe recusada a publicação de outros livros do mesmo género - as editoras "sugeriram fantasia épica". O que João Barreiros não estranha: "agora só se publica ficção científica e terror em small presses, e estas edições são mais difíceis de encontrar."
Os problemas que o género atravessa no mercado editorial não são estranhos para João Barreiros. Para além de escrever, também dirigiu várias colecções de ficção científica ao longo dos anos, e as peripécias são mais do que muitas - de problemas editoriais a dificuldades de tradução, pode-se dizer que aquelas colecções (hoje praticamente desaparecidas, infelizmente) viram quase tudo aquilo que podemos imaginar. A história sobre o tradutor de Hyperion, de Dan Simmons, que transformou as treeships dos Templars em simples naves espaciais por o conceito não lhe fazer sentido, é particularmente delirante - e, como resultado desse e de muitos outros percalços, a tradução nunca chegou a ser publicada. E esta é apenas uma de muitas histórias, das várias que o autor contou naquele fim de tarde.
"A ficção científica começou a desaparecer na década de 90, e hoje em dia está 'estrangulada' pela fantasia", considera João Barreiros, relembrando vários exemplos de séries literárias que acabaram por não ser publicadas na íntegra em Portugal. "Tinham extraterrestres", comenta, referindo-se aos livros que se seguiram a Altered Carbon, de Richard Morgan. Na colecção que organizou na Gradiva, tentou publicar a trilogia Sprawl, de William Gibson, mas apenas Neuromancer acabou por chegar às lojas. "A fantasia é o que vende", algo que pode ser explicado pelo público a que se destina e pelas próprias capas das edições. No tema das capas, Luís Filipe Silva - que estava na assistência - relembrou a importância das colecções de ficção científica no mercado editorial por terem sido as primeiras a utilizarem capas ilustradas, tal como na tradição americana - algo que contrastava com o tipo de capas que habitualmente se publicava no mercado português, mais sóbrias e minimalistas.
Sobre a ficção científica portuguesa, João Barreiros lamenta que alguns autores não estejam actualmente a escrever - como Luís Filipe Silva e João Seixas, por exemplo, que (ainda) não deram continuidade ao projecto A Bondade dos Estranhos, previsto em formato de trilogia.
Para concluir a tertúlia, o Rogério pediu a João Barreiros que - e muito ao estilo da sua já tradicional sessão do Fórum Fantástico - deixasse aos presentes algumas sugestões de leitura na ficção científica. Os "cinco livros" propostos acabaram por se revelar bem mais do que cinco, com as sugestões a incidirem sobre a obra de Peter F. Hamilton, Alastair Reynolds, Ian McDonald, Ian MacLeod (Light Ages) e Brian D'Amato.
O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico entra agora em "férias", regressando na primeira Sexta-feira de Outubro. Entretanto, devem ser anunciados os livros das próximas sessões (um pouco para evitar que muitos dos presentes não tenham lido o livro em debate, como aconteceu desta vez). Darei conta disso assim que houver novidades.
Logo de seguida teve lugar a Tertúlia Noite Fantástica, no restaurante Chez Degroote - um jantar bem animado, com muita conversa sobre o Fantástico (e não só).
5 de julho de 2012
Clube de Leitura do Fantástico: The Empire of Fear, de Brian Stableford
Decorrerá amanhã, dia 6 de Julho, a próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico em Lisboa. Com o escritor João Barreiros como convidado, esta sessão incidirá sobre o livro The Empire of Fear, de Brian Stableford, editado em português pela Saída de Emergência com o título O Império do Medo. Haverá também tempo para se falar sobre a obra de João Barreiros, em especial do livro Se Eu Acordar Antes de Morrer, publicado em 2010 (Gailivro). Como é hábito, a sessão terá lugar no Espaço do Autor na Livraria Bertrand do Chiado a partir das 19:00.
E, uma vez mais, decorrerá logo de seguida a tertúlia Noite Fantástica, que regressa ao restaurante Chez Degroote.
