9 de maio de 2014

Ficção curta em português (2): Três contos de Luís Filipe Silva

Na ficção científica em português, o nome de Luís Filipe Silva merece destaque - tanto no romance como na ficção curta, como até na sua breve mas relevante actividade como antologista (recordemos Os Anos de Ouro da Pulp Fiction). No que ao romance diz respeito, publicou em 1993 o díptico A Galxmente, composto por Cidade da Carne e Vinganças; e, em 1996, colaborou com João Barreiros na criação daquele que será sem dúvida um dos mais importantes romances que o género já conheceu em língua portuguesa: Terrarium: Um romance em mosaicos. Mas Luís Filipe Silva tem uma obra igualmente relevante na ficção curta, dispersa por antologias, fanzines, publicações online e outros suportes - para além, claro, da sua própria antologia, O Futuro à Janela, vencedora do Prémio Editorial Caminho de Ficção Científica em 1991. Hoje, recupero aqui no Andrómeda três contos dispersos de Luís Filipe Silva:

A Recordação Imóvel é um conto muito curto publicado na antologia Inconsequências na Periferia do Império (ed. André Vilares Morgado), de 1996, que impressiona pela capacidade que o autor tem de, em tão poucas palavras, construir um universo ficcional interessante e emotivo. Num futuro pós-apocalíptico indefinido, a Humanidade que resta se debate contra a fúria dos elementos descontrolados - em especial de um vento "mortífero vindo de norte". Todo o conto é, na prática, a descrição da sobrevivência de um grupo de humanos num abrigo durante a passagem desse vento -  as acções e reacções, a expectativa, as reparações, a tentativa de adiar por tempo indeterminado a tragédia. E é dessa descrição que emerge o drama pessoal do protagonista, nunca nomeado - com um momento especialmente evocativo no final, quando contempla o que o vento deixou à superfície. A Recordação Imóvel pode ser lido aqui.

No Coração do Deserto é um conto publicado pela primeira vez no fanzine brasileiro Somnium nº 62 (1995) e republicado em 2001 no webzine E-nigma Light (ed. Jorge Candeias). Como o próprio Luís Filipe Silva assume numa breve nota de autor à reedição de 2001, este conto "existe mais como estudo [do mundo árabe] do que como produto acabado. Isso nota-se, é certo; mas nem por isso retira o interesse a esta interessante peça de ficção científica ecológica que reflecte sobre diferenças culturais, políticas e ecológicas ao colocar uma delegação de representantes de uma União Europeia futura em visita diplomática ao Sahara argelino, devastado pelo desaparecimento do petróleo que durante tanto tempo animou a economia local e pelas alterações climáticas que empurram os locais para a miséria. Pelo meio, Luís Filipe Silva apresenta um mundo fragmentado em blocos geopolíticos, uma reflexão ambiental porventura mais pertinente hoje do que em 1995 e uma ideia que talvez merecesse ser alargada e trabalhada noutros contos, ou mesmo num formato mais longo. E, num acesso de nostalgia para o leitor contemporâneo, recupera a célebre designação ecu para a moeda única europeia (a gargalhada, admita-se, é difícil de suprimir). 

The Rodney King Global Mass Media Artwork foi publicado na antologia Efeitos Secundários, de 1997 (ed. Maria Augusta e António de Macedo) e tem como premissa uma extrapolação das consequências do incidente de Rodney King em 1991 que levaria aos motins de Los Angeles no ano seguinte. Em simultâneo uma reflexão sobre a irracionalidade dos conflitos racionais e sobre o poder subversivo da publicidade e dos meios de comunicação social, este conto imagina o desencadear de uma nova crise política e social por via de uma série de mensagens enigmáticas que aparecem, sem como nem porquê, em billboards espalhados por toda a cidade; e essas mensagens, que constituem primeiro uma pergunta incómoda, depois um aviso e, por fim, um apelo à luta - que irrompe por fim. O mistério das mensagens é explicado sem ser esclarecido (e a ideia, num contexto de propaganda como meio de guerra, tem imenso potencial), e o conto vai aflorando com eficácia a sua mensagem - enfraquecendo porém na última parte, explicada pelo testemunho de um sobrevivente do estado de sítio em Los Angeles (diminuído pela alusão nazi - é sempre forte, mas já nos anos 90 estava demasiado batida) e pelo fragmento do discurso do Presidente, numa espécie de Marshal McLuhan meets John Galt (no tom, não na ideologia). Mas o último parágrafo é de uma ironia magnífica e cristalina, e eleva o conto bem acima das suas fraquezas. The Rodney King Global Mass Media Artwork encontra-se disponível aqui para leitura online. 

4 comentários:

Luís Filipe Silva disse...

Tão velhinhos que esses contos são, têm barbas mais brancas que as minhas... :) Obrigado por os teres acordado e pelos comentários. Abraço

João Campos disse...

Ora essa, nada a agradecer. É sempre muito interessante recuperar estes textos (nem conhecia as antologias dos Encontros... a Ana é que as desenterrou numa biblioteca). Abraço.

Thanatos disse...

Já acompanho LFS desde o longínquo DN-Jovem. Continuo a achar que foi a maior perda da geração de 80 ter quase abandonado a escrita criativa. Enfim.

João Campos disse...

É uma pena, de facto. Mas nem por isso deixa de ser compreensível.