28 de Fevereiro de 2013

Lois McMaster Bujold: There’s no reason to believe that we will ever have cheap, easy interstellar travel

A "Lightspeed Magazine" publicou há dias um excerto da entrevista concedida por Lois McMaster Bujold em Dezembro último ao podcast Geek's Guide to the Galaxy da "Wired". Bujold é uma das autoras mais premiadas da ficção científica - venceu quatro prémios Hugo na categoria de "Best Novel", algo que apenas Robert A. Heinlein conseguiu. O seu mais recente livro de ficção científica, Captain Vorpatril's Alliance, foi publicado no ano passado e alargou um pouco mais a já longa Vorkosigan Saga

Na entrevista, Lois McMaster Bujold fala da entrada do seu último livro na lista de best sellers do "New York Times", das personagens da Vorkosigan Saga, do carácter premonitório da ficção científica, do mercado editorial e de livros em geral. Dois excertos: 


So your new book is called Captain Vorpatril’s Alliance. You want to tell us about that?
This is book fourteen—depending on how you count it, or sixteen—in the Vorkosigan Series, and it concerns the adventures of Ivan Vorpatril, the titular character. He’s been a long-running character in the series. He got his start back in The Warrior’s Apprentice, which was published in 1986. The series and the characters have grown pretty much in real time. He’s now 35 in this book. I guess the mode of the book is the easiest to describe—it’s a romantic comedy and caper novel.

(...)

To what extent do you think the future depicted in the Vorkosigan Saga might actually come true?
In bits and pieces, I think it will. The space travel part I think is entirely bogus at this time. There’s no reason to believe that we will ever have cheap, easy interstellar travel. Other parts of it—usually the parts that I concentrate my plots on—are more realistic: the biology, the biotechnology, the genetics, and the genetic engineering, they’re more grounded. And I’m also very interested in the impact of biotechnology on the way people could live. The most obvious ongoing thing being the uterine replicator, the idea of extra-uterine gestation of human beings—and anything else you wanted to do with it—which is a technology that is perfectly possible and will come.

It’s an interesting technology because it totally changes women’s lives, and yet doesn’t make that much difference to guys, which is why I think it doesn’t turn up in science fiction written by men very much. Although the first place I ran across it was in Aldous Huxley’s Brave New World, which was written and published in the early 1930s. Huxley used the idea as a metaphor for the British class system, as near as I remember. It’s been a long time since I reread that book. But my exploration of technologies has always been how many things can I do with it, not what is the most dire thing I can do with it.

A entrevista pode ser lida na "Lightspeed Magazine" e o podcast pode ser ouvido na página do Geek's Guide to the Galaxy, na "Wired".


Defiance: The Ark Hunter Chronicles

Nos últimos dias tenho entretido com o Alpha Testing de Defiance (não me perguntem a lógica de a fase Alfa de testes se suceder a uma fase Beta), mas sobre isso não posso falar muito. Nem é essa a ideia, para já: a verdade é que tenho andado tão entretido com o jogo que não reparei na web series de animação que tem sido divulgada pela Trion no Youtube: Defiance: Ark Hunter Chronicles. Os dois primeiros mini-episódios já estão disponíveis, e dão uma ideia do ambiente do jogo. 





Fonte: Polygon

Filipe Melo em entrevista

No site Rua de Baixo foram publicados dois artigos muito interessantes de Gabriel Martins sobre o universo de Dog Mendonça & Pizzaboy: um texto sobre a história das personagens e a publicação nos Estados Unidos e uma entrevista com Filipe Melo, o criador daquelas personagens memoráveis. Dois destaques da entrevista: 

Para quando o terceiro volume das aventuras de Dog Mendonça?
O Juan Cavia, desenhador oficial do “Dog”, está a trabalhar na direcção de arte de um filme, só pode começar a trabalhar em Março. O Santiago Villa (cor) e eu estamos à espera que ele acabe. Vamos tentar avançar o mais rápido que conseguirmos, gostávamos muito de concluir o livro no final de 2013 – mas o mais provável é acabar algures em 2087.

Tens dito que vais fechar a saga do Dog neste terceiro volume. A que se deve esta decisão, e tem a ver com o facto de estares a ficar sem adjectivos para descrever os títulos dos volumes (incríveis, extraordinárias)?
Ficou decidido que a saga do “Dog Mendonça” acaba por aqui. Serão três volumes no total. Esta decisão tem a ver com a necessidade de fechar um capítulo das nossas vidas e de pensar em coisas novas. Ainda tenho um par de ideias para histórias curtas que acho que poderiam funcionar, mas serão só três livros no total. Mais vale assim do que estar a fazer sequelas piores, como aconteceu com alguns clássicos que nos partiram o coração: Ghostbusters, Gremlins, Robocop, Tubarão…

A entrevista completa pode (e deve) ser lida aqui e o artigo pode ser encontrado aqui

Não é de agora que o Filipe Melo diz que as aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy terão apenas três livros - e se dada a qualidade das duas primeiras histórias (e dos Untold Tales) é uma pena que assim seja, nem por isso a decisão deixa de ser louvável (bem pelo contrário). De resto, a porta para novas histórias daquelas personagens memoráveis não fica fechada, o que para todos os efeitos é uma excelente notícia.


Remember Me com lançamento confirmado para Junho

4 de Junho nos Estados Unidos, 7 de Junho na Europa - para PS3, Xbox 360 e PC. Estas são as datas de lançamento de Remember Me, o novo jogo de acção na terceira pessoa em ambiente cyberpunk desenvolvido pela Dontnod Entertainment e distribuído pela Capcom. Foi disponibilizado ontem um novo trailer, centrado em Nilin e na sua cruzada numa futurista Neo-Paris para recuperar as suas memórias.


Fonte: Polygon

27 de Fevereiro de 2013

HENRi: o trailer

Aqui está um projecto curioso: HENRi, um filme curto realizado por Eli Sasich e produzido através de crowdfunding. Este trailer dá uma ideia do enredo do filme: a inteligência artificial da nave abandonada "Pythagoras" ganha consciência e constrói um corpo artificial para se sentir viva. A premissa e as imagens do trailer fazem-me lembrar um pouco o conto Mr. Spaceship, de Philip K. Dick (o autor é referido por Sasich como uma das inspirações). A surpresa, porém, reside no voice acting da inteligência artificial, a cargo do lendário Keir Dullea - o actor que encarnou Dave Bowman em 2001: A Space Odyssey. No site oficial é possível ver várias imagens da produção do filme, incluindo algumas maquetas espectaculares. 

 

Fonte: SF Signal / HENRi

James McAvoy como possível Eric Draven no remake de The Crow

Não fazia a mais pequena ideia de que havia uma ideia para um remakedo filme The Crow (ou, se preferirem, uma readaptação do comic) perdida algures no development hell de Hollywood. Nem por isso, porém, me sinto surpeendido: a adaptação cinematográfica do comic de James O'Barr realizada por Alex Proyas pode não ter sido um dos melhores filmes dos anos 90, mas foi sem dúvida um dos mais icónicos, com o seu visual gótico e a violenta vendetta de um Eric Draven trazido de volta à vida por um corvo para vingar o trágico destino da sua namorada. As três sequelas, porém, nunca fizeram justiça ao original, pelo que seria uma questão de tempo até aquele filme de culto ser, ele mesmo, ressuscitado para uma nova vida na época do eterno remake (et pour cause...). Vários foram os realizadores que estiveram aparentemente ligados a este projecto, como Stephen Norrington e Juan Carlos Fresnadillo; mas o projecto parece estar agora nas mãos de F. Javier Gutierrez, e James McAvoy (X-Men: First Class) poderá ser o próximo actor a interpretar o lendário papel que imortalizou Brandon Lee. 

Fontes: io9 / /Film

26 de Fevereiro de 2013

Novo trailer para Starcraft 2: Heart of the Swarm

Heart of the Swarm, a primeira expansão de Starcraft 2, tem lançamento marcado já para o próximo dia 12 de Março - e a Blizzard Entertainment disponibilizou um novo trailer, desta vez focado na narrativa (e, seguindo a recente moda cinematográfica, a revelar mais do que devia):



Muito interessante (e muito bem feito, claro), mas infelizmente repetitivo: quem conhece a série já assistiu uma vez à ascensão de Sarah Kerrigan no Zerg Swarm. Que desta vez o faça por uma vingança pessoal e não pelos desígnios da Overmind acaba por ser apenas mais um detalhe. Enfim, nada de surpresas neste campo, é esperar para ver como a Blizzard dá forma ao jogo: o primeiro capítulo de Starcraft 2Wings of Liberty, também não chegou perto do rasgo narrativo de Broodwar, mas em termos de jogabilidade foi uma experiência formidável.   

Sunshine, ou como fazer um bom filme-catástrofe

Em circunstâncias normais, Sunshine, filme de 2007 realizado Danny Boyle (28 Days Later) e escrito por Alex Garland, seria apenas mais um filme-catástrofe típico, igual a qualquer summer blockbuster de Hollywood na tradição de desastres como Independence DayThe Core ou The Day After Tomorrow. Uma tradição que o SyFy Channel tem mantido viva com um entusiasmo muito superior ao orçamento disponível, sem alterar muito a fórmula: uma premissa científica impossível junta personagens improváveis numa missão tecnologicamente implausível para salvar o mundo. Sunshine, porém, não é um filme normal, e Danny Boyle elevou-o acima das limitações da sua premissa ao dar a um elenco muito talentoso um argumento sólido, e ao colocar a acção num ambiente de thriller espacial que o afasta de outros desastres cinematográficos (pun intended) que o género conheceu nos últimos 20 anos.

Isto, porém, não quer dizer que a premissa fundamental de Sunshine não seja um perfeito disparate, e a sua maior fraqueza - a ideia de que o Sol se está "a apagar" é ridícula, e a noção de que poderia ser possível reacendê-lo com uma bomba gigantesca levada até à estrela não fica a dever muito à ideia de que seria possível reiniciar a rotação da Terra com bombas nucleares largadas centro do planeta, como vimos no pavoroso The Core. A diferença, como é bom de ver, está na execução. Qualquer filme-catástrofe que se preze segue não só a fórmula acima mencionada, mas também uma estrutura mais ou menos convencional: antes de o espectador saber o que se está a passar há uma série de desastres a assinalar que algo está errado; os heróis (e o vilão, que nestes filmes funciona apenas como um obstáculo ao herói) são apresentados; é-lhes explicado em jargão pseudo-científico o problema; estes, após alguma relutância, lá decidem tentar salvar o mundo; a missão quase falha, mas no último momento há um golpe de sorte ou de génio que faz tudo resultar. The Core, Armageddon, Independence Day, The Day After Tomorrow, 2012: na sua essência, a fórmula é sempre a mesma, e nem os monumentos e símbolos destruídos variam muito. 


A diferença, como disse, está na execução: Sunshine coloca a fórmula-catástrofe no seu devido lugar - no caixote do lixo - e após uma curta e eficaz introdução que explica a premissa do filme e a história da missão falhada Icarus I, a narrativa vai directamente para a nave Icarus II, momentos antes de a tripulação perder todo o contacto com a Terra. Não há uma imagem do planeta a congelar, de populações a morrer, monumentos a ficarem revestidos por gelo - toda a acção (excepto dois breves e lógicos momentos) decorre a bordo da Icarus II com a sua tripulação isolada do resto da Humanidade. E é nesse isolamento que os oito elementos da tripulação têm de conviver, sabendo que embarcaram numa missão que poderá não incluir viagem de regresso. Há, assim, espaço para conhecer os tripulantes, para perceber as diferenças entre cada uma daquelas pessoas - para simpatizarmos com aquelas personagens, ou mesmo para as detestarmos, de forma a que, quando as coisas começarem a correr mal (isto não é um spoiler, é uma inevitabilidade), o destino de cada uma delas tenha impacto. 

O elenco de Sunshine é um dos seus pontos fortes: com Cilian Murphy à cabeça no papel do físico Robert Capa, Chris Evans num surpreendente desempenho como Mace, Rose Byrne como Cassie e Cliff Curtis no papel do enigmático Searle. A atmosfera é formidável, tensa mesmo nos momentos mais descontraídos (que são poucos). A nave Icarus II está muito bem concebida, num misto de Discovery com Nostromo que funciona surpreendentemente bem, e os efeitos especiais são notáveis numa produção europeia cujo orçamento avultado fica longe do orçamento médio de qualquer summer blockbuster norte-americano. O destaque, porém, tem de ir para a banda sonora: atmosférica, arrepiante e magistral, deu mais força a cada momento do filme. 


Sunshine distancia-se dos filmes-catástrofe aos quais foi buscar a sua premissa, mas apesar de se inspirar em alguns dos melhores filmes do género, como Alien ou 2001: A Space Odyssey, e de recriar alguns momentos icónicos daqueles, não tem fôlego para se tornar num clássico da ficção científica. O que está longe de ser um defeito: Danny Boyle mostrou ser possível refrescar um sub-género estafadíssimo e elevá-lo acima da mediocridade habitual. Pode não ser um clássico, mas é um bom filme - o filme-catástrofe que merece ser visto e apreciado. 7.1/10

Sunshine (2007)
Realizado por Danny Boyle
Escrito por Alex Garland
Com Cillian Murphy, Rosie Byrne, Chris Evans, Cliff Curtis, Michelle Yeoh, Troy Garity, Benedict Wong e Hiroyuki Sanada
107 minutos

25 de Fevereiro de 2013

O cinema (fantástico) em loop

No rescaldo dos Óscares, este artigo de Gary Dalkin no blogue da Amazing Stories sobre o estado da indústria cinematográfica parece-me mais actual e pertinente do que nunca: Cloud Atlas Shrugged - or let the Skyfall. Fala sobre o tempo - perdido, aparentemente - em que os filmes eram grandes produções individuais, feitos com risco e brio, com o propósito de encantar as audiências, que os encaravam como um autêntico espectáculo. Todo o artigo é digno de leitura cuidada, mas destaco uma ideia que me parece fundamental: 

Great cinema don't need sequels.

O que é bem verdade - os grandes filmes, de facto, não precisam de sequelas. Como os grandes livros não precisam. Isto, note-se, não significa que não se possam fazer boas séries literárias ou cinematográficas: veja-se The Lord of the Rings (em livro e filme), EarthseaHis Dark Materials ou Foundation. Philip K. Dick, porém, nunca escreveu uma série - e é um dos melhores autores que o género já conheceu (para dar apenas o exemplo mais evidente). Isto não significa que não tenha havido bons filmes de género em franchises: The Hobbit: An Unexpected Journey foi um bom primeiro capítulo (ainda que pouco inspirado) de uma nova trilogia, The Avengers foi um dos filmes mais divertidos do ano, e mesmo a câmara sísmica de The Hunger Games não estragou demasiado um filme interessante q.b.. Mas, como bem relembra Dalkin, 2012 foi também o ano em que Ridley Scott decidiu regressar ao universo de Alien para o abastardar ainda mais com Prometheus - e promete repetir a graça com a sequela a Blade Runner. Algo que é mais grave ainda quando detém os direitos de adaptação de um dos melhores livros de ficção científica militar jamais escritos: The Forever War, de Joe Haldeman. 2012 foi também o ano em que The Dark Knight Rises voltou a afundar Batman para os níveis próximos dos de Batman Forever, mas com a agravante de se levar demasiado a sério. 

Isto, como relembra o autor, não seria grave se a indústria não estivesse tão dependente das franchises que se tornou avessa ao risco. Uma vez mais, ano foi paradigmático: as duas grandes produções de cinema fantástico (Cloud Atlas e Looper) foram independentes - e ignoradas em quase tudo o que foi prémio. O resto? Franchises, aquelas que já referi acima. Dalkin fala de Cloud Atlas (que, como o caro leitor saberá se acompanha o blogue, foi o meu filme preferido em 2012), um filme a todos os níveis notável: no argumento, nos desempenhos, na caracterização, na interligação entre cada uma das excelentes histórias que compõem a narrativa. Conseguir financiamento para o filme, porém, foi um desafio - e os resultados de bilheteira foram uma desilusão para um filme tão ambicioso e arrojado. É certo que continuam a ser feitos excelentes filmes de ficção científica, mas são quase sempre produções independentes, com orçamentos muito limitados e poucos recursos. 

Gostaria de pensar que não será necessário seguir o conselho do autor e deixar de acompanhar franchises no cinema. Que, mais cedo ou mais tarde, os estúdios voltarão a arriscar e voltaremos a ter grandes filmes de género - sejam conceitos originais ou adaptações de algumas obras literárias notáveis (Rendezvous With Rama e Ubik continuam em development hell?). Que, mais dia menos dia, a ficção científica voltará a ter um filme com a ambição, a qualidade e o impacto de um Blade Runner ou The Matrix. Contudo, ao olhar para o que foram os últimos anos - e, sobretudo, ao olhar para o que será este ano em termos de estreias -, é difícil manter as expectativas minimamente elevadas.


24 de Fevereiro de 2013

Tolkien: Construtor de Mundos (5): O desconhecido, o medieval e o mitológico

O seminário Tolkien: Construtor de Mundos terminou com três sessões que abordaram facetas menos conhecidas do seu legado literário e académico - e as três sessões estiveram a cargo de professores da Faculdade de Letras. Luísa Azuaga abordou o Tolkien enquanto académico e erudito a partir do estudo que o filólogo fez sobre o fragmento de Finn and Hengest e sobre Beowulf; Pedro Gomes Barbosa explorou os aspectos medievais (ou falta deles) na obra de Tolkien, e Angélica Varandas, a encerrar, centrou a sua sessão na "mitologia para Inglaterra" que Tolkien desejava criar com The Silmarillion.

The Lord of the Rings, The Hobbit e porventura The Silmarillion serão, para a maior parte das pessoas, as obras imediatamente associadas a Tolkien. Mas há toda uma outra faceta de Tolkien na penumbra da sua popularidade literária: o Tolkien filólogo, erudito, especialista em línguas antigas. Numa sessão intitulada Tolkien, esse desconhecido, Luísa Azuaga dissertou sobre essa vertente de Tolkien a partir da história de Finn e Hengest que Tolkien recuperou a partir de duas fontes: do fragmento The Fight at Finnsburh e de uma passagem de Beowulf. De acordo com Luísa Azuaga, Tolkien estudou de forma aprofundada este tema, descrevendo Finn, Hengest e Hnæf como personagens históricas e não lendárias, e os acontecimentos em Finnsburh como verídicos. Os estudos com esta interpretação estão editados no livro Finn and Hengest: The Fragment and the Episode.

Na penúltima sessão, intitulada Buscar o medievo em Tolkien, Pedro Gomes Barbosa começou por referir as várias influências da obra de Tolkien (o cristianismo, as mitologias germânicas, nórdicas e celtas, textos como Beowulf e a Edda poética e em prosa) e elementos que as identificam. Alguns animais com destaque, como os corvos, os lobos e as águias, são associados com frequência a Odin, e tanto os Elfos como os Anões surgem nas mitologias nórdicas de forma muito idêntica à explorada por Tolkien (os primeiros como seres da floresta, os segundos com uma identidade "de carácter telúrico"). Mas estas influências não se notam apenas nas obras ligadas à Terra Média: em The Legend of Sigurd & Gudrún, "fez algo de novo a partir de uma lenda antiga. Quando a elementos medievais propriamente ditos, Pedro Gomes Barbosa defende que há muito pouco de medieval em Tolkien para além da projecção que os próprios leitores fazem: "nós é que encontramos o medieval em Tolkien", diz a dada altura, aludindo à presença no imaginário popular de elementos como as armaduras, as armas, os castelos e os festins. Também os jogos de personagens (com Dungeons & Dragons à cabeça) "colocaram Tolkien na Idade Média" - mas, como o professor refere, é duvidoso que "Tolkien quisesse para a sua obra essa interpretação medieval".

O seminário terminou com a professora Angélica Varandas e a sessão  Uma mitologia para Inglaterra - referindo que esta expressão foi cunhada pelo biógrafo Humphrey Carpenter, devido à ideia de Tolkien que Inglaterra não possuía, ao contrário de outras nações antigas, uma mitologia própria - "há poucos registos mitológicos anglo-saxões, e nem em Beowulf encontramos traços" de eventuais mitologias destes povos. "Os próprios registos celtas foram feitos entre os séculos XI e XV". De acordo com a professora, "Tolkien não queria uma lenda britânica (as lendas arturianas), mas sim britânicas - e isso implicaria "a criação de uma mitologia anglo-saxónica". Esta ideia não surge por acaso, mas enquadrada no movimento de redescoberta das línguas antigas e da origem das nações iniciado no século XIX, no desenvolvimento da Filologia Comparada e na ideia dos "épicos nacionais como fundamento da nação". Mas na criação da sua mitologia (presente em The Silmarillion), Tolkien afastou-se daqueles ideais, não se circunscrevendo "a fontes nacionais", recorrendo "a tradições de outros países" e manifestando preocupações políticas ("na rejeição da máquina e no ódio à guerra - o universo de Tolkien é influenciado pela guerra mas não é uma alegoria desta") que todavia "não tornaram a obra ideológica". Para Tolkien, o mito "não deve ser um documento histórico ou uma alegoria, mas uma história verdadeira tecida pelo poder da linguagem" (ou não fosse ele filólogo), e dá ao mito uma estrutura literária, assente no seu amor pelas palavras. Em Tolkien, "as lendas dependem da linguagem, e a linguagem depende das lendas que transmite por tradição" - como se as histórias tivessem sido criadas para fornecer um mundo para as linguagens, e não o inverso.

O encerramento propriamente dito do seminário ficou a cargo do professor José Varandas, que ao longo do dia cumpriu com entusiasmo, erudição e humor o papel de anfitrião - e deixou a promessa de para o ano, e se possível no mesmo dia, o seminário Tolkien: Construtor de Mundos ter a sua segunda edição.

Imagem: Finn & Hengest, de John Howe

Sobre o seminário:

Citação fantástica (55)

Now any dogma, based primarily on faith and emotionalism, is a dangerous weapon to use on others, since it is almost impossible to guarantee that the weapon will never be turned on the user.

Isaac Asimov, Foundation (1951)

23 de Fevereiro de 2013

João Barreiros e Lisboa no Ano 2000 no Diário de Notícias

Estamos perante um caso curioso no qual a notícia, em si, é notícia*: no suplemento QI do Diário de Notícias de hoje foi publicado um longo (três páginas) e interessante artigo de Eurico de Barros sobre a antologia Lisboa no Ano 2000, editada pela Saída de Emergência. O artigo, baseado numa entrevista a João Barreiros (organizador da antologia), fala sobre a criação da antologia e o panorama nacional da ficção científica. Tanto quanto sei, só está disponível online a assinantes, pelo que fica como leitura recomendada para quem se interessar e ainda conseguir encontrar o jornal. 

*É notícia porque os artigos sobre ficção científica em jornais portugueses, também eles, uma raridade. 

Game of Thrones: Primeiro trailer da terceira temporada

Depois de vários teasers, eis finalmente o trailer da terceira temporada de Game of Thrones.




Tolkien: Construtor de Mundos (4): O Mal, o épico e as adaptações

Às excelentes sessões da manhã do seminário Tolkien: Construtor de Mundos, organizado pelo Centro de História e pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, seguiram-se outras seis, divididas em duas partes. Comecemos pela primeira, com três oradores convidados: Miguel Ângelo Fernandes, da Faculdade de Letras, falou sobre o tema do Mal no universo de Tolkien; Cláudia A. Teixeira, da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Évora, analisou os elementos que podem (ou não) classificar a obra de Tolkien como "épica" no sentido clássico da palavra; e Ana Daniela Coelho, também da Faculdade de Letras, dedicou-se às adaptações cinematográficas de The Lord of the Rings e de The Hobbit

É habitual identificar em Tolkien a dualidade sempre presente entre o Bem e o Mal, sem as "áreas cinzentas" e a ambiguidade que marcam a fantasia contemporânea. Para abordar este tema na apresentação O Mal em Tolkien, Miguel Ângelo Fernandes começou por definir essa dualidade como um "jogo de opostos, uma guerra de trincheiras entre o Bem e o Mal" - uma dualidade que não concebe "neutralidade" ou "possibilidade de conciliação". Essa dualidade é visível através de três tipos de personagens que podem ser encontradas no universo de Tolkien: os incorruptíveis, como os Valar; os corruptíveis, como Boromir; e os corruptos, como Morgoth e Sauron. Mas no seu entendimento, incorruptíveis e corruptos o Bem e o Mal não são "escolhas conscientes" - são, sim, "características ontológicas". Até aqui, nada de novo; a originalidade da abordagem do orador reside na possibilidade de esta bipolaridade narrativa ser uma "interpretação neurológica" fruto de "lateralização cerebral" (derivada das especificidades dos dois hemisférios do cérebro) - ou seja, um "fardo biológico". Para ilustrar o ponto, Miguel Ângelo Fernandes fez um pequeno teste com o público, explicando as funções e as capacidades de cada um dos hemisférios e a forma como interferem na nossa interpretação do mundo e como podem motivar uma tendência para algo que designa por "bipolarização literária" - o que, também acrescentou, "não tem de ser uma fatalidade" (concluindo que o Mal em Tolkien não tem uma natureza "infernal").

Na segunda sessão da tarde, intitulada Tolkien: entre a épica e a narrativa venturosa, Cláudia A. Teixeira dissertou sobre a utilização do termo épico como "classificação moderna de algumas narrativas" - entre as quais The Lord of the Rings surge sempre com destaque. Mas o "épico", enquanto género, "está morto" - ou assim defende a oradora, considerando-o relevante apenas "enquanto modo". E a explicação para isso, de acordo com Cláudia A. Teixeira, encontra-se no próprio autor ("hostil à tradição clássica") e na obra em si, mais próxima das sagas. As diferenças são estabelecidas: em termos de unidade, um épico "preserva um sentido de unidade na articulação das várias partes" que constituem a odisseia; já em Tolkien, como nas sagas, "todas as acções estão condicionadas pelo clímax" - e se num épico há uma linearidade nas várias aventuras, numa saga "cada aventura será mais perigosa do que a anterior". Pode-se dizer também que um épico tem um herói central, enquanto The Lord of the Rings não. Mas o mais relevante será porventura o desfecho - enquanto que num épico "a vitória nas oposições externas não resolve as internas e o fim funciona como outro início", em Tolkien o desfecho com o fim de Sauron é, para todos os efeitos, "uma resolução".

A primeira parte da tarde foi concluída com a apresentação Adaptações: recriando Tolkien para o cinema, de Ana Daniela Coelho - que começou por assumir a sua especialização em Jane Austen e por traçar um paralelismo muito curioso sobre a forma como ambos os autores, afinal tão diferentes, conseguiram atrair uma legião de fãs extremamente devotados e com reacções muito idênticas no que às adaptações audiovisuais diz respeito (uma curiosidade que a própria relembra: Tolkien não acredita no valor de possíveis adaptações). Sobre as adaptações cinematográficas em termos gerais, Ana Daniela Coelho considera que uma adaptação "deve ter sempre valor próprio, independentemente da subalternização para com o livro" (a velha ideia de que o livro é sempre melhor do que o filme). Mencionou as "adaptações falhadas e incompletas" das obras de Tolkien, como os filme nunca produzidos de Forrest J. Ackerman em 1957 e John Boorman em 1970, e o filme animado de 1978 de Ralph Bakshi - que apesar de nunca ter tido a sequela que concluísse a história, teve uma grande influência em Peter Jackson, que na viragem do milénio realizou a trilogia The Lord of the Rings, e que de momento se encontra a adaptar The Hobbit para uma nova trilogia. Nesta adaptação, Ana Daniela Coelho considera que Jackson juntou à história escrita por Tolkien "momentos icónicos de outros filmes" (como Aragorn a abrir a porta em Helm's Deep), algumas "facetas pós-modernas", como as dúvidas e as fraquezas de algumas personagens (aspecto evidente tanto em Aragorn como Faramir), e um maior destaque às personagens femininas, onde se destaca Arwen como uma aproximação ao público. Estas diferenças, porém, não impedem o filme de "preservar o espírito da obra". The Hobbit "é muito diferente de Lord of the Rings, na medida em que Peter Jackson "transformou e adaptou The Hobbit para o universo de The Lord of the Rings - como se o filme fosse uma referência não à obra de Tolkien, a original, mas à de Jackson, a adaptação. Na opinião da oradora, os traços de pós-modernismo são ainda mais notórios no novo filme - e, à partida, no resto da trilogia (ainda por estrear).

Imagem: The Lord of the Rings: The Two Towers (2002), realizado por Peter Jackson.


Sobre o seminário:

22 de Fevereiro de 2013

Tolkien: Construtor de Mundos (3): O encantamento, as ilustrações e a criação de mundos ficcionais

De regresso ao seminário Tolkien: Construtor de Mundos, da passada Terça-feira na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Às duas sessões ontem mencionadas seguiram-se três, no feminino e com temas curiosos: a primeira, com Iolanda Zorro (da FLUL), sobre o "encantamento", as fairy stories como Tolkien as definia e a suspensão da descrença; a segunda, de Inês Meira Araújo (também da FLUL), dedicada ào Tolkien ilustrado; e a terceira, a concluir a manhã, com Maria do Rosário Monteiro, professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e com vários trabalhos académicos dedicados à obra de Tolkien. Comecemos, então, pelo início.

Com uma sessão intitulada O encantamento do Homem: a sub-criação em J.R.R. Tolkien, Iolanda Zorro recuperou o célebre ensaio On Fairy Stories de Tolkien para dissertar sobre as diferenças entre mundos primários e mundos secundários. A Terra Média faz assim parte de um "mundo secundário como encantamento", no qual o leitor entra ao aceitar as regras que lhe estão implícitas - o célebre mecanismo de "suspensão da descrença". Esse mecanismo é fundamental para qualquer mundo secundário - a racionalização sobre a leitura quebra a sensação de verosimilhança e retira o leitor da narrativa. Nesse sentido, a fantasia de Tolkien pode ser considerada escapista, mas jamais no sentido que é habitualmente atribuído ao adjectivo, sobretudo no contexto dos géneros literários (o "estigma da literatura fantástica" a que aludiu). E a criação mitológica que lhe dá origem assenta numa lógica dialética de perguntas e respostas (a criação de The Lord of the Rings em simultâneo com The Silmarillion), estando orientada para a eucatástrofe (e não para mecanismos de deus ex machina), e com uma ligação nostálgica ao mundo primário (constituindo assim um refúgio).

Já Inês Meira Araújo optou para abordar a ilustração no universo de Tolkien numa interessante e divertida palestra intitulada Os desenhadores de Tolkien. É uma pena não poder apresentar aqui as várias ilustrações daquele imaginário - algumas chegaram às capas de edições em vários países, outras foram vetadas pelo próprio autor. Tolkien chegou mesmo a produzir algumas ilustrações, mas não se via como um profissional nessa área. O que, porém, não o impediu de ser extremamente exigente: afastou artistas americanos por um estilo que considerava "uma aproximação à Disney", e teceu duras críticas a muitas capas de que não gostou. Em 1963, Maurice Sendak (mais conhecido pelo clássico Where the Wild Things Are) chegou a produzir algumas ilustrações para uma edição ilustrada comemorativa, mas essas ilustrações não chegaram a ser publicadas. Dos vários ilustradores com quem trabalhou, Pauline Baynes, sua amiga pessoal, terá porventura sido uma das profissionais que mais se aproximou da sua visão; os mais conhecidos, porém, são Alan Lee e John Howe, que nunca trabalharam directamente com Tolkien mas que ilustraram diversas edições dos vários livros dedicados ao seu universo fantástico - e que contribuíram para a visão artística dos filmes de Peter Jackson.

A manhã terminou com a professora Maria do Rosário Monteiro, com vários trabalhos académicos dedicados à obra de Tolkien (e que praticamente dispensa apresentações). Na sua sessão, intitulada Tolkien e a criação de mundos ficcionais possíveis, começou por considerar "um erro, uma abordagem simplista" a definição de literatura fantástica como escapista ("toda a literatura é escapista, mesmo a pós-moderna", disse a dada altura), e respondeu com muito humor a algumas questões deixadas no ar nos debates anteriores (sobretudo no que diz respeito a Galadriel). Esclarecidas estas questões, deu início a uma fascinante dissertação sobre a criação do universo ficcional fantástico de Tolkien, das influências que absorveu e que exibiu na sua obra (como as cristãs: Tolkien, como se sabe, era católico convicto) à importância da sua formação como filólogo e da sua paixão pelo estudo e pela criação de línguas para a génese da sua ficção (Tolkien considerava a língua "essencial para definir a cultura"). Traçando as origens da Terra Média num "poema publicado em 1915" (The Voyage of Earendël the Evening Star), falou do seu trabalho de uma vida em The Silmarillion e na forma como não concebeu discrepâncias narrativas entre esta obra inacabada e The Lord of the Rings (segundo o que disse, até nas fases da lua as duas obras estão em sintonia). A criação deste universo prendeu-se com uma ambição de "escrever uma mitologia para Inglaterra", nação desprovida de algo que se pudesse caracterizar como tal (as lendas Arturianas não são anglo-saxónicas), que Tolkien desenvolveu com um ritmo narrativo rebuscado a Aristóteles e às tragédias clássicas. E é um universo "masculino" (reminiscências da guerra em que combateu, porventura), onde as personagens femininas nunca são desenvolvidas - Arwen é, para todos os efeitos, uma donzela, e Éowyn funciona um pouco como "um mito reformulado das Amazonas", mas acaba por se revelar "uma personagem feminina falhada, pois nunca consegue ser perfeita" nos objectivos a que se propõe. "Mas também Frodo" (protagonista), disse, "é um falhado". 

Isto, note-se, é apenas um resumo um tanto ou quanto mal amanhado de uma excelente palestra sobre Tolkien, com várias ideias interessantes que me levaram a prestar mais atenção ao que dizia do que às notas que anotava no meu caderno. Amanhã, escreverei sobre as sessões que decorreram durante a tarde. 

Imagem: The Dark Tower, de Alan Lee


Dangerous Visions em retrospectiva (2): Contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard

Hoje, proponho um regresso a Dangerous Visions, a antologia editada por Harlan Ellison em 1967 que se tornou num dos livros fundamentais do movimento New Wave da ficção científica. Em artigos anteriores destaquei contos de Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss e Poul Anderson; hoje, dedicar-me-ei aos contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard.

If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon: Num futuro distante, no qual a Humanidade se viu obrigada a abandonar a Terra e a colonizar outros planetas - e perante uma surpreendente abundância de planetas habitáveis na galáxia (com mais ou menos terraformação) -, surgiram de forma mais ou menos espontânea vários tipos de sociedades em vários planetas diferentes, ligados numa vasta rede de comunicação e comércio. Entre os planetas habitáveis, porém, permanece um mistério: por que motivo o planeta Vexvelt permanece isolado, e ninguém deseja falar nele? Charli Bux tropeça com uma ponta do mistério e a sua curiosidade aumenta: Vexvelt é um planeta riquíssimo, com recursos de fazer inveja a qualquer outro planeta. Por que motivo, então, os seus habitantes permanecem afastados do resto da Humanidade? Com uma escrita bem ritmada e a alternar momentos dramáticos com alguns toques de comédia, Sturgeon coloca o protagonista em confronto com um dos mais antigos tabus das sociedades humanas. Ao opor o enquadramento social de Charli - com todos os seus preconceitos - à sociedade quase-utópica que reside em Vexvelt, Sturgeon desmonta pela lógica aquele tabu e procura demonstrar como o preconceito pode ser interiorizado sem sequer darmos por ele. 

The Happy Breed, de John Sladek: Em poucas páginas, John Sladek constrói uma premissa interessante: a partir do momento em que as máquinas podem substituir os humanos em todos os trabalhos (da recolha de lixo à cirurgia ou à engenharia) e assegurar todas as suas necessidades, básicas ou não, a Humanidade pode enfim dedicar-se ao mais perfeito hedonismo e às artes. Ou será que pode? Sladek coloca a questão de forma inteligente enquanto explora as consequências de uma sociedade na qual máquinas benevolentes tomam conta de todos os aspectos da vida humana em prol da felicidade de cada um. Mas será isso uma utopia de felicidade, ou uma distopia de estupidificação? À primeira vista, a premissa pode parecer banal nos dias que correm, mas é na execução que Sladek brilha - à sua escrita ritmada e concisa alia uma estrutura narrativa episódica assente em múltiplos pontos de vista que se vão misturando até ao twist final. O resultado é um conto tão divertido como perturbador, na definição e desconstrução de um nanny state absoluto - e algumas das suas ideias estão ainda muito presentes na ficção científica contemporânea.

The Recognition, de J.G. Ballard: Quase tão interessante como o conto de Ballard é a polémica que envolve a sua entrada em Dangerous Visions. O conto submetido pelo autor a pedido de Ellison não foi originalmente The Recognition, mas um outro, intitulado Assassination of J.F. Kennedy Considered as a Downhill Motor Race. Este conto, porém, nunca terá chegado às mãos de Harlan Ellison (é o que alega Ellison) por interferência do agente literário norte-americano de Ballard. The Recognition foi então submetido e aprovado, mas não sem algumas declarações polémicas de Ballard. De qualquer forma, e como disse, toda esta polémica não chega a ser tão interessante como o conto em si: The Recognition é uma das narrativas mais atmosféricas de toda a antologia. O protagonista observa a cidade durante uma caminhada, e depara-se com a chegada de um circo pequeno e especialmente desgastado - que, privado de um espaço mais central para o seu espectáculo, acaba por se instalar à beira rio, entre armazéns abandonados. O protagonista visita o circo, curioso, onde conhece a proprietária e o seu assistente - mas nas jaulas em exibição nem ele nem a população vão encontrar a exposição que esperam. Ballard cria um atmosfera tão evocativa como sombria, e a sua escrita excepcional dá forma a um dos melhores e mais estranhos contos da antologia. 

21 de Fevereiro de 2013

Tolkien: Construtor de Mundos (2): Da simbologia do Anel às florestas da Terra Média

O seminário Tolkien: Construtor de Mundos, que decorreu no passado dia 19 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, começou com duas sessões muito interessantes: a primeira, a cargo do professor Nuno Simões Rodrigues (do Centro de História da Universidade de Lisboa), incidiu sobre o tema do Anel, tanto no contexto da obra de Tolkien como na sua componente simbólica noutras histórias e em mitologias; a segunda, do professor José Varandas (também do Centro de História da Universidade de Lisboa), dedicada às florestas em Tolkien.

Com o mote de Um anel para todos dominar, Nuno Simões Rodrigues falou do anel enquanto mitema, elemento presente noutros universos mitológicos. Objecto mágico por natureza, portador de uma multiplicidade de significados, o anel encontra-se presente como motivo e símbolo em culturas díspares como a grega (o Anel de Polícrates, entre outros), a egípcia (envolvendo Hórus e Set), a judaica (o anel de Salomão), e mesmo nos contos de fadas (não será necessário voltar a referir Der Ring des Nibelungen). Outros elementos identificados em Tolkien podem também ser observados nas mitologias e no folclore dos povos celtas, escandinavos e germânicos, e em textos fundamentais da cultura ocidental - como a Epopeia de Gilgamesh, o Kalevala ou Beowulf, a título de exemplo. O mais relevante é que Tolkien, enquanto filólogo, teve acesso a muitas destas fontes e estudou vários textos nos idiomas originais, antigos - e tudo isso contribuiu para a sua própria criação mitológica.

A segunda sessão, a cargo do professor José Varandas, foi uma das melhores de todo o dia. Com o título Lothlorien (E Outras Florestas) abordou o tema das florestas em Tolkien partindo de uma definição daquele espaço tanto num plano pessoal como num plano científico - constituindo no primeiro caso um espaço de retiro e de observação, e no segundo um elemento natural e selvagem. Na obra de Tolkien, porém, a floresta surge sobretudo como elemento não natural e não selvagem - Lothlórien e Rivendell, como florestas élficas, não são caóticas mas organizadas, idealizadas, perfeitas. Lothlórien, por exemplo, é um espaço temido pelos Orcs, "onde o Mal não entra" (recorde-se a relutância em abrigar a Irmandade, com excepção de Legolas), e onde existem "elementos mágicos que dão à Irmandade maior capacidade de sobrevivência". Para todos os efeitos, as florestas de Lothlórien e de Rivendell "reprimem o caos" (elemento paradigmático nas sagas) e proporcionam à narrativa "momentos de respiração" e de "protecção" - e, algo relevante, que definem características distintivas entre os povos élficos. São espaços quase eternos, como um "último reduto do mundo antigo, que desaparecerá após a passagem do Anel". Tal como aconteceu a ambas as florestas - e, num dado curioso apontado pelo orador, como aconteceu às florestas naturais (selvagens) da Europa, consumidas pelo progresso de vários povos desde os Romanos e sobrevivendo apenas em nichos.

Mas em Tolkien, salienta José Varandas, as florestas também podem ser vistas "enquanto entidades próprias". É o caso de Fangorn, a floresta dos Ents, agressiva e perigosa - uma "floresta-entidade" que se forma na sua destruição pelos Orcs e retalia. Por sinal, não são os Homens quem derrota Saruman, mas sim os Ents e a própria Fangorn quem o faz, derrubando Isengard e destruindo os Uruk'hai - que, conforme sublinhou o professor, "caminham de dia e não temem a floresta", personificando a "maquinaria pesada", a indústria que Sauron representa, e que destrói o mundo natural. Já a Floresta Velha, onde está o Salgueiro (e onde vive Tom Bombadil), acaba por se aproximar mais de um "submundo de Ulisses", a uma descida ao mundo dos mortos (as "Barrows").

Imagem: The Forest of Lothlorien in Spring, por J.R.R. Tolkien; imagem encontrada na Tolkien Gateway.

Sobre o seminário:


20 de Fevereiro de 2013

Richard Matheson (1926 - )

Richard Matheson ocupa um lugar cativo entre os autores dos géneros do Fantástico cuja obra mais vezes foi adaptada para o cinema. Aquele que será porventura a sua obra mais conhecida, I Am Legend (1954), foi já recriada em três filmes, o último dos quais em 2007 - e outros trabalhos seus, como The Shrinking Man, Hell House, A Stir of EchoesBid Time Return ou Steel. Algumas destas (e de outras) produções contaram mesmo com argumentos escritos pelo próprio.

Em 1950, Richard Matheson viu um trabalho seu publicado pela primeira vez: o conto Born of Man and Woman, nas páginas da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction - e a partir deste ano muitas foram as histórias que escreveu e publicou em várias publicações, combinando com frequência elementos de fantasia, ficção científica e horror - e, por vezes, até algum humor. O seu primeiro livro, Someone Is Bleeding, foi publicado em 1953, e na sua bibliografia incluem-se a célebre história de ficção científica com vampiros I Am Legend (1954), The Shrinking Man (1956), Bid Time Return (1975) e What Dreams May Come (1978), entre outras, e para além de dezenas de contos. A sua actividade de escrita, porém, não se resumiu à literatura: escreveu argumentos para vários episódios de diferentes séries televisivas, como The Twilight Zone e Star Trek, para filmes televisivos e mesmo para cinema - onde se inclui o argumento do filme House of Usher, adaptado do célebre conto de Edgar Allan Poe.

Richard Matheson nasceu em Allendale, no estado de New Jersey (EUA), em 1926, e faz hoje 87 anos. 

Game of Thrones: Cenas cortadas da segunda temporada

Em qualquer produção cinematográfica ou televisiva há sempre várias cenas que são filmadas mas que, no processo de edição, acabam por não ser incluídas (ou por ser retiradas) da versão final. Game of Thrones, claro, não é excepção, e na edição Blu-Ray (não na edição DVD?) da segunda temporada foram introduzidos vários easter eggs - entre os quais se incluem quatro cenas omitidas, que o io9 divulgou hoje. Abaixo, a cena cortada entre Varys e Littlefinger (as restantes podem ser consultadas neste artigo de Meredith Woerner).


Fonte: io9

Prémios Nébula 2013: as nomeações

Já foram reveladas as obras nomeadas nas várias categorias dos Prémios Nébula 2013 - um dos mais prestigiados prémios de ficção científica e fantasia, atribuídos pela Science Fiction and Fantasy Writers of America - um prémio de autores para autores, portanto. A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar no 48º Nebula Awards Weekend, que decorrerá de 16 a 19 de Maio de 2013 na cidade de San Jose, na Califórnia (EUA). Na cerimónia, para além das quatro categorias dos Prémios Nébula ("Best Novel", "Best Novella", "Best Novelette" e "Best Short Story"), são também atribuídos dois outros prémios: o "Ray Bradbury Award for Outstanding Dramatic Presentation" e "Andre Norton Award for Young Adult Science Fiction and Fantasy". Abaixo, a lista das obras nomeadas:

Best Novel
  • Throne of the Crescent Moon, Saladin Ahmed (DAW; Gollancz ’13)
  • Ironskin, Tina Connolly (Tor) 
  • The Killing Moon, N.K. Jemisin (Orbit US; Orbit UK) 
  • The Drowning Girl, Caitlín R. Kiernan (Roc) 
  • Glamour in Glass, Mary Robinette Kowal (Tor) 
  • 2312, Kim Stanley Robinson (Orbit US; Orbit UK)

Best Novella
  • On a Red Station, Drifting, Aliette de Bodard (Immersion Press) 
  • After the Fall, Before the Fall, During the Fall, Nancy Kress (Tachyon) 
  • The Stars Do Not Lie, Jay Lake (Asimov’s 10-11/12) 
  • All the Flavors, Ken Liu (GigaNotoSaurus 2/1/12) 
  • Katabasis, Robert Reed (F&SF 11-12/12) 
  • Barry’s Tale, Lawrence M. Schoen (Buffalito Buffet)

Best Novelette
  • The Pyre of New Day, Catherine Asaro (The Mammoth Books of SF Wars) 
  • Close Encounters, Andy Duncan (The Pottawatomie Giant & Other Stories) 
  • The Waves, Ken Liu (Asimov’s 12/12) 
  • The Finite Canvas, Brit Mandelo (Tor.com 12/5/12) 
  • Swift, Brutal Retaliation, Meghan McCarron (Tor.com 1/4/12) 
  • Portrait of Lisane da Patagnia, Rachel Swirsky (Tor.com 8/22/12) 
  • Fade to White, Catherynne M. Valente (Clarkesworld 8/12)

Best Short Story
  • Robot, Helena Bell (Clarkesworld 9/12) 
  • Immersion, Aliette de Bodard (Clarkesworld 6/12) 
  • Fragmentation, or Ten Thousand Goodbyes, Tom Crosshill (Clarkesworld 4/12) 
  • Nanny’s Day, Leah Cypess (Asimov’s 3/12) 
  • Give Her Honey When You Hear Her Scream, Maria Dahvana Headley (Lightspeed 7/12) 
  • The Bookmaking Habits of Select Species, Ken Liu (Lightspeed 8/12) 
  • Five Ways to Fall in Love on Planet Porcelain, Cat Rambo (Near + Far)

Ray Bradbury Award for Outstanding Dramatic Presentation
  • The Avengers, Joss Whedon (realizador) and Joss Whedon e Zak Penn (argumentistas), (Marvel/Disney)
  • Beasts of the Southern Wild, Benh Zeitlin (realizador), Benh Zeitlin e Lucy Abilar (argumentistas), (Journeyman/Cinereach/Court 13/Fox Searchlight ) 
  • The Cabin in the Woods, Drew Goddard (realizador), Joss Whedon e Drew Goddard (argumentistas) (Mutant Enemy/Lionsgate) 
  • The Hunger Games, Gary Ross (realizador), Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray (argumentistas), (Lionsgate)
  • John Carter, Andrew Stanton (realizador), Michael Chabon, Mark Andrews e Andrew Stanton (argumentistas), (Disney)
  • Looper, Rian Johnson (realizador), Rian Johnson (argumentista), (FilmDistrict/TriStar)

Andre Norton Award for Young Adult Science Fiction and Fantasy
  • Iron Hearted Violet, Kelly Barnhill (Little, Brown) 
  • Black Heart, Holly Black (S&S/McElderry; Gollancz) 
  • Above, Leah Bobet (Levine) 
  • The Diviners, Libba Bray (Little, Brown; Atom) 
  • Vessel, Sarah Beth Durst (S&S/McElderry) 
  • Seraphina, Rachel Hartman (Random House; Doubleday UK) 
  • Enchanted, Alethea Kontis (Harcourt) 
  • Every Day, David Levithan (Alice A. Knopf Books for Young Readers) 
  • Summer of the Mariposas, Guadalupe Garcia McCall (Tu Books) 
  • Railsea, China Miéville (Del Rey; Macmillan) 
  • Fair Coin, E.C. Myers (Pyr) 
  • Above World, Jenn Reese (Candlewick)


Tolkien: Construtor de Mundos(1): Análise geral do seminário

Muitas coisas boas acontecem mais ou menos por acaso - e, a fazer fé nos professores José Varandas e Nuno Simões Rodrigues, da Faculdade de Letras e do Centro de História da Universidade de Lisboa, a ideia de organizar um seminário sobre Tolkien surgiu de um acaso, sendo desenvolvida a partir daí com a colaboração da professora Angélica Varandas e com o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (que, a título de curiosidade, em Novembro último organizou a segunda edição do seminário "Mensageiros das Estrelas"). Tolkien: Construtor de Mundos foi o título escolhido para esta primeira edição do seminário (irá haver uma segunda para o ano, em princípio) que procurou analisar e debater a obra de Tolkien - e não apenas aquela que se tornou mais conhecida por via da literatura e das adaptações cinematográficas e televisivas, mas também a outra, a académica e erudita, menos popular mas igualmente relevante.

Começando pelo comentário mais genérico: a qualidade das sessões surpreendeu-me muito pela positiva - e isso não se deveu apenas à presença da professora Maria do Rosário Monteiro e do professor/anfitrião José Varandas, que não conhecia (mas já lá irei). Algumas sessões a que assisti no "Mensageiros das Estrelas" fizeram-me recordar alguns dos piores aspectos da minha passagem pela universidade - a saber, ver um professor a limitar-se a ler aquilo que levou anotado para a aula, sem qualquer rasgo ou capacidade de improvisação ou de análise crítica com a turma ou o público. Houve, de facto, bastante leitura durante várias sessões deste seminário (old habits die hard), mas houve acima de tudo muito diálogo sobre muitos aspectos mais ou menos conhecidos do legado que Tolkien deixou a leitores e a académicos (para além de a qualidade da leitura ser superior, o que ajuda). Falou-se imenso, como não poderia deixar de ser, de The Hobbit e de The Lord of the Rings - houve até um painel muito interessante sobre as adaptações cinematográficas. Mas também se falou muito (para meu deleite) de The Silmarillion e dos mitos da Terra Média, normalmente arrumados na área dedicada aos "fãs" mais acérrimos. E nem o trabalho académico de Tolkien, com sessões que incidiram a sua produção ensaística e o seu trabalho com Beowulf e com outros textos muito antigos.

Ao longo do dia, falou-se de temas tão diversos como a simbologia do Anel, as florestas na Terra Média, a literatura literária e o "encantamento", as ilustrações do imaginário de Tolkien, a criação de mundos ficcionais, o Mal, as questões narrativas e de género, as suas adaptações televisivas e sobretudo cinematográficas, aspectos menos conhecidos do seu legado, as (possíveis) influências medievais e as questões mitológicas. Houve tempo para apresentações com sentido de humor e para alguns debates laterais muito interessantes (como a inspiração e a simbologia de Galadriel). Tal como referi ontem, ao longo de todo o dia o auditório esteve sempre cheio - e, à partida, para o ano o seminário contará com a sua segunda edição. 

Para evitar fazer um artigo demasiado longo sobre as várias sessões, vou repartir os conteúdos por vários artigos que serão publicados ao longo dos próximos dias (em princípio um por dia, mas não garanto). O próximo será sobre as duas primeiras apresentações do dia, que incidiram respectivamente sobre a temática do Anel enquanto elemento simbólico e nas florestas em Tolkien, com destaque para as élficas. 

(continua)

19 de Fevereiro de 2013

Seminário "Tolkien: Construtor de Mundos" voltará em 2014

Antes de falar com detalhe sobre o seminário "Tolkien: Construtor de Mundos", que teve hoje lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, aqui fica a notícia: esta foi a primeira edição do seminário, que irá regressar no próximo ano, e se possível na mesma data. Quem o disse foi o professor José Varandas, da FCUL, um dos organizadores do seminário por parte do Centro de História da Universidade de Lisboa. A este entusiasmo por repetir esta iniciativa decerto não terão sido alheios dois aspectos muito importantes: a qualidade das várias sessões, que oscilou entre o bom e o excelente; e a afluência de alunos, professores e curiosos (como eu). A verdade é que em plena Terça-feira o auditório 3 da Faculdade de Letras esteve cheio da primeira à última sessão (e por "cheio" leia-se "com pessoas sentadas nas escadas por já não haver lugares disponíveis na plateia). Para o ano há mais. 

(Quanto ao seminário propriamente dito, estou a preparar um artigo mais alargado)

Back to the Future Part 2, ou os diferentes passados vistos do futuro

Em Maio último, falei aqui de Back to the Future, o surpreendente filme de ficção científica de 1985 que criou a máquina do tempo mais icónica do cinema, o DeLorean (ponto não aberto a discussão) e que demonstrou que, no que às viagens no tempo diz respeito, o maior perigo não é ir ao passado e matar o avô, mas ir ao passado e "engatar" a mãe. Hoje volto ao tema mas para falar de Back to the Future Part 2, de 1989, sequela ao clássico de Robert Zemeckis com Michael J. Fox e Christopher Lloyd. Para todos os efeitos, seria difícil fazer uma sequela mais directa do que esta Part 2: o filme começa no exacto momento onde o primeiro termina, após a resolução da aventura de Marty McFly na adolescência dos seus pais em 1955. Doc regressa num DeLorean alterado com tecnologia anti-gravidade ("importada" do futuro) para avisar Marty e a sua namorada, Jennifer, de que no futuro os filhos (ainda por nascer) do casal se vão meter em sarilhos, e leva-os para 2015 com o objectivo de evitar esse destino. Biff, porém, vê-os partir em 1985 (para todos os efeitos, o presente narrativo), algo de que não se vai esquecer.

Em 2015, encontramos uma sociedade futurista que se tornou numa referência na cultura popular, com os seus carros voadores, os skates flutuantes (faltam dois anos, certo?), as roupas auto-ajustáveis, a publicidade a Jaws 19 (!). Marty consegue livrar o seu (futuro) filho de sarilhos, e acaba por adquirir numa loja um almanaque com todos os resultados desportivos da segunda metade do século XX, com o intuito de fazer fortuna em apostas quando regressar a 1985. Doc não lho permite, porém - mas o velho Biff, sempre à espreita, consegue deitar mão ao almanaque e, num golpe de sorte, rouba o DeLorean por tempo suficiente para regressar a 1955 (ano da viagem original de Marty) e dar o almanaque a si mesmo, alterando de forma drástica toda a linha temporal. Quando Marty, Jennifer e Doc regressam ao seu tempo original, descobrem uma distopia em 1985, com a cidade onde vivem entregue ao crime e dominada por Biff, que enriquecera nas apostas. Isto vai obrigar Marty e Doc a regressarem a 1955 para impedirem o jovem Biff de ficar com o almanaque - uma tarefa especialmente delicada quando não podem interferir com a viagem anterior de Marty...

Back to the Future Part 2 não é o original, e isso nota-se num enredo que, sendo interessante, é também  consideravelmente mais frágil - a premissa perdeu um pouco da sua frescura, e todo o plot device de Biff a roubar o DeLorean por breves momentos é implausível. O final também se revela problemático: Back to the Future deixou o final aberto para uma eventual sequela mas fechou o seu arco narrativo principal, enquanto o segundo filme termina de forma mais abrupta, sem saber como Marty e Doc se podem reencontrar. Estes aspectos, porém, acabam por ser compensados pelos excelentes momentos de comédia que as peripécias de Marty e Doc proporcionam, pela recriação de um "presente alternativo" de pesadelo e, sobretudo, pelo regresso ao cenário do primeiro filme, vendo-o de fora e tentando não o alterar. Back to the Future Part 2 pode não ser tão divertido ou inovador como o seu antecessor, mas manteve o espírito e deu-lhe um seguimento que, não sendo brilhante, também não desvaloriza o seu legado. O que, convenhamos, é algo que poucas sequelas conseguem.7.4/10


Back to the Future Part 2 (1989)

Realizado por Robert Zemeckis
Com Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson e Elisabeth Shue
108 minutos

18 de Fevereiro de 2013

A long time ago, in a galaxy far away, ou o regresso de Star Wars

Diria que a grande notícia da ficção científica dos últimos meses foi o anúncio de novos filmes da série Star Wars*. Há muitos anos que se falava dos episódios sete, oito e nove, planeados em tempos mas nunca realizados. A recente passagem da franchise para a Disney com o negócio multimilionário dos estúdios Lucasarts permitiu por fim desbloquear o projecto - e, ciente do seu valor comercial, a Disney não perdeu tempo: anunciou a continuação da história deixada mais ou menos em aberto em The Return of the Jedi (1983) com uma terceira trilogia, contratou J.J. Abrams para realizar o Episode VII (após vários nomes avançados) e se não tem alimentado rumores em redor de personagens secundárias mas icónicas (como Yoda), também não tem feito muito para os desencorajar.

Não tenho falado muito sobre este regresso de Star Wars, o que não quer dizer que não aprecie o universo de ficção científica criado por George Lucas. Pelo contrário: gosto bastante do Episode IV, considero The Empire Strikes Back um dos grandes filmes que o género conheceu (mesmo admitindo que o Império meteu o pé na argola em Hoth), e tenho Darth Vader como um vilão inesquecível. Há alguns anos - julgo que em 2006 - cheguei mesmo  a passar uma tarde fascinante na exposição Star Wars que esteve no Museu da Electricidade em Lisboa. Mas, em termos cinematográficos, a coisa ficou mais ou menos por aí. O Episode VI - The Return of the Jedi entusiasmou-me pouco (Ewoks?), e The Phantom Menace praticamente matou a saga para mim (ao ponto de apenas ter visto fragmentos de Attack of the Clones e de nunca ter tido interesse suficiente em ver Revenge of the Sith. Nos últimos meses, o SyFy Portugal fez uma "maratona" dos seis filmes de Star Wars, e gravei-os todos na box para, um dia destes, ver a série seguindo a sua cronologia narrativa. Ainda estou à espera do entusiasmo para tal empreitada.

A escolha de J.J. Abrams para realizar o Episode VII foi polémica sobretudo por Abrams já ser também o realizador dos novos filmes do universo de Star Trek (e há aquela rivalidade de décadas entre os dois universos "das estrelas"), mas também esse tema me passou um tanto ou quanto ao lado, interessando-me apenas como curiosidade. O que também é fácil de explicar: os mais populares trabalhos televisivos de Abrams (Alias, Lost) nunca me cativaram; e Star Trek ainda me desperta menos curiosidade do que Star Wars (estou muito longe de ser um trekkie), pelo que não só nunca acompanhei nenhuma das séries e dos filmes "clássicos" de Star Trek como também não vi ainda o reboot cinematográfico de Abrams. Os seus méritos enquanto realizador são-me por isso desconhecidos (apenas conheço as piadas a propósito do lens flare), e a rivalidade de universos nada me diz. 

Hoje, o regresso de Star Wars é algo que vejo com alguma curiosidade mas pouco interesse. É possível (talvez até provável) que assista ao Episode VII quando estrea. Não espero, porém, que a série (com ou sem a interferência de Lucas) volte a ter fôlego para uma produção do nível de um Empire Strikes Back, ou que Abrams tenha a coragem de correr riscos e dar um novo rumo ao universo (ou o apoio para tal, como a aparente obsessão pelos actores originais). Star Wars é sem dúvida uma referência, um capítulo relevante na ficção científica cinematográfica, mas em 2013 (ou 14 ou 15) estará sem dúvida muito longe de constituir uma novidade. 

*É perfeitamente possível - e porventura mais rigoroso - designar o universo de Star Wars como space fantasy e não ficção científica, dadas as "liberdades criativas" que George Lucas tomou no que à ciência diz respeito. Essa discussão é interessante, mas fica para outro dia; para o grande público, Star Wars sempre foi ficção científica, e é nesse género que continuarei a incluir os filmes. 

17 de Fevereiro de 2013

Citação fantástica (54)

Rincewind trudged back up the beach. "The trouble is," he said, "is that things never get better, they just stay the same, only more so."

Terry Pratchett, Faust Eric (1989)

16 de Fevereiro de 2013

Old Mars, de George R. R. Martin e Gardner Dozois, com publicação prevista para Outubro de 2013

No Verão passado foi anunciada a antologia Old Mars, publicada pela Bantam e editada por George R.R. Martin e Gardner Dozois. Esta antologia será composta por quinze contos e noveletas originais, de vários autores do Fantástico contemporâneo, sobre Marte tal como ele foi em tempos imaginado pela ficção de género (antes de a exploração por sondas ter mostrado o "Planeta Vermelho" tal como ele é): um planeta repleto de canais e de cidades de civilizações enigmáticas. Esta antologia de retro-ficção científica já tem capa (ver imagem) e estará à venda em Outubro de 2013.

A antologia incluirá uma introdução da autoria de George R.R. Martin, enquanto as apresentações dos vários autores que colaboraram neste projecto são da autoria de de Gardner Dozois. Aqui fica a lista de conteúdos de Old Mars:
  1. Martian Blood, de Allen M. Steele
  2. The Ugly Duckling, de Matthew Hughes
  3. The Wreck Of The Mars Adventure, de David D. Levine
  4. Swords of Zar-tu-kan, de S.M. Stirling
  5. Shoals, de Mary Rosenblum
  6. In The Tombs of the Martian Kings, de Mike Resnick
  7. Out Of Scarlight, de Liz Williams
  8. The Dead Sea-Bottom Scrolls, de Howard Waldrop
  9. A Man Without Honor, de James S.A. Corey
  10. Written In Dust, de Melinda Snodgrass
  11. The Lost Canal, de Michael Moorcock
  12. The Sunstone, de Phyllis Eisenstein
  13. King Of The Cheap Romance, de Joe R. Lansdale
  14. Mariner, de Chris Roberson
  15. The Queen Of Night’s Aria, de Ian Mcdonald






15 de Fevereiro de 2013

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organiza seminário sobre Tolkien

Terá lugar, no próximo dia 19 de Fevereiro (Terça-feira) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o seminário Tolkien: Construtor de Mundos, dedicado a vários aspectos da obra de J.R.R. Tolkien. Este seminário é promovido pelo Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (através dos grupos de investigação História Antiga e Memória Global e História Militar e das Relações Internacionais) e pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. O seminário terá lugar entre as 9:30 e as 17:30 no Anfiteatro III da FCUL. A entrada é livre. A programação completa pode ser consultada aqui

Faust Eric e o regresso faustiano de Rincewind

Faust Eric, de Terry Pratchett, é um livro invulgar dentro da série Discworld. Publicado originalmente numa edição grande, ilustrada por Josh Kirby, só mais tarde foi editado em paperback - não pela Corgi, como o resto da série, mas pela Gollancz. E, para além das ilustrações, é uma aventura especialmente curta - as suas menos de 200 páginas na edição paperback fazem deste título um livro bastante pequeno em comparação com as restantes histórias de Discworld - uma série que, diga-se de passagem, está muito longe de ser constituída por tomos volumosos. 

A história, que como o título rasurado indica trata-se de uma paródia a Fausto, começa com uma série de acontecimentos invulgares que despertam a atenção tanto dos feiticeiros da "Unseen University" como da própria Morte - e esses acontecimentos estão associados a Rincewind, a correr pela vida (literalmente) desde que ficou aprisionado nas "Dungeon Dimensions". A sua sorte conhece uma mudança um tanto ou quanto relativa quando o jovem demonologista Eric Thursley decide tentar evocar um demónio que lhe conceda os três desejos clássicos: tornar-se senhor de todos os reinos, ter a mulher mais bela do mundo, e alcançar a imortalidade. A sua evocação, porém, não atrai um demónio, mas o desgraçado do Rincewind - que, para sua surpresa, descobre a capacidade de concretizar os desejos de Eric, ainda que de forma um tanto ou quanto... literal. 

A um ritmo ainda mais rápido do que o habitual, Pratchett coloca Eric e Rincewind - e, claro, a inevitável Luggage - numa aventura atribulada que os vai levar a uma civilização na selva, à antiguidade de Discworld, e mesmo a tempos e lugares tão improváveis como a criação do Disco e um Inferno com uma noção muito burocrática de flagelos eternos. Pelo caminho, Pratchett aproveita para parodiar as civilizações antigas e os cultos da América, a Guerra de Tróia e a Odisseia, a criação do mundo e às idiossincrasias de alguns demónios do Inferno.

É certo que Faust Eric está longe de ser um dos melhores livros da série, e isso não se deve ao número reduzido de páginas - Rincewind e Luggage (e a Morte) são personagens já desenvolvidas em livros anteriores (The Colour of Magic, The Light Fantastic, Sourcery), e Eric nunca é muito desenvolvido para além do seu carácter adolescente, funcionando mais como um plot device do que como uma personagem propriamente dita. No entanto, nem por isso Faust Eric deixa de ser um livro muito divertido, à boa maneira de Discworld: as várias situações em que os protagonistas se envolvem são hilariantes, e é impossível não rir com mais um Ritual de AshkEnte, ou com a forma como Pratchett recria e desconstrói os vários elementos da Guerra de Tróia, da beleza lendária de Helena ao célebre cavalo de madeira. Talvez alguns destes aspectos pudessem beneficiar de desenvolvimento adicional, e com mais algumas dezenas de páginas Faust Eric se aproximasse de Guards! Guards! ou Mort; nem por isso, porém, deixa de ser um livro muito divertido e um capítulo relevante no arco narrativo do feiticeiro mais inábil e hilariante de Discworld