27 de junho de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte
Decorreu no passado dia 1 de Junho (sim, este artigo está bastante atrasado) a quarta sessão do Clube De Leitura Bertrand do Fantástico, dedicada ao livro O Clube Dumas de Arturo Pérez-Reverte (adaptado para o cinema por Roman Polansky - mas já lá irei). Admito desde já que não li o livro em debate, o que torna bastante mais difícil escrever sobre o que se falou (os anteriores foram relativamente fáceis, pois não só tinha lido os livros como tinha gostado muito deles). Enfim, vamos ver o que se arranja.
O convidado desta sessão foi o escritor David Soares, que assumiu desde logo "não ser um grande fã do livro", que na sua opinião "tenta recuperar a literatura de folhetim do século XIX." Para David Soares, as duas histórias paralelas que compõem a narrativa "não são necessárias", como se o autor tivesse "duas ideias diferentes que tentou unir, de forma a que fizessem sentido". Acrescenta ainda que "o final não se resolveu, pois o facto de cada elemento do clube ser o guardião de um dos capítulos não tem grande impacto". No entanto, reconhece que o livro "tem coisas muito interessantes na contextualização da época de Dumas", e destaca a ambiguidade da personagem feminina, que nunca se sabe se é ou não de origem sobrenatural. Coisa que o filme de Polanski com Johnny Depp, intitulado The Ninth Gate (aludindo a uma das narrativas) resolve logo ao mostrá-la como um demónio.
Como não podia deixar de ser, a adaptação cinematográfica de O Clube Dumas suscitou um debate interessante. David Soares considera o filme como "uma boa adaptação", ao "escamotear a parte do Clube Dumas e se centrar na história das nove portas". Já Rogério Ribeiro (como sempre, a moderar o debate) considerou-o uma má adaptação - e, entre a plateia, as opiniões dividiram-se entre ambas as posições (e, claro, houve ainda quem não tivesse visto o filme).
Saindo do livro de Arturo Pérez-Reverte, David Soares falou um pouco sobre a sua mais recente obra, o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, editado pela Saída de Emergência. De acordo com o autor, a génese do livro reside "nos anexos e apêndices do final dos romances, a sua base bibliográfica - e sempre achei que partilhar essas referências seria interessante." Todo o Compêndio é feito de informação factual, sem ficção, "recuperando as intenções das enciclopédias e dos compêndios do século XVIII". A partir desta ideia, recuperou a o conceito da "árvore do conhecimento" para organizar internamente o Compêndio, ramificando-o em quatro "troncos" para quatro temas de que gosta - a História, a Ciência, o Oculto e a Mitologia (onde se inclui a religião). Começa pela História, numa abordagem "relativamente generalista", para passar logo de seguida para a Ciência - ou antes, para "o lado negro da Ciência". No "troco" dedicado ao Oculto, David Soares procurou recuperar alguns conceitos, dando-lhe "bases mais sólidas". Por fim, o "tronco" dedicado à Mitologia inclui um bestiário e aborda, entre outras coisas, "o sobrenatural na cultura popular", sempre "da forma mais fidedigna possível", sublinhando o exaustivo trabalho de fundamentação do material incluído.
David Soares admite vir a fazer um segundo volume, caso este "corra bem". Quanto à ideia de que algumas das histórias incluídas no Compêndio poderiam ser a base para excelentes ficções, reconhece o potencial mas não coloca "para já" a possibilidade de explorar esse filão. O autor traça ainda uma fronteira muito clara entre o "autêntico" e o "provável" na ficção, conceitos que não são de todo sinónimos.
Sobre a sua carreira literária, David Soares explicou que o seu processo de escrita funciona por "ciclos", normalmente de três romances que encerram o ciclo, mas não o universo autoral - sendo o ciclo seguinte uma "outra forma de olhar para os mesmos temas". Falou ainda sobre a internacionalização da sua obra, sobre a excelente relação que mantém com a sua editora, a Saída de Emergência, e sobre como viver da escrita - algo que, na sua opinião, requer "espírito de missão" e "ter vontade" (pois "ter só ideias não funciona"), não só para começar mas para levar a obra até ao fim.
Finda a sessão, decorreu, como é habitual, a Tertúlia Noite Fantástica, desta vez no restaurante Chez Degroote - e, pessoalmente, julgo que foi a melhor Tertúlia até agora, tanto pela qualidade do restaurante como pelas conversas.
Quanto ao Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, a próxima sessão terá lugar no dia 6 de Julho e incidirá sobre o livro O Império do Medo, de Brian Stableford (publicado pela Saída de Emergência). O convidado será o escritor João Barreiros, que também falará (entre muitas outras coisas, certamente) do livro Se Acordar Antes de Morrer (publicado pela Gailivro em 2010). A moderação estará a cargo, uma vez mais, do Rogério Ribeiro.
31 de maio de 2012
Clube de Leitura do Fantástico: O Clube Dumas
Terá lugar amanhã, dia 1 de Junho, a próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico em Lisboa. O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte. O convidado será David Soares, que irá falar não só sobre o romance de Pérez-Reverte, como sobre a sua própria obra - incluindo o Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, recentemente publicado pela Saída de Emergência. Como é costume, esta tertúlia terá lugar na Livraria Bertrand do Chiado a partir das 19:00.
Logo de seguida - também para não variar - decorre a Tertúlia Noite Fantástica, desta vez num novo local: o restaurante Chez Degroote.
9 de maio de 2012
Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Wizard of Earthsea, com Maria do Rosário Monteiro (1)
O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico reuniu uma vez mais em Lisboa na passada Sexta-feira, 04 de Maio, para falar sobre The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin - e, claro, sobre os restantes livros que compõem o Earthsea Quartet. A convidada foi a professora Maria do Rosário Monteiro, que na sua carreira académica estudou o Fantástico, tendo trabalhado, em tese, sobre as obras de Tolkien e Le Guin. A "moderar" a tertúlia esteve, como sempre, o Rogério Ribeiro, que desta vez apostou num formato ligeiramente diferente e mais "interactivo", convidando (desafiando?) a assistência a intervir com maior regularidade - o que, diga-se de passagem, resultou muito bem, tornando a tertúlia quase numa conversa entre o Rogério, a Maria do Rosário Monteiro e todos os presentes.
Maria do Rosário Monteiro começou por referir que se nota muito a evolução da própria autora da primeira à quarta história. The Wizard of Earthsea é, na sua essência, uma história de aventura, orientada sobretudo para um público mais jovem (mas não só), "aplicando a ideia tradicional do herói com uns pozinhos de Jung e de taoísmo". Esta primeira aventura é, na sua essência, a jornada pessoal de Ged na descoberta de si mesmo, até à aceitação e harmonização dos seus aspectos positivos e negativos. "É uma narrativa de auto-aprendizagem", considera Maria do Rosário Monteiro, "assente na noção de que não mudamos o mundo." Relembrando o carácter inato da magia em Earthsea, a professora sublinha o carácter "científico" que o controlo desta assume, seguindo um processo racionalizado. No centro da magia neste universo reside a palavra, enquanto essência do ser - demonstrada por Ged no final da narrativa.
No segundo livro, The Tombs of Atuan - obra que, de acordo com a própria autora, surgiu a partir de um reparo da própria mãe sobre o facto de Le Guin ser declaradamente feminista e no entanto escrever sobre personagens masculinos -, o protagonismo é dado a uma mulher, Tenar. Para Maria do Rosário Monteiro, Tenar manteve a ambivalência tradicional das deusas femininas - o que lhe dá particular força - e ganhou com isso densidade, sem em momento algum cair "nos radicalismos femininos". No entanto, a construção desta personagem foi um desafio por "não haver na altura tradição literária para heroínas" - e também pela dificuldade de desenvolver uma heroína "que não tem actos heróicos".
Já The Farthest Shore, o terceiro livro da série, é para Maria do Rosário Monteiro uma história "muito bonita e altamente filosófica", na qual Ged regressa como protagonista. O seu novo papel de "tutor" (de Arren) ilustra o problema da escolha e da responsabilidade - ideia cara a Le Guin, a de que todos os actos têm uma consequência, que o protagonista resolve através da sua própria definição da "filosofia da não-acção", noção central no taoísmo (conforme relembra Maria do Rosário Monteiro, este "é um problema sem solução dentro do próprio taoísmo"). The Farthest Shore, com o seu final aberto e incerto, deixou porém a Ursula K. Le Guin um problema por resolver: "como dar continuidade ao Ged e desenvolver uma filosofia feminina com Tenar" Na opinião da convidada, Tehanu, escrito vários anos após o terceiro livro, é um excelente regresso da autora ao mundo de Earthsea , sobretudo porque o livro anterior "acaba numa situação de desequilíbrio entre a vida e a morte", que a continuação resolve [felizmente, falou-se pouco deste livro, que ainda não li].
A sessão, desta vez, contou com uma audiência mais participativa (e não houve a habitual "música ambiente" no exterior da livraria), que na sua maioria tinha lido Earthsea nas edições "Quartet" em inglês. Os vários livros que compõem a série têm várias traduções em Português - a mais recente é da Editorial Presença, numa edição claramente orientada para um público infantil-juvenil (mais infantil, até). Luís Filipe Silva relembrou que o fenómeno do "infantil-juvenil" expandiu-se com outro fenómeno literário muito forte - Harry Potter -, sem que a colecção da Presença tenha tido o sucesso antecipado. "Salvaram-se" alguns autores, entre os quais Ursula K. Le Guin - e ficaram as capas horríveis e infantis numa obra "com uma linguagem mais adulta e um estilo mais adulto".
Esta sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico não se esgotou contudo em Earthsea e Ursula K. Le Guin. Dos géneros do Fantástico a Tolkien, passando pela edição e pela literatura actual, vários foram os temas abordados por Maria do Rosário Monteiro ao longo daquela hora e meia que acabou por saber a pouco. Sobre esses temas, falarei noutro artigo.
4 de maio de 2012
Earthsea e The Farthest Shore
Será Earthsea, de Ursula K. Le Guin, uma das grandes séries da literatura de fantasia? Após a leitura dos três primeiros livros, diria que sim: no mundo de Earthsea, composto pelas centenas - milhares? - de ilhas dispersas pelo Arquipélago central e pelas ilhas dos quatro "Reaches", Le Guin desenvolveu um universo fantástico incrivelmente rico, digno de figurar entre os outros grandes universos da fantasia literária. Composta por cinco volumes (The Wizard of Earthsea, The Tombs of Atuan, The Farthest Shore, Tehanu e The Other Wind) e por vários contos (compilados na antologia Tales from Earthsea), a série Earthsea segue, nos três primeiros livros - aqueles que li até agora -, a vida do feiticeiro Ged desde a sua infância na ilha-montanha de Gont até ao seu tempo como Arquifeiticeiro dos feiticeiros de Roke.
No entanto, cada um dos três primeiros livros conta uma aventura (chamemos-lhe assim) específica de Ged, e entre eles passam-se, na cronologia de Earthsea, vários anos. Em momento algum Ursula K. Le Guin sente a necessidade de contar tudo o que se passou - ao longo das histórias que decide contar, deixa alguns fragmentos de aventuras vividas nos interregnos da narrativa, mostrando que aqueles períodos não estão vazios e que têm importância - mas não são a história que ela pretende contar. O que, do ponto de vista narrativo, é excelente: ao resistir à tentação (se é que sentiu tal tentação) de contar tudo, Le Guin conseguiu centrar-se no essencial, e assim criar um universo bastante coeso, com três aventuras muito contidas, narradas a um ritmo excelente. É justamente nestes pontos que Ursula K. Le Guin revela toda a sua capacidade criativa, que já a destacara na ficção científica: consegue imaginar um mundo visualmente rico e seleccionar exactamente o que quer contar e como o quer contar,
Normalmente, quando quero escrever sobre um livro que faça parte de uma série, costumo escrever apenas sobre o primeiro volume da série, de forma a evitar eventuais spoilers. Vou no entanto abrir uma excepção hoje e, ao abordar Earthsea, de Ursula K. Le Guin, vou falar não do primeiro livro da série, The Wizard of Earthsea, mas do terceiro, intitulado The Farthest Shore. O motivo é simples: dos três livros que compõem a trilogia original, The Farthest Shore foi aquele que mais me prendeu. Sim, a perseguição do primeiro livro é excelente, sobretudo no desenlace. Sim, o labirinto de The Tombs of Atuan é extraordinário, e Tenar é uma personagem com um ponto de vista muito interessante. Mas o mistério de The Farthest Shore, com a magia e o conhecimento a desaparecerem do mundo enquanto um vazio indefinido se parece instalar, é a todos os níveis formidável; e ainda que durante a narrativa sejam dadas várias pistas sobre a natureza do vilão, sobre o papel de Arren e sobre a importância da constelação da estrela Gobardon (sempre referida num tom particularmente ominoso), a verdadeira natureza do enigma perdura, cada vez mais empolgante, até ao final. Na sua fascinante odisseia viagem pelos mais remotos arquipélagos de Earthsea, Ged e Arren encontram povoações mergulhadas na apatia, escapismo pelo consumo de drogas, traficantes de escravos, civilizações estranhas, dragões e as sombras para lá dos limites do mar sem fim.
Não sei se (ou como) a história de Ged continua no quarto livro, Tehanu (tenho evitado spoilers, o que é particularmente difícil quando se tem o livro aqui mesmo ao lado). The Farthest Shore, contudo, funciona muito bem como uma conclusão para esta personagem. É, sem dúvida, uma viagem extraordinária, daquelas que a grande fantasia consegue oferecer-nos de forma única.
Este artigo surge, naturalmente, no contexto da sessão de hoje do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico que se realizará hoje, às 19:00, no Espaço do Autor da Livraria Bertrand do Chiado (Lisboa). O livro que dá o mote à tertúlia é, justamente, o primeiro livro da série Earthsea, de Ursula K. Le Guin: The Wizard of Earthsea. A convidada será a professora Maria do Rosário Monteiro, autora de A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. A moderação, como é habitual, estará a cargo de Rogério Ribeiro.
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17 de abril de 2012
A Wizard of Earthsea e Maria do Rosário Monteiro na próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico
No seguimento do que referi aqui, a próxima sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico terá lugar no próximo dia 4 de Maio, regressando assim à primeira Sexta-feira do mês. O livro em debate será A Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin (editado em Portugal pela Presença com o título O Feiticeiro e a Sombra). A convidada especial será Maria do Rosário Monteiro, que falará não só da obra de Le Guin como também de A Simbólica do Espaço em "O Senhor dos Anéis" de J.R.R. Tolkien. A moderação, como sempre, estará a cargo do Rogério Ribeiro.
Resumindo: a próxima sessão do Clube incidirá sobre a excelente obra de Fantasia de uma das maiores autoras do Fantástico, tanto em Fantasia como em Ficção Científica, e conta com a presença de uma das maiores especialistas em Tolkien de Portugal. Mais interessante do que isto é mesmo muito difícil.
16 de abril de 2012
Clube de Leitura do Fantástico - O Livro de Areia (13 de Abril de 2012)
Se duas sessões servirem de amostra, diria que uma das coisas mais interessantes do Clube de Leitura do Fantástico da Bertrand é o facto de se acabar por falar menos do livro que serve de mote à sessão e mais de outros temas e assuntos. Isto, note-se não é uma crítica: do livro fala-se sempre, e temos sempre oportunidade de falar deles (e de outros); mas nem sempre temos a oportunidade de estar à conversa com os convidados sobre temas que eles conhecem bem. Na sessão da última Sexta-feira (13, e chuvosa), o convidado da tertúlia moderada pelo Rogério Ribeiro foi o Pedro Piedade Marques, editor da Livros de Areia, designer gráfico e recentemente nomeado para um British Science Fiction Award na categoria de "Best Art" pelo seu trabalho na ilustração da capa do livro Osama, de Lavie Tidhar.
Pedro Marques - que no último Fórum Fantástico teve a seu cargo uma excelente apresentação sobre ilustração na ficção científica nos anos 60 - falou sobre a sua experiência na área da edição, sobretudo com a editora Livros de Areia, da qual foi fundador. De acordo com as palavras do editor e ilustrador, a editora "surgiu em 2005, antes de o mercado editorial se tornar complicado", e rapidamente conseguiu um feedback muito bom da parte da imprensa - ainda que algumas reportagens tenham sido "curiosas", para dizer o mínimo (desde a "fotografia horrível" até à referência à "editora de Viana do Castelo", como se a geografia fosse relevante). Houve uma grande procura da parte do público pelas publicações da Livros de Areia, fruto da aposta na qualidade da edição, e que para Pedro Marques prova que o investimento na qualidade e na imagem pode compensar. No entanto, desde então muitas foram as mudanças no mercado editorial português, com o aparecimento de grandes grupos editoriais que retiraram liberdade aos livreiros e colocam as editoras mais pequenas em desvantagem. Hoje, considera Pedro Marques, "os livros não são vendidos pela qualidade, mas pela máquina de marketing.
Entrando por fim em Jorge Luís Borges, e falando tanto de O Livro de Areia - que serviu de mote à tertúlia - como de Ficções, Pedro Marques definiu ambas as obras de Borges como "um livro que se debica". O convidado admitiu desde logo não gostar de todos os contos do autor - algo que em nada diminui o fascínio por Borges, e por os contos em que "lança uma ideia e quase desafia o leitor a acabá-la". De certa forma, e evocando o último conto de O Livro de Areia, funcionam quase como um "livro aberto, um livro infinito", e é precisamente aí que reside o seu encanto. Pedro Marques salientou que o Fantástico de Borges é diferente do que normalmente designamos por Fantástico - não é tão de "nicho" como o americano, estando menos ligado à fantasia e ao horror, e abrindo portas para o mainstream. "É difícil falar de Borges só com um livro", admitiu Pedro Marques, aludindo aos constantes "labirintos" do autor, aos seus contos com grande componente autobiográfica (como o conto O Outro, o meu preferido n'O Livro de Areia), à sua vastíssima erudição que abre as portas a tantos outros autores e a tantas outras deambulações literárias.
Houve ainda tempo para falar sobre um aspecto interessante da literatura, que é, justamente, tudo aquilo que envolve a literatura e que normalmente não se vê: os artistas, o trabalho da edição, todo "o processo de feitura dos livros". Um tema que para Pedro Marques é particularmente relevante, mas sobre o qual "falta interesse e estatísticas" - o que se torna cada vez mais preocupante num tempo em que a memória sobre isso se começa a perder, fruto da passagem do tempo e também do desaparecimento de muitas editoras, adquiridas por grandes grupos que não trabalham para preservar a memória. Pessoalmente, foi um tema que me interessou, sobretudo pelo facto de nunca nele ter pensado antes.
E finda a sessão - desta vez num outro espaço da Livraria Bertrand do Chiado (na prática, fora dela), mais frio, menos confortável e com um som ambiente formidável (passe a ironia) -, a conversa continuou animada na Tertúlia Noite Fantástica. O restaurante escolhido desta vez foi o Wok Oriental, com melhor preço, melhor comida e adolescentes a embebedarem-se com penalties de sangria mesmo atrás de nós (isto não é uma queixa - quem nunca fez aquilo que atire a primeira pedra). Para o mês que vem há mais - a próxima sessão do Clube de Leitura do Fantástico terá como livro em debate The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin.
